sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As Horas e os Dias II


Segunda feira acordou fria. Uma aragem gélida varre a praça do Municipio e arrasta as folhas secas que se desprendem das águas sequiosas. Temo que os danos materiais da crise sejam agravados por esta crise meteorológica que traz frio mas afastou a chuva. A seca começa a ser uma ameaça séria e só Março e Abril nos trazem esperança. Os campos, os animais, as cidades necessitam de água como pão para a boca. E começa a ser tarde quando as notícias já nos informam de barragens com menos de 50% de armazenamento. É sobre água o comunicado do PS de Santarém que um dos vereadores me entrega de manhã. A eterna lengalenga de saudade sobre as Águas do Ribatejo, o mesmo sentido de traição em relação a Santarém e ao seu património. Um património que queriam alienar por tuta e meia tendo compensação fundos comunitários e uns trocos. Santarém ficou com o património, recolheu os fundos comunitários, consolidou a obra de saneamento, estrutural e estruturante e nem uma palavra de gratidão pela cidade e pelo concelho que juraram defender e servir. Nem uma! Ao serviço do Partido antes de qualquer interesse. Ao serviço dos designios pessoais antes de qualquer juramento. E como a banalidade é que dá boa conversa, vá de comunicar banalidades sem um pingo de sensatez. E muito menos de boa fé.
A reunião de Câmara correu normalmente.Durante a tarde decorrem as reuniões da agenda. Ainda recebo os presidentes de Vaqueiros e de Stª Iria que me apresentam abaixos-assinados contra a extinção das suas freguesias e pressinto que esta resistência vai continuar sem que se debata a fundo como fazer esta reforma sem ser imposta pelo Governo. Fico a saber que a comissão eleita pela Assembleia Municipal só ainda reuniu uma vez e dizem-me que o líder concelhio do PS, que lidera o grupo socialista, apresentou escusa da comissão. De facto, a retórica e o maldizer é bem mais fácil do que o trabalho sério de reflexão sobre a organização administrativa do concelho. Veremos no fim como estridem os gritos de protesto contra qualquer reforma ou qualquer alteração. Nos panfletos e nos protestos é que está a mais valia da política. Julgam eles.  
Recebo o sms da Alberta Marques Fernandes. Hoje, no Justiça Cega vamos discutir o Mapa Judiciário. Não tive tempo para terminar a leitura. São mais de trezentas páginas. Centro-me nas linhas mestras da reforma. Sinto, e penso, que o país tem demorado nestas reformas - autarquias e comarcas - adiando eternamente decisões. Duas delas são precisamente estas. Por cada dia que passam, degradam a funcionalidade da Justiça e não actualizam as competências territoriais do municípios, acrescentando-lhe escala e competitividade. Reformas sempre adiadas. Desde o tempo em que não havia metrópoles e os conceitos de organização da pólis ainda se fundavam nas teoréticas de Max Weber. Mesmo com os movimentos migratórios e as alterações demográficas enfiando-se pelos olhos dentro, com as novas reconfigurações urbanísticas e funcionais das cidades alterando centros e territorialidades.
