segunda-feira, 28 de maio de 2012

ESTOU REFORMADO! Obrigado, Estado bondoso e lindo!


Esta manhã o correio chegou ao som de trompas, clarins, tambores e foguetório e tocou com alegria estridente à campainha da minha porta. Surpreendido com tão estridente cortejo.Não jogara no euromilhões, o dia de aniversário já passou, enfim, fui abrir, curioso e expectante. Não era o carteiro. Era o Estado. O próprio Estado em pessoa! Com a sua corte de funcionários, de corredores penumbrosos, de secretarias atulhadas em papéis, atapetado com soalhos que rangem e máquinas com números para senhas que ordenam os nossos lugares nas filas, das muitas filas, do nosso bem amado Estado. Era alvo o sorriso. Sempre o imaginei branco, com olheiras, com falta de sol na pele. O Estado nunca deixou de ser tuberculoso, mal encarado, com forças distorcidas, sem vigor, tipo fungo, mais capaz de se alimentar do húmus do que a criar vida, e foi desconfiado que recebi o seu sorriso esquálido, diria mesmo cadavérico com livores acentuados. Perguntei: Bom dia? e semicerrei  a porta quando respondeu forçando um riso desdentado: Bom dia. Sou o Estado!.
O meu patrão visitava-me. Meu patrão há mais de quarenta anos e eu nunca lhe vira o rosto. Era sempre uma omnipresença por detrás de milhões de rostos que ao longo desta imensa vida a dois me pôs na condição de servo e, Ele, na condição de Senhor.
- Venho trazer-lhe o papel. Está reformado. Voltou-se para a multidão que se acotovelava, músicos, burocratas, muitos servos e um exército de assessores, agitou o braço descarnado e gritou:
-   O fotógrafo! O fotógrafo! - e, de repente, no meio da assuada, disparou uma flash: Eu, o papel e o Estado, todos sorrindo para a fotografia. Apertou-me a mão com a sua mão cadavérica, entregou o papel e o flash repetiu-se para fixar aquele momento solene. Aplausos. A música regressou, a algazarra empolou e o Estado perguntou:
- Não nos convida para entrar?
E tomei a minha primeira decisão de reformado:
- Não. Na minha casa só entra gente que considero de boa fé. Vamo-nos vendo pelas repartições.
Espantosamente não amuou. Percebi, depois, que era a resposta vulgar que recebia em cada casa onde levava o tão desejado papel e retirou-se sem cumprimentar ao som de cornetas, trompas e gritos anémicos.  Fechei a porta e olhei com tempo o papel que o Estado me dera. A reforma! Exactamente 41 anos e 9 dias depois, recebi a minha carta de alforria. Livre! Um escravo liberto com direito a pensão que o meu Senhor me paga até que a morte me venha buscar. Também a pensão de sobrevivência que os meus descendentes vão receber quando eu fechar os olhos. O meu doce e terno Estado cuida de mim e de mim, depois da morte, se os meus descendentes sobreviverem ao meu decesso. Mais do que a reforma estou encantado com a pensão de sobrevivência. 600 euros para assegurar a minha imortalidade.  Agora sou um escravo liberto. Há mais ou menos uma hora. Ainda nem sei o que vou fazer com este sol de Liberdade. Acho que hoje vou comer um bife. Sim, a reforma não dá para muito mas dá para um bife. Com ovo e tudo. Quero celebrar a minha entrada na 3ª idade. Vou ler a Bola, palitar os dentes, e ficar o resto do dia no jardim. Enquanto houver sol.
Mas só hoje que eu percebi a ironia desta reforma acompanhada da pensão de sobrevivência. Desta festa surpresa feita de fantasmas e cadáveres adiados, liderada por este Estado moribundo e vampiresco.
- Agora já podes não fazer nada e descansar á sombra do teu carvalho de estimação!, era o convite insinuado na oferta do papel sagrado. - Desiste, a tua vida chegou ao fim, desiste! sussurrava o coro desafinado dos assessores. - Até já tens garantida a pensão de sobrevivência para os teus e o funeral.
Vai enganar-se, vou enganá-lo. Hoje como o bife com ovo a cavalo para celebrar o tempo vivido em que tantas vezes comi o pão que o Diabo amassou ao serviço do meu Senhor.
Amanhã levanto-me cedo e vou começar a Vida. A verdadeira Vida. A Morte e a sobrevivência não estão na minha agenda de Reformado e mal pago. Ah, e vou comprar uma moldura para colocar o papel. Não sei por quanto tempo posso comemorar. Não sei se a Troyka, a minha querida, adorada e santa Troyka me vai ajudar e vou ter Estado amanhã. Basta o velho descarnado entrar em bancarrota e lá se vai reforma e muito mais depressa a sobrevivência. Mas para já, vou comemorar e arranjar a moldura. Acendo duas velinhas e coloco a oração de Santa Bárbara para afastar trovoadas. Ai, o bife. Este bife vai saber-me a mel.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Benfica e Porto: a arruaça sem sentido



