sábado, 9 de outubro de 2010

Pessoa na pele de Álvaro de Campos (às verborreias de ontem à noite)

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada;
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das coisas inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma
Os amores intensos por um suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço.
Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito
Há sem dúvida quem deseje o impossível
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito
Porque eu desejo impossívelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um poucos mais, se puder ser
Ou até, se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada
Para eles o sonho sonhado ou vivido
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, profundo,
E, ah com que felicidade, um infecundo cansaço,
Um supremíssimo cansaço, ´
Issimo, issimo, issimo. Cansaço...

1 comentário:

  1. Creio haver uma gralha no verso: Porque eu quero tudo, ou um pouco(s) mais, se puder ser - ou é mesmo assim?

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