Terça feira, o dia começa bem. Começou a ser construída a rosácea do convento de S. Francisco, oferecida, por mecenato, pelo Montepio. Está marcado o assentamento para 10 de Junho. Recebo o Dr. Conde Rodrigues. Não o via desde que foi Secretário de Estado.Gostei de o ver. É uma pena ter abandonado a vida política. É um homem de valor. A minha filha Matilde telefona-me. Vai entrar nas Olímpiadas da Química. É uma excelente ideia esta. Depois das Olimpíadas da Matemática, surgem as da Física-Química. Mobilizar os putos em torno da aprendizagem e do conhecimento, entregando-lhes passatempos úteis, é um projecto que tem vindo a fazer o seu caminho.Não tenho dúvidas que é a aposta mais séria no futuro: aprender, saber mais, conhecer mais nunca abandonado o caminho da solidariedade. Um caminho que hoje não tem norte. Crivado por angústias, ressabiamentos, amarguras. São os putos que vão salvar o país deste estado de espírito espúrio. O Comandante da GNR apresenta o novo dispositvo de policamento de proximidade. São sete horas da tarde. No salão nobre da autarquia expõe os principios metodológicos aos presidentes de Junta de Freguesia de Alcanede, de Tremez, do Vale de Santarém, da Póvoa da Isenta, de Almoster, de Alcanhões. É um modelo simples e eficaz que recebe o apoio de todos eles. Fico satisfeito por ver gente implicada no serviço público sem vontade de complicar. Quer as Juntas quer a GNR. Espero que os resultados sejam bons. O despacho persegue-me. Ainda falta dois montes de papel. São quase 21 horas quando me despeço do Vitor Varejão á porta do Palácio do Provedor das Lezírias. O frio continua a roer nos ossos e espera-se agravamento da situação. Sem chuva. Hoje vou agarrar-me ao meu filme 'A Festa'. Comecei e recomecei no fim de semana. Não batia certo. Á terceira tentativa arrancou. Esta noite dou-lhe um avanço grande. O meu romance sobre Luisa de Gusmão continua a olhar para mim. Mas o padre António Vieira, que entra na história, delicia-me. É um dos grandes mestres da nossa Língua. Lê-lo é um vício e uma grande aula de Português.
4ª feira - Dormi pouco. Talvez perto de quatro horas. Envolvi-me com o filme e não descolava. Saíram-me 15 cenas bem esgalhadas. No próximo ataque, fica despachado. Ainda bem que o café não faz mal ao intestino grosso e aos seus padecimentos. O vereador João Leite acaba de me informar que vai ser candidato a coordenador nacional dos jovens autarcas do PSD. Agrada-me a notícia mas não me surpeende. O João tornou-se num grande vereador, reconhecido dentro e fora do conselho. Este reconhecimento nacional que vai receber entre os seus pares é merecido. Almoço na Assembleia da República com o deputado Nuno Serra. Cumprimento muitas caras conhecidas. Algumas que não via há anos. Á nossa frente almoça a deputada Idália Serrão com o filho. Está um matulão. Os putos quando desatam a crescer, parece que são objecto de uma explosão que os estica em poucos meses. Cumprimento-a. No fim do almoço vem despedir-se e, a brincar, atiro: Temos estado a preparar a campanha contra si à Câmara de Santarém. Ela responde com humor e afasta-se. A verdade é que há necessidade de discutir a reforma administrativa do país e do concelho. Trabalhou-se bem. Dei os parabéns ao Nuno Serra pela recandidatura á Comissão Política do PSD. Outra das grandes mais valias, trabalhador e determinado, que se tem formado em Santarém. E regresso á cidade. Tenho reunião com os vereadores e funcionários superiores da autarquia. É dia de ponto da situação sobre os trabalhos da edilidade. Corre bem. Há trabalho bom em desenvolvimento. As escolas estão todas já equipadas com quadros interactivos, um salto qualitativo para aprendizagem dos miúdos. É uma verdadeira revolução no concelho.Todo o trabalho que podíamos fazer sobre as barreiras de Santarém, está pronto.Basta agora que o Governo queira avançar. E devia aproveitar os fundos comunitários. Ou consolida agora as barreiras com dinheiro europeu ou então...só quando houver mesmo uma tragédia. Preparo depois a reunião que vou ter no dia seguinte no Ministério da Justiça. É com o Secretário de Estado. Os tribunais continuam, agora, com mais vigor já que a Reforma do Mapa Judiciário está na rua. Tenho uma afinidade com ele. Fomos os dois condecorados no mesmo 10 de Junho pelo senhor Presidente da República. Um momento da nossa vida que ninguém esquece. E é um bom homem. Sério. Cauteloso. Preparo-me bem e vou para casa. Deixo o Varejão com a família que o foi buscar á Câmara. Passa das oito da noite e o filho mais novo, o Zé Pedro, um reguila de palmo e meio, brinca e corre indiferente ao frio. Tenho de estudar História com a Matilde.  E estou motivado para terminar o filme para a RTP. Não sinto a insónia da noite anterior. Vai ser outra madrugada.