A arruaça que brindou a vitória do Benfica no campeonato de basquetebol, no estádio do Dragão, contra o Porto, foi tão digna quanto o apagão e respectivo banho com que o Benfica brindou, no domínio do futebol, a equipa portista aquando da vitória desta no estádio da Luz. O discurso da 'fruta,corrupção e compadrio' é no mesmo tom dos outros que, por vezes, escutamos a Pinto da Costa.
Confesso que não entendo isto. Não entendo como homens com responsabilidades que vão muito para além da mera gestão caseira de clubes, pois a dimensão nacional e internacional outorga-lhes um papel fundamental na formação de opiniões e de públicos, podem usar o capital de prestígio que lhes está confiado para proteger, confiar e até aplaudir estas manifestações colectivas de barbárie. Ambos os clubes ganharam lugares de referência no panorama desportivo mundial. Por direito próprio. Ambos os clubes são referencia afectiva e competitiva para milhões de crianças e jovens que procuram mimetizar os papéis dos seus ídolos.
Ambos os clubes guardam um património de alegrias e de festa por vitórias alcançadas que é a memória de outros milhões de pessoas.
Não percebo como se pode transformar tudo isto em zaragata, ódio e insultos. Não há explicação sociológica, nem psicológica, nem de nenhuma natureza, para explicar como se transforma uma memória grandiosa num míserável espectáculo de murros e insultos.
Embora seja sportinguista, tenho apreço pelo Benfica e pelo Porto. Respeito pelas suas vitórias e reconhecimento pelo que nos deram, a todos, enquanto portugueses. Ver aquilo que vimos, ouvir o que temos ouvido deixa-me com uma estranha sensação de amargura. E de pena. E lembro-me de Hemingway, e já nem pergunto por quem os sinos dobram, pois bem desconfio que dobram por todos nós. Que sómente assistimos e já não resistimos. Vencidos sem forças para reconquistar mais um título. Será que isto, terá de ser sempre assim?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O preço de um combate: 33 anos por traição

Este senhor chama-se Shakeel Afridi e é médico. Graças ao seu trabalho, e de muitos outros, foi possível capturar essa figura sinistra que foi Bin Laden. Shakeel foi agora condenado a 33 de anos de prisão pelo crime de traição em virtude do seu envolvimento nas operações de captura do mais tenebroso terrorista de que há memória.No Paquistão, claro está. É assim a justiça dos nossos 'aliados' na luta contra o terrorismo.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Bee Gees: Morreu Robin Gibb

Morreu o líder dos Bee Gees, o cantor Robin Gidd, que marcou gerações de de jovens. Entre elas a minha.

