terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sá Carneiro - Aquela Noite


Eu estive lá nessa noite. O meu chefe estava de Piquete e nós tínhamos regressado de Cascais onde apresentáramos ao juiz de instrução um ladrão que fizeram vários assaltos na zona. Levámo-lo para a zona prisional e fomos ao Piquete dar contas do nosso serviço ao nosso chefe de Brigada. Ainda não deviam ser 20 horas. Convidámo-lo para um copo e ele respondeu-nos que não dava. Estava de serviço e com poucos homens já que era hora de jantar. Foi então que tocou o telefone preto. A bateria de telefones do Piquete era cinzenta. Menos aquele, linha directa aos serviços de urgência da PSP e da GNR. Quando tocava, era sinal de sarilho. Quando desligou percebemos que estava desconfiado. A notícia que chegava era grande demais para ser logo tomada a sério. Informava a Polícia do aeroporto que um avião caíra e que altas individualidades iam a bordo. Não dizia quem. Fosse como fosse, mandou avançar a tropa. Estava com o meu colega na rotunda do relógio quando pelos rádios das viaturas a central informava que se tratava do primeiro ministro e muito possivelmente do ministro da defesa. Sá Carneiro e Amaro da Costa, Naquele momento liguei o rádio normal e procurei notícias. O país ainda não sabia da tragédia. Recordo-me que as transmissões entre viaturas se calaram. O choque era grande demais e aquele silêncio era seguramente o tempo de todos os investigadores que se dirigiam para Camarate digerir uma notícia que lhes parecia impossível.
Chegámos ao mesmo tempo dos bombeiros que procuravam dominar as chamas do avião e encontrando gente desvairada com o susto, pois foram apanhadas de surpresa enquanto jantavam. Tornou-se uma das noites mais estranhas da minha vida. Nunca vira polícias a trabalhar de lágrimas nos olhos, nem bombeiros que soluçavam de mágoa e dor. Entretanto, chegavam as brigadas de minas e armadilhas, os peritos da aeronáutica civil, os homens dos homicídios e uma multidão que, entretanto, ao saber oficialmente da notícia correu ao local. Era tempo de eleições para as presidenciais. Tempo de emoções exacerbadas. Soares Carneiro contra Ramalho Eanes. Recordo-me de Eanes, prostrado, em choque, com a grandeza que se lhe reconhece, ali humilde e magoado com o desastre. De Eurico de Melo que não segurava as lágrimas. De muita gente da política e da vida pública que não queria acreditar na tragédia. Do Director Geral da PJ, do dr. Sombreireiro que ali mesmo fez a primeira autópsia dos cadáveres. Passava das três da manhã quando foram levados para o Instituo de Medicina Legal. As equipas técnicas ficaram no terreno e eu, que não me deitara na noite anterior perseguindo o ladrão de Cascais, não tinha tarefa e recolhi a casa exausto. Queria dormir e não conseguia. O choque vencia o cansaço acumulado e embora entre os polícias não houvesse grandes paixões partidárias, devido á própria função que inibia essas opções, partilhava a consciência quase unânime de que acabara de morrer um homem raro da política.Daqueles que servem em vez de se servir. Que se dedicam á causa pública sem condições. Que pelo seu país seriam capazes de viver. E de morrer.Um exemplo de cidadania que marcaria muita gente que ao longo de gerações se dedicou á vida pública. Nesta efémeride, vale a pena recordar esses valores essenciais desse homem valente, dedicado, apaixonado pelo seu povo. E hoje, tal como nessa noite, curvo-me respeitoso e rezo a S. Francisco por ele, por todos que com ele morreram e para que o seu exemplo ilustra e de dignidade cívica e política continue a ser herança de muitos. Para mim continua a ser com toda a certeza.