segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cavaco Silva e a Responsabilidade

Foto: 10 de Junho, 2008. Visita à Sé de Santarém

Os adversários de Cavaco Silva, nesta campanha eleitoral, são unânimes numa crítica. Começou com Manuel Alegre e os restantes tomaram-lhe o passo: Cavaco Silva, enquanto Presidente da República é co-responsável pela crise nacional. Sê-lo-á, na medida em que nenhum português se pode furtar a essa responsabilidade.Responsabilidade que não inclui a outra bem mais profunda, de âmbito europeu, diria mesmo mundial, que vai fazendo estremecer os pilares dos euro e das economias europeias. Porém, foi dos poucos, talvez o único, quando a economia parecia ganhar fôlego, que nunca deixou de alertar para as dificuldades do país, para o facto de produzirmos menos do que  aquilo que consumimos. Nesse tempo, quando nos discursos públicos, nas visitas oficiais, nas declarações aos jornalistas falava sobre a matéria, era o profeta da desgraça, o pessimista, o Presidente que queria de alguma forma embaciar a acção governativa. A História deu-lhe razão. De vitória em vitória, entrámos na derrota final. E o Presidente da República, cuja magistratura de influência, não passa pela apropriação do poder executivo, veio a terreiro sempre que disso houve necessidade. Aliás, nessas alturas, enquanto Cavaco exprimia solidraiedade ao governo e dava sinais públicos de prudencia e contenção, as principais candidaturas, putativamente de esquerda, apelavam à greve geral, aplaudiam todos os boicotes, todos os protestos que, embora populistas e agradáveis de escutar, não tinham em conta a grave situação do País. A fome de votos colocou-os no terreno da irresponsabilidade política ou da política do quanto pior melhor.E no caso de Manuel Alegre e Defensor Moura a situação é ainda mais caricata. Gritam que Cavaco é co-responsável pela crise. Mas nunca citam o outro responsável ou os outros responsáveis.É demagogia pura, destilada. Não. Cavaco é co-responsável mas estes candidatos não conhecem a responsabilidade da co-autoria da crise. E como não são ignorantes, como ambos possuem um vasto conhecimento da vida política, fossem corajosos, da coragem das palavras ditas a tempo e das acções feitas a horas, diriam até ao fim o nome dos outros responsáveis. Não dizem. E assim, poderiam colocar os galões de todas as bravuras e feitos em combate. Mas não dizem. E eu também não digo. Apenas por uma simples razão: é que o tempo que vivemos, independentemente desta conjuntura eleitoral, é um tempo de combate pelo país, pela regeneração, pela sensatez, pela prudência para que o abismo por onde nos despenhamos não seja tão negro quanto se supõe e possamos redimirmos de erros, corrigir desvios, recuperar prestígio internacional, lutar por Portugal enquanto nossa terra e chão que vamos deixar de legado aos nossos filhos. Cavaco garante essa dimensão de responsabilidade e de ética política. De confiança e sem aventureirismos. Sem folcore, sem ressabiamentos, mas com rigor. Rigor! Coisa que é a antítese do populismo barato.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os Bácoros do Regime

Estamos a assistir à decapitação do País. E os nossos principais coveiros são aqueles que durante décadas ocuparam cargos com responsabilidades no Estado, fizeram mil promessas de sentido de responsabilidade, se serviram do Tesouro do Estado para os seus cargos, profissões, reformas e interesses pessoais e agora, armados da sua erudição burlesca, revelam a maior irresponsabilidade, a maior sem vergonhice, alinhando em todas as campanhas de descrédito contra o País. Um verdadeiro nojo!
Conheço os mecanismos psicológicos que agitam os sentimentos de insegurança no que respeita ao crime e à criminalidade.Sabemos que a repetição dos discursos apocalípticos sobre a segurança aumentam os níveis de medo ao ponto dos mesmos se tornarem irreais e, bem se sabe, os danos que provocam na tranquilidade pública.
Está a passar-se o mesmo na doentia discussão sobre finanças e economia que, hora após hora, passam nas televisões, radios e jornais. Os putativos sábios que surgem de todos os escombros da economia e finanças, que eles ajudaram a destruir, a debitar sentenças de morte, de bancarrota, de miséria, de ausência de esperança. Uma autêntica vara de bácoros a refocilar na porcaria. E, hoje, duvido de tanta seriedade que nos aponta o Apocalipse. Sabendo da pressão dos especuladores, verdadeiros bandidos escondidos nessa coisa difusa que são os mercados, a vaga de discursos trágicos a que assistimos levam-me a pensar que ali há negócio. São, directa ou indirectamente, estes putativos sábios, os melhores aliados dos especuladores, traindo o seu País, a sua Pátria, a terra que lhe garantiu vida farta, sem apresentarem uma única solução que seja que diga a quem paga, que diga a quem sofre, que diga a quem está desempregado: Aqui há um caminho de esperança.
Vejo e oiço estes catedráticos,ex-ministros, especialistas, meliantes de farta vida e não posso deixar de me indignar com esta visão destrutiva do País. Querem convencer-nos que não temos futuro. Que os nossos filhos não têm futuro. Como é possível? Depois de séculos de resistencia e afirmação de identidade, depois de parir uma Língua, depois de mil guerras e hecatombes, dizem-nos estes tipos que não temos futuro.
Já nem sabemos o que dizem os Partidos. Já nem sabemos o que cada um propõe. Os sábios dissolveram-lhes a voz. E o negócio deve ser grande a alto. Não é possível alguém que ama a sua terra, discutir uma tragédia - e a situação do País é trágica - sem procurar soluções. Propôr soluções. Enfatizar caminhos de solução e parar de choramingar, como velhas tontas, sobre a tragédia. Ao ouvi-los percebo a mediocridade na sua inteireza mais pura. Tratam dos mortos. Nenhum deles sabe cuidar dos vivos. E está decidido. Na televisão da minha casa não falam traidores nem aliados de especuladores. Para os escutar prefiro o National Geografic. Aos menos aqui, os animais são sinceros.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Wikileaks: A Prostituta Coscuvilheira

O site Wikileaks anunciou durante as últimas semanas que surripiara 250 mil ficheiros secretos americanos.Entrara na base de dados diplomáticos dos EUA e conseguira informação que poria a segurança mundial de pantanas. A correspondência trocada entre diplomatas começou a ser divulgada e, até, agora aquilo que se conhece é rídiculo, próprio da mais ordinária revista cor de rosa, e tão vulgar como parece ser a Wikileaks. Revelam como diplomatas e funcionários de embaixadas tratam alguns dos lideres mundiais, num linguajar sarcástico, outras vezes irónico, outras vezes mais crítico. Comparado com a forma como os europeus em geral tratam os Estados Unidos é linguagem de meninos de coro. Conversas de prostíbulo sem sentido.Uma invasão da privacidade sem dignidade, sem interesse, digna do jornalismo mais rasca. ´
Não sou adepto da política externa americana. Repudio mesmo o seu imperialismo militar assumido. Acho mesmo que a invasão do Iraque e as atrocidades cometidas durante esta guerra inútil contra a Al-Qaedda mereciam colocar Bush a responder por crimes contra a humanidade. Mas a Wikileaks não quer isto. Quer arruaça. Coscuvilhice. Porcaria. Conseguisse entrar nos sistemas informáticos do Irão ou da Rússia e veríamos seguramente o mesmo género de linguagem.É mais uma encenação de jornalismo militante que não passa de jornalismo de vão de escada. Um lixo! 

domingo, 28 de novembro de 2010

O Ex-Secretário de Estado e o Bastonário




O Secretário de Estado da Justiça, dr. João Correia demitiu-se. Tenho pena. Para além da amizade pessoal é uma figura pública que considero e por a qual nutro admiração. Porém, foi infeliz na sua decisão, caso tenham sido verdadeiras as razões vindas a público. Ninguém se demite porque já fez tudo aquilo que tinha para fazer. Ainda por cima,apenas  após um ano de mandato. E sabe-se que não fez tudo. Por exemplo, os Tribunais para Santarém, anunciados pelo 1º Ministro em Santarém, na Escola Prática de Cavalaria, no dia 25 de Abril, continuam no papel. Fica essa sombra no seu curto, precipitado e rápido mandato como governante. Porém, sejam quais forem as razões que levaram ao seu pedido de demissão, não é possível transformá-la num processo de intenções ocultas como fez o meu amigo Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados. Confesso que não percebo como dois homens civilizados, educados, cultos, embora com perspectivas de vida diferentes, possam perpetuar-se eternamente numa discussão, por vezes insultuosa. Marinho Pinto não quer os Tribunais em Santarém. É a sua visão jacobina do poder. O que não for em Lisboa, não é poder. E acusa o outro de querer os tribunais nesta cidade para, mais tarde, ser seu presidente de câmara. Admito, que sendo eu presidente dessa mesma Câmara, não veja nesse putativo projecto pessoal nada de mal. Pelo contrário. Se Marinho Pinto tivesse razão, e a lei permitisse, de imediato eu entregaria o cargo a João Correia, desde que viesse com a certeza que os Tribunais começariam a ser construídos em Santarém. Como ele diz, e bem, numa entrevista publicada há dias, são uma grande âncora para o desenvolvimento desta região. E para a Justiça, já que se fixam num dos eixos de mobilidade estratégica do país. Porém, esse poder não pertence ao Presidente da Câmara. Pertence exactamente ao Ministério da Justiça que....João Correia abandonou.
Tenho pena que tivesse saído. Perdemos um bom Secretário de Estado. Tenho pena que Marinho Pinto persista numa visão jacobina, centralista, atávica das suas ideações sobre tribunais. Sobretudo tenho pena que estes dois homens brilhantes, que estimo, percam a compostura quando se atiçam publicamente. A ambos desejo felicidades.  Ao Dr. João Correia na sua vida profissional. A Marinho Pinto no novo mandato à frente da Ordem dos Advogados.Quanto aos Tribunais espero que o Governo cumpra os propósitos anunciados com pompa e circunstância em Santarém. Saberemos agradecer. Sentimento de gratidão não falta às gentes de Santarém.

sábado, 27 de novembro de 2010

O Amor é o Amor


                                                 O amor é o amor - e depois?!
                                                  Vamos ficar os dois
                                                  A imaginar, a imaginar?....
                                                 
                                                  O meu peito contra o teu peito
                                                  Cortando o mar, cortando o ar.
                                                  Num leito
                                                  Há todo o espaço para amar.