5º feira - Terminei o filme ia para as 3,30 da manhã. Não conseguia largar. Os diálogos saltavam naturalmente. Quando as personagens começam a pedir acções, o escritor perde o comando do psicodrama. São elas que comandam. Nessa altura deixámos de ser autores. Passamos a encarregados de educação dos personagens. É o climax de uma narrativa. A tensão que se gera entre quem escreve e é escrito. Hoje vou revê-lo. Corrigir e enviar. Ficou pronto.
Duas reuniões de manhã. São  nove horas quando sei que o projecto de consolidação da igreja de Stº Iria está pronto. É preciso dar andamento áquela obra antes que um dos mais monumentais mosiacos de azulejaria do país caia por terra. Foram décadas de desleixo com a igreja a afundar-se. Chegou a hora. O IGespar aprovou. Liga-me o antigo Presidente Paulo Caldas. Quer saber da minha saúde e dar dois dedos de conversa. Está no banco. A trabalhar e, como depreendi, com prazer. Marcámos almoço para a próxima semana. Almoço, é como quem diz. Arremedo de almoço. Amanhã é dia de TAC e sei que vai correr mal.
A reunião com o Secretário de Estado foi amena e construtiva. Preencheu a tarde e umas boas horas de discussão. Que ficou a meio. Vai continuar em Santarém, ainda este mês, durante a visita que vem fazer ás obras dos tribunais.    São quase seis horas da tarde quando saio do Ministério. O Tejo está crispado pelo vento raso que gela quem atravessa o Terreiro do Paço. E encontro o Eduardo! Velho companheiro de faculdade que me anuncia a reforma. Há quanto tempo não via este companheirão!? especialista em múltiplas quando fazíamos totobolas a meias. Celebramos a reforma dele e o reencontro com um café no Martinho da Arcada. É sempre como um regresso a casa quando aqui entro. Os pastéis de nata fofos, caseiros. A omnipresença de Fernando Pessoa. A amabilidade de sempre dos funcionários, velhos amigos, passageiros comuns de encontros e desencontros que apaioaram tertúlias, conferencias e debates. Despeço-me do Eduardo. Comprou casa no Algarve e vai gozar a reforma para bem longe dos quase quarente anos de trabalhos e problemas. Que Deus lhe dê saúde e imaginação para as suas apostas múltiplas que continua a fazer.
O cansaço rói-me os ossos. Decidi que revejo o filme amanhã. Preciso de dormir. Levo as cartas de António Vieira para a cama. Sei que amanhã é um dia duro.
6ª feira - Já é a terceira vez que faço esta TAC.Deixa-me de rastos. Não por causa do exame, que não passa de um mero exame radiológico, mas por causa do contraste. Cinco copos enormes daquele líquido sabendo a aniz que se bebe em meia hora e depois nos passar o dia com vómitos, desfeito do estômago, desfeito da prostração, enjoado, desfeito em papas. Sem forças. Sem energia. É a razão pela qual as minhas horas e o meus dias vão ficar por aqui.   


1 comentário:

  1. Boa noite!
    Não posso deixar de repor a verdade dos factos, uma vez que me dizem respeito. O líder concelhio do PS e que lidera o grupo socialista, que sou eu, nunca fez parte da Comissão Municipal para estudo da Extinção, Fusão e Criação de freguesias. Só poderia pedir escusa de algo se fosse seu membro. Nunca foi membro nem sequer indicado para essa Comissão Municipal. Fui sim, e com orgulho, proponente da criação dessa comissão, pois entendo que deve ser debatida localmente. O que sempre afirmei é que o PS indicaria o seu membro, e foi o que fez. Não faltaria mais nada que o PS, ou outra qualquer força politica, tomasse decisões de acordo com a presunção de terceiros e que nada têm a ver com essas decisões. Repito, não pedi escusa absolutamente de nada e este será um debate no qual participarei activamente.
    Os meus Cumprimentos
    Carlos Nestal

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