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| Quando a guerra tem lágrimas de crianças e nos provoca a dimensão do horror que é chorar longe da paz |
domingo, 31 de outubro de 2010
Crianças na Guerra
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Alcanede e o cheiro da Despedida
Estou cansado, e quando estou assim,a insónia é mais forte. Preciso de dormir, que há um mês que não conheço um dia de descanso, mas tenho Alcanede junto do coração. Hoje inaugurámos lá o primeiro Centro Escolar, uma unidade fabulosa de ensino e soube a mel ver a felicidade de tantas crianças, dos professores, dos pais, dos funcionários.Confesso esta emoção - a escola.Talvez porque toda a vida fui estudante-trabalhador, facto que não me deixou gozar as minhas escolas com o prazer que vi hoje no olhar daqueles meninos.Nos próximos dois anos vamos terminar mais centros escolares. O próximo já para a Páscoa.10 milhões de euros de investimento. Eu sei que para as lideranças políticas do concelho isto pouco importa. Nem um deputado comunista, nem um vereador ou um deputado socialista testemunharam aquele sol de felicidade. Não quiseram saber. Preferem o rodriguinho das conversas vãs e inócuas.
Mas hoje também faz um ano que tomámos posse à frente da Câmara de Santarém. Dei comigo a fazer balanços e, de repente, percebi que depois da inauguração do quarto centro escolar estou de partida.Não me recandidato, devo deixar espaço para que os próximos candidatos ganhem espaço. O poder não é apenas uma forma de servir até ao tutano dos ossos, é saber sair com lealdade para que os destinos se cumpram.E hoje mesmo, cercado daquelas crianças que vão marcar a minha memória, decidi o dia da saída. Depois das festas da cidade de Santarém de dois mil e treze.Ficam nove meses para que os furturos candidatos se imponham. E estando longe, pois faltam dois anos, já está perto. E hoje, no balanço do tempo de mandato, pela reviravolta que demos naquele concelho. Tanta escola arranjada, tanto refeitório e parques de brincar, tantos cuidados com os nossos putos. E, ainda,tanta obra em marcha. O Mercado Municipal, o Matadouro, o Conservatório de Música, o rejuvenescimento de todo o espaço público, a cidade cheia de gente, Santarém, capital da Liberdade e tornada uma referência do país. Este ano, embora duro, foi farto. Inaugurámos a primeira fase do jardim da Liberdade, recolhemos valores inimagináveis de fundos comunitários que permitem mais requalificações do centro histórico, da zona ribeirinha, da conclusão do saneamento que passa de 64 % para 93% de cobertura. Mesmo dando de barato os velhos do Restelo, não há dúvidas que Santarém renasceu para o palco das grandes urbes, reconhecida no país e no estrangeiro.Não estou satisfeito mas estou tão tranquilo. Saltámos da obscuridade para a luz do sol. Mas ainda falta tanto para caminhar. A cidade desportiva está à espera de arrancar. As novas vias para Alcanede e Amiais esperam que esta medonha crise nos garanta melhores dias, a zona ribeirinha precisa de solução e esperamos o desvio da linha. Não sei se vou ter tempo para tudo. Com a gravidade da situação do país, tenho dúvidas. Falta a Fundação da Liberdade. E essa será a chave d'oiro dos projectos realizados.Estará a funcionar quando eu partir.No próximo mês sai o meu livro de contos juvenis. Preparo o meu próximo romance para Junho. De repente comecei a escrever mais. Assim como se uma força interior me empurrasse para a minha antiga vida.Da qual tenho saudades, confesso. Talvez esta nostalgia se deva ao facto de celebrar hoje um ano de mandato.Talvez seja só isso.Porque em cada dia que passa reconheço e admiro a generosidade dos escalabitanos anónimos. A sua capacidade de entrega, a sua capacidade para ser feliz.Não percebo como gente tão bondosa pode ter produzido élites políticas tão vulgares. Se calhar por isso mesmo.Há quem confunda a corte de intriguistas da cidade, de frustrados, de gente sem rumo que não é capaz de se desafiar. Mas é injusto confundir uma dúzia de cínicos e amorais com ,milhares de pessoas que se entream generosamente à luta pela vida e pelos seus. Eu vi hoje a alegria límpida dos pais daqueles putos de Alcanede. Dos professores, dos funcionários. Vou ter saudades desta gente grande, simples e boa.Vou ter saudades! O sentimento que nasceu do romantismo mais profundo. E é bom ter saudades. Do convento de S.Francisco, da gloriosa gesta do 10 de Junho, da grande vaga de apoio à defesa dos direitos dos Homens e dos Animais.À defesa dos Rios, onde hoje construímos quatro grandes Etar's para dar saúde ao Alviela.
Já sabia, mas hoje sei melhor, que sou um mau político. Não sei fazer as coisas sem ser apaixonado. E a política requer calculismo e algum medo. E Deus não me deu essa virtude de ter medo.Sei que esta entrega apaixonada aos projectos, às obras, às pessoas desgasta até ao coração da alma. E estou desgastado. Basta comparar as fotografias de há uns anos atrás.Mas parto tranquilo. Dei tudo o que tinha a este serviço público. Nunca ficou nada de fora, mesmo na hora dos maiores insultos.
Hoje foi dia grande. Daqueles que se guardam para sempre. E o sinal de que a partida está para breve. Cedendo o passo a outros, possívelmente com mais talento, para gerir Santarém. Como diria o Sérgio Godinho, hoje foi o primeiro dia do punhado de meses que são o resto da minha vida à frente dos destinos de Santarém. Ja falta pouco para o abraço de despedida.Abraço quente e amigo aos milhares de amigos espalhados pela cidade e pelas vilas e pelas aldeias.Abraço quente, sem cravar punhal nas costas. Abraço doce que sabe ao prazer de ajudarmos quem mais precisa.Minha doce Santarém, como estás a ficar linha, minha amiga!
