segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Seguro versus Barroso


Lembro-me como se fosse hoje. Aliás basta ir aos jornais da época para se perceber como pouco mudou na discursata dos putativos grandes arautos do futuro. Foi há uma dúzia de anos. Durão Barroso liderava o PSD na oposição. A governação de Guterres já ia para sei anos e a impaciência reinava nas hostes social democratas. Na altura não havia barão do PSD (quem diz barão, diz visconde, conde, marquês) que não tivesse opinião formada, e segurissima, sobre a necessidade de mudar de liderança. 'O homem é fraco', 'o discurso não convence', 'o Guterres mete-o no saco', 'não apresenta uma ideia', 'ninguém sabe o que ele pensa'. Estes são alguns chavões que, com a ajuda do comentarismo de serviço, foram capazes de jurar a pés juntos que o PSD, com Durão Barroso, não ia lá. 
Todos conhecem a história e, portanto, é irrelevante os juizos de valor que sobre ela, que agora podemos fazer.
A verdade é que a 'nobreza' socialista está em maré alta, exactamente nos mesmos termos em que há doze anos atrás ouvíamos os comentários sobre Barroso. Percebo que agora é momento de nervos porque se fazem listas para o Parlamento Europeu e, portanto, o alarido é mais ruidoso. A verdade é que Barroso nunca esteve tão distante nas sondagens como agora está o PS à frente do PSD. E Seguro, tal como Barroso, está a fazer o seu papel não se demitindo das suas responsabilidades enquanto primeira figura do PS.
É irrelevante para esta reflexão se Seguro vai ser bom primeiro ministro, tal como é irrelevante saber se Barroso foi bom primeiro ministro.
O que não posso deixar de sublinhar, e isso é que me chamou a atenção, é o facto de uma dúzia de anos depois serem usados os mesmos estratagemas, as mesmas palavras, as mesmas críticas, como se o tempo não tivesse passado e a vida não tivesse sido vivida com alterações tão profundas como aquelas que aconteceram. De facto, quando a discussão é entre as 'nobrezas partidárias',assim como entre o seu clero mais fundamentalista que julga o País à escala das lutas partidárias internas, decadentes, voltadas para os seus umbigos, perde-se o sentido da realidade. Talvez por isso, estejamos no estado em que estamos. O Povo ainda não foi chamado a estas conversas de comadres. Aí se verá como esta democracia funciona, pese a esclerose que a atormenta.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

FERNANDO PESSOA: Encontrei-o. Lia o jornal no Martinho da Arcada e, em desespero disse-me isto:






Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado 
E quero só dormir
Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé, 
Escrevi numa página em branco, 'Fim'.
As princesas incógnitas ficaram desconhecidas, 
Os trono prometidos não tiveram carpinteiro
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.
Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales,
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales -
Que ninguém deseja nem não deseja.
Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e ambições que tive, 
E hoje sou aoenas um suicio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.
Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma, 
Como um barco abandonado, 
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem se lhe saber o passado.
E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras, 
Que não sabia nadar.