domingo, 20 de maio de 2012

Tempestade no copo de licor

Conheço de experiência vivida o que são fabricação de histórias jornalísticas nas quais somos protagonistas à força. Prepara-se o guião, demonstra-se a verdade que se quer publicar, (o que não quer dizer que seja verdade, nem muito menos a Verdade) e ao fim do segundo período de escrita lá está metido o nome do protagonista. Ás vezes quase a camartelo, mas fica. E quando nos perguntamos a razão de ali aparecermos, fora daqueles factos e muito longe daquelas intenções, percebemos que as motivações subjectivas de quem escreveu nada têm a ver com o texto. O texto é um mero pretexto para agredir, para insultar, para estigmatizar ou pura e simplesmente para chantagear. É o verbo exacto. Chantagear! Outras vezes, não chega a tanto. É embirrar apenas porque não se gosta, porque se odeia, porque se embirra. 
Vem isto a propósito dos desesperados pedidos de demissão do ministro Miguel Relvas que, segundo se sabe, decidiu telefonar para a direcção de um jornal aborrecido com a pressão com que lhe era imposta uma resposta a determinadas perguntas (segundo percebi, teria de responder em 32 minutos) sobre a triste história dos Serviços Secretos. Que isto é censura, que assim o ministro mete o nariz onde não é chamado, que a liberdade de imprensa está em causa e mais isto e mais aquilo. Tudo sempre em volta da liberdade de imprensa, coisa que não implica responsabilidade, tão só a absolutização da ideia de liberdade. A coisa torna-se mais complicada se pedimos desculpa por termos telefonado. É, de imediato, o reconhecimento de uma culpa, quando deveria ser o reconhecimento de consideração. Percebe-se que Relvas, ou por arcaboiço político ou por razões de delicadeza, ainda não chegou ao fim da linha, ao limite em que já nem se pensa no telefone. Apenas se ignora. Não me espanta a solidariedade corporativa que brota das muitas opiniões publicadas este fim de semana. Espanta-me que homens que têm ou tiveram responsabilidades públicas (não necessáriamente políticas) que foram submetidos aos mesmos escrutínios das narrativas pré-formatadas e nelas encarcerados à força, venham pedir a demissão do ministro. Porquê? Porque os jornais dizem a verdade e os políticos mentem. É este a conclusão de senso comum, tão simplista quanto grosseira. Que ajuda ao culto da vulgaridade mas não abona ao fortalecimento de uma cultura cívica. Se é verdade que para alguns jornais, embora cada vez menos, o princípio do contraditório continua a ser uma fonte sagrada e inspiradora de um espaço de liberdade, a verdade é que, por vezes, trinta e dois minutos não é tempo suficiente para exercer um direito que a outra parte prepara há vários dias. Sejamos, ao menos, sensatos. Coisa que cada vez é um bem mais escasso para resolver conflitos que resultam da própria intensidade da vida e que bem precisamos para resolver problemas bem mais preocupantes para o futuro da democracia e do país.

sábado, 19 de maio de 2012

Muitas Felicidades, Presidente!

Taur Matan Ruak tomou posse como 3º Presidente eleito da República de Timor Leste. Muitas felicidades, Presidente!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O que vamos sofrer por causa da Grécia?

Com as últimas eleições gregas, ao caos financeiro, económico e social somou-se o caos político. De tal forma que as eleições não valeram e vai repetir-se o acto eleitoral. As autoridades europeias e mundiais discutem abertamente a saída da Grécia da Zona Euro e todos são unânimes que esta solução vai ter impactos negativos em Portugal, em Espanha, na Itália e nos restantes países europeus. Lá, já começou a corrida aos levantamentos bancários, alguns bancos deixaram de ser financiados e está iminente a possibilidade de não pagarem salários e serviços da administração pública. É o inferno grego e as notícias, associando previsões ameaçadoras para Portugal, provocam ainda mais amargura e ansiedade em todos os sectores sociais já esmagados pelo peso da crise que nos afecta.
Dito isto, não seria inteligente e sensato começar a explicar o que vai acontecer a Portugal, caso a Grécia saia do euro? Com que linhas nos vamos coser? Onde vamos ser mais apertados? Como responder a este sobressalto e reforço da crise? É fundamental esta preparação para os piores cenários. Vamos também para a bancarrota? A DECO sugeria ontem que se fizessem poupanças e investimentos noutras moedas mais estáveis como a libra e a coroa sueca. É este o caminho? Duvido. Mas se calhar é. Não sei. A verdade é que o manancial de notícias sobre a Grécia que nos últimos dias coloca a Europa à beira de um ataque de nervos obriga a respostas e esclarecimentos. É que, de factos, os portugueses conseguem suportar as piores agruras. Mas isso não os coloca na posição de rebanho, servo e ignorante, à mercê dos ditames e decisões mais ou menos ditatoriais de uma troika qualquer. É urgente saber o que nos espera. A arte da política implica a previsão e nas sociedades democráticas á apresentação de explicações antes dos factos consumados. Acho eu.

