segunda-feira, 16 de julho de 2012

Suspensão de Mandato e Politiquice

Vai fazer um ano que me foi diagnosticado um problema de divertículos e polipos intestinais. É daquelas doenças que não matam, se formos cautelosos, mas moem. Moem mesmo muito. Ao longo dos últimos nove meses tive três internamentos e períodos dificeis de convalescença. E tenho 59 anos.
Fui preparado numa escola - a PJ - que a doença não é coisa a que se ligue. Quando se trabalha e se vive numa brigada de assaltos á mão armada não há tempo para problemas de saúde. A não ser aqueles que ameaçam com a morte. Mas tenho 59 anos. Esse tempo já passou e a saúde precisa de cuidados que, confesso, não me habituei a ter, vivendo sempre no limite com toda a intensidade, sem olhar a horas nem a noite, nem a cansaços.Quem trabalhou comigo e me conhece , sabe que foi sempre assim. Ainda há poucos meses, saí do hospital directamente para uma Assembleia Municipal. Foi em Dezembro e não fui capaz de aguentar até ao fim. Saí desfalecido, semi-morto de cansaço e dores. Mas ainda assim, fui lá defender os projectos do executivo perante aquela velha retórica do simplismo que vê árvores mas mal lobriga a floresta.
Mas tenho 59 anos e a recuperação desta moléstia obriga a fugir do stress, ao recolhimento, á calma. Em dezembro percebi que não conseguia manter a pedalada que estava habituado desde os velhos tempos. Procurei abrandar e senti-me culpado por isso. Quem viveu 41 anos de serviço público com tanta intensidade não se reconhece quando desacelera. Embora tivesse entregue tudo a Santarém, incluindo este pedaço de saúde que me tem faltado, sentia-me mal. Pedi para me pagarem metade do ordenado. Eu jurei lealdade ás funções que me foram confiadas e sentia que essa lealdade passava por menor retribuição voluntária. Fosse mais cínico e teria continuado como se nada tivesse acontecido. Mas não chego a essa manjedoura da canalhice sem me repugnar. Na altura fui acusado das coisas mais disformes. Eu olho e vejo gente que não sabe o que é isso de viver no limite, longe do conforto, longe da preguiça, sem relógio, sem paixão pelo serviço público e percebo que para cabeças formatadas para essas regiões da modorra espiritual e intelectual seja incompreensível que alguém se voluntarie a perder metade do ordenado porque se sente mais frágil. Compreendo e desculpo. Não somos todos iguais e o império da fortuna manda mais do que qualquer bem espiritual, logo quem acredita noutros valores é importante que seja fustigado pela mediocridade. Aceitei esse castigo sem uma única palavra de protesto.
Mas tenho 59 anos e os médicos que me perseguem os passos, e fiquem a saber que a coisa mais chata do mundo é ter médicos a perseguir-nos os passos, dizem-me que ou abrando ou isto vai dar para o torto. E ameaçam que o torto pode ser muita coisa e nenhuma delas é boa. Abrando a velocidade durante uns tempos, a coisa recompõe-se, e há muita vida e muitos projectos para viver.
Foi neste contexto que chegou a minha reforma, que é menor que o ordenado de presidente da Câmara  mas suficiente para viver com a frugalidade com que se habituou a viver um velho polícia, e o honroso convite para, daqui a 16 meses. Ou seja daqui a mais de um ano, concorrer á Câmara de Oeiras.
Pensei com os meus botões que tinha chegado a altura de respeitar as indicações dos chatos dos médicos. Foram sete anos intensamente vividos e a minha saúde já não é o ferro e o aço de outros tempos. Chegou tempo de parar que 59 anos não pesam muito mas pesam o suficiente para pensarmos que a vida ainda tem muito para nos dar e para nós darmos. Por outro lado, tenho um romance entre mãos que procuro terminar e uma série televisiva para escrever. Sossegado. No abrigo da minha casa sem o tal stress que, garantem os clínicos, é o inimigo maior dos meus queridos divertículos.E disto fui sempre dando conta pública. Não escondi que estava prestes a tomar esta decisão. Basta consultar este blogue. 
Meti a suspensão do mandato e sei que hoje houve orgia na sessão de Câmara onde foi apresentado. Que isto é poeira para os olhos. Que isto é Oeiras (aquela rapaziada que quer ser opositora nem sabe quando são as eleições num calendário com mais de um ano de distância). Que isto é isto e mais aquilo e mais tantos disparates que auguro que se vão prolongar por uns dias.  Mas tenho 59 anos no BI mas de vida vivida julgo ter chegado á idade de Moisés. Talvez nem tanto. Mas que ando pelos 159 anos não tenho muitas dúvidas. Por isso, que escute o ruído com compaixão e com a mesma frontalidade que investi nos meus actos. E a mesma verdade. Não preciso de desculpas de mau pagador para assumir vitórias, derrotas e decisões dificeis. Esta foi difícil mas tenho 59 anos, uma filha com catorze, três netos fabulosos, e quero, preciso de viver mais um bom punhado de anos para os ver crescerem e serem felizes. E grandiosos no pensar. Bem longe das balelas ridículas que tenho de escutar.
Devo dizer que hoje estou contente. O meu neto Henrique faz oito anos e dei um bom avanço no meu romance. Que Deus nos proteja e proteja Santarém do ser e do pensar pequenino, velha e terrível herança da qual presumo que se libertou, pese o ruído e a vulgaridade de alguns dos seus mais activos arautos.