Mas hoje também faz um ano que tomámos posse à frente da Câmara de Santarém. Dei comigo a fazer balanços e, de repente, percebi que depois da inauguração do quarto centro escolar estou de partida.Não me recandidato, devo deixar espaço para que os próximos candidatos ganhem espaço. O poder não é apenas uma forma de servir até ao tutano dos ossos, é saber sair com lealdade para que os destinos se cumpram.E hoje mesmo, cercado daquelas crianças que vão marcar a minha memória, decidi o dia da saída. Depois das festas da cidade de Santarém de dois mil e treze.Ficam nove meses para que os furturos candidatos se imponham. E estando longe, pois faltam dois anos, já está perto. E hoje, no balanço do tempo de mandato, pela reviravolta que demos naquele concelho. Tanta escola arranjada, tanto refeitório e parques de brincar, tantos cuidados com os nossos putos. E, ainda,tanta obra em marcha. O Mercado Municipal, o Matadouro, o Conservatório de Música, o rejuvenescimento de todo o espaço público, a cidade cheia de gente, Santarém, capital da Liberdade e tornada uma referência do país. Este ano, embora duro, foi farto. Inaugurámos a primeira fase do jardim da Liberdade, recolhemos valores inimagináveis de fundos comunitários que permitem mais requalificações do centro histórico, da zona ribeirinha, da conclusão do saneamento que passa de 64 % para 93% de cobertura. Mesmo dando de barato os velhos do Restelo, não há dúvidas que Santarém renasceu para o palco das grandes urbes, reconhecida no país e no estrangeiro.Não estou satisfeito mas estou tão tranquilo. Saltámos da obscuridade para a luz do sol. Mas ainda falta tanto para caminhar. A cidade desportiva está à espera de arrancar. As novas vias para Alcanede e Amiais esperam que esta medonha crise nos garanta melhores dias, a zona ribeirinha precisa de solução e esperamos o desvio da linha. Não sei se vou ter tempo para tudo. Com a gravidade da situação do país, tenho dúvidas. Falta a Fundação da Liberdade. E essa será a chave d'oiro dos projectos realizados.Estará a funcionar quando eu partir.No próximo mês sai o meu livro de contos juvenis. Preparo o meu próximo romance para Junho. De repente comecei a escrever mais. Assim como se uma força interior me empurrasse para a minha antiga vida.Da qual tenho saudades, confesso. Talvez esta nostalgia se deva ao facto de celebrar hoje um ano de mandato.Talvez seja só isso.Porque em cada dia que passa reconheço e admiro a generosidade dos escalabitanos anónimos. A sua capacidade de entrega, a sua capacidade para ser feliz.Não percebo como gente tão bondosa pode ter produzido élites políticas tão vulgares. Se calhar por isso mesmo.Há quem confunda a corte de intriguistas da cidade, de frustrados, de gente sem rumo que não é capaz de se desafiar. Mas é injusto confundir uma dúzia de cínicos e amorais com ,milhares de pessoas que se entream generosamente à luta pela vida e pelos seus. Eu vi hoje a alegria límpida dos pais daqueles putos de Alcanede. Dos professores, dos funcionários. Vou ter saudades desta gente grande, simples e boa.Vou ter saudades! O sentimento que nasceu do romantismo mais profundo. E é bom ter saudades. Do convento de S.Francisco, da gloriosa gesta do 10 de Junho, da grande vaga de apoio à defesa dos direitos dos Homens e dos Animais.À defesa dos Rios, onde hoje construímos quatro grandes Etar's para dar saúde ao Alviela.
Já sabia, mas hoje sei melhor, que sou um mau político. Não sei fazer as coisas sem ser apaixonado. E a política requer calculismo e algum medo. E Deus não me deu essa virtude de ter medo.Sei que esta entrega apaixonada aos projectos, às obras, às pessoas desgasta até ao coração da alma. E estou desgastado. Basta comparar as fotografias de há uns anos atrás.Mas parto tranquilo. Dei tudo o que tinha a este serviço público. Nunca ficou nada de fora, mesmo na hora dos maiores insultos.
Hoje foi dia grande. Daqueles que se guardam para sempre. E o sinal de que a partida está para breve. Cedendo o passo a outros, possívelmente com mais talento, para gerir Santarém. Como diria o Sérgio Godinho, hoje foi o primeiro dia do punhado de meses que são o resto da minha vida à frente dos destinos de Santarém. Ja falta pouco para o abraço de despedida.Abraço quente e amigo aos milhares de amigos espalhados pela cidade e pelas vilas e pelas aldeias.Abraço quente, sem cravar punhal nas costas. Abraço doce que sabe ao prazer de ajudarmos quem mais precisa.Minha doce Santarém, como estás a ficar linha, minha amiga!
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Uma Semana de Vergonha
Vejo e leio o que se passa na política nacional e vem-me à memória Eça de Queirós e a sua magistral ironia n'A Capital.Ontem ouvi Eduardo Catroga informar que as negociações do orçamento estoiraram por uma diferença de 200 milhões de euros. O PS não quis. Quis coisas mais complicadas, mas não quis o mais simples. Ou seja o PS não quer ter Orçamento e só acredito que o venha a ter por pressão nacional e internacional.No mesmo dia a PJ estoirava com uma rede de gente fina que terá burlado o BPN em quase 100 mil milhões de euros e saíam as acusações da Face Oculta.
É deprimente e não pode um país assim fustigado pelo cinismo da política, por predadores, por manipuladores, viver, já nem sei se sobreviver, a esta onda de amoralidade imposta. Os comparsas polítcos que Eça enfiou o seu livro de crónicas, fustigando-os com o ridículo, são meninos de coro ao pé dos monstrinhos que aí estão, alegremente, arrogantemente,a delapidar os recursos do país. Mais: a destruir a confiança nos nossos próprios destinos. Aquilo que se está a passar, perante o olhar e a gula devoradora dos especuladores mundias, envergonha e ridiculariza Portugal. E só atira para o primeiro palco os dois principais partidos porque os restantes não passam de meros espectadores parasitas da tragédia nacional.
Não fazem, não propõem, não se dispõem a contribuir para sair deste lodo putrefacto. São palavras. São vazios de ideias. São do contra. A posição dos acomodados e medrosos.
A derrapagem orçamental de 1.800 mil milhões de euros, ontem conhecida, durante três meses, abala a confiança de qualquer actor político. É verdade. Mas a solução jamais pode ser cruzar os braços, gritar protestos, e esperar as migalhas eleitorais resultantes desses protestos. Protestos sem consequência. Na minha televisão não fala nem o PC nem o Bloco de Esquerda.Estou cansado de os ouvir dizer que existem alternativas ao orçamento. Sempre o mesmo discurso: Existem outras alternativas e não as mostram. Porque não existem. São o jargão presumido inteligência. O CDS rumina. Diz coisas em voz baixa, mas rumina. Espera a boleia do PSD para ser governo. É o seu fado. O fado da chulice. Faz tu as despesas pois se houver eleições cá estou para te ajudar a formar governo. O maior castigo que poderia ser infligido ao CDS, por esta modorra, seria num próximo acto eleitoral o PSD ter maioria absoluta e borrifar-se nesta passividade que não passa de oratória crispada.