                                                  Na nossa carne estamos
                                                  Sem destino, sem medo, sem pudor
                                                  E trocamos - somos um? somos dois?
                                                  Espírito e calor!

                                                  O amor é o amor - e depois?
                                                 

                                                                                     Alexandre O'Neill

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Morreu Eduardo Camacho

Só era conhecido no seu círculo da amigos.A sua vida foi sempre investigar crimes. Primeiro nos Homicídios, depois no furto e assaltos à mão armada, falsificação de automóveis. Terminou a sua carreira na PJ de Portimão há dois ou três anos. É daqueles heróis desconhecidos que deu a sua vida à causa pública, metendo na cadeia centenas de bandidos, muito deles perigosos, que puseram o país em alvoroço. Vivia e gostava do anonimato.E do Benfica.
Este é o epitáfio que gostaria de ter. Discreto. Com um copo de uísque ao lado.
Porém, é um bocado mais do que isto para mim. Perdi um dos meus maiores amigos e embora não saibamos nunca definir o que é a amizade, o Eduardo era a substância mais densa desse valor. Companheiro de anos de combate, de investigação, de trabalho duro, tantas vezes entre a vida e a morte. Partilhávamos a vida e a morte.Os problemas de cada, da família, dos filhos, das mágoas e de sonhos. Muitas vezes sem tempo para estarmos lá, sempre embrenhados no sítio onde o Diabo amassou o seu pão. Corremos mundo. Vibrámos com paixões e pesadelos. Partilhámos os trocos ao fim da tarde para bebermos a última cerveja. Chorámos juntos muitas vezes, rimos juntos muitas mais vezes. E, hoje, quando sei que a morte chegou sem avisar e o levou sem um estrebucho, não deixo de limpar as lágrimas de saudade e, ao mesmo tempo, rir ao recordar o seu humor cáustico, a sua bondade natural, o seu sentido de solidariedade militante.
Sei que não nos voltaremos a encontrar aqui. Sei que estas palavras, que exorcizam o meu luto, talvez se esfumem sem que ele as oiça. Queria a abraçar os seus filhos. Hoje quando falei com os meus rapazes, ambos se sentiram traídos pela vida. O Camacho era da nossa família mais alargada. Dói em todos esta partida brusca cujas explicações a Morte nunca dá. Fica a saudade de um amigo e irmão. A Polícia Judiciária hoje está mais pobre. Perdeu um homem valente. E eu, sem vontade de mais palavras, deixo-lhe este abraço infinito feito do sangue da amizade perfeita. Adeus, Eduardo. Até um dia! Haveremos de voltar a discutir o Sporting-Benfica das nossas vidas. E das nossas mortes. Descansa em paz, meu amigo. Descansa em paz!

domingo, 21 de novembro de 2010

Santareno em Santarem


Em Novembro celebra-se Santareno em Santarém. A obra do grande dramaturgo como objecto de homenagem ao Teatro. Este ano, entre outros galardoados, a homenagem maior vai para os actores Rui Mendes e Anna Paula. Dois ícones da arte de representar que vão integrar a galeria de homenageados onde se incluem Ruy de Carvalho, Nicolau Breyner, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Carlos Avilez e tantos outros que se entregaram a nós de corpo e alma, dando-se ao Teatro. Esta noite, Santarém aplaude Bernardo Santareno e uma procissão de grandes actores e encenadores. Não vão sobrar aplausos para mais esta apoteose de talentos e figuras que nos pertencem pelas carreiras que legaram ao País. Viva o Teatro!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

As Aventuras de Maresia do Mar


Está a entrar esta semana das livrarias. Hoje fui confrontado com a primeira sessão de autógrafos sobre este livro para putos. É uma experiência engraçadissima. Descobri um público novo. E fascinante. Até o autógrafo obriga a uma linguagem diferente. Fui ler os autógrafos que minha amiga Alice Vieira deixa nos seus livros para a Matilde, para a seguir de perto.Não há nada como aprender com os verdadeiros mestres! 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Desemprego

Os dias já cheiram aos cinzentos da invernia. O sol empalideceu e o frio infiltra-se devagar, cada vez mais frio pela manhã, enquanto as árvores, os pássaros, a vida entorpece. Há menos chilreios no Jardim da República. O Natal procura contraditar este enclausuramento da Natureza e dos Homens, estimulando a fantasia de que virá o Menino Jesus ou um Pai Natal conduzindo renas cintilantes que anunciam o renascimento precoce da Primavera.
Porém, este ano o Inverno vem o mais rijo.Traz mais desemprego nas tempestades e as geadas fazem doer os ossos com mais intensidade.À Casa Solidária, que há três anos criámos em Santarém, adivinhando esta crise, são cada vez mais os pedidos de socorro. São poucos aqueles que pedem móveis restaurados, vestuário reparado. São cada vez mais aqueles que procuram alguma coisa para comer. Comer! O último patamar da miséria. E o desemprego não pára de subir. Cada vez são mais homens e mulheres aflitos, pais aflitos de crianças aflitas que, nesta altura do ano lectivo, continuam sem dinheiro para comprar livros escolares.É assim que o desemprego, a crise, gera futuros desempregados, crianças desarmadas perante a competitividade que amanhã os espera num tempo cada vez mais competitivo. Portugal está num estreito corredor, frio e carregado de penumbras, e confesso que não sei como dele se sairá.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Adeus, Senhor do Adeus

Era uma personagem estranha. A primeira vez que passei no Saldanha não liguei ao aceno amigável que aquele homem de cabelos brancos me dirigiu. Foi da segunda vez que me inquietou. Ali estava, silencioso e afável, acenando com prazer quem passava. Dei comigo a pensar que muitas vezes as palavras não são necessárias para que nos confortemos. Um gesto, um simples gesto na noite de Lisboa, tornava a cidade menos fria, acenando um cumprimento, acenando um sorriso.
Quando passava e não encontrava aquela mão que dizia, adeus, amigo, adeus!, faltava qualquer coisa na minha noite. Alguém com que trocava um adeus e um sorriso. E agora partiu de vez. O Saldanha tem agora menos luz e nós temos saudades daquele adeus. Adeus, bom homem, adeus!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Cimeira da Nato e o Terrorismo

A próxima Cimeira da Nato em Lisboa fez explodir um grande falatório em torno do alto risco do encontro entre os Aliados. Aliás, a única grande explosão que vai acontecer por estes dias.Tretas! Basta saber qualquer sebenta ou manual barato sobre terrorismo para perceber que ninguém se atreve a testar a segurança de grandes/importantes encontros. A própria História confirma esta certeza. O elevado grau de segurança diminui todos os níveis da ameaça. É fácil. Não custa a aprender. Fica o falatório para o pessoal discutir o sexo dos anjos e acentuar a gravidade dos dias que agora correm. Mas são balelas. Algumas perigosas. Que podem querer amordaçar manifestações anti-Nato em nome da Sagrada Segurança. Uma espécie de santa amada, divinizada, mas escondida em parte incerta. Quando o securitarismo, em nome do medo terrorista, procura condicionar o exercício das liberdades torna-se numa coisa muito feia e escabrosa. Que os lisboetas gozem esse dia com tolerância de ponto, que a Nato chegue em boa hora e parta em hora ainda melhor, que se discutam coisas sérias. E sobretudo trabalhe-se. É disso que o país precisa. Que se trabalhe, que se crie trabalho para quem está desempregado, que se cuide da esperança para quem estuda e se prepara para o mundo do trabalho. O resto é falatório de coscuvilheiras sem destino.

O 'clown' Chavez

Este 'clown' esteve aqui e foi recebido com honras de Chefe de Estado. Espero que o 'palhaço Tiririca' seja recebido de igual forma. Ambos trabalham nas televisões dos seus países. Tiririca faz rir. Este faz chorar. Conseguiu reduzir a política do seu país, durante décadas uma referência importante da América do Sul, a um programa de televisão que nem o mais tenebrosos e patético dos programas da televisão portuguesa se lhe pode comparar. Impôs o mediatismo do populismo medíocre que serve uma política reles, sem princípios, cheio de frases ocas que defendem uma 'revolução(?) bolivariana' que ninguém sabe muito bem o que é. Passei por Caracas há poucos meses. Já conhecia a cidade de viagens antigas. É com um aperto no coração que se testemunha a decadência que este revolucionário de pacotilha impôs ao seu Povo. Com amigos destes, Portugal não precisa de inimigos. 

domingo, 7 de novembro de 2010

Fernando Nobre em Santarém

Mesmo sabendo do meu apoio à candidatura de Cavaco Silva, este português ilustre, também candidato à Presidência da República fez questão de me convidar para partilharmos o pequeno almoço, durante a sua digressão por Santarém, dando conta dos seus pontos de vistas e querendo saber das minhas preocupações com Santarém e a sua região. É um homem que nos honra com a sua candiatura. A simplicidade e o desprendimento, a seriedade e o rigor com se envolve num projecto tão diferente daquilo que tem sua vida, faz de Fernando Nobre um cidadão que nos orgulha e enriquece estas eleições presidenciais. Já nos conhecíamos. Razão porque não estranhei a sua forma apaixonada de viver os desafios. Que Deus o ajude nas mil batalhas em que se envolve, sempre com a solidariedade na vontade, a fraternidade nas acções, e um sentido de servir que é exemplar. Houvesse na política mais homens assim e, de certeza, que Portugal estava bem melhor.

