domingo, 4 de março de 2012

As Horas e os Dias


2ª feira - A manhã começa com a reunião da Câmara.Decorre em ambiente ameno e electrónicamente complicado. Há três anos desmaterializámos estas reuniões. Na altura fizeram-se contas e representavam um número astronómico de toneladas de papel que todos os anos eram consumidos nestas sessões. A alternativa seria colocar todos os vereadores em rede informática e desvincular os debates do papel e passar a fazê-los via intranet. Foi uma boa aposta. O trabalho tornou-se mais produtivo, a leitura dos documentos mais fácil e acelerou a eficácia. Desde que não acontecem os desnortes informáticos, caprichos e mistérios que tornam os computadores preguiçosos, malcriados porque não respondem ás teclas e lentos, gozões, brincando com a nossa ignorância. Particularmente com o meu analfabetismo estrutural no que respeita aos segredos da informática.E é sempre com um espanto de admiração que vejo o técnico chegar, fazer uma clique num item que jamais eu encontraria e, de repente, tudo ficar a funcionar como um relógio suiço. Na verdade, o computador é uma ferramenta extraordinária, até muito simples, mas cujo nível de amizade está muito relacionada com a idade do utilizador. Venho de um tempo antigo em que a máquina de dactilografar era a rainha soberana de todas as secretárias. Aliás, no meu curso de investigação criminal era disciplina obrigatória ao lado do Código Penal, da Criminologia e da Medicina Legal. Agora é peça de museu. Por vezes, dou comigo a medir o tempo conforme as máquinas. A minha adolescência e juventude foi regida sob os auspícios da máquina de dactilografar mecânica. Quando entrei para a PJ, para além do crachá, da pistola e das algemas, era o utensílio decisivo. Naquele tempo, o único computador, uma coisa enorme que processava vencimentos, habitava um cubículo, tipo santuário, onde se entrava com cartão codificado. Ali residia a grande máquina que por artes extraordinárias realizava o trabalho de não sei quantos funcionários. E democratizou-se o upgrade da máquina de dactilografar uns anos depois. Era eléctrica. Tinha corretor de erros, era mais suave e mais rápida e olhávamos para ela, maravilhados com os avanços da tecnologia. Mal sabíamos que tinha hora marcada para o funeral. Estava para breve a irrupção dos computadores.Cada vez mais pequenos, cada vez menos distantes e frios, em multiplicação rápida como células reprodutoras de coelhos. Perderam a dimensão sacral e rápidamente entraram na vulgaridade. Uma banalidade quando chegaram os portáteis e cada vez mais substitutos da memória humana.Esta verdadeira revolução vinculou-nos á máquina. Ela é arquivo, testemunho, biblioteca, fonoteca, videoteca, uma verdadeira dependência.E tornou-se a nossa circunstãncia essencial. Sobretudo quando chegou o telemóvel com as hiperligações á rede informática.
3ª feira - As reuniões do costume. Uma delas importantíssima com a equipa que está a desenhar o novo PDM. Espera-se que o trabalho esteja pronto no final do ano e, assim, acabar de vez com o pesadelo que é o planeamento do território em Santarém. Existem dois momentos decisivos para o não arranque de um desenvolvimento sustentado do concelho. O primeiro acontece nos inícios da década de 60 do século passado, durante o acelerado processo de industrialização em torno de Lisboa, forças dominantes resistiram á chegada das novas fábricas. Temia-se a migração do proletariado rural, com mão de obra barata, para as novas unidades industriais, depauperando os campos. Esses níveis de resistência abriram as portas para a concentração na peninsula de Setúbal. E a uma perversão: os campos foram mesmo abandonados e a mão de obra assalariada abandonou, em sucessivos magostes, o concelho. A agricultura perdia nesse tempo o protagonismo para o robustecimento índustrial do país.
