sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Alcanede e o cheiro da Despedida

Estou cansado, e quando estou assim,a insónia é mais forte. Preciso de dormir, que há um mês que não conheço um dia de descanso, mas tenho Alcanede junto do coração. Hoje inaugurámos lá o primeiro Centro Escolar, uma unidade fabulosa de ensino e soube a mel ver a felicidade de tantas crianças, dos professores, dos pais, dos funcionários.Confesso esta emoção - a escola.Talvez porque toda a vida fui estudante-trabalhador, facto que não me deixou gozar as minhas escolas com o prazer que vi hoje no olhar daqueles meninos.Nos próximos dois anos vamos terminar mais centros escolares. O próximo já para a Páscoa.10 milhões de euros de investimento. Eu sei que para as lideranças políticas do concelho isto pouco importa. Nem um deputado comunista, nem um vereador ou um deputado socialista testemunharam aquele sol de felicidade. Não quiseram saber. Preferem o rodriguinho das conversas vãs e inócuas.
Mas hoje também faz um ano que tomámos posse à frente da Câmara de Santarém. Dei comigo a fazer balanços e, de repente, percebi que depois da inauguração do quarto centro escolar estou de partida.Não me recandidato, devo deixar espaço para que os próximos candidatos ganhem espaço. O poder não é apenas uma forma de servir até ao tutano dos ossos, é saber sair com lealdade para que os destinos se cumpram.E hoje mesmo, cercado daquelas crianças que vão marcar a minha memória, decidi o dia da saída. Depois das festas da cidade de Santarém de dois mil e treze.Ficam nove meses para que os furturos candidatos se imponham. E estando longe, pois faltam dois anos, já está perto. E hoje, no balanço do tempo de mandato, pela reviravolta que demos naquele concelho. Tanta escola arranjada, tanto refeitório e parques de brincar, tantos cuidados com os nossos putos. E, ainda,tanta obra em marcha. O Mercado Municipal, o Matadouro, o Conservatório de Música, o rejuvenescimento de todo o espaço público, a cidade cheia de gente, Santarém, capital da Liberdade e tornada uma referência do país. Este ano, embora duro, foi farto. Inaugurámos a primeira fase do jardim da Liberdade, recolhemos valores inimagináveis de fundos comunitários que permitem mais requalificações do centro histórico, da zona ribeirinha, da conclusão do saneamento que passa de 64 % para 93% de cobertura. Mesmo dando de barato os velhos do Restelo, não há dúvidas que Santarém renasceu para o palco das grandes urbes, reconhecida no país e no estrangeiro.Não estou satisfeito mas estou tão tranquilo. Saltámos da obscuridade para a luz do sol. Mas ainda falta tanto para caminhar. A cidade desportiva está à espera de arrancar. As novas vias para Alcanede e Amiais esperam que esta medonha crise nos garanta melhores dias, a zona ribeirinha precisa de solução e esperamos o desvio da linha. Não sei se vou ter tempo para tudo. Com a gravidade da situação do país, tenho dúvidas. Falta a Fundação da Liberdade. E essa será a chave d'oiro dos projectos realizados.Estará a funcionar quando eu partir.No próximo mês sai o meu livro de contos juvenis. Preparo o meu próximo romance para Junho. De repente comecei a escrever mais. Assim como se uma força interior me empurrasse para a minha antiga vida.Da qual tenho saudades, confesso. Talvez esta nostalgia se deva ao facto de celebrar hoje um ano de mandato.Talvez seja só isso.Porque em cada dia que passa reconheço e admiro a generosidade dos escalabitanos anónimos. A sua capacidade de entrega, a sua capacidade para ser feliz.Não percebo como gente tão bondosa pode ter produzido élites políticas tão vulgares. Se calhar por isso mesmo.Há quem confunda a corte de intriguistas da cidade, de frustrados, de gente sem rumo que não é capaz de se desafiar. Mas é injusto confundir uma dúzia de cínicos e amorais com ,milhares de pessoas que se entream generosamente à luta pela vida e pelos seus. Eu vi hoje a alegria límpida dos pais daqueles putos de Alcanede. Dos professores, dos funcionários. Vou ter saudades desta gente grande, simples e boa.Vou ter saudades! O sentimento que nasceu do romantismo mais profundo. E é bom ter saudades. Do convento de S.Francisco, da gloriosa gesta do 10 de Junho, da grande vaga de apoio à defesa dos direitos dos Homens e dos Animais.À defesa dos Rios, onde hoje construímos quatro grandes Etar's para dar saúde ao Alviela.
Já sabia, mas hoje sei melhor, que sou um mau político. Não sei fazer as coisas sem ser apaixonado. E a política requer calculismo e algum medo. E Deus não me deu essa virtude de ter medo.Sei que esta entrega apaixonada aos projectos, às obras, às pessoas desgasta até ao coração da alma. E estou desgastado. Basta comparar as fotografias de há uns anos atrás.Mas parto tranquilo. Dei tudo o que tinha a este serviço público. Nunca ficou nada de fora, mesmo na hora dos maiores insultos.
Hoje foi dia grande. Daqueles que se guardam para sempre. E o sinal de que a partida está para breve. Cedendo o passo a outros, possívelmente com mais talento, para gerir Santarém. Como diria o Sérgio Godinho, hoje foi o primeiro dia do punhado de meses que são o resto da minha vida à frente dos destinos de Santarém. Ja falta pouco para o abraço de despedida.Abraço quente e amigo aos milhares de amigos espalhados pela cidade e pelas vilas e pelas aldeias.Abraço quente, sem cravar punhal nas costas. Abraço doce que sabe ao prazer de ajudarmos quem mais precisa.Minha doce Santarém, como estás a ficar linha, minha amiga!

1 comentário:

  1. Caro Moita não sou de Santarém mas tive a sorte de encontrar na vida um escalabitano! Essa agora também é mais uma cidade minha, afinal de contas somos todos habitantes do mundo e podemos adoptar as cidades que conseguirmos. Parabéns pelo seu trabalho que acredito que seja de coração!! Tanto em tão pouco tempo (sim porque dois mandatos são de facto pouco tempo) Agora Santarém é uma cidade onde apetece estar... Fica a pena de não se recandidatar pois é uma cidade com tanto potencial onde só alguém que não seja um político profissional poderá fazer um excelente trabalho com o Sr o fez! Vestir de facto a camisola pelas pessoas e não pelo interesses pessoais e comodismos políticos é de louvar. Os resultados estão à vista!! O país precisava assim de uma "lavadela de cara" de "fio a pavio". Parabéns mais uma vez e um muito obrigada.

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