Estamos no fim. Mais do que no fim de um ciclo económico, estamos no fim de um ciclo de militante preguiça, vaidade, populismo, negociata, de mediocridade intelectual e espiritual há muito não vista. Ontem, Eduardo Catroga, armado da sua seriedade romântica, fez-me lembrar um bombeiro no meio das chamas.Quis apagar um fogo que nos dizima. Apenas cometeu um erro. Não percebeu que não estava numa discussão séria. Participou num espectáculo de circo e feras. Mais nada. Portugal afunda-se comprometendo o futuro dos nosso filhos, pois o nosso há muito está comprometido.E tiro o chapéu a Passo Coelho. Ganhou a firmeza que o faz desconfiar. E faz bem. Não é possível negociar num esgoto. Nem é possível querer ser alternativa a isto tudo, não tenho outra palavra que não seja 'isto' quando olho para os vários discursos, pois alguém precisa de ser timoneiro desta barca que caminha para o naufrágio. E só o poder ser pela diferença, pela intransigência no que respeita a abdicar de princípios. E já nem falo de princípios ideológicos. Falo de carácter, honradez, seriedade, de amor ao país.
Olho para Cavaco Silva. O homem que pela sua integridade, rigor e decência, me fez entrar na política. Nunca o país precisou tanto de um Presidente, embora os seus poderes limitados não nos permitam esperar muito. Mas olho para ele como o último cabo da Boa Esperança. Hoje já não existe mais ninguém. O poder demitiu-se. Portugal está sem rumo.Esta semana marca o fim da minha própria (ainda) ingenuidade política. Percebi definitivamente que são poucos aqueles que pensam nas pessoas que servem, nas pessoas que neles confiaram. E estou magoado. Nunca pensei que fosse assim, que tivesse de ser assim. Esta semana mostrou que o poder está doente, demente, possessivo e alarve. Sem moral. E somos milhões de infelizes a assumir o seu canibalismo feroz. Como foi possível chegarmos aqui? Para os mais fracos, desiste-se. Para os ainda mais fracos, protesta-se e explodem revoltas sem sentido. Porém, é preciso resistir. Esta Pátria, a nossa terra, precia de se defender desta mixórdia. Não suporto imaginar que vou entregar aos meus netos um destino de lamentos e derrotas. É preciso resistir. Já não falo da resistência ideológica. Essa batalha está perdida. Falo da luta pela dignidade, pela alteridade, pelo regresso da confiança nos nossos destinos. É essa a barricada mínima em que me encontro.Com Eça de Queirós na cabeceira da minha última trincheira.
É deprimente e não pode um país assim fustigado pelo cinismo da política, por predadores, por manipuladores, viver, já nem sei se sobreviver, a esta onda de amoralidade imposta. Os comparsas polítcos que Eça enfiou o seu livro de crónicas, fustigando-os com o ridículo, são meninos de coro ao pé dos monstrinhos que aí estão, alegremente, arrogantemente,a delapidar os recursos do país. Mais: a destruir a confiança nos nossos próprios destinos. Aquilo que se está a passar, perante o olhar e a gula devoradora dos especuladores mundias, envergonha e ridiculariza Portugal. E só atira para o primeiro palco os dois principais partidos porque os restantes não passam de meros espectadores parasitas da tragédia nacional.
Não fazem, não propõem, não se dispõem a contribuir para sair deste lodo putrefacto. São palavras. São vazios de ideias. São do contra. A posição dos acomodados e medrosos.
A derrapagem orçamental de 1.800 mil milhões de euros, ontem conhecida, durante três meses, abala a confiança de qualquer actor político. É verdade. Mas a solução jamais pode ser cruzar os braços, gritar protestos, e esperar as migalhas eleitorais resultantes desses protestos. Protestos sem consequência. Na minha televisão não fala nem o PC nem o Bloco de Esquerda.Estou cansado de os ouvir dizer que existem alternativas ao orçamento. Sempre o mesmo discurso: Existem outras alternativas e não as mostram. Porque não existem. São o jargão presumido inteligência. O CDS rumina. Diz coisas em voz baixa, mas rumina. Espera a boleia do PSD para ser governo. É o seu fado. O fado da chulice. Faz tu as despesas pois se houver eleições cá estou para te ajudar a formar governo. O maior castigo que poderia ser infligido ao CDS, por esta modorra, seria num próximo acto eleitoral o PSD ter maioria absoluta e borrifar-se nesta passividade que não passa de oratória crispada.
Estamos no fim. Mais do que no fim de um ciclo económico, estamos no fim de um ciclo de militante preguiça, vaidade, populismo, negociata, de mediocridade intelectual e espiritual há muito não vista. Ontem, Eduardo Catroga, armado da sua seriedade romântica, fez-me lembrar um bombeiro no meio das chamas.Quis apagar um fogo que nos dizima. Apenas cometeu um erro. Não percebeu que não estava numa discussão séria. Participou num espectáculo de circo e feras. Mais nada. Portugal afunda-se comprometendo o futuro dos nosso filhos, pois o nosso há muito está comprometido.E tiro o chapéu a Passo Coelho. Ganhou a firmeza que o faz desconfiar. E faz bem. Não é possível negociar num esgoto. Nem é possível querer ser alternativa a isto tudo, não tenho outra palavra que não seja 'isto' quando olho para os vários discursos, pois alguém precisa de ser timoneiro desta barca que caminha para o naufrágio. E só o poder ser pela diferença, pela intransigência no que respeita a abdicar de princípios. E já nem falo de princípios ideológicos. Falo de carácter, honradez, seriedade, de amor ao país.