As Luzes de Natal

Quando era puto, e comigo os outros putos da minha escola, esperávamos o Natl com uma brasa no coração.Chegava o Pai Natal ou o Menino Jesus e o conforto alegre da família que se reencontrava, nos doces da minha avó e nas luzinhas que tremelicavam no presépio e pelas ruas da vila. Cheirava ao fumo do azinho nas lareiras, o frio precipitava a noite, mas nós, os putos daquele tempo, já lá vai tanto tempo!, aqueciam-se no encantamento do brilho reluzente que empolgava as ruas e as praças. O Natal chegava muito antes. Exactamente quando as luzinhas começavam a brilhar mal caía o entardecer, à hora das pessoas saírem do trabalho. Anos mais tarde, revivi essas noites no brilho encantado dos meus filhos. Dos meus putos. Revia-me nesse mistério mágico que transforma estes tempos na convicção de que o munndo é bem mais bonito do que a ruindade que o come o resto dos outros meses. Lembro-me, como se fosse hoje, dos Natais difíceis. Onde o presépio era pequenio, tão pequenino como a ceia, porém com as barrigas confortadas de esperança. Poderia haver menos luzinhas, mas o brilho do olhar dos putos substituía a refulgência que as dificuldades tornavam cinzentas.
Quando entrei na Câmara de Santarém, há cinco anos, em véspera de Natal, decidi que ajudaria a que cintilassem os olhos todos iguais, pois os nosso putos são todos iguais na alegria, por esses dias que iluminavam a chegada dos presépios, das árvores de Natal, das prendas e, sobretudo, dos abraços e dos beijos, serão milhões de abraços e beijos com que por estes dias e estas noites repetimos: Feliz Natal! Em muitos casos, infelizmente, a única prenda para os nossos putos nessa noite da alegria redentora.
A crise económica e financeira tem destruído o que de melhor há em nós. Nunca se viu tanto fariseu reclamando todas as pupanças, todos os cortes, o fim de tudo aquilo que eles próprios não têm - sentido de fraternidade. Corte-se, esfole-se, insulte-se, entremos no luto final que a mesquinhez vence todos os dias. Sei que vivemos um ano ruim. Sei que neste Natal há muitos que sofrem. Sobretudo muitos putos a quem restam as luzinhas de Natal da sua vila ou cidade.
Sobretudo porque eles não não culpados da mesquinhez daqueles que nunca acenderam uma luzinha no coração, essa luzinha de esperança e combate com que daqui haveremos de renascer.
Por isso mesmo, que fique claro, em Santarém continuarão as iluminações de Natal, embora mais pobres, pois os nossos putos não têm culpa de que a cabeça de muitos homens, pretensamente cultos, viva na mais triste escuridão.

Francisco Moita Flores

in Correio da Manhã, 7.11.10

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Porque Apoio Cavaco Silva

Apoio Cavaco Silva porque é um homem íntegro. Porque é fiável. Porque se pauta por critérios de respeitabilidade e responsabilidade. Porque não constrói percursos ao sabor do vento. Porque sabe dizer não e sabe dizer sim. Porque o seu intervalo de dúvida para o 'talvez' que destrói vidas, projectos e o país, é muito reduzido. Porque falha. Porque erra. Porque é humano. Porque não gosta da política do folclore. Porque gosta da política onde as pessoas vivem, sofrem e sonham. Porque não se perde em caprichos. Porque conhece bem a realidade portuguesa. Porque na sua sobriedade espartana é uma referência de segurança. Porque não promete para fazer festim e depois não  cumpre. Porque sabe estabelecer pontes, mesmo com aqueles com quem não concorda. Apoio Cavaco Silva porque tem sido o referencial de segurança e de lucidez. Porque não tem medo. Porque não faz da política uma arma de cinismo. Porque é o único capaz de entregar estabilidade ao órgão máximo do Estado. Porque é boa pessoa. E, destruindo os mitos construídos por aqueles que não o conhecem, porque tem um sentido de humor apurado e só os grandes homens são assim. E com ele Presidente, Portugal está melhor.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

As Aventuras de Maresia do Mar

O meu primeiro livro de contos para miúdos. Saído dos contos que inventava para que os meus filhos aprendessem o ciclo da água, os microorganismos, os astros e por aí fora. Sabe-me bem escrever para os putos. Regressamos à meninice e às brincadeiras que os anos obrigaram a esquecer. Obrigado ao Ricardo Tércio pela magnifícia ilustração. Obrigado à Casa das Letras pelo bom gosto da edição. Divirtam-se!

Quando entramos em Novembro e a Memória renasce (Ary dos Santos) - Saudade

Esta palavra saudade
Sete letras de ternura
Sete letras de ansiedade
E outras tantas de aventura
Esta palavra saudade
A mais bela e a mais pura
Sete letras de verdade
E outras tantas, de loucura
Sete pedras, sete cardos
Sete facas e punhais
Sete beijos que são nados
Sete pecados mortais
Esta palavra saudade
Dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta, fica na cama a chorar
Esta palavra saudade
Sabe a sumo de limão
Tem um travo de amargura
Que nasceu do coração
Ai palavra amarga e doce estrangulada na garganta
Palavra como se fosse o silêncio, que se canta
Meu cavalo imenso e louco a galopar na distância
Entre o muito e entre o pouco, que me afasta da infância
Esta palavra saudade é a mais prenha de pranto, como um filho nascesse
Por termos sofrido tanto

Por termos sofrido tanto
É que na saudade está viva
São sete letras de encanto
Sete letras por enqaunto,
Enquanto a gente for viva

Esta palavra saudade sabe ao gosto das amoras
Cada vez que tu não vens, cada vez que tu demoras
Ai palavra amarga e doce, debruçada na idade
Palavra como se fossemos resto de mocidade
Marcada por sete letras a ferro e a fogo no tempo
Ai, palavra dos poetas que a disparam contra o vento
Esta palavra saudade dói no corpo devagar
Quando a gente se levanta fica na cama a chorar


À minha Avó! Á minha Mãe!

domingo, 31 de outubro de 2010

Crianças na Guerra

Quando a guerra tem lágrimas de crianças e nos provoca a dimensão do horror que é chorar longe da paz

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Alcanede e o cheiro da Despedida

Estou cansado, e quando estou assim,a insónia é mais forte. Preciso de dormir, que há um mês que não conheço um dia de descanso, mas tenho Alcanede junto do coração. Hoje inaugurámos lá o primeiro Centro Escolar, uma unidade fabulosa de ensino e soube a mel ver a felicidade de tantas crianças, dos professores, dos pais, dos funcionários.Confesso esta emoção - a escola.Talvez porque toda a vida fui estudante-trabalhador, facto que não me deixou gozar as minhas escolas com o prazer que vi hoje no olhar daqueles meninos.Nos próximos dois anos vamos terminar mais centros escolares. O próximo já para a Páscoa.10 milhões de euros de investimento. Eu sei que para as lideranças políticas do concelho isto pouco importa. Nem um deputado comunista, nem um vereador ou um deputado socialista testemunharam aquele sol de felicidade. Não quiseram saber. Preferem o rodriguinho das conversas vãs e inócuas.
Mas hoje também faz um ano que tomámos posse à frente da Câmara de Santarém. Dei comigo a fazer balanços e, de repente, percebi que depois da inauguração do quarto centro escolar estou de partida.Não me recandidato, devo deixar espaço para que os próximos candidatos ganhem espaço. O poder não é apenas uma forma de servir até ao tutano dos ossos, é saber sair com lealdade para que os destinos se cumpram.E hoje mesmo, cercado daquelas crianças que vão marcar a minha memória, decidi o dia da saída. Depois das festas da cidade de Santarém de dois mil e treze.Ficam nove meses para que os furturos candidatos se imponham. E estando longe, pois faltam dois anos, já está perto. E hoje, no balanço do tempo de mandato, pela reviravolta que demos naquele concelho. Tanta escola arranjada, tanto refeitório e parques de brincar, tantos cuidados com os nossos putos. E, ainda,tanta obra em marcha. O Mercado Municipal, o Matadouro, o Conservatório de Música, o rejuvenescimento de todo o espaço público, a cidade cheia de gente, Santarém, capital da Liberdade e tornada uma referência do país. Este ano, embora duro, foi farto. Inaugurámos a primeira fase do jardim da Liberdade, recolhemos valores inimagináveis de fundos comunitários que permitem mais requalificações do centro histórico, da zona ribeirinha, da conclusão do saneamento que passa de 64 % para 93% de cobertura. Mesmo dando de barato os velhos do Restelo, não há dúvidas que Santarém renasceu para o palco das grandes urbes, reconhecida no país e no estrangeiro.Não estou satisfeito mas estou tão tranquilo. Saltámos da obscuridade para a luz do sol. Mas ainda falta tanto para caminhar. A cidade desportiva está à espera de arrancar. As novas vias para Alcanede e Amiais esperam que esta medonha crise nos garanta melhores dias, a zona ribeirinha precisa de solução e esperamos o desvio da linha. Não sei se vou ter tempo para tudo. Com a gravidade da situação do país, tenho dúvidas. Falta a Fundação da Liberdade. E essa será a chave d'oiro dos projectos realizados.Estará a funcionar quando eu partir.No próximo mês sai o meu livro de contos juvenis. Preparo o meu próximo romance para Junho. De repente comecei a escrever mais. Assim como se uma força interior me empurrasse para a minha antiga vida.Da qual tenho saudades, confesso. Talvez esta nostalgia se deva ao facto de celebrar hoje um ano de mandato.Talvez seja só isso.Porque em cada dia que passa reconheço e admiro a generosidade dos escalabitanos anónimos. A sua capacidade de entrega, a sua capacidade para ser feliz.Não percebo como gente tão bondosa pode ter produzido élites políticas tão vulgares. Se calhar por isso mesmo.Há quem confunda a corte de intriguistas da cidade, de frustrados, de gente sem rumo que não é capaz de se desafiar. Mas é injusto confundir uma dúzia de cínicos e amorais com ,milhares de pessoas que se entream generosamente à luta pela vida e pelos seus. Eu vi hoje a alegria límpida dos pais daqueles putos de Alcanede. Dos professores, dos funcionários. Vou ter saudades desta gente grande, simples e boa.Vou ter saudades! O sentimento que nasceu do romantismo mais profundo. E é bom ter saudades. Do convento de S.Francisco, da gloriosa gesta do 10 de Junho, da grande vaga de apoio à defesa dos direitos dos Homens e dos Animais.À defesa dos Rios, onde hoje construímos quatro grandes Etar's para dar saúde ao Alviela.
Já sabia, mas hoje sei melhor, que sou um mau político. Não sei fazer as coisas sem ser apaixonado. E a política requer calculismo e algum medo. E Deus não me deu essa virtude de ter medo.Sei que esta entrega apaixonada aos projectos, às obras, às pessoas desgasta até ao coração da alma. E estou desgastado. Basta comparar as fotografias de há uns anos atrás.Mas parto tranquilo. Dei tudo o que tinha a este serviço público. Nunca ficou nada de fora, mesmo na hora dos maiores insultos.
Hoje foi dia grande. Daqueles que se guardam para sempre. E o sinal de que a partida está para breve. Cedendo o passo a outros, possívelmente com mais talento, para gerir Santarém. Como diria o Sérgio Godinho, hoje foi o primeiro dia do punhado de meses que são o resto da minha vida à frente dos destinos de Santarém. Ja falta pouco para o abraço de despedida.Abraço quente e amigo aos milhares de amigos espalhados pela cidade e pelas vilas e pelas aldeias.Abraço quente, sem cravar punhal nas costas. Abraço doce que sabe ao prazer de ajudarmos quem mais precisa.Minha doce Santarém, como estás a ficar linha, minha amiga!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Uma Semana de Vergonha

