Páginas

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Gralhas e Olhares



Esta manhã, abri o meu blogue e percebi que, desde que nasceu passou por aqui uma multidão. Hoje ultrapassou a fasquia dos duzentos mil. E relendo alguns textos, percebo porque continuo a resistir a escrever directamente em computadores. As gralhas mordem-nos sem escrúpulos as canelas dos dedos. A tecla que não imprime, o pensamento mais veloz do que a pressa das palavras e, depois, os verbos que crescem mal conjugados, as fórmulas gramaticais muitas vezes inadequadas e, acima de tudo, a falta de jeito para lidar com esta máquina que, simultaneamente, é infernal e mágica. Fico sempre impressionado com a facilidade de saberes dos mais jovens sobre os segredos que o computador encerra. Venho da geração da máquina de dactilografar. Hoje é uma peça arqueológica. Continuo fiel á caneta com que aprendi as primeiras letras. Dificilmente serei escolhido para gerir com facilidade os mistérios desta máquina que se nos colou á pele como pastilha elástica á sola dos sapatos. Peço desculpa a quem visita este sítio. Como não sei corrigir, prometo apenas que vou bater as teclas com o cuidado de um pequeno elefante.Até agora, a loja de porcelanas  foi quase toda estilhaçada. E obrigado pela vossa visita. Voltem sempre!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

As Horas e os Dias



2ª feira - São oito da manhã. O tempo está arrefecer, embora seco. A Matilde foi para a escola de bicicleta. Não me agrada com este frio. Mas tem o vício do pai e dos irmãos.Infelizmente a minha hérnia discal não permite esse gozo particular que é pedalar e sentir a ligeireza do andar suave sobre duas rodas. Os meus convivas de pequeno-almoço são de origem angolana. Dois deles são mais reservados. O terceiro faz perguntas. Era uma conversa agendada há umas semanas.É directo das perguntas. Quis saber o que levou a Unicer a sair de Santarém. Como era a burocracia da Câmara. Procuram local para fazer produzir flores em regime intensivo. Com estufas. Dou as explicações que me pedem. Depois de 6 anos á frente da autarquia, já recebi dezenas de pessoas que querem investir nisto ou naquilo. Habituei-me a responder a perguntas descrevendo as vantagens de investir na região. A mobilidade, a proximidade a Lisboa, os eixos viários e ferroviários. Os preços dos terrenos. A qualidade de vida. Não sei quantas vezes repeti estes argumentos. Talvez fiquem entusiasmados. Talvez não. Se não for em Santarém que seja na região. Explico as vantagens do Vale do Tejo. Os dois que estiveram mudos, tiram apontamentos. Fala sempre o mesmo.Será estratégia? A sucessão de perguntas parecem organizadas. O interesse é profissional. Sabem o que querem. Despedimo-nos trocando cartões. Talvez nos voltemos a encontrar. É o eterno consolo: esperar que chegue um investimento em tempo de vacas magras.
O Comandante da GNR está á minha espera. É um bom homem. Inteligente. O projecto para reorganizar o dispositvo da Guarda no Concelho é brilhante e eficaz. Talvez por isso tenha tantas resistências. A reunião corre bem. Fica com a certeza de quem o meu apoio. Sempre apreciei a coragem e o espírito de inovação. Sobretudo a eficácia. E este Comandante tem essas qualidades.
Tenho quilos de papéis para despachar á minha espera. É terrível a burocracia que venceu todas as batalhas do 'simplex'. Não bastavam as assinaturas finais e as rubricas nas páginas. Agora surgem protocolos que exigem rubricas nas duas faces da mesma página. É um protocolo de 150 páginas. Três exemplares. Ao todo, seiscentas rubricas e três assinaturas. Uma hora de inutilidade.
O verador João Leite vem dar-me notícias das obras. O largo da igreja dos Amiais está quase pronto, assim como o da Igreja de Stªa Cruz em Stª Iria da Ribeira de Santarém. Quer um quer outro vão receber os nomes de dois homens notáveis de Santarém. O Largo Comendador J.Louro e o Largo Vitor Gaspar. Infelizmente este partiu. E que saudades, Santo Deus!
Já são duas horas da tarde. Damos um salto ao restaurante ali ao lado. Confesso que é das maiores dificuldades que vivi: mudar os hábitos alimentares. Sopa, fruta, iogurtes. Peixe grelhado e outras coisas inócuas. Mas nessa 2ª feira não resisti. O vereador Valente almoçava com o Zé Valentim. Mão de vaca do grão! Há três meses que fugia do pecado. E pedi. Soube-me a mel, soube a pouco e ainda por cima á pressa. Ás três começava as reuniões da tarde e antes ainda tinha de falar com a vereadora das finanças. Recebi o sms da Alberta Marques Fernandes. Nessa noite,na Justiça Cega, iriamos discutir o novo mapa judiciário. Ás seis e meia estavam terminadas as reuniões. Falei