Olho para Cavaco Silva. O homem que pela sua integridade, rigor e decência, me fez entrar na política. Nunca o país precisou tanto de um Presidente, embora os seus poderes limitados não nos permitam esperar muito. Mas olho para ele como o último cabo da Boa Esperança. Hoje já não existe mais ninguém. O poder demitiu-se. Portugal está sem rumo.Esta semana marca o fim da minha própria (ainda) ingenuidade política. Percebi definitivamente que são poucos aqueles que pensam nas pessoas que servem, nas pessoas que neles confiaram. E estou magoado. Nunca pensei que fosse assim, que tivesse de ser assim. Esta semana mostrou que o poder está doente, demente, possessivo e alarve. Sem moral. E somos milhões de infelizes a assumir o seu canibalismo feroz. Como foi possível chegarmos aqui? Para os mais fracos, desiste-se. Para os ainda mais fracos, protesta-se e explodem revoltas sem sentido. Porém, é preciso resistir. Esta Pátria, a nossa terra, precia de se defender desta mixórdia. Não suporto imaginar que vou entregar aos meus netos um destino de lamentos e derrotas. É preciso resistir. Já não falo da resistência ideológica. Essa batalha está perdida. Falo da luta pela dignidade, pela alteridade, pelo regresso da confiança nos nossos destinos. É essa a barricada mínima em que me encontro.Com Eça de Queirós na cabeceira da minha última trincheira.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
A Inquietação Orçamental
Quando comecei a ler declarações dos responsáveis do PSD sobre o Orçamento, naquele tempo (foi a semana passada antes das 'negociações) em que todos falavam ao molho, onde se vendia a intenção do PS não negociar e querer forçar o chumbo do documento, desconfiei. Achei mesmo que o PSD estava a querer pôr nos jornais aquilo que desejava que fosse e não aquilo que era. Já tive que negociar orçamentos. Sei que não é possível apresentar para discussão uma proposta fechada. E quem propõe está aberto a discutir outras propostas. É assim. Quando não existe maioria absoluta não existe outra forma.
Agora, o caso muda de figura. Conheço o Dr. Eduardo Catroga. Conheço a família. Aliás, conheço-o mais de perto no que respeita à sua vida privada do que a sua vida pública. Faz parte do meu círculo de amigos. E devo dizer que é dos homens mais sérios, descomprometidos, aberto, rigoroso que eu conheço. Esteve na política mas precisa tanto da política como precisamos numa viola num enterro. É um homem de convicções, assertivo. Julgo mesmo que não terá muita paciência para a politiquice de vão de escada e de propaganda. Para além da integridade é um homem amistoso, nada prosélito, capaz da maior abertura de espírito para um diálogo sério.
Quando soube que estava à frente das negociações, acreditei que tudo ia chegar ao fim. Que este pesadelo iria terminar.Até porque tenho boa opinião do actual ministro das finanças.
O resultado é dramático. E não tenho dúvidas que Catroga fez tudo para selar este acordo. Talvez o ministro das finanças quisesse. O PS não quis. Não percebo, mas a verdade é que não quis. Forçar eleições? Forçar uma situação que fragilize o Presidente da República? É tudo vago e supérfluo perante a situação do país. Impôr à bruta? Para quê? Para afirmar quem tem poder? É uma desilusão. Afinal, o PS quer mesmo empurrar isto para o apocalipse. 'Quem vier depois de nós que feche a porta'.
É mau, muito mau e nós não merecemos isto. Nem quem votou no PS nem que não votou. Estamos a chegar ao fim da linha. A seguir vem a fome.Assim, a política não faz sentido.
Agora, o caso muda de figura. Conheço o Dr. Eduardo Catroga. Conheço a família. Aliás, conheço-o mais de perto no que respeita à sua vida privada do que a sua vida pública. Faz parte do meu círculo de amigos. E devo dizer que é dos homens mais sérios, descomprometidos, aberto, rigoroso que eu conheço. Esteve na política mas precisa tanto da política como precisamos numa viola num enterro. É um homem de convicções, assertivo. Julgo mesmo que não terá muita paciência para a politiquice de vão de escada e de propaganda. Para além da integridade é um homem amistoso, nada prosélito, capaz da maior abertura de espírito para um diálogo sério.
Quando soube que estava à frente das negociações, acreditei que tudo ia chegar ao fim. Que este pesadelo iria terminar.Até porque tenho boa opinião do actual ministro das finanças.
O resultado é dramático. E não tenho dúvidas que Catroga fez tudo para selar este acordo. Talvez o ministro das finanças quisesse. O PS não quis. Não percebo, mas a verdade é que não quis. Forçar eleições? Forçar uma situação que fragilize o Presidente da República? É tudo vago e supérfluo perante a situação do país. Impôr à bruta? Para quê? Para afirmar quem tem poder? É uma desilusão. Afinal, o PS quer mesmo empurrar isto para o apocalipse. 'Quem vier depois de nós que feche a porta'.
É mau, muito mau e nós não merecemos isto. Nem quem votou no PS nem que não votou. Estamos a chegar ao fim da linha. A seguir vem a fome.Assim, a política não faz sentido.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
PJ Comemora 65 Anos de Vida!
Herdeira das tradições da PIC (Polícia de Investigação Criminal) criada por Sidónio Pais, em 1918, a Polícia Judiciária comemora, dia 20 de Outubro, 65 anos de existência.Uma grande caminhada!E para quem nela viveu intensamente, uma memória repleta de factos e acontecimentos que marcam vidas. Foi o meu caso.Não é apenas a polícia mais prestigiada do país. É, na sua natureza e criação, a institucionalização de um método, um processo de conhecimento que vive a utopia romântica de desvendar, sempre, qualquer crime. Até os chamados 'crimes perfeitos'. Neste dia que rememora a fundação, recordo a minha primeira brigada de furto e assaltos à mão armada: o chefe Lourenço Ferreira, o Pedreiro, o Zé Marques, o Rendeiro, o Guimarães, o Manuel Silva, o Matos e o Óscar. Era a 2ª Brigada da 6ª Secção.
Tinha terminado o estágio.Apresentei-me ao Inspector Cardoso Oliveira (agora chamam-se coordenadores) que me destinou aquela brigada. Tinha sido o primeiro classificado do meu curso e o Director, o dr. Garcia Marques, dera-me a possibilidade de escolher. Escolhi o 'Tarrafal'em vez da 'Venezuela'. É preciso esclarecer que há trinta e tal anos a Venezuela não era governada por Hugo Chavez e era vista como uma nova Terra Prometida. Na PJ, eram as secções do então chamado crime de colarinho branco. A 6ª e a 12ª secções, sempre cheias de gatunos, prostitutas, assaltantes à mão armada, onde se berrava mais e se conversava de menos, onde não se parava nem de dia, nem de noite, era o território oposto - o Tarrafal.
Nesse dia, recordo-me como se fosse hoje, ainda mal tivera tempo para ocupar a minha secretária e arrumar os primeiros papéis, o Marques recebeu um telefonema. Levantou-se com energia, enfiando a pistola no cinto, e perguntou: Quem está disponível para vir comigo? Acabo de saber onde estão dois ladrões que persigo há mais de seis meses.