Vejo e leio o que se passa na política nacional e vem-me à memória Eça de Queirós e a sua magistral ironia n'A Capital.Ontem ouvi Eduardo Catroga informar que as negociações do orçamento estoiraram por uma diferença de 200 milhões de euros. O PS não quis. Quis coisas mais complicadas, mas não quis o mais simples. Ou seja o PS não quer ter Orçamento e só acredito que o venha a ter por pressão nacional e internacional.No mesmo dia a PJ estoirava com uma rede de gente fina que terá burlado o BPN em quase 100 mil milhões de euros e saíam as acusações da Face Oculta.
É deprimente e não pode um país assim fustigado pelo cinismo da política, por predadores, por manipuladores, viver, já nem sei se sobreviver, a esta onda de amoralidade imposta. Os comparsas polítcos que Eça enfiou o seu livro de crónicas, fustigando-os com o ridículo, são meninos de coro ao pé dos monstrinhos que aí estão, alegremente, arrogantemente,a delapidar os recursos do país. Mais: a destruir a confiança nos nossos próprios destinos. Aquilo que se está a passar, perante o olhar e a gula devoradora dos especuladores mundias, envergonha e ridiculariza Portugal. E só atira para o primeiro palco os dois principais partidos porque os restantes não passam de meros espectadores parasitas da tragédia nacional.
Não fazem, não propõem, não se dispõem a contribuir para sair deste lodo putrefacto. São palavras. São vazios de ideias. São do contra. A posição dos acomodados e medrosos.
A derrapagem orçamental de 1.800 mil milhões de euros, ontem conhecida, durante três meses, abala a confiança de qualquer actor político. É verdade. Mas a solução jamais pode ser cruzar os braços, gritar protestos, e esperar as migalhas eleitorais resultantes desses protestos. Protestos sem consequência. Na minha televisão não fala nem o PC nem o Bloco de Esquerda.Estou cansado de os ouvir dizer que existem alternativas ao orçamento. Sempre o mesmo discurso: Existem outras alternativas e não as mostram. Porque não existem. São o jargão presumido inteligência. O CDS rumina. Diz coisas em voz baixa, mas rumina. Espera a boleia do PSD para ser governo. É o seu fado. O fado da chulice. Faz tu as despesas pois se houver eleições cá estou para te ajudar a formar governo. O maior castigo que poderia ser infligido ao CDS, por esta modorra, seria num próximo acto eleitoral o PSD ter maioria absoluta e borrifar-se nesta passividade que não passa de oratória crispada.
Estamos no fim. Mais do que no fim de um ciclo económico, estamos no fim de um ciclo de militante preguiça, vaidade, populismo, negociata, de mediocridade intelectual e espiritual há muito não vista. Ontem, Eduardo Catroga, armado da sua seriedade romântica, fez-me lembrar um bombeiro no meio das chamas.Quis apagar um fogo que nos dizima. Apenas cometeu um erro. Não percebeu que não estava numa discussão séria. Participou num espectáculo de circo e feras. Mais nada. Portugal afunda-se comprometendo o futuro dos nosso filhos, pois o nosso há muito está comprometido.E tiro o chapéu a Passo Coelho. Ganhou a firmeza que o faz desconfiar. E faz bem. Não é possível negociar num esgoto. Nem é possível querer ser alternativa a isto tudo, não tenho outra palavra que não seja 'isto' quando olho para os vários discursos, pois alguém precisa de ser timoneiro desta barca que caminha para o naufrágio. E só o poder ser pela diferença, pela intransigência no que respeita a abdicar de princípios. E já nem falo de princípios ideológicos. Falo de carácter, honradez, seriedade, de amor ao país.
Olho para Cavaco Silva. O homem que pela sua integridade, rigor e decência, me fez entrar na política. Nunca o país precisou tanto de um Presidente, embora os seus poderes limitados não nos permitam esperar muito. Mas olho para ele como o último cabo da Boa Esperança. Hoje já não existe mais ninguém. O poder demitiu-se. Portugal está sem rumo.Esta semana marca o fim da minha própria (ainda) ingenuidade política. Percebi definitivamente que são poucos aqueles que pensam nas pessoas que servem, nas pessoas que neles confiaram. E estou magoado. Nunca pensei que fosse assim, que tivesse de ser assim. Esta semana mostrou que o poder está doente, demente, possessivo e alarve. Sem moral. E somos milhões de infelizes a assumir o seu canibalismo feroz. Como foi possível chegarmos aqui? Para os mais fracos, desiste-se. Para os ainda mais fracos, protesta-se e explodem revoltas sem sentido. Porém, é preciso resistir. Esta Pátria, a nossa terra, precia de se defender desta mixórdia. Não suporto imaginar que vou entregar aos meus netos um destino de lamentos e derrotas. É preciso resistir. Já não falo da resistência ideológica. Essa batalha está perdida. Falo da luta pela dignidade, pela alteridade, pelo regresso da confiança nos nossos destinos. É essa a barricada mínima em que me encontro.Com Eça de Queirós na cabeceira da minha última trincheira.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A Inquietação Orçamental

Quando comecei a ler declarações dos responsáveis do PSD sobre o Orçamento, naquele tempo (foi a semana passada antes das 'negociações) em que todos falavam ao molho, onde se vendia a intenção do PS não negociar e querer forçar o chumbo do documento, desconfiei. Achei mesmo que o PSD estava a querer pôr nos jornais aquilo que desejava que fosse e não aquilo que era. Já tive que negociar orçamentos. Sei que não é possível apresentar para discussão uma proposta fechada. E quem propõe está aberto a discutir outras propostas. É assim. Quando não existe maioria absoluta não existe outra forma.
Agora, o caso muda de figura. Conheço o Dr. Eduardo Catroga. Conheço a família. Aliás, conheço-o mais de perto no que respeita à sua vida privada do que a sua vida pública. Faz parte do meu círculo de amigos. E devo dizer que é dos homens mais sérios, descomprometidos, aberto, rigoroso que eu conheço. Esteve na política mas precisa tanto da política como precisamos numa viola num enterro. É um homem de convicções, assertivo. Julgo mesmo que não terá muita paciência para a politiquice de vão de escada e de propaganda. Para além da integridade é um homem amistoso, nada prosélito, capaz da maior abertura de espírito para um diálogo sério.
Quando soube que estava à frente das negociações, acreditei que tudo ia chegar ao fim. Que este pesadelo iria terminar.Até porque tenho boa opinião do actual ministro das finanças.
O resultado é dramático. E não tenho dúvidas que Catroga fez tudo para selar este acordo. Talvez o ministro das finanças quisesse. O PS não quis. Não percebo, mas a verdade é que não quis. Forçar eleições? Forçar uma situação que fragilize o Presidente da República? É tudo vago e supérfluo perante a situação do país. Impôr à bruta? Para quê? Para afirmar quem tem poder? É uma desilusão. Afinal, o PS quer mesmo empurrar isto para o apocalipse. 'Quem vier depois de nós que feche a porta'.
É mau, muito mau e nós não merecemos isto. Nem quem votou no PS nem que não votou. Estamos a chegar ao fim da linha. A seguir vem a fome.Assim, a política não faz sentido.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PJ Comemora 65 Anos de Vida!

