segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma Nova Ambição (6) Quando Abril desperta


Não creio em políticas, nem em governos, nem em pessoas que não sabem sonhar projectos, expectativas, que não têm dentro de si confiança no futuro. Não acredito em fatalistas. Muito menos em militantes da denúncia, da crítica pela crítica, acomodados nas suas verdades, confortados nas suas reivindicações e protestos, incapazes da dádiva, egoístas na partilha, em gritos narcísicos sobre a injustiça da sua inteligência, da sua obra, da sua ideia não ser ovacionada como o bem maior que o país produz. E o país está assim, neste momento. Enquanto cresce o desemprego, se multiplicam as dificuldades e urge o esforço colectivo para encontrar a saída deste túnel negro, oiço políticos e sindicalistas, comentadores e especialistas do disparate evocar culpas, gemer raivas, gritar (gritar é uma forma primária do anti-diálogo) verdades tão repetidas, tão vazias, tão irracionais, tão populistas, tão moralmente preconceituosas que só as compreendo como consequência do medo, dos muitos medos que habitam cada homem e da sua incapacidade para os vencer. São homens vencidos antes de qualquer batalha.

Acredito que o mundo mais justo é aquele que inscreve a partilha franciscana. Que nos agiganta face aos problemas quando entregamos amor, em vez de esperar ser amado, que nos obriga a compreender os outros, antes que nos compreendam a nós. Por isto mesmo, sou um defensor intransigente da Paz, dos direitos de cidadania de todos, do direito à diferença sem limites, seja religiosa, política, seja a diferença aquilo que for. É nesse respeito que seremos iguais.

Faço parte do grupo de homens e mulheres que acredita em António Gedeão - o  sonho comanda a Vida e, por tal razão, olho os caminhos já percorridos, por vezes tão duramente percorridos, que creio que por todas as derrotas que possamos viver, a construção material de um sonho de Justiça social, criminal, económica, política pode reforçar energias, esquecer os desaires, e tornar um pouco mais feliz que connosco partilha os dias, as emoções, as alegrias e as tristezas. Creio em Deus mas também creio que as obras da nossa vontade são testemunhos de fé maior, que vão aos poucos construindo homens livres e de bons costumes. Para tanto é fundamental o exercício da crítica, é certo. Uma Pátria livre exige esse direito e exercido com elevação moral. Mas também exige o compromisso. Exige a responsabilidade do compromisso, um rigoroso sentido ético, a recuperação da honradez da palavra, o compromisso leal e sério com os outros. Tive um avô, o meu avô Francisco, que morreu há trinta anos, morreu de pé, inteiro e lúcido, com 85 anos, sólido como um carvalho, que partiu com a alegria de nunca ter feito um negócio (era um camponês rendeiro) que não fosse por palavra e aperto de mão. E honrara-os sempre.

Hoje já não pode ser assim. Os tempos são outros. Porém, a honradez das palavras é a mesma. É essa necessidade de compromisso, a exigência cívica de partilhar desafios que afrontem tempestades e sofrimentos, que vençam dores e mágoas, que procure a exaltação de valores de solidariedade activa, de cultura, de coragem física e anímica que me fez aceitar o convite para regressar ao combate eleitoral, á luta por uma democracia culta e a assumir desafios pelos outros e com os outros, acrescentando pedaços felicidade, devolvendo-a a quem não a viveu, partilhando-a com quem a deseja viver de forma inteira e livre.

Chegados aqui, entra Oeiras e o seu futuro.  Em breve apresentaremos o nosso programa/compromisso de futuro. E escolhemos o 25 de Abril para aprofundar esta caminhada pelos valores da Paz e da Liberdade. Porque o 25 de Abril não tem donos. Não é da esquerda (seja isto aquilo que for) nem é a da direita (seja isto aquilo que for). É um dia fundador 'inteiro e límpido' que permitiu o protesto, a liberdade de todas as expressões, mas que nos exige o aprofundamento de uma  cultura cívica que nos conduz ao compromisso com os homens e com a História, a sonhar e a fazer, tendo como finalidade os outros e a sua felicidade. Não basta saber e criticar. É necessário saber mais e passar das palavras á acção. Pela paz, pelo bem estar, para que a palavra Esperança faça sentido e seja palavra prometida e comprometida no trabalho que se constrói, construindo afectos e um tempo onde a alegria seja a centelha que ilumina o entusiasmo de nos entregarmos aos outros.








domingo, 7 de abril de 2013

Uma Nova Ambição (V) - O Caos e a Culpa



Há muito que não vinha aqui. Mas não me apetece ficar quieto, em silêncio, quando vejo incendiar paixões que nos conduzem alegremente ao abismo. A profusão de argumentos, a maioria deles já do território da irracionalidade completa, com que se discute o futuro do País, é uma espécie de empedrado para onde caminhamos para o caos, palavra aqui usada no sentido de não encontrarmos uma solução mas apenas um campo de despojos de palavras de onde a sensatez fugiu assustada. Um campo selvagem, feito de arbustos e ervas daninhas, onde imperam cogumelos imponentes, fungos que se alimentam da miséria e do oportunismo intelectual e político.
É preciso parar este movimento magmático que produz vulgaridade, que não tem grandeza, que não tem alteridade, que, por mais penitências batam no peito, não tem um sentido patriótico nem coloca a nossa terra, os nossos filhos, a nossa memória colectiva, o nosso futuro como objectivo primeiro do debate político nem respeita o imenso esforço que a população está a realizar para sair da imensa crise em que mergulhámos.
É preciso parar para pensar. Para recordar que os caminhos que estamos a seguir, minados por raivas pessoais e ressentimentos, por querelas estéreis, por discursos mais apopléticos e arrogantes do que lúcidos, tiveram os seus dias noutros tempos da nossa História e descambaram sempre em desastres que, depois, passaram a lamento colectivo.