O Pedreiro veio da outra sala e respondeu:
- Vou contigo. Onde é?
- Na Curraleira.
O chefe Lourenço Ferreira ordenou:
- Levem o puto convosco. Começa logo a aprender como se faz a coisa.
O puto era eu. E fui.
O coração queria saltar-me do peito. Ia participar na minha primeira captura! Viajava no banco detrás.Por mais de uma vez verifiquei discretamente se a minha arma tinha a patilha de segurança aberta, se os cordões dos sapatos estavam bem apertados. Eu explico esta dos cordões dos sapatos. Fazia parte da gíria da PJ. Durante uma operação de risco, se algum de nós, por um ataque de pânico, ficasse para trás ironizava-se sobre a sua valentia dizendo que ficara a atacar os sapatos. E eu jurara sobre a minha vida que jamais ficaria para trás. Confirmava sempre (e aquela foi a primeira vez que o fiz) se os sapatos estavam bem apertados, não fosse dar-se o caso de me embrulhar nos cordões soltos e ninguém acreditar. Transpirava, as palpitações cresciam conforme nos aproximávamos da Curraleira que, diga-se em abono da verdade, não sabia onde era. Confesso que quase me indignava a tranquilidade dos meus colegas mais velhos e que tinham a bondade de me suportar. O Pedreiro fumava e comentava um vinho que o sogro trouxera de Tomar. O Marques confirmava os elogios e procurava uma estação de rádio com música da moda. E eu, nervos esticados, ora olhava para arma ora para os atacadores. De vez em quando dirigiam-me a palavra.
- Com que então, primeiro classificado do curso e vieste parar ao Tarrafal?!
Não tinha palavras para explicar. Eu queria o tarrafal para viver aquela adrenalina que eles pareciam desconhecer, conversando descuidadamente sobre vinhos. Decidi não explicar nada. E ver.
Entrámos no bairro da lata. Serpentinas de ruelas que se cruzavam, ladeadas por barracas feitas de zincos e madeiras. Ouviam-se as crianças a chorar, os sons cruzados das televisões e o cheiro a fritos e cozinhados da hora de almoço.E cheirava mal dos esgotos a céu aberto e pelas ruelas labirinticas dormiam cães com sarna.
O Zé Marques disse-me:
- Vai para as traseiras e se algum fugir, grita!
Ainda ouvi as primeiras pancadas violentas na porta. A tremer de medo e exaltação, arma escondida no bolso, procurei as traseiras. Não havia! A barraca ligava-se a outras barracas, virando á esquerda, á direita, pelo centro, para baixo, para cima, e não havia traseiras! Não conseguia cumprir a ordem e procurava, agora, voltar ao local onde estavam os meus colegas. Os dois contra dois bandidos. E eu não estava lá. E se eles precisassem de mim? E onde é que seria o raio da porta, se as portas eran todas iguais, o cheiro era igual, as falas das mulheres tinham o mesmo som e eu não sabia regressar e a angústia despedaçava-me. E se eles tivessem sido mortos? Ou se os gatunos resistiram? Não ouvi tiros e isso aquietou-me mas logo me inquietou pois descobrira uma terrível evidência: Estava perdido num dos mais perigosos bairros de lata de Lisboa. Agora estava sózinho e era eu quem estava em perigo.De qualquer daquelas portadas semi-abertas poderia sair o disparo fatal e não tinha quem me ajudasse. O coração deixou de bater. Ou batia com tanta força que não o conseguia sentir. O que era estranho no meio da minha confusão é que as pessoas olhavam para mim com estranheza. Apenas estranheza. Ninguém me batia ou me provocava. Olhavam-me. Fazendo um esforço tremendo para ser indiferentes aos olhares procurei orientar-me. Tinha de sair dali, custasse o que custasse. E foi então que ouvi, muito perto, na rua de cima, uma buzina insistente. Galguei a travessa com três ou quatro metros. Eram o Marques e o Pedreiro! Estavam vivos! E tinham dois tipos nas traseiras da viatura.
O Pedreiro fumava tranquilamente encostado à carripana e com um sorriso simpático perguntou:
- Onde é que te meteste?
E eu confessei vencido: Perdi-me. A barraca não tinha traseiras. Prenderam-nos?
Acenou e abriu-me a porta:
- Estão aqui. vamos embora que o almoço está à espera.
Partimos. Nenhum dos dois ligou ao caso. Recomeçaram a conversa sobre vinhos que nem eu, humilhado e exausto, nem os dois presos, taciturnos e cabisbaixos, conseguimos escutar com atenção.
Almocei sózinho. A vergonha era excessiva para enfrentar os meus camaradas. E aprendi duas grandes lições nessa captura frustrada.Fora o primeiro classificado do curso, merecia o reconhecimento por isso, mas era um idiota. O verdadeiro polícia conhece as ruas e os tugúrios da sua cidade como as palmas da sua mão.E, por isso mesmo, decidi que não se passaria um único dia que não percorresse os bairros da lata que, então cercavam Lisboa, para os conhecer milímetro a milímetro. A segunda lição metia adrenalina. Percebi, mais tarde, que prender alguém era sempre um acto sem glória. Aprendi com aquela brigada. A verdadeira adrenalina estava na investigação. Na descoberta. No jogo de indicios e de vestígios, na construção de um caminho que nos levasse do mistério até à verdade. Aí é que estava a exaltação que procurava no 'Tarrafal'. Afinal de contas a utopia maior que deu corpo à PJ. Partir do vazio e caminhar para o absoluto.
Ao longo destes últimos 65 anos, milhares de homens e de mulheres foram actores deste psicodrama. Nem sempre conseguiram fazer de todas as investigações, os êxitos desejados.Muitas vezes ter-se-ão perdido pelas ruas da cidade. Nem sempre a Justiça se cumpriu. Mas não tenho a mínima dúvida, que sem a Polícia Judiciária seríamos mais pobres, mais intranquilos, mais inseguros, mais medrosos dos dias e das noites.Parabéns à PJ! Um abraço à velhinha 6ª-2ª que me ensinou os trilhos da cidade e da vida!