Herdeira das tradições da PIC (Polícia de Investigação Criminal) criada por Sidónio Pais, em 1918, a Polícia Judiciária comemora, dia 20 de Outubro, 65 anos de existência.Uma grande caminhada!E para quem nela viveu intensamente, uma memória repleta de factos e acontecimentos que marcam vidas. Foi o meu caso.Não é apenas a polícia mais prestigiada do país. É, na sua natureza e criação, a institucionalização de um método, um processo de conhecimento que vive a utopia romântica de desvendar, sempre, qualquer crime. Até os chamados 'crimes perfeitos'. Neste dia que rememora a fundação, recordo a minha primeira brigada de furto e assaltos à mão armada: o chefe Lourenço Ferreira, o Pedreiro, o Zé Marques, o Rendeiro, o Guimarães, o Manuel Silva, o Matos e o Óscar. Era a 2ª Brigada da 6ª Secção.
Tinha terminado o estágio.Apresentei-me ao Inspector Cardoso Oliveira (agora chamam-se coordenadores) que me destinou aquela brigada. Tinha sido o primeiro classificado do meu curso e o Director, o dr. Garcia Marques, dera-me a possibilidade de escolher. Escolhi o 'Tarrafal'em vez da 'Venezuela'. É preciso esclarecer que há trinta e tal anos a Venezuela não era governada por Hugo Chavez e era vista como uma nova Terra Prometida. Na PJ, eram as secções do então chamado crime de colarinho branco. A 6ª e a 12ª secções, sempre cheias de gatunos, prostitutas, assaltantes à mão armada, onde se berrava mais e se conversava de menos, onde não se parava nem de dia, nem de noite, era o território oposto - o Tarrafal.
Nesse dia, recordo-me como se fosse hoje, ainda mal tivera tempo para ocupar a minha secretária e arrumar os primeiros papéis, o Marques recebeu um telefonema. Levantou-se com energia, enfiando a pistola no cinto, e perguntou: Quem está disponível para vir comigo? Acabo de saber onde estão dois ladrões que persigo há mais de seis meses.
O Pedreiro veio da outra sala e respondeu:
- Vou contigo. Onde é?
- Na Curraleira.
O chefe Lourenço Ferreira ordenou:
- Levem o puto convosco. Começa logo a aprender como se faz a coisa.
O puto era eu. E fui.
O coração queria saltar-me do peito. Ia participar na minha primeira captura! Viajava no banco detrás.Por mais de uma vez verifiquei discretamente se a minha arma tinha a patilha de segurança aberta, se os cordões dos sapatos estavam bem apertados. Eu explico esta dos cordões dos sapatos. Fazia parte da gíria da PJ. Durante uma operação de risco, se algum de nós, por um ataque de pânico, ficasse para trás ironizava-se sobre a sua valentia dizendo que ficara a atacar os sapatos. E eu jurara sobre a minha vida que jamais ficaria para trás. Confirmava sempre (e aquela foi a primeira vez que o fiz) se os sapatos estavam bem apertados, não fosse dar-se o caso de me embrulhar nos cordões soltos e ninguém acreditar. Transpirava, as palpitações cresciam conforme nos aproximávamos da Curraleira que, diga-se em abono da verdade, não sabia onde era. Confesso que quase me indignava a tranquilidade dos meus colegas mais velhos e que tinham a bondade de me suportar. O Pedreiro fumava e comentava um vinho que o sogro trouxera de Tomar. O Marques confirmava os elogios e procurava uma estação de rádio com música da moda. E eu, nervos esticados, ora olhava para arma ora para os atacadores. De vez em quando dirigiam-me a palavra.
- Com que então, primeiro classificado do curso e vieste parar ao Tarrafal?!
Não tinha palavras para explicar. Eu queria o tarrafal para viver aquela adrenalina que eles pareciam desconhecer, conversando descuidadamente sobre vinhos. Decidi não explicar nada. E ver.
Entrámos no bairro da lata. Serpentinas de ruelas que se cruzavam, ladeadas por barracas feitas de zincos e madeiras. Ouviam-se as crianças a chorar, os sons cruzados das televisões e o cheiro a fritos e cozinhados da hora de almoço.E cheirava mal dos esgotos a céu aberto e pelas ruelas labirinticas dormiam cães com sarna.
O Zé Marques disse-me:
- Vai para as traseiras e se algum fugir, grita!
Ainda ouvi as primeiras pancadas violentas na porta. A tremer de medo e exaltação, arma escondida no bolso, procurei as traseiras. Não havia! A barraca ligava-se a outras barracas, virando á esquerda, á direita, pelo centro, para baixo, para cima, e não havia traseiras! Não conseguia cumprir a ordem e procurava, agora, voltar ao local onde estavam os meus colegas. Os dois contra dois bandidos. E eu não estava lá. E se eles precisassem de mim? E onde é que seria o raio da porta, se as portas eran todas iguais, o cheiro era igual, as falas das mulheres tinham o mesmo som e eu não sabia regressar e a angústia despedaçava-me. E se eles tivessem sido mortos? Ou se os gatunos resistiram? Não ouvi tiros e isso aquietou-me mas logo me inquietou pois descobrira uma terrível evidência: Estava perdido num dos mais perigosos bairros de lata de Lisboa. Agora estava sózinho e era eu quem estava em perigo.De qualquer daquelas portadas semi-abertas poderia sair o disparo fatal e não tinha quem me ajudasse. O coração deixou de bater. Ou batia com tanta força que não o conseguia sentir. O que era estranho no meio da minha confusão é que as pessoas olhavam para mim com estranheza. Apenas estranheza. Ninguém me batia ou me provocava. Olhavam-me. Fazendo um esforço tremendo para ser indiferentes aos olhares procurei orientar-me. Tinha de sair dali, custasse o que custasse. E foi então que ouvi, muito perto, na rua de cima, uma buzina insistente. Galguei a travessa com três ou quatro metros. Eram o Marques e o Pedreiro! Estavam vivos! E tinham dois tipos nas traseiras da viatura.
O Pedreiro fumava tranquilamente encostado à carripana e com um sorriso simpático perguntou:
- Onde é que te meteste?
E eu confessei vencido: Perdi-me. A barraca não tinha traseiras. Prenderam-nos?
Acenou e abriu-me a porta:
- Estão aqui. vamos embora que o almoço está à espera.
Partimos. Nenhum dos dois ligou ao caso. Recomeçaram a conversa sobre vinhos que nem eu, humilhado e exausto, nem os dois presos, taciturnos e cabisbaixos, conseguimos escutar com atenção.
Almocei sózinho. A vergonha era excessiva para enfrentar os meus camaradas. E aprendi duas grandes lições nessa captura frustrada.Fora o primeiro classificado do curso, merecia o reconhecimento por isso, mas era um idiota. O verdadeiro polícia conhece as ruas e os tugúrios da sua cidade como as palmas da sua mão.E, por isso mesmo, decidi que não se passaria um único dia que não percorresse os bairros da lata que, então cercavam Lisboa, para os conhecer milímetro a milímetro. A segunda lição metia adrenalina. Percebi, mais tarde, que prender alguém era sempre um acto sem glória. Aprendi com aquela brigada. A verdadeira adrenalina estava na investigação. Na descoberta. No jogo de indicios e de vestígios, na construção de um caminho que nos levasse do mistério até à verdade. Aí é que estava a exaltação que procurava no 'Tarrafal'. Afinal de contas a utopia maior que deu corpo à PJ. Partir do vazio e caminhar para o absoluto.
Ao longo destes últimos 65 anos, milhares de homens e de mulheres foram actores deste psicodrama. Nem sempre conseguiram fazer de todas as investigações, os êxitos desejados.Muitas vezes ter-se-ão perdido pelas ruas da cidade. Nem sempre a Justiça se cumpriu. Mas não tenho a mínima dúvida, que sem a Polícia Judiciária seríamos mais pobres, mais intranquilos, mais inseguros, mais medrosos dos dias e das noites.Parabéns à PJ! Um abraço à velhinha 6ª-2ª que me ensinou os trilhos da cidade e da vida!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Abstenção do PSD e a Propaganda

