sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As Indignações do PS de Santarém

Não sei se é assim noutras autarquias. Em Santarém vivo esta angústia. Falar, escrever ou argumentar perante a pequena comunidade política local foi sempre um desafio que não venci. Reconheço que não arrecado aí nem uma única vitória. Vim de um ambiente universitário exigente, onde a polémica, a discussão viva era obrigatóriamente um acto de inteligência pública. E também tenho na memória o tempo em que fui investigador criminal onde a crueza, e a firmeza, das palavras era usada para desvendar crimes. Mas não para insultar.Tenho uma carreira como escritor que não me envergonha, qualquer das minhas obras é objecto de edições e mais edições, estou traduzido em várias línguas, publicado em vários países, premiado pelo meu trabalho, quer como escritor quer como autarca, aqui e no estrangeiro, escrevo há mais de vinte anos em jornais de dimensão nacional, participei em centenas de debates televisivos, radiofónicos, em colóquios, em conferências, em Portugal e por esse mundo fora, argui teses e fui objecto de arguição em várias universidades. Discussões, por vezes, muito rijas, onde as palavras eram atiradas como pedras e onde a capacidade de argumentar e contra-argumentar podia recorrer livremente à metáfora, á antinomia, à hipérbole sem que alguém se ofendesse com alguém. Discuti com catedráticos, tive polémicas com grandes nomes da cultura, nunca senti no limite do limite dos argumentários. Na pequena comunidade política de Santarém é recorrente a crítica de que sou mal educado! Sobretudo o grupo dirigente do PS aponta sempre para esta conclusão definitiva: esta discussão é insuportável porque o presidente da Câmara é malcriado.Ponto final! Aos 57 anos fui classificado como o pior da turma. Mas isto não é o pior. O pior, e é terrível, é que os argumentos passam distorcidos para outras áreas do conhecimento. Durante muito tempo, julguei que essa distorção se devia à falta de escrúpulos e ao populismo barato. Mas não é. É muito pior. Eu explico com um exemplo:A última indignação teve a ver com uma discussão sobre conceitos de cidades competitivas.O PS de Santarém votou contra tudo aquilo que trazia inovação. Contra os espaços públicos renovados, contra a Fundação da Liberdade, desprezaram a conquista do Convento de S. Francisco, ignoraram deliberadamente toda a reconversão do parque escolar, a recuperação de património, etc. Numa intervenção que fiz, tendo em conta esta má vontade contra as novas cidades, comparei em termos metafóricos, as velhas cidades nascidas da revolução industrial e da concentração urbana com as novas cidades competitivas e do conhecimento. Tendo aprendido a lição que citar autores clássicos que estudaram as cidades seria o mesmo que estar a falar de metafísica, decidi usar outras expressões. Falei da velha cidade-fortaleza, da cidade-fortim, da cidade das cavalariças e das estrebarias e a nova cidade do espaço público, do conhecimento, sustentável. Quis fazer o contraste entre dois modelos de cidade. A cidade oitocentista e a cidade do séc. XXI. Entre a pólis herdada do romantismo e a nova cidade que para além de um tópus é, também, utopia. Que percebeu os meu grupinho de PS's? Que esta discussão não era sobre modelos e que eu afirmava que Santarém gostava de viver em cavalariças e vacarias. Não é má fé esta interpretação. Se o fosse, bastaria para circunscrever isto aos processos de vilania associados às lutas internas e externas pelo poder. Mas é ainda mais grave. Percebi que o grupo dirigente do PS não percebe.Não é porque não queira. Não é capaz. Estou vencido. A partir de agora vou falar como explico matemática à minha filha. A coisa passa a ser básica e simples, não molestam ninguém com intrigas e pronto!Afinal de contas, a preocupação deles nem é a cidade, nem o futuro. Apenas o tacho que o partido lhes pode arranjar. E eu deixo de ser malcriado! Fica para depois, com outra gente, uma boa polémica sobre modelos de cidades e Santarém não pára por estas ondas mais ou menos furiosas de ignorância voluntária.

2 comentários:

  1. " Há sem dúvida quem não queira nada.."(Alvaro de Campos). Mas o Senhor tal como eu, tal como outros que estão para servir e tal como Alvaro de Campos.. " porque eu amo infinitamente o finito,Porque eu desejo impossívelmente o possível, Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser".
    A história de Santarém falará mais alto e o Senhor está irremediavelmente no lugar de destaque que merece.Estou e muitos outros estamos ao seu lado neste combate pelo progresso e pelo bem estar.
    Nuno Alves Ferreira

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  2. "...y en un rincón vivir con la vitoria
    de sí, puesto el querer tan sólo adonde
    es premio el mismo Dios de lo servido. ..."
    Francisco de Aldana.

    Aqui há tempos,caro Moita Flores,desejei-lhe boa sorte para a "empresa" de dirigir a velha e "nossa" Santarém.Foi na apresentação do seu livro "A Fúria das Vinhas", superiormente apresentado por Laborinho Lúcio. Acho que,ao fim de tantos anos e vereações,Santarém finalmente "acertou". Que continue e desde já,daqui deste "deserto" (moro em Almada),conte com o que este escalabitano desenraízado mas saudoso possa ajudar.

    Oh Nuno Alves Ferreira, pois tu agora és o "presidente da junta !!??" Com amizade e um grande abraço do Fernando Antolin (Fanas !! )

    11 de Outubro de 2010 10:42

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