Tinha terminado o estágio.Apresentei-me ao Inspector Cardoso Oliveira (agora chamam-se coordenadores) que me destinou aquela brigada. Tinha sido o primeiro classificado do meu curso e o Director, o dr. Garcia Marques, dera-me a possibilidade de escolher. Escolhi o 'Tarrafal'em vez da 'Venezuela'. É preciso esclarecer que há trinta e tal anos a Venezuela não era governada por Hugo Chavez e era vista como uma nova Terra Prometida. Na PJ, eram as secções do então chamado crime de colarinho branco. A 6ª e a 12ª secções, sempre cheias de gatunos, prostitutas, assaltantes à mão armada, onde se berrava mais e se conversava de menos, onde não se parava nem de dia, nem de noite, era o território oposto - o Tarrafal.
Nesse dia, recordo-me como se fosse hoje, ainda mal tivera tempo para ocupar a minha secretária e arrumar os primeiros papéis, o Marques recebeu um telefonema. Levantou-se com energia, enfiando a pistola no cinto, e perguntou: Quem está disponível para vir comigo? Acabo de saber onde estão dois ladrões que persigo há mais de seis meses.
O Pedreiro veio da outra sala e respondeu:
- Vou contigo. Onde é?
- Na Curraleira.
O chefe Lourenço Ferreira ordenou:
- Levem o puto convosco. Começa logo a aprender como se faz a coisa.
O puto era eu. E fui.
O coração queria saltar-me do peito. Ia participar na minha primeira captura! Viajava no banco detrás.Por mais de uma vez verifiquei discretamente se a minha arma tinha a patilha de segurança aberta, se os cordões dos sapatos estavam bem apertados. Eu explico esta dos cordões dos sapatos. Fazia parte da gíria da PJ. Durante uma operação de risco, se algum de nós, por um ataque de pânico, ficasse para trás ironizava-se sobre a sua valentia dizendo que ficara a atacar os sapatos. E eu jurara sobre a minha vida que jamais ficaria para trás. Confirmava sempre (e aquela foi a primeira vez que o fiz) se os sapatos estavam bem apertados, não fosse dar-se o caso de me embrulhar nos cordões soltos e ninguém acreditar. Transpirava, as palpitações cresciam conforme nos aproximávamos da Curraleira que, diga-se em abono da verdade, não sabia onde era. Confesso que quase me indignava a tranquilidade dos meus colegas mais velhos e que tinham a bondade de me suportar. O Pedreiro fumava e comentava um vinho que o sogro trouxera de Tomar. O Marques confirmava os elogios e procurava uma estação de rádio com música da moda. E eu, nervos esticados, ora olhava para arma ora para os atacadores. De vez em quando dirigiam-me a palavra.
- Com que então, primeiro classificado do curso e vieste parar ao Tarrafal?!
Não tinha palavras para explicar. Eu queria o tarrafal para viver aquela adrenalina que eles pareciam desconhecer, conversando descuidadamente sobre vinhos. Decidi não explicar nada. E ver.
Entrámos no bairro da lata. Serpentinas de ruelas que se cruzavam, ladeadas por barracas feitas de zincos e madeiras. Ouviam-se as crianças a chorar, os sons cruzados das televisões e o cheiro a fritos e cozinhados da hora de almoço.E cheirava mal dos esgotos a céu aberto e pelas ruelas labirinticas dormiam cães com sarna.
O Zé Marques disse-me:
- Vai para as traseiras e se algum fugir, grita!
Ainda ouvi as primeiras pancadas violentas na porta. A tremer de medo e exaltação, arma escondida no bolso, procurei as traseiras. Não havia! A barraca ligava-se a outras barracas, virando á esquerda, á direita, pelo centro, para baixo, para cima, e não havia traseiras! Não conseguia cumprir a ordem e procurava, agora, voltar ao local onde estavam os meus colegas. Os dois contra dois bandidos. E eu não estava lá. E se eles precisassem de mim? E onde é que seria o raio da porta, se as portas eran todas iguais, o cheiro era igual, as falas das mulheres tinham o mesmo som e eu não sabia regressar e a angústia despedaçava-me. E se eles tivessem sido mortos? Ou se os gatunos resistiram? Não ouvi tiros e isso aquietou-me mas logo me inquietou pois descobrira uma terrível evidência: Estava perdido num dos mais perigosos bairros de lata de Lisboa. Agora estava sózinho e era eu quem estava em perigo.De qualquer daquelas portadas semi-abertas poderia sair o disparo fatal e não tinha quem me ajudasse. O coração deixou de bater. Ou batia com tanta força que não o conseguia sentir. O que era estranho no meio da minha confusão é que as pessoas olhavam para mim com estranheza. Apenas estranheza. Ninguém me batia ou me provocava. Olhavam-me. Fazendo um esforço tremendo para ser indiferentes aos olhares procurei orientar-me. Tinha de sair dali, custasse o que custasse. E foi então que ouvi, muito perto, na rua de cima, uma buzina insistente. Galguei a travessa com três ou quatro metros. Eram o Marques e o Pedreiro! Estavam vivos! E tinham dois tipos nas traseiras da viatura.
O Pedreiro fumava tranquilamente encostado à carripana e com um sorriso simpático perguntou:
- Onde é que te meteste?
E eu confessei vencido: Perdi-me. A barraca não tinha traseiras. Prenderam-nos?
Acenou e abriu-me a porta:
- Estão aqui. vamos embora que o almoço está à espera.
Partimos. Nenhum dos dois ligou ao caso. Recomeçaram a conversa sobre vinhos que nem eu, humilhado e exausto, nem os dois presos, taciturnos e cabisbaixos, conseguimos escutar com atenção.
Almocei sózinho. A vergonha era excessiva para enfrentar os meus camaradas. E aprendi duas grandes lições nessa captura frustrada.Fora o primeiro classificado do curso, merecia o reconhecimento por isso, mas era um idiota. O verdadeiro polícia conhece as ruas e os tugúrios da sua cidade como as palmas da sua mão.E, por isso mesmo, decidi que não se passaria um único dia que não percorresse os bairros da lata que, então cercavam Lisboa, para os conhecer milímetro a milímetro. A segunda lição metia adrenalina. Percebi, mais tarde, que prender alguém era sempre um acto sem glória. Aprendi com aquela brigada. A verdadeira adrenalina estava na investigação. Na descoberta. No jogo de indicios e de vestígios, na construção de um caminho que nos levasse do mistério até à verdade. Aí é que estava a exaltação que procurava no 'Tarrafal'. Afinal de contas a utopia maior que deu corpo à PJ. Partir do vazio e caminhar para o absoluto.
