quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Evocação de um HOMEM - Vitor Gaspar


Vitor Gaspar era matemático. Professor. Quando o conheci, há nove,dez anos, era Presidente da Junta da Ribeira de Santarém, sendo um cidadão independente eleito pela CDU. Há um ano, faz precisamente hoje um ano, um enfarte fulminante arrebatou-o do mundo dos vivos.Tinha 44 anos e fui dolorosa testemunha dos seus últimos momentos de vida. Quando morreu, era vereador da Câmara de Santarém. Continuava a ser um vereador independente mas eleito nas listas do PSD. Tal como eu. A meu convite. Porque reconhecia nele a grandeza de autarca que não se encontra com facilidade por esse mundo do poder local. Um homem único, meu vizinho, que conheci antes das lides políticas, e que secundarizando as opções ideológicas, nos unia um profundo amor pelo conhecimento e pelo serviço público. Tornámo-nos amigos. Daqueles amigos com quem se partilham sonhos, obras, esperanças, derrotas, vitórias. Que nos respeitávamos nas diferenças e não temíamos a discussão frontal das nossas opções de vida. Ficarão gravadas na minha memória até ao último dia da minha existência as nossas infindáveis discussões sobre o seu infinito matemático e o meu infinito existencial, assim como o prazer pela música que partilhávamos, pelas viagens cúmplices pela vida, discutindo projectos e construindo outros. Já era chefe de divisão na autarquia de Santarém, a meu convite, quando organizou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Um exemplo de entrega, serviço público, paixão á causa do povo que servia e do País. Passámos noites de insónia e de trabalho. Trabalhador incansável (uma ou outra das suas falsas viúvas que o choram em espectáculo, nunca aprenderam esse valor sagrado do trabalho que era o deus maior do Vitor, e ficaram-se na preguiça gemendo saudades mas ignorando exemplos), fraterno, íntegro, é um vazio imenso dentro de mim e na minha vida. 
Passado um ano evoco-o como o Amigo que nunca parte. Evoco esta memória de exemplaridade cívica, de serviço público, de dedicação ás suas gentes, de grandeza interior que os mais pequeninos que usam o poder em proveito próprio, por certo, hoje o lembram á força para dele se apropriarem após a sua morte. Por mais homenagens que lhe sejam feitas, não é recordando a sua morte que se exalta este HOMEM. É evocando a sua vida íntegra, solidária, vertical, valente e apaixonado pelo seu povo. O Homem que desprezava a pequenez e a mediocridade, que exaltava e não traía os valores da amizade, da solidariedade e da boa educação. Creio que muitos daqueles que o evocam não conhecem nada disto, não sabem o que é ser amigo, solidário e, até, bem educado. A fantochada do poder pelo poder, da ambição disfarçada de sorrisos ambíguos, as lágrimas do espectáculo que não chegam do coração, nada disto substitui a memória simples deste homem simples, fraterno e digno, que tive orgulho em conhecer, a felicidade de com ele ter trabalhado e  a alegria infinita de habitar o canto mais terno da minha memória onde guardo todos aqueles que sendo belos, bons e grandes, dedicaram a sua vida até ao limite aos outros, para bem de muitos e para memória exemplar de vindouros. Até sempre, Vitor!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O Poder e a Fraqueza

Deter o Poder, seja porque foi eleito, seja porque lhe foi delegado, não é condição de força, nem de autoridade. A força e a autoridade assentam na razão, nas convicções humanistas que servem que serve a causa pública. A força imposta e autoritária nunca é fonte de saber e de decisão. Nem de acção política com grandeza. É o maior sinal de fraqueza, o sinal do medo, a incompetência para servir. É servir-se. Servir os projectos pessoais e colocá-los ao serviço de ódios pessoais, de ambições pessoais, de retaliações pessoais. É o Poder ao serviço do egoísmo.Do exercício despótico do poder pessoal. É o verdadeiro lixo político que domina grande parte da vida pública do país. Que enoja pela desumanidade, que causa repulsa pela desumanidade, que provoca vómito pela mediocridade absoluta. Nenhum líder que jura servir pode transformar esse poder que lhe foi conferido para a discricionariedade, para o uso abusivo da arbitrariedade, para violar direitos de cidadania. Sobretudo quando se trata daqueles que servem a mesma causa comum que é o serviço á comunidade. Quando a política chega a este patamar de enxúndia, gordurosa e mediocre ilustra, não a política, mas a fraqueza de quem a usa para esconder a sua propria mediocridade. Dou um exemplo. Ontem dois quadros superiores foram despedidos. Não se lhe explicou porque o foram. Não se lhes uma explicação. Não se lhes deu tempo para reorganizarem as suas vidas. Gente com prestígio curricular e trabalho sério e honrado. Tratados como se fossem cães vadios. Decisão tão arbitraria quanto cruel. Que não fala sobre os despedidos. Diz tudo sobre quem brutalmente o decidiu sem olhar a condições de dignidade humana. É este o caminho de quem usa o Poder para o arbítrio e para a pesporrência. Os medíocres adoram estar rodeados de medíocres. Temem os homens superiores e com qualidade. E isto faz a grande diferença entre servir a Política com nobreza e alteridade ou torná-la no covil da maior miséria moral.Que Deus lhes perdoe a bestialidade.