sexta-feira, 16 de março de 2012

Santarem - O Dia da Cidade



A anestesista disse-me: Pense em coisas bonitas. Vou pô-lo a dormir. Daqui a bocado está de volta e quero que tenha bons sonhos.
Não é a primeira vez que sou sujeito a uma anestesia. A primeira vez teria aí uns nove anos por causa de uma apendicite. Vem-me á memória esse medo de menino e abro os olhos, escancarados, não vá o cirurgião começar a cortar e eu acordado. Esforço-me para pensar nos meus filhos mas o dia não é bom. Faz hoje anos que a minha mãe faleceu. E vão começar as Festas de S.José, que tanto lutámos para as fazer renascer e eu não estou lá. É um orgulho pôr o povo a celebrar-se, orgulhoso e solidário, permitir que agarrem a sua vida nas mãos e se ergam, construindo os seus próprios destinos. Sei que a Cidade despertou, uma obra que jamais se apagará. Que não cede e é indiferente ao ruído das ambições e das frustrações pessoais dos pequenos e pobres poderes. Tem a força do rio e da lezíria e é pensando nela que adormeço sem perceber como. Será isto a morte? Este apagar súbito da consciência, esta ausência de tempo, tão vazio que se nos escapa no último pestanejar de olhos? A anestesia funciona para mim como um mistério. Não é apenas uma prática clínica. É, do ponto de vista ontológico, um acontecimento.Não apenas a ausência do sentir. É a verdadeira nulidade do ser.O absurdo que se encerra no zero existencial. Sem perguntas, sem respostas, sem inquietações nem quietudes. É o nada. O nada absoluto. Até ao despertar.
O primeiro rosto que vejo é de uma enfermeira que me sorri. Apaziguadora. - Correu bem. Quando tiver mais desperto, preciso que autografe um romance seu.
Vejo, mais tarde, que anda a ler a Fúria das Vinhas. Mas naquele momento pergunto-lhe as horas. Passaram-se três sem saber dos meus sentidos, nem de mim. E dou comigo a imaginar as Festas da Cidade. Vâo começar daí a pouco. Sei que a cidade vai despertar. Imagino os gestos, as pessoas, os cavalos. E rezo. Desde criança sempre me habituei a rezar. Assim como se fosse uma fala com Deus. E agradeço. Agradeço ter-me desperto, liberto daquela anestesia que sabe á ucronia da morte, e peço que proteja Santarém, a cidade mágica que ama o futuro. Que S.José nos acompanhe.

1 comentário:

  1. É com muita tristeza, renitência e algum 'desespero' que tomo a iniciativa de criar um espaço onde possamos dar voz à nossa indignação. Vivemos numa democracia e a voz não nos pode ser cortada. É com grande orgulho que assisto ao crescimento da cidade de Santarém, ao crescimento nocturno, aos espaços verdes, à requalificação da cidade, no entanto a indignação assola-me pelo facto do esbanjamento não parar, quando já nos foi levado o couro e o cabelo.

    Os professores de hoje educam os adultos de amanhã, nunca devemos esquecer a sua importância, e não será só serem lembrados ano após ano, mas sim serem respeitados como adultos e cidadãos.

    Pais, Mães, Educadores, Professores, Adultos e Cidadãos de Santarém, todos sabemos do sobre-endividamento que a Câmara de Santarém tem neste momento, serei só eu que mostro indignação perante FESTAS DE S. JOSÉ? BICICLETAS NOS PARQUES DA CIDADE? PASSAGENS DE ANO QUE ENTRE OUTROS ESPECTÁCULOS INCLUEM FOGO-DE-ARTIFICIO? entre outros?! Como podemos nós permanecer impavidamente perante estes factos? Quando centenas ou milhares de famílias na região passam fome, por não terem emprego?! Quantos de nós ao lermos esta noticia nos identificamos com a situação?

    Como conseguem os pupilos da Câmara andar de cabeça erguida usando os seus trajes Ribatejanos, ostentando um 'ar de missão cumprida' quando deviam ter vergonha por neste momento terem salários em atraso, para com alguns colaboradores indiretos?? Se me perguntarem qual é o objectivo deste discurso, por agora será só para que pensem um pouco, mas posteriormente irei colocar dados concretos caso a situação não seja resolvida dentro de dias...

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