sábado, 12 de maio de 2012

Feira do Livro


Hoje, estarei a partir das 17 horas, na Feira do Livro de Lisboa, para uma sessão de autógrafos no Pavilhão da Leya/Casa das Letras.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Quando Partir não é Dizer Adeus



Para aceder a minha página de facebook, escreve www.facebook/moitaflores e clique em 'Gosto'

Quando se aproxima a Partida, e há lágrimas no coração (pois o coração também chora de saudade) decidi dar testemunho da minha obra pública à frente dos destinos de Santarém ao longo destes sete anos que estou a lançar na minha página de facebook com endereço referido
www.facebook/moitaflores e clique em 'Gosto'. Não se vive uma cidade, um concelho, tanta gente com uma paixão tão infinita sem que uma centelha de rija saudade não nos ilumine o coração.
Quando partir, levo o que trouxe: dois caixotes com livros, a minha música e tantas experiências que deram sentido à vida e permitiu a dádiva sem esperar receber que S. Francisco de Assis nos ensinou. Dei tu. A minha inteligência, a minha capacidade de influência, o meu afecto incondicional. Amei até ao tutano dos ossos todos os projectos que construímos para que Santarém, como então se dizia quando cheguei, ficasse no mapa e fossem ao entregue aos jovens que daqui partiam. Está no mapa. Os jovens enchem nos jardins remodelados as nossas noites e os mais novos ganharam escolas e espaços públicos para serem mais felizes.
Não sei como poderei dizer adeus a tanta gente que tenho no coração um adeus que não esteja emrgado pela emoção. Nem sei quais as palavras para dizer adeus a quem amamos. Gerir uma autarquia tem que ser mais gerir caminhos para um futuro mais seguro, ainda que esta crise nos levante dúvidas sobre a segurança. Mas é preciso resistir. Entre esta página e a página do facebook visitam-me todos os dias mais de vinte mil pessoas. Muitos deles amigos, Vou aqui deixando um abraço a cada um, dizendo-vos até breve e até sempre. Mas também sei que uma fotografia vale mil palavras, e quando as palavras não prestam, ditadas pela cegueira, pelo ódio ou pelo ressabiamento, vale todas as palavras inventadas.
Por isso, não me despeço. Vou-me despedindo. E no facebook  www.facebook.com/moitaflores e clique em 'Gosto' estou a deixar fotografias/testemunhos que são memória dos dias partilhados, dos nossos encontros, dos nossos silêncios, das nossas vitórias, que uma equipa de combate entregou a Santarém, capital da Liberdade.
Sei que não podemos agradar a todos. E muitos se zangaram. Umas vezes justamente, Muitas vezes injustamente. Sei que alguns se recusam a ver a mudança que a cidade sofreu. A Vida cega-os e a ausência de tolerância e cultura cívica faz o resto. Mas sei por onde passo que é um mar de olhar amigo que vou cruzando porque nos entedemos e, juntos trabalhámos pelos nossos filhos. De todos levou saudades. Ao longo da página da facebook estou a colocar testemunhos. Fotografias onde muitas vezes aparece o 'antes' e os 'depois'. Assim como uma herança de paixão pelo belo e o bom que construímos. Convido-vos, pois, a viajar por estes dias, por essas paginas que são da nossa vida em comum, que partilhámos febrilmente ao longo de sete anos. Já vai grande a exposição. Irá ser maior.
Nunca tive da Política a ideia de que aqui se constrói o Caminho, a Verdade e a Vida. É um dominío que só pertence a Deus. Os Homens, o autênticos, que não se vendem pelo biblico prato de lentilhas, sabem que todos os dias erramos. E peço-vos desculpa por aqueles que cometi. E, sobretudo, preciso que saibam que este caminho andando, tem a confiança da História, e como repeti muitas vezes, regresso aos filhos e aos meus netos com o doce sabor de quem lhes honrei a memória do avô. Que os posso olhar com a tranquilidade do esforço, do trabalho e do sofrimento necessário para entregar a todos os filhos de todos os scalabitanos e a todos os netos um caminho pelo qual os que mais amo sabem andar com segurança.Sei que olharão Santarém e sabem que podem orgulhar do pai e do avô e de todos aqueles que com ele apostaram no futuro.
Vamos dizendo adeus aos poucos, até à despedida final. Até lá, contando nas páginas do www.facebook.com/moitaflores e clicando em 'Gosto' (para aceder à página) os caminhos que andámos juntos durante estes últimos sete anos. Bem hajam! Rerito-me devagar e abro a porta aos mais novos. Na verdade, é a eles que pertence o futuro. Um abraço comovido a todos! 