A segunda oportunidade perdida foi a elaboração do PDM de 1995. Feito á pressa por necessidade de recurso a fundos estruturais.Afinal perderam-se grande parte desses fundos e herdámos outro problema bicudo. Embora tivesse protegido a cidade, desarticulou o concelho, retalhando-o a eito. A burocracia do Estado fez o resto. O verdadeiro cancro do país. A chaga, como lhe chamaria Eça. Fazer passar um PDM, ou uma mera alteração do PDM, leva anos. Uma alteração que pedimos logo em 2005 para refazer os aglomerados populacionais do norte do concelho, retalhados indiscriminadamente por RAN's e REN's foi concluída o ano passado! Dezenas de reuniões, centenas de estudos e pedidos de esclarecimentos. Burocratas impantes de poder indiferentes a argumentos deste tipo: Ó senhor Dr.quando desenharam o PDM a igreja e o largo principal de Viegas já existiam há séculos. Ficaram em REN! E a resposta medíocre, fazendo valer a norma sobre o direito á vida comunitária, redundava num judicioso e inconclusivo: Temos de ver isso.
Vou para Lisboa. Ás 17.30 há reunião do Ministério da Justiça para o último balanço de obra sobre os tribunais. O da concorrência tem de estar em funcionamento em Abril por decisão da troyka. Discutimos acertos finais e já saio atrasado para o aeroporto. Parto no voo da noite para Luanda numa viagem á desfilada. Uma noite no avião, fazer a conferência, dormir e regressar na noite seguinte. Duas noites sem dormir em três dias. Vi pouco mas aquilo que vi, impressionou-me. Uma cidade que desperta, pujante, ruidosa, que se ergue da ruína e lentamente, mas com força, regressa a quotidianos de prosperidade. Saíu de uma guerra terrível há pouco mais de uma década e reconstrói-se, grandiosa e próspera. Parece uma enorme estaleiro. Obras gigantescas, sobretudo aquela que está a modificar a mobilidade da baixa e acesso ao porto e percebi como eram injustas as críticas a Miguel Relvas. Ele teve a percepção de uma das maiores evidências que se metem olhos dentros quando cruzamos as avenidas e ruas: a maior parte das empresas que reconstrói Luanda, são portuguesas. Milhares de operários, seguramente centenas de empresas subsidiárias ás grandes construtoras, também assegurando empregos a milhares, uma escora bem firme para resistir á crise europeia e nacional. Miguel Relvas percebeu aquilo que a retórica política mais apreciada, na ânsia de maldizer, ignorou. Angola é um dos cantos do mundo que melhor ajuda o País exaurido em que labutamos. Tratar bem quem nos ajuda é um acto de política pragmática sem escolhos.
O avião chega pela madrugada a Lisboa. Descobri uma empresa que aconselho. Foi o meu filho que me ensinou. Chama-se Lavacolla e é um achado. Para quem não tem tempo a perder com lavagens de carros, chama-a. Vai buscar o nosso carro ás partidas. Guardam-no. Á chegada vêm entregá-lo nas Chegadas, lavadinho e aspirado, e tudo isto custa metade do preço dos parques públicos de estacionamento. Nem conhecia o meu carro quando o vi. Estava um brinco.Regresso a Santarém. Pelo caminho recebo a confirmação da notícia. Vou ser internado dia 14 e sei que vou falhar as Festas da Cidade.Um dos prazeres grandes destes mandatos. Revificar alma escalabitana, criar condições para a sua reprodução social sem necessidade de impulsos políticos. Desde o ano passado que se autonomizaram. Deixaram de depender da Câmara, pagando-se a si próprias, pelos patrocinadores e feirantes que perceberam a grandiosidade deste encontro com as tradições, com a cultura, com os afectos. São milhares de pessoas que ali acorrem e reconstituem laços psico-afectivos celebrando Santarém. Espero, mesmo assim, ainda ser capaz de estar nas celebrações de dia 19. 
Ao fim da tarde, chega a melhor notícia. Mas ainda é cedo para a divulgar.Mas se consolidar aquilo que fomos informados o problema de finanças da autarquia estará resolvido no primeiro semestre do ano. S. José olhará por nós.  

1 comentário:

  1. Querido Companheiro

    Sem si as festas da cidade não terão o mesmo encanto. Contudo e prioritariamente é preciso que fique bem de saúde, sabendo que estamos consigo e que estará sempre connosco nas Festas da Cidade de Santarém. Grande abraço. Nuno Alves Ferreira

    ResponderEliminar