Ao longo destes últimos 65 anos, milhares de homens e de mulheres foram actores deste psicodrama. Nem sempre conseguiram fazer de todas as investigações, os êxitos desejados.Muitas vezes ter-se-ão perdido pelas ruas da cidade. Nem sempre a Justiça se cumpriu. Mas não tenho a mínima dúvida, que sem a Polícia Judiciária seríamos mais pobres, mais intranquilos, mais inseguros, mais medrosos dos dias e das noites.Parabéns à PJ! Um abraço à velhinha 6ª-2ª que me ensinou os trilhos da cidade e da vida!
terça-feira, 19 de outubro de 2010
A Abstenção do PSD e a Propaganda
Durante quatro anos governei a Câmara Municipal de Santarém sem maioria absoluta. Sabia que qualquer das nossas propostas para ser aprovada, em sessão de Câmara, precisava de entendimentos com as outras forças políticas ali representadas. Ora com o PS ora com a CDU.E, ao contrário daquilo que que se entende como o maior inconveniente das maiorias relativas, tornou-se num bem. A discussão prévia aproximou eleitos, permitiu que antes das votações houvesse debate, trocas de pontos de vista, cedências de parte a parte, e chegar a entendimentos. Na segunda metade do mandato percebia, ao elaborar as propostas, com quem as devia discutir. O PS chumbava tudo aquilo que era estratégico por razões que se prendiam com o facto dos vereadores eleitos serem os mesmos que no mandato anterior exerceram o poder. Nem discuto a bondade da posição. Era aquela e ponto final.A CDU, e quando deixou de estar representada por expulsão da então vereadora Luisa Mesquita, tinha outra posição: apresentava as nossas propostas, discutiam entre si (numa primeira fase no interior do PC, na segunda fase com eleitos que saíram solidários com Luisa Mesquita) e votavam conforme aceitávamos ou não as suas propostas.
Não era fácil mas devo dizer que trago desse tempo uma boa memória. A regra democrática impõe a maioria simples na aprovação da maioria dos documentos e não vem mal ao mundo, nem à política, nem às posições iniciais de cada um, discuti-las, ceder quando é caso disso, e apresentá-los com a certeza que não empastelamos a gestão pública daquilo que não é nosso. Apenas ali estamos em delegação do Povo, e por um breve período de tempo. O Poder não é dos eleitos. Apenas lhes é emprestado.
Julgo ser este o erro do governo. Não percebeu que o poder de governar o país não é sua propriedade. O Povo emprestou-o por um período constitucional determinado e ao Povo regressa para decidir se aprovou ou não provou o que foi feito durante esse período de gestão política.Dito isto, tenho seguido com surpresa o psicodrama gerado sobre Orçamento para 2011.O governo, numa manobra de grande habilidade política e de propaganda, tem conseguido passar a ideia de que a responsabilidade da aprovação deste OE depende da decisão do PSD e de Passos Coelho. O Parlamento apagou-se. Só existe PS e, sobretudo, PSD. O aliado do PS para as eleições presidenciais é mera quinquilharia política e a incoerência é tal que não percebo, assim como qualquer cidadão médio, a hipócrita encenação do Bloco de Esquerda.Apoiou Manuel Alegre, para as presidenciais, antes do próprio PS, e agora que estamos em pré-campanha, deixa de rastos a política socialista, da qual manuel Alegre não pode fugir se quer ter algumas expectativas de ser eleito.O Bloco vota contra. Sabia-se desde o início. O PC vota contra. Sabe-se isso para este OE ou para qualquer outro documento estratégico. O PC é isso mesmo. Definha à espera da revolução de rua que tarda em chegar. O CDS estuda.Ou seja, em linguagem futebolística está à mama dos acontecimentos e o PSD é convocado para a decisão final apenas com este argumento patético: é o maior partido da oposição.
A verdade é outra e este filme está ao contrário. Quem governa, e o PS aqui tem razão, é que tem de propor o Orçamento. Ninguém o pode substituir, ninguém pode condicionar o projecto de Orçamento. É o seu documento de trabalho.Mas acaba aqui as razões que merece.O seu primeiro dever cívico e político era no mesmo instante enviá-lo aos parceiros com quem tem de negociar. Permitir-lhes uma reflexão atempada, um estudo cuidado. Não o fez. Atirou cá para fora um conjunto de medidas brutais, algumas de aplicação imediata, outras para incluir no Orçamento e agora decidam. Mas decidam, sobre o quê? Onde está o documento? Bom, esse entrou fora de horas, no dia 15, na Assembleia da República, e só a partir de dia 16 quer o PSD quer os restantes partidos tiveram acesso a ele. Diz o ministro da finanças que este Orçamento é o mais importante dos últimos 25 anos. Sê-lo-á. Não sei. Mas aí a maior das razões para que tivesse sido entregue muito mais cedo para sobre ele se discutir. O governo encenou bem. Quis que se discutisse uma conferência de imprensa e que não houvesse tempo para uma reflexão ponderada sobre a proposta, apresentando-a fora de horas e exigindo decisões dos outros. Particularmente de Passos Coelho e do PSD.
Regresso à minha autarquia quando estávamos em maioria relativa e com respeito às proporções. Fizesse eu uma coisa destas e os vereadores socialistas pura e simplesmente recusam qualquer discussão ou pura e simplesmente reprovavam a proposta. E com razão.Seria obrigada a retirá-la da ordem de trabalhos.
É verdade que quem governa é quem tem de apresentar as propostas estratégicas. Mas é de elementar senso comum que deve, desde logo, negociar, discutir, perceber os indicadores daqueles de quem precisa que consigo votem para ajustar, alterar, equilibrar vontades. O PS diz que quer fazer isto mas, ao mesmo tempo, atira para cima de um partido sem responsabilidades governativas, o ónus da aprovação ou não do seu projecto de Orçamento.Ainda, por cima,esmagando o país ao peso da austeridade que não poupa nada nem ninguém, arrasando a economia nacional.
Julgo que o PSD deveria liminarmente votar contra este OE. Quem assim procede não pode esperar que não recolha tempestades. Foi vento a mais para ficar na paz dos anjos. Não serei capaz de entender uma razão que seja para votar a favor e devo dizer que estarei contra a possibilidade, ainda que remota, desta decisão.Apenas se compreenderá, no pior dos cenários, que se abstenha. Em nome do país. Para que a situação criada pelo adiamento de soluções e reformas, não atire a população para maiores sacrifícios, para a fome e para a miséria. Que se abstenha invocando o maior sofrimento que iria causar a quem não é culpado nem da situação a que chegámos nem das encenações produzidas pela propaganda e acção governamental. E, aí, terá todas as condições para moralmente dar uma lição cívica sobre quem põe a sua gente á frente dos interesses mesquinhos de apropriação do poder.