domingo, 6 de maio de 2012

À Minha Mãe, A Todas as Mães



Quero dar-te um beijo de bons dias, minha Mãe. E em ti, beijar todas as mães que no seu colo fecundo, nos ensinaram - a todos os filhos do mundo - a dimensão da ternura. Já passaram muitos anos desde a última vez que este beijo tinha flores e o teu sorriso. Esse sorriso de Mãe que brilha, que nos abraça e envolve num manto de ternura que era único em ti, ou pelo menos eu assim o sentia, e deverá ser assim que as mães da vida inteira, e de todas as vidas, olham os seus filhos. Hoje, disparo este beijo na direcção do céu. Sei que me espreitas por detrás de qualquer nuvem pois não conheço um instante da minha já longa vida em que não me tivesses espreitado preocupada. Mesmo se descobrisses a alegria, e era a minha alegria que procuravas sempre, esse olhar preocupava-se com os meus silêncios, com o meu olhar turvo, com a camisa que eu vestia. Com os meus sapatos.Mais tarde sobrecarregaste a tua preocupação já tão infinita com os olhares vigilantes sobre os meus filhos e teus netos e nunca percebi como pode uma Mãe, qualquer mãe, carregar essa intensidade de atenção para aqueles que são o amor das suas vidas e dão sentido ao seu nome - Mãe.Mesmo quando não existia motivos para a preocupação, ela era a tua profissão: amar com atenção.
Hoje evoca-se essa celebração do amor umbilical. Do amor que nunca é lamechas. Do amor que não é segredo mas é o colo onde segredamos sempre, sem medo, os nossos medos.Do amor que não se mata, nem morre, que não deseja, nem não deseja, como diria Pessoa,tão sem limites, tão infinito que perdoa mil lágrimas por um abraço, esquece todos os sofrimentos e caminhadas de sofrimento em troca de um gesto iluminado. Hoje celebra-se o amor inegociável. O amor sem património que não conta para o défice nem para as contas públicas. Que não existe noutro sítio que não seja no coração, na alma, nas pernas, nos braços, no peito, no corpo inteiro de todas as mães sem esperar outra dádiva, outra entrega, outra recompensa que não seja o bem estar de todos os filhos, das suas vitórias, alerta, de braços abertos até ao fim dos afectos para os albergar em cada derrota e em cada desconforto.
Hoje celebramos-te, minha mãe. Melhor dizendo, minhas mães, porque aí por perto de ti, deve estar a avó Luisa, a avó Elvira e todas as mães da minha vida que me ensinaram como se pode viver sempre com saudade. Por mais anos que passem, desde a partida de cada uma, esta saudade não parte. Os filhos deixam saudades. Vocês são a nossa saudade. Deixa-me partilhar este beijo com todas as mães com o sorriso igual ao teu. E dizer-te neste dia de celebração que todas vós, foram a âncora maior que nos agarrou á Vida e nos agarra á terra, a este cais onde labutamos até ao dia e hora que desconhecemos, em que nosso veleiro parte ao vosso encontro. Porque vocês são a Vida, não só biológica mas espiritualmente bela e debruada de grandeza. Quero dar-te um beijo de bons dias, minha Mãe. Agora, que já aqui não estás, que o teu veleiro partiu para lá das nuvens, não te posso dar flores. As flores que tanto amavas. Levá-las-ei comigo, no dia em que partir ao teu encontro e com elas regressar ao teu sorriso infinitamente quente com que me recebias nas horas de todos os regressos. Hoje celebra-se o dia da Mãe. De todas as mães. Se fizéssemos contas de contabilista, coisa agora muito na moda, e quiséssemos somar tanto amor celebrado, seríamos seguramente uma das Pátrias mais ricas do mundo. Infelizmente as economias não contabilizam afectos. Até os desprezam. Mas hoje é Dia tão grande que não há Troyca que consiga impôr o contrário. Porque a dádiva é dom materno e aí aprendemos os labirintos da felicidade desejada.
Fica escrito este beijo, minha Mãe. Para ti, com saudades, para todas as mães com afecto e gratidão.