Durante quatro anos governei a Câmara Municipal de Santarém sem maioria absoluta. Sabia que qualquer das nossas propostas para ser aprovada, em sessão de Câmara, precisava de entendimentos com as outras forças políticas ali representadas. Ora com o PS ora com a CDU.E, ao contrário daquilo que que se entende como o maior inconveniente das maiorias relativas, tornou-se num bem. A discussão prévia aproximou eleitos, permitiu que antes das votações houvesse debate, trocas de pontos de vista, cedências de parte a parte, e chegar a entendimentos. Na segunda metade do mandato percebia, ao elaborar as propostas, com quem as devia discutir. O PS chumbava tudo aquilo que era estratégico por razões que se prendiam com o facto dos vereadores eleitos serem os mesmos que no mandato anterior exerceram o poder. Nem discuto a bondade da posição. Era aquela e ponto final.A CDU, e quando deixou de estar representada por expulsão da então vereadora Luisa Mesquita, tinha outra posição: apresentava as nossas propostas, discutiam entre si (numa primeira fase no interior do PC, na segunda fase com eleitos que saíram solidários com Luisa Mesquita) e votavam conforme aceitávamos ou não as suas propostas.
Não era fácil mas devo dizer que trago desse tempo uma boa memória. A regra democrática impõe a maioria simples na aprovação da maioria dos documentos e não vem mal ao mundo, nem à política, nem às posições iniciais de cada um, discuti-las, ceder quando é caso disso, e apresentá-los com a certeza que não empastelamos a gestão pública daquilo que não é nosso. Apenas ali estamos em delegação do Povo, e por um breve período de tempo. O Poder não é dos eleitos. Apenas lhes é emprestado.
Julgo ser este o erro do governo. Não percebeu que o poder de governar o país não é sua propriedade. O Povo emprestou-o por um período constitucional determinado e ao Povo regressa para decidir se aprovou ou não provou o que foi feito durante esse período de gestão política.Dito isto, tenho seguido com surpresa o psicodrama gerado sobre Orçamento para 2011.O governo, numa manobra de grande habilidade política e de propaganda, tem conseguido passar a ideia de que a responsabilidade da aprovação deste OE depende da decisão do PSD e de Passos Coelho. O Parlamento apagou-se. Só existe PS e, sobretudo, PSD. O aliado do PS para as eleições presidenciais é mera quinquilharia política e a incoerência é tal que não percebo, assim como qualquer cidadão médio, a hipócrita encenação do Bloco de Esquerda.Apoiou Manuel Alegre, para as presidenciais, antes do próprio PS, e agora que estamos em pré-campanha, deixa de rastos a política socialista, da qual manuel Alegre não pode fugir se quer ter algumas expectativas de ser eleito.O Bloco vota contra. Sabia-se desde o início. O PC vota contra. Sabe-se isso para este OE ou para qualquer outro documento estratégico. O PC é isso mesmo. Definha à espera da revolução de rua que tarda em chegar. O CDS estuda.Ou seja, em linguagem futebolística está à mama dos acontecimentos e o PSD é convocado para a decisão final apenas com este argumento patético: é o maior partido da oposição.
A verdade é outra e este filme está ao contrário. Quem governa, e o PS aqui tem razão, é que tem de propor o Orçamento. Ninguém o pode substituir, ninguém pode condicionar o projecto de Orçamento. É o seu documento de trabalho.Mas acaba aqui as razões que merece.O seu primeiro dever cívico e político era no mesmo instante enviá-lo aos parceiros com quem tem de negociar. Permitir-lhes uma reflexão atempada, um estudo cuidado. Não o fez. Atirou cá para fora um conjunto de medidas brutais, algumas de aplicação imediata, outras para incluir no Orçamento e agora decidam. Mas decidam, sobre o quê? Onde está o documento? Bom, esse entrou fora de horas, no dia 15, na Assembleia da República, e só a partir de dia 16 quer o PSD quer os restantes partidos tiveram acesso a ele. Diz o ministro da finanças que este Orçamento é o mais importante dos últimos 25 anos. Sê-lo-á. Não sei. Mas aí a maior das razões para que tivesse sido entregue muito mais cedo para sobre ele se discutir. O governo encenou bem. Quis que se discutisse uma conferência de imprensa e que não houvesse tempo para uma reflexão ponderada sobre a proposta, apresentando-a fora de horas e exigindo decisões dos outros. Particularmente de Passos Coelho e do PSD.
Regresso à minha autarquia quando estávamos em maioria relativa e com respeito às proporções. Fizesse eu uma coisa destas e os vereadores socialistas pura e simplesmente recusam qualquer discussão ou pura e simplesmente reprovavam a proposta. E com razão.Seria obrigada a retirá-la da ordem de trabalhos.
É verdade que quem governa é quem tem de apresentar as propostas estratégicas. Mas é de elementar senso comum que deve, desde logo, negociar, discutir, perceber os indicadores daqueles de quem precisa que consigo votem para ajustar, alterar, equilibrar vontades. O PS diz que quer fazer isto mas, ao mesmo tempo, atira para cima de um partido sem responsabilidades governativas, o ónus da aprovação ou não do seu projecto de Orçamento.Ainda, por cima,esmagando o país ao peso da austeridade que não poupa nada nem ninguém, arrasando a economia nacional.
Julgo que o PSD deveria liminarmente votar contra este OE. Quem assim procede não pode esperar que não recolha tempestades. Foi vento a mais para ficar na paz dos anjos. Não serei capaz de entender uma razão que seja para votar a favor e devo dizer que estarei contra a possibilidade, ainda que remota, desta decisão.Apenas se compreenderá, no pior dos cenários, que se abstenha. Em nome do país. Para que a situação criada pelo adiamento de soluções e reformas, não atire a população para maiores sacrifícios, para a fome e para a miséria. Que se abstenha invocando o maior sofrimento que iria causar a quem não é culpado nem da situação a que chegámos nem das encenações produzidas pela propaganda e acção governamental. E, aí, terá todas as condições para moralmente dar uma lição cívica sobre quem põe a sua gente á frente dos interesses mesquinhos de apropriação do poder.
É o único passo em frente, pequeno, desconfiado, que o PSD deve afirmar. Para lá disso, seria o seu descrédito. Aprovar isto, não é apenas aprovar um mau OE. É aprovar processos engenhosso e malabaristas de governação que promete hoje e desdiz amanhã.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Vitória da Vida no Chile

Foi com emoção que acompanhei a operação de salvamento dos mineiros chilenos.Sei como dói a quem espera. E desespera. Viver, nem que seja por instantes, com a morte a fazer ameaças visíveis (aquela mina era uma sepultura antecipada) é tão doloroso para quem dela quer fugir como quem quer ajudar as potenciais vítimas.A equipa de resgate foi de uma competência inexcedível e a intensa solidariedade de milhões de pessoas sacudiu o mundo. Salvaram-se! O Chile dorme, agora,mais tranquilo. Venceu a força da morte e deu uma lição de humanidade.

domingo, 10 de outubro de 2010

Paulo Bento e a Selecção Nacional

Depois do jogo com a Dinamarca percebeu-se a história. A verdade é que os jogadores agoram gostam de jogar futebol. E são excepcionais! A alegria da improvisação regressou, a fome de golos voltou, a tristeza foi-se embora. Queirós até tem um currículo mais rico do que de Paulo Bento. Mas a sua racionalidade excessiva, e por isso medrosa, retira o encanto que resulta do génio criador dos atletas que teve à sua disposição e desperdiçou sem proveito nem para o corpo nem para a alma. Não percebe a alegria da criação. O plano de jogo, à maneira da planificação soviética, acima de qualquer individualidade. O erro e a diferença entre grandes treinadores e treinadores. A Federação pagou caro o erro. Um erro demasiado crasso para que fique tudo na mesma. E agora é ganhar jogos, pontuar, e chegarmos onde merecemos em termos de futebol. Aqui, de facto, não estamos na cauda da Europa.

sábado, 9 de outubro de 2010

Pessoa na pele de Álvaro de Campos (às verborreias de ontem à noite)

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada;
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das coisas inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma
Os amores intensos por um suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço.
Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito
Há sem dúvida quem deseje o impossível
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito
Porque eu desejo impossívelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um poucos mais, se puder ser
Ou até, se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada
Para eles o sonho sonhado ou vivido
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, profundo,
E, ah com que felicidade, um infecundo cansaço,
Um supremíssimo cansaço, ´
Issimo, issimo, issimo. Cansaço...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Cortes na Despesa - a Ruína das Autarquias

O Secretário de Estado da Admnistração Local, José Junqueiro, anunciou que os desabridos cortes na despesa que o Governo tem vindo a anunciar, mais uma vez, vai atingir as autarquias locais. O ano passado foram espoliadas de 100 milhões de euros. Agora, segundo contas da ANMP vão 'sacar-lhes' mais 150 milhões de euros. Enquanto isso, todos os institutos onde se albergam as clientelas partidárias desempregadas, direcções gerais e nacionais onde habita a mesma fauna, ficam de fora desta fúria. Compreende-se a táctita política. Onde estão os 'boys' fica tudo na mesma. Onde as populações confrontam o poder em primeira instância, nas autarquias, toca a a rapar o fundo do tacho até não haver mais. É vergonhoso e revoltante. Só quem é eleito numa Câmara Municipal ou numa Junta de Freguesia percebe o grau de desespero da população. De famílias desempregadas, com filhos a estudar em ritmo de sobrevivência, de pessoas sem condições para pagar a renda, a água, os medicamentos, com filhos desempregados, por vezes há anos, sem um túnel de esperança que não desemboque no poder local. E não é só isso. No seu conjunto, o poder local representa perto de 6% da dívida pública. 94% dela está nos Institutos e Direcções Gerais. Querem cortar e ajudar o país? Dou um exemplo. que já não é a inutilidade preguiçosa dos Governos Civis. Um PDM para ser aprovado, um Plano de Pormenor, um Plano de Urbanização, seja qual for o instrumento de ordenamento do território precisa de ser analisado e aceite por ....28 entidades diferentes!!! 28 institutos, comissões, direcções. A esmagadora maioria deles apenas com uma (in)competência: atrasar processos. Conheci ao longo destes cinco anos neste território de burocratas as piores e mais incapazes pessoas. Apeans interessadas no seu pequeno poder pessoal, apenas interessadas no seu umbigo com um desprezo absoluto pelo serviço público, pelas expectativas das populações, pela possibilidade de investimento que enriqueceriam o país e daqui fogem como o Diabo foge da Cruz amedrontados com esta engrenagem burocrática que nos tem levado à ruína. Não será possível um acto de gentileza à inteligência mediana e reduzir tudo isto a dois ou três entidades fiscalizadoras? Claro que é possível. Poupavam-se milhões e, mais, atraíam-se milhões disponíveis a acelerar o investimento num tempo em que cada vez mais tempo é dinheiro. Mas sobre isto o senhor Secretário de Estado da Admnistração Local não fala. Cala-se. Ignora. Cortar nas autarquias. Os autarcas que aguentem o descontentamento porque para estoirar dinheiro à tripa forra lá está o senhor Secretário de Estado e a equipa a que pertence. Pior do que a miséria física a que chegámos, é esta miséria moral. Este cinismo manipulador de números. Assim não dá. É que não dá mesmo!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Vinte Quatro Milhões de Euros para Santarém

Quando há cerca de três anos dissémos não ao negócio ruinoso que o PS de Santarém fizera com a cedência e rendição absoluta aos interesses  das Águas do Ribatejo, numa coisa chamada CULT, instituição que serve de funcionária servil a três ou quatro municipios da região parecia que ia cair o Carmo e a Trindade. Era um negócio ruinoso. Santarém entregava todos os seus activos, avaliados em perto de 30 milhões de euros, em compensação recebia 7 ou 8 milhões, ia para uma empresa ficcionada onde o conjunto dos municípios representava 51% do capital e o parceiro privado 49%. Assim nem parece tão ruinoso. Mas é. Separando os capitais próprios, Santarém, conjunto dos municipios, era maior accionista com 16% e os restante vinham por aí abaixo com percentagens ridiculas.Ao privado bastariam os votos do menor deles para em conjunto deter o comando absoluto das águas do Ribatejo. Além de que era um processo cheio de embustes, artifcios e terrenos pouco claros que a Justiça um dia esclarecerá. Recusámos este projecto altamente lesivo dos interesses do munícipes, da sua riqueza própria, ponto termo ao processo já esquecido por alguns de que durante décadas não houve cão nem gato que não esbulhasse a Santarém qualquer coisa. Uma triste história de desleixo e empobrecimento cuja factura estamos e teremos de continuar a pagar durante muitos anos. Constituímos as Águas de Santarém e procedemos à escolha do parceiro privado que ajudasse nos investimentos para concluir o saneamento e a renovação do sistema de águas. Mesmo assim, precisávamos dos Fundos Comunitários para asegurar a componente nacional. O conjunto de caciques que manipulava no interior dessa CULT, comandada por um servo sem grandes escrúpulos, tudo fizeram para lesar os interesses de Santarém. Com uma manobra imoral, ilegal e desonesta 'sacaram' para si os Fundos Comunitários que nos pertenciam. Chegaram ao ponto de com cumplicidades no interior do Ministério do Ambiente a levar o ministro a assinar um despacho falso onde se diz que Santarém não integrava a tal CULT. Confundindo deliberadamente a instituição com as Águas do Ribatejo e assistiu-se ao que de pior e mas obsceno existe na política regional feita de pequenos poderes e acolitados por homens pequeninos e sem escrúpulos. Percebi que estava ali uma das batalhas decisivas por Santarém e pelas suas gentes. A imoralidade e a desonestidade não poderiam vingar se ainda houvesse um mínimo de vergonha na política. E confesso que foi a batalha que mais doeu mas que, finalmente, vejo recompensada. Numa primeira fase conseguimos desbloquear cerca de 16 milhões de euros para a primeira etapa do projecto. Conseguimos que o concurso para o parceiro privado chegasse ao fim.Aqui veio o choque com a realidade mais triste e mais pobre da política concelhia. O PS que votou a favor da cedência dos activos de Santarém para as Águas do Ribatejo, deixando que o munícipio fosse espoliado dos seus importantes activos, votou contra as Águas de Santarém, contra os interesses do seu concelho e de quem os elegeu numa atitude servil que me ficará como uma memória de traição sem escrúpulos aos juramentos que fizeram de defesa das populações que neles votou. Assisti a muitos momentos repugnates de baixa política ao longo destes cinco anos. Talvez nenhum tivesse sido tão baixo e inqualificável como este, pese o facto de continuada e pacientemente lhes estender a mão para não cometerem tamanho desaforo. Mas o PS de Santarém é esta miséria política e cívica. Não é possível esperar outra coisa.
A VITÓRIA
 E ontem fomos informados que a nossa candidatura de 24 milhões de euros ao QREN fora aceite por Bruxelas. Fechámos assim a engenharia financeira para em 2013 estarmos na fase final da conclusão do saneamento em Santarém, passando a ser um concelho com total sistema de águas e saneamento e, confesso, uma das maiores alegrias da minha vida como autarca. Sobretudo pelo esforço discreto, por vezes clandestino, que me obrigou a fazer, mobilizando técnicos, contactos institucionais, negociações por vezes muito duras, muitas noites sem dormir, muitas viagens sem identificação, pois foi outra das mágoas que vim a descobrir quando o poder local desce às profiundezas dos esgotos. Há sempre alguém que procura boicotar o que de bom se faz ou quer fazer. Ou porque não é esse alguém que o faz ou por mera maldade. Aprendi esta lição cedo e ainda bem que aprendi. O esforço foi brutal e tenho consciência que esta vitória é de muitos. De todos aqueles que trabalham nas àguas de Santarém. Do PSD que apoiou este projecto desde o início e nunca deixou de ser solidário nos momentos mais dificeis. Da compreensão do então ministro Mário Lino ao inscrever este designio no ciclo da água das compensações Ota-Alcochete. Foi bem maior que a intriga política e interesseira e por isso está registado na minha memória como um dos grandes amigos de Santarém. Dos seus colaboradores Guilherme Dray e Pedro Abreu. Dos meus amigos em Bruxelas, o Miguel e o António. Da presidente do POVT nacional. Do responsável em Bruxelas pelos fundos comunitários para Portugal e que percebeu o dramático embuste realizado por essa coisa chamada CULT. Quero ver as conferências de imprensa daqueles que rugiam pragas a Santarém por não nos terem conseguido roubar profetizando a impossibilidade de recuperarmos os fundos comunitários ou se vão ficar escondidos nos seus esconderijos de predadores. Da minha parte não vão merecer uma palavra sequer. A dimensão e grandeza desta vitória para Santarém - o maior investimento público alguma vez aqui realizado - chega-me de consolação, prazer e satisfação política e pessoal. Pois também uma lição. Uma lição do 'ex-polícia' de como se faz política aos velhos profissionais da política. A partir de hoje suporto todos os insultos. Deixo a Santarém uma das suas maiores alavancas de desenvolvimento e bem-estar. Peço desculpa aos invejosos, aos profissionais da intriga, aos coscuvilheiros, aos velhos do Restelo, aos cobardes das picadas, aos engraçados, aos irónicos, aos que vão querer desvalorizar este acontecimento porque a História será sempre mais forte do que tudo isso. São 3.20 da manhã. Vou dormir em paz. Cumpri com o zelo leal e inteiro as funções que me estão confiadas e servi os meus munícipes que outros trairam. Pouco importa. Valeu a pena. Tinha razão Fernando Pessoa: Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Assim vale a pena a política. Assim faz todo o sentido. Obrigado, S. Francisco! Obrigado, meu Irmão por me deixares servir assim, recolhendo do sofrimento a alegria do dever cumprido

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cem Anos Depois

Gostava de ter conhecido Miguel Bombarda. E Machado dos Santos. Gostava de ter falado com António José de Almeida e escutado Manuel Teixeira Gomes recitando os seus poemas.Teria um grande prazer se tivesse falado com Bernardino Machado e uma curiosidade enorme para ouvir Brito Camacho.Curiosamente Afonso Costa nunca me fascinou. Mas gostaria de ter conhecido José Relvas e Inocêncio Camacho. Assim como o António Granjo e o Carlos da Maia, ambos trágicamente mortos na mesma noite. Porém, dava um pedaço de mim para poder ter vivido as horas decisivas na Rotunda, ao lado do soldado raso Francisco, desertor das tropas de Paiva Couceiro, amante da República, embora não soubesse muito bem quais as suas maiores e reais virtudes. Anos depois seria pai de um outro Francisco e avô deste Francisco. Gostava de ter brincado com o José Rodrigues Miguéis e de me encontrar com Fernando Pessoas à porta do Martinho.Assim como cumprimentar Sebastião Magalhães Lima e Abel Botelho. E Egas Moniz. E Ricardo Jorge. Todos eles são a primeira grande galeria romântica do séc. XX que construiram uma República tão frágil como as paixões estivais. Cem anos depois estão no nosso coração e panteonizados na nossa memória. Viva a República! 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As Indignações do PS de Santarém

Não sei se é assim noutras autarquias. Em Santarém vivo esta angústia. Falar, escrever ou argumentar perante a pequena comunidade política local foi sempre um desafio que não venci. Reconheço que não arrecado aí nem uma única vitória. Vim de um ambiente universitário exigente, onde a polémica, a discussão viva era obrigatóriamente um acto de inteligência pública. E também tenho na memória o tempo em que fui investigador criminal onde a crueza, e a firmeza, das palavras era usada para desvendar crimes. Mas não para insultar.Tenho uma carreira como escritor que não me envergonha, qualquer das minhas obras é objecto de edições e mais edições, estou traduzido em várias línguas, publicado em vários países, premiado pelo meu trabalho, quer como escritor quer como autarca, aqui e no estrangeiro, escrevo há mais de vinte anos em jornais de dimensão nacional, participei em centenas de debates televisivos, radiofónicos, em colóquios, em conferências, em Portugal e por esse mundo fora, argui teses e fui objecto de arguição em várias universidades. Discussões, por vezes, muito rijas, onde as palavras eram atiradas como pedras e onde a capacidade de argumentar e contra-argumentar podia recorrer livremente à metáfora, á antinomia, à hipérbole sem que alguém se ofendesse com alguém. Discuti com catedráticos, tive polémicas com grandes nomes da cultura, nunca senti no limite do limite dos argumentários. Na pequena comunidade política de Santarém é recorrente a crítica de que sou mal educado! Sobretudo o grupo dirigente do PS aponta sempre para esta conclusão definitiva: esta discussão é insuportável porque o presidente da Câmara é malcriado.Ponto final! Aos 57 anos fui classificado como o pior da turma. Mas isto não é o pior. O pior, e é terrível, é que os argumentos passam distorcidos para outras áreas do conhecimento. Durante muito tempo, julguei que essa distorção se devia à falta de escrúpulos e ao populismo barato. Mas não é. É muito pior. Eu explico com um exemplo:A última indignação teve a ver com uma discussão sobre conceitos de cidades competitivas.O PS de Santarém votou contra tudo aquilo que trazia inovação. Contra os espaços públicos renovados, contra a Fundação da Liberdade, desprezaram a conquista do Convento de S. Francisco, ignoraram deliberadamente toda a reconversão do parque escolar, a recuperação de património, etc. Numa intervenção que fiz, tendo em conta esta má vontade contra as novas cidades, comparei em termos metafóricos, as velhas cidades nascidas da revolução industrial e da concentração urbana com as novas cidades competitivas e do conhecimento. Tendo aprendido a lição que citar autores clássicos que estudaram as cidades seria o mesmo que estar a falar de metafísica, decidi usar outras expressões. Falei da velha cidade-fortaleza, da cidade-fortim, da cidade das cavalariças e das estrebarias e a nova cidade do espaço público, do conhecimento, sustentável. Quis fazer o contraste entre dois modelos de cidade. A cidade oitocentista e a cidade do séc. XXI. Entre a pólis herdada do romantismo e a nova cidade que para além de um tópus é, também, utopia. Que percebeu os meu grupinho de PS's? Que esta discussão não era sobre modelos e que eu afirmava que Santarém gostava de viver em cavalariças e vacarias. Não é má fé esta interpretação. Se o fosse, bastaria para circunscrever isto aos processos de vilania associados às lutas internas e externas pelo poder. Mas é ainda mais grave. Percebi que o grupo dirigente do PS não percebe.Não é porque não queira. Não é capaz. Estou vencido. A partir de agora vou falar como explico matemática à minha filha. A coisa passa a ser básica e simples, não molestam ninguém com intrigas e pronto!Afinal de contas, a preocupação deles nem é a cidade, nem o futuro. Apenas o tacho que o partido lhes pode arranjar. E eu deixo de ser malcriado! Fica para depois, com outra gente, uma boa polémica sobre modelos de cidades e Santarém não pára por estas ondas mais ou menos furiosas de ignorância voluntária.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Faltam Cortes na Despesa, Sobram Impostos

Já se suspeitava. A função pública vai pagar as maiores favas da crise e a população em geral vai ter vida mais difícil. Houvesse mais vontade e possívelmente poder-se-ia cortar muito mais despesa e não colocar o país de tanga.Para que servem os Governos Civis? Nada. Zero! Apenas para empregar deserdados dos maiores cargos da política. São milhões de euros que custa dar de comer a tanto militante à espera de um lugarzinho mais decente.Dezenas de serviços, institutos, direcções gerais cujos objectivos se sobrepõem, superlotados de desempregados da política, burocratas cujo umbigo vale mais do que o país, que esvaem milhões e milhões em inutilidades absolutas.Permita-se que se premei o mérito e a competência em vez de aturar e suportar centenas, milhares de 'boys' especialistas na intriga, na coscuvilhice, na mediocridade, que oneram em muitos milhões a administração pública e local.Concordo que não haja reformas simultâneas com remunerações de ordenado. Mas entreguem-nos instrumentos ágeis e rápidos de despedimento para aqueles que fazem da função pública um mero part-time, servindo outros que não o povo que lhes paga. Sobram impostos. Vão pagar os mesmos de sempre. E a fome vem aí. Tal como na crise dos anos 80. Que maldição é esta que persegue este país? Que condenação é esta que faz da pobreza mais pobreza, passem séculos, décadas, anos? É preciso reagir, é certo. Os nossos putos não se alimentam de amargura. O seu futuro vale todas as mágoas que vivemos. Mas porra, pá! Será que isto não tem fim?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

UMA VISITA INESPERADA

Hoje recebi uma visita surpreendente à hora de almoço. O Isidro. Quem conhece o meio criminal sabe de quem falo. O seu bando, onde pontificavam figuras como o Zé da Parada, o Dragão, o Ata, o Rio Maior, e muitos outros, puseram nos anos 80 Lisboa a ferro e fogo. Dezenas de assaltos à mão armada, homicídios, raptos. A minha brigada prendeu alguns deles.Várias vezes presos, o Isidro acabaria por ser condenado a 25 de anos de cadeia. Saiu há dois meses. Não o reconheci. A prisão provoca mazelas que nunca mais se apagam. A mãe morreu. Está só. E tem 58 anos. Veio pedir-me emprego como motorista. Estava nervoso, inquieto e recordei-me daquela genica irritada e destemida. Tem 58 anos e está velho. E lixado. A vida lixou-o mesmo. Deixou o número de telemóvel e partiu. Se calhar já é tarde para o Isidro. Muito tarde mesmo. Desejo que o seu futuro não seja igual ao passado. As celas são demasiado frias quando os ossos começam a gemer de dor. E fiquei nostálgico. Saudades dos meus antigos camaradas de trabalho e dos desafios de vida e morte. Também já envelheço. Não sei onde pára o Manuel Pedreiro, nem o Guimarães,nem o meu chefe Lourenço Ferreira. Gostaria de rever o Rendeiro e dei por mim a telefonar ao Camacho.  As memórias que o Isidro me trouxe. Tanto frio, tanto sofrimento, tantos anos depois. Deus te guie, Isidro. Que ao menos te dê um punhado de felicidade nunca conseguida.

SANTAREM E A EDUCAÇÃO

No próximo dia 5 de Outubro, pelas 12.30, vai ser inaugurada a obra de requalificação do antigo Liceu Sá da Bandeira. Estará presente o sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares. É uma requalificação de grande alcance, precipitada pelos acordos Ota-Alcochete, que permite a esta unidade de ensino de Santarém estar entre as melhores apetrechadas no domínio das Ciências. Embora já em funcionamento, também vai ser brevemente inaugurado o Centro Escolar de Alcanede, o primeiro concluído no quadro da Carta Educativa de Santarém. Um obra notável que reforça a importância estratégica do norte do concelho para a comptitividade de Santarém.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Das Conferencias do Casino até hoje

Estamos a viver um tempo ruim. A dimensão da crise económica e financeira desnuda outras crises. Agora mesmo. No centenário da República.Vem ao de cima o que de pior deixámos que proliferasse e mourajasse com o nosso silêncio. Silêncio que foi consentimento. Não quisémos saber. Desinteressámo-nos.Deixámos que os sapos e as cobras saíssem dos seus buracos e permitimos que uma política amoral, militante, apostada na mediocridade tivesse um passo e um reconhecimento imerecido. Voltei às Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, de Antero de Quental, que me obrigou a reler durante o fim de semana O Labirinto da Saudade do Eduardo Lourenço. É arrepiante o desleixo com que andámos. É deprimente perceber que sabíamos e não fizémos. Esquecidos da revolução espiritual proposta, ignorando a exigência de saber e de conhecimento, permitindo que o País não se municiasse com as armas que desbravam futuros. Temos milhares de licenciados. Multiplicámos universidades e escolas. Porém, nada disto foi potente para transformar os gestos e os actos de milhões em acções culturalmente elevadas, o único padrão que pode aguentar uma política ou políticas sólidas. As élites partem, a iliteracia domina, impera, fustiga cultivando a ignorância, a mesquinhez, a trica, como ervas daninhas destruindo searas de esperança. É difícil vencer esta pobreza espiritual. Possívelmente a única saída da crise. Um combate duro pela cidadania. Que estamos obrigados a vencer. Pelo país que é a nossa terra e a nossa língua. Antero tinha razão. Há 140 anos. E agora! Aconselho a consulta da sua conferência. Um regresso á poderosa inteligência generosa de um dos nossos maiores filósofos.  

A Passo e a Compasso

A ambiguidade da vida política obriga, por vezes, que fiquemos em silêncio quando à nossa volta estoiram foguetes de disparates e de insensatez. Políticamente devo ficar em silêncio, por ser presidente de câmara, quando o Francisco morde as palavras nas pontas do lábios. Umas vezes indignado, outras vezes com vontade de apenas dizer duas palavras secas. Há muito que matutava na criação de um blogue pessoal. Que apenas me vincule. Que vincule a minha pessoa e nada mais. Nem cargos,nem circunstâncias, nem protocolos, nem a necessidade de ser adequado. É uma vontade velha. Vinda de um tempo em que alguns blogueres não compreenderam as minhas palavras e escreveram barbaridades sobre mim e sobre o que eu dissera à cerca da blogosfera. Tudo desculpado e sem rancores. E aqui estou nesta autoestrada da liberdade total. Disponível para o debate. Mas sobretudo disponível para a decência. Vou começar dentro de dias. Como diria o Chico Buarque, agora é um blogue em construção. O acordo ortográfico chamou-lhe Projétil. Eu chamo-lhe Projéctil. Gosto da ideia que inscreve. Um corpo sólido disparado que cruza o ar, como cruza a vida, e que cairá quando o seu peso for maior do que a força da gravidade. A mesma gravidade que nos coloca à terra e, em dia e hora que desconhecemos, nos colocará debaixo dela.

Moita Flores