É o único passo em frente, pequeno, desconfiado, que o PSD deve afirmar. Para lá disso, seria o seu descrédito. Aprovar isto, não é apenas aprovar um mau OE. É aprovar processos engenhosso e malabaristas de governação que promete hoje e desdiz amanhã.
Não era fácil mas devo dizer que trago desse tempo uma boa memória. A regra democrática impõe a maioria simples na aprovação da maioria dos documentos e não vem mal ao mundo, nem à política, nem às posições iniciais de cada um, discuti-las, ceder quando é caso disso, e apresentá-los com a certeza que não empastelamos a gestão pública daquilo que não é nosso. Apenas ali estamos em delegação do Povo, e por um breve período de tempo. O Poder não é dos eleitos. Apenas lhes é emprestado.
Julgo ser este o erro do governo. Não percebeu que o poder de governar o país não é sua propriedade. O Povo emprestou-o por um período constitucional determinado e ao Povo regressa para decidir se aprovou ou não provou o que foi feito durante esse período de gestão política.Dito isto, tenho seguido com surpresa o psicodrama gerado sobre Orçamento para 2011.O governo, numa manobra de grande habilidade política e de propaganda, tem conseguido passar a ideia de que a responsabilidade da aprovação deste OE depende da decisão do PSD e de Passos Coelho. O Parlamento apagou-se. Só existe PS e, sobretudo, PSD. O aliado do PS para as eleições presidenciais é mera quinquilharia política e a incoerência é tal que não percebo, assim como qualquer cidadão médio, a hipócrita encenação do Bloco de Esquerda.Apoiou Manuel Alegre, para as presidenciais, antes do próprio PS, e agora que estamos em pré-campanha, deixa de rastos a política socialista, da qual manuel Alegre não pode fugir se quer ter algumas expectativas de ser eleito.O Bloco vota contra. Sabia-se desde o início. O PC vota contra. Sabe-se isso para este OE ou para qualquer outro documento estratégico. O PC é isso mesmo. Definha à espera da revolução de rua que tarda em chegar. O CDS estuda.Ou seja, em linguagem futebolística está à mama dos acontecimentos e o PSD é convocado para a decisão final apenas com este argumento patético: é o maior partido da oposição.
A verdade é outra e este filme está ao contrário. Quem governa, e o PS aqui tem razão, é que tem de propor o Orçamento. Ninguém o pode substituir, ninguém pode condicionar o projecto de Orçamento. É o seu documento de trabalho.Mas acaba aqui as razões que merece.O seu primeiro dever cívico e político era no mesmo instante enviá-lo aos parceiros com quem tem de negociar. Permitir-lhes uma reflexão atempada, um estudo cuidado. Não o fez. Atirou cá para fora um conjunto de medidas brutais, algumas de aplicação imediata, outras para incluir no Orçamento e agora decidam. Mas decidam, sobre o quê? Onde está o documento? Bom, esse entrou fora de horas, no dia 15, na Assembleia da República, e só a partir de dia 16 quer o PSD quer os restantes partidos tiveram acesso a ele. Diz o ministro da finanças que este Orçamento é o mais importante dos últimos 25 anos. Sê-lo-á. Não sei. Mas aí a maior das razões para que tivesse sido entregue muito mais cedo para sobre ele se discutir. O governo encenou bem. Quis que se discutisse uma conferência de imprensa e que não houvesse tempo para uma reflexão ponderada sobre a proposta, apresentando-a fora de horas e exigindo decisões dos outros. Particularmente de Passos Coelho e do PSD.
Regresso à minha autarquia quando estávamos em maioria relativa e com respeito às proporções. Fizesse eu uma coisa destas e os vereadores socialistas pura e simplesmente recusam qualquer discussão ou pura e simplesmente reprovavam a proposta. E com razão.Seria obrigada a retirá-la da ordem de trabalhos.
É verdade que quem governa é quem tem de apresentar as propostas estratégicas. Mas é de elementar senso comum que deve, desde logo, negociar, discutir, perceber os indicadores daqueles de quem precisa que consigo votem para ajustar, alterar, equilibrar vontades. O PS diz que quer fazer isto mas, ao mesmo tempo, atira para cima de um partido sem responsabilidades governativas, o ónus da aprovação ou não do seu projecto de Orçamento.Ainda, por cima,esmagando o país ao peso da austeridade que não poupa nada nem ninguém, arrasando a economia nacional.
Julgo que o PSD deveria liminarmente votar contra este OE. Quem assim procede não pode esperar que não recolha tempestades. Foi vento a mais para ficar na paz dos anjos. Não serei capaz de entender uma razão que seja para votar a favor e devo dizer que estarei contra a possibilidade, ainda que remota, desta decisão.Apenas se compreenderá, no pior dos cenários, que se abstenha. Em nome do país. Para que a situação criada pelo adiamento de soluções e reformas, não atire a população para maiores sacrifícios, para a fome e para a miséria. Que se abstenha invocando o maior sofrimento que iria causar a quem não é culpado nem da situação a que chegámos nem das encenações produzidas pela propaganda e acção governamental. E, aí, terá todas as condições para moralmente dar uma lição cívica sobre quem põe a sua gente á frente dos interesses mesquinhos de apropriação do poder.
É o único passo em frente, pequeno, desconfiado, que o PSD deve afirmar. Para lá disso, seria o seu descrédito. Aprovar isto, não é apenas aprovar um mau OE. É aprovar processos engenhosso e malabaristas de governação que promete hoje e desdiz amanhã.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
A Vitória da Vida no Chile
Foi com emoção que acompanhei a operação de salvamento dos mineiros chilenos.Sei como dói a quem espera. E desespera. Viver, nem que seja por instantes, com a morte a fazer ameaças visíveis (aquela mina era uma sepultura antecipada) é tão doloroso para quem dela quer fugir como quem quer ajudar as potenciais vítimas.A equipa de resgate foi de uma competência inexcedível e a intensa solidariedade de milhões de pessoas sacudiu o mundo. Salvaram-se! O Chile dorme, agora,mais tranquilo. Venceu a força da morte e deu uma lição de humanidade.
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