sábado, 5 de maio de 2012

Pingo Doce, Pingo Hipócrita e Oeiras


Os 'saldos' no Pingo Doce puseram em delírio o meu pedaço de alma insurrecto. Foram um golpe promocional genial. Com consequências que, possívelmente, os seus criadores não contavam - esta discussão prolongada no tempo sobre a marca e a campanha nas suas cambiantes mais morais e, tipo serviço de INEM, socorrendo pelos argumentos, alguns deles bem medonhos, o 'ego' de uma certa esquerda que sente que se abriu uma grave e profunda crise na dimensão sagrada do 1º de Maio. É esta a relação que incomoda as reflexões. A sacralidade do Dia do Trabalhador foi ferida por um 'capitalista selvagem, neo-liberal, inimigo dos trabalhadores e, claramente, mancomunado com o Governo'. Vai ser dificl de explicar é que esteja envolvido no 'pacto de agressão' e no 'assalto' que estão a fazer ao bolso dos portugueses. Seja como for, esta operação não é inédita. Recordo-me que na inauguração de outros espaços grandes espaços comercias, os primeiros clientes a entrar são bafejados com ofertas de produtos, e, até, na Feira do Livro, existem editoras que têm uma promoção que 'convida a comprar três livros e leva quatro'. Não é pois o desconto que está em causa, nem o 'dumping', nem a violação de regras de mercado quando rebentou o coro de indignações contra os 'saldos' do Pingo Doce e cujos ecos não esgotam. Nem o facto da polícia ter sido chamada a 40 locais. Que se saiba, não existem presos, e chamadas para a Polícia são o pão nosso da própria Polícia a cada minuto na sua vida. Gerou-se desordem por uma simples razão: eram mais aqueles que queriam entrar do que era suportável pelo espaço e disponibilidade de produtos. Milhares de portugueses conseguiram em tempo tão agudo de crise realizar poupanças e equilibrar orçamentos familiares aflitos e outros milhares ficaram á espera, gritaram as suas palavras de ordem de indignação, possívelmente mais sentidas do que as das manifestações, e estarão atentos a próximas promoções que aliviem o conflito entre um mês que passa demasiadamente devagar e um salário que passa excessivamente depressa.
Portanto, o verdadeiro problema que revolve os intestinos intelectuais na ressaca do acontecimento é o facto dele decorrido no 1º de Maio. E começam a chover pingos de hipocrisia. Sobre os direitos dos trabalhadores do Pingo Doce que não puderam celebrar o seu dia(?) mas ignorando os direitos dos outros trabalhadores que, depois das manifestações lá estavam nos restaurantes, nos cafés, nos comboios, nos autocarros, nas bombas de gasolina a trabalhar no duro para saciar a fome e as necessidades de muitos que foram celebrar nas avenidas a legítima expectativa de dignificar as forças do trabalho. Como dizia Jerónimo de Sousa 'este Maio parece-me com mais gente do que o Maio do ano passado' e embora a 'Alameda cheia' no dizer do´líder da CGTP, não passasse de meia alameda, a verdade é que Maio se absolutiza no seu primeiro dia,memória histórica profunda de combate