quarta-feira, 28 de março de 2012

Tribunal Nacional da Concorrência em Santarém: feito de pedras e sonhos



De quantas pedras se faz um sonho? De quantos olhares e cansaços? De quantas memórias? De quantos silêncios e canseiras? Hoje lembro-me de ti, António Gedeão. Tu que nos ensinaste que o sonho comanda a vida. Que os sonhos podem trazer no útero, oiro, canela e marfim. E pára raios e locomotivas. E tudo aquilo que uma nau feita de sonhos pode abarcar quando a vontade é maior que todas as tempestades a que ela aproa. Os Tribunais começaram a chegar á antiga Escola Prática de Cavalaria. Vindos do dia em que uma decisão tonta mandou de Santarém partir soldados para Abrantes. Como se fosse uma raivinha de dentes de ressabiados porque, um outro dia, bem mais luminoso por sinal, os mesmos soldadinhos, liderados por capitães, dali saíram para Lisboa para nos entregar a cidadania e a liberdade. Nesse dia do disparate, enquanto as tropas de Cavalaria se despediam de Santarém, sabes, Gedeão, que foi jurado este sonho. Este sonho de fazer renascer as pedras dessa enorma praça da liberdade que ficou tão vazia, tão silenciosa, habitada pela solidão, olhando nostálgica a torre esguia de louvor a S. Bernardo. Eu sei que o sonho comanda a vida.Faço parte do grupo dos crentes. E sei que o mundo pula e avança cada vez que nós sonhamos e, aqui, deu o primeiro grande salto com a requalificação do convento de S. Francisco. Essa jóia que se transformara em lixo. E agora cintila, chamando gente, que sonha, vinda de todas as partes do país e, agora mesmo, Gedeão, neste dia, o sonho ganhou mais pedras e estendeu-se ao colo da ex-EPC, acrescentando vida á vida, entreabrindo novas portas ao novo futuro de justiça e cidadania que ali se revela. Mesmo em frente á parada Chaimite. Á parada militar onde o nosso capitão abriu a fonte da liberdade e deixou as águas escorrerem, libertas, por todas as ruas e praças do nosso país.
Pouco importam, hoje, António, os gemidos ressabiados dos velhos de todos os Restelos, rosnando rancores e venenos. Pouco importa tudo aquilo que não é sonho feito de pedras e com esperança no olhar. Tal como 'esta pedra cinzenta/ em que me sento e descanso' escutando o 'ribeiro manso' que passou por todos os dias andados, feitos de combates, de negociações, de avanços, de recuos, de medos, de coragens, de tudo aquilo que uma pessoa pode viver e não conta porque sabe bem acarinhar memórias ao colo e deixar que o ribeiro se liberte 'em sereno sobressalto'. A ex-EPC torna-se cada vez mais EPC (Escola Prática do Conhecimento) e anda. Anda sempre como aquela nau de sonhos feitos, transformando cada pedra num caminho que se abre ao futuro. Sim, ao futuro, digo bem. Áqueles que por aqui voltarem a passar e perceberem, tal como nos ensinante, Gedeão, que quando queremos, quando sonhamos, quando aceitamos os riscos dos temporais, chegamos sempre sãos, salvos e prontos para outras viagens ao porto em que o 'mundo pula e avança/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança' - a este coração de Santarém que de novo pulsa para a vida.  

2 comentários:

  1. O homem sonha e a obra nasce... É isto que conta companheiro. A obra que perdurá nos tempos e não as entrevistas publicadas, a pessoas amuadas porque lhe "mexeram no queijo"
    Um abraço

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  2. "Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite." Edgar Poe
    Um abraço amigo! SM

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