O Problema e a Culpa

Tudo se parece resumir ao simplismo justificativo da culpa. Esta atitude herdada da cultura inquisitorial onde cegamente se procura a bruxa má para se apontar a culpa. Esta abordagem subjectiva da culpa, seja Sócrates, seja o chumbo do PEC IV, seja o contrato com a troyka, as políticas do governo, a Angela Merkel, os mercados, descambam num apaziguamento momentâneo da nossa própria consciência, inocentados de culpa, absolvidos e mártires de todas as diabruras que os 'políticos'fazem. Este culto tão primário quanto incipiente, do ponto de vista da cultura cívica, conduz-nos ao antagonismo estéril porque dele não resultam soluções para os nossos males. Podem aumentar o volume dos insultos mas não resolvem um único problema. Por outro lado, esta procura incansável do culpado é uma obsessão que não tem resolução política. Não tem sido outra a vida da CDU ou do BE. Procurar e denunciar o culpado mas sem dar único passo, um único que seja, para que se comprometam com os problemas e deles se procure sair para bem da população e das famílias. O problema já não é a culpa. O verdadeiro problema é...o problema financeiro, de bancarrota, de desemprego, de reformulação do Estado parasita, de crescimento da economia. O problema é isto e muito mais. Os nossos compromissos internacionais, a ameaça de não haver dinheiro emprestado para salários, de não haver crédito para as empresas, de sermos esbulhados das nossas poupanças (como aconteceu no Chipre) de cairmos na miséria ainda mais ruim, com a saída do euro e consequente desvalorização de todos os nossos activos e patrimónios.
 
O Caminho
 
É urgente arrepiar caminho antes que o sofrimento produza ainda mais sofrimento. Antes que a dor seja tão angustiante e forte que dê lugar á desorientação colectiva. É urgente fazer saltar cada Partido da trincheira de pesporrência e orgulho em que se defende e ataca. É urgente que cada um saiba dar um contributo para que seja possível salvar o País de mais dor e de maior tragédia. É urgente que o Presidente da República venha a terreiro, liderando, actuando, revelando que faz e consegue compromissos. Não é o tempo do comunicado, nem da clausura. É o tempo da pedagogia, da voz actuante que ajude o Governo, que ajude o PS, que ajude as forças laborais e empresariais a superar este momento difícil. Ou então tudo será mais difícil. Se o caminho para o apaziguamento forem eleições, que sejam eleições. Se for preciso alterar o governo que se altere o governo. Não pode haver portas fechadas, nem silêncios, nem insultos, nem agressões. O tempo da política culta tem que chegar e é capaz de ser este o momento para dispensar caciques, chefes de tribos, quadrilhas e outras espécies sem escrúpulos que se abrigam quer dentro quer fora dos partidos, apenas dispostas a sugar sem escrúpulos o esforço de todos. É preciso unir forças, juntar pessoas que pensam de maneira diferente mas que, no essencial, estão dispostas a dar tudo pelo seu País e pela defesa dos mais desprotegidos. Isto não vai lá com frases de circunstãncias. Exige actos, trabalho, esforços comuns, compromisso.  Isto não vai lá com insultos e desvarios. Exige dádiva, firmeza, seriedade e coragem. Coragem que não quer dizer teimosia. Coragem para ter a humildade de ser solidário. Como é que se pode pedir com tanta facilidade ajuda externa e não conseguimos unir esforços para a ajuda interna? Logo, agora, que estamos á beira do caos?
Não tenho dúvidas que, a manter-se esta situação de clausura, de berrar de verdades efémeras, de empobrecer a eito com consequencias tão dramáticas, de cairmos nesta redoma de verdades feitas, gritos e arrogancia, o sofrimento que carregamos é coisa de brincar perante aquilo que está á nossa espera. E para breve. Basta que o próximo cheque da troyka não chegue em Maio e logo se perceberá o inferno onde estamos mergulhados.
Acredito que o conflito só tem sentido se daí acrescentarmos força á força colectiva que sustenta a paz e a esperança. Acredito que a tensão só faz sentido superada numa solução que nos abra caminhos de maior tranquilidade e superação. Não creio que qualquer homem ou qualquer força, partidária, sindical, seja aquilo que for, possam ser o caminho, a verdade e a vida. Porque não têm dimensão sagrada. Pertencemos ao território do profano, do erro, da angustia, da necessidade. Por isso é minha profunda convicção que só a tolerância democrática, a humildade democrática, o sentido da dádiva e do encontro nos pode aproximar de soluções com grandeza para esta terra que, um dia, nos viu nascer e, em qualquer dia, nos abrigará para sempre.