por direitos de cidadania e de trabalho, reprimido, clandestinizado, que apenas surgiu com todo o esplendor á luz da Liberdade saída do 25 de Abril. Aliás, o 1º de Maio de 1974 foi o dia legitimador do movimento militar que derrubou o anterior regime (ainda bem longe da realização de eleições democráticas e livres e que aí foram exigidas) e é natural que, para as gerações mais velhas, ainda tenha esse vínculo nostálgico fremente de utopias incorporadas subjectivamente na dimensão simbólica e histórica que forjou o Dia do Trabalhador. Foi a Liberdade que garantiu a força espectacular deste dia. Mas que essa esquerda conservadora sempre quis confiscar, transformá-la num processo de exclusão, onde não cabia quem não marchava, não grita as palavras de ordem, á ordem dos ditâmes e estratégias dos seus grupos mais militantes, com o PCP á cabeça. O que o Pingo Doce veio fazer, foi prova de um país livre, embora não fosse essa a intenção. Aproveitou a Liberdade para, com toda a legitimidade e risco, fazer uma operação de 'marketing' servindo consumidores aflitos, tão aflitos que não se importaram de correr riscos para poupar e dar algum conforto ás suas famílias. A Liberdade que usaram para escapar por um ou dois meses ás garras da malfadada crise que dilacera o país. Fizeram bem. Tal como fizeram bem aqueles que quiseram desfilar nas manifestações do 1º de maio. Tal como usaram a sua liberdade, outros milhões que fizeram outras coisas que não ir forçosamente á 'manif' ou ao Pingo Doce. Devo confessar que fiz parte deste último grupo. Nesse dia, reuni com o comité central da minha família próxima e li a simpática carta de convite para encabeçar a sua lista autárquica, que recebi da comissão concelhia do PSD de Oeiras.
A minha família foi sempre o meu Conselho de Estado. Com alguns velhos amigos á mistura. Alguns deles que se queixaram de faltar á 'manif' por minha causa. Outros que não me desculpam a convocatória quando o Pingo Doce esperava por eles. E discutimos horas á fio. Política e politiquice. As grandezas e misérias das idades já vencidas e dos grandes combates que todos sonhamos viver e dei por mim a pensar que afinal partilhávamos ali as mesmas expectativas existenciais que se ritualizam em cada 1º de Maio e fiquei com sensação de que marquei o encontro para o dia errado. Se tivesse sido na noite anterior, eu teria tido oportunidade de ir ao Pingo Doce comprar outro presunto e uma mão cheia de garrafas de tinto com 50% de desconto, pois o infeliz que estava em cima da mesa transformou-se num osso indigerível e as garrafas jazem mortas e arrefecem no vidrão. No próximo 1º de Maio vou á 'manif'. Protestar contra o meu Conselho de Estado que não sabe discutir política, nem dar opiniões sem desgraçar a vida de um presunto, que não teve culpa nenhuma do golpe de marketing da Jerónimo Martins.  Nem dos 'Maios' que cantam do Jerónimo de Sousa. Ao fim e ao cabo, vendo-se bem a coisa: tudo não passou de uma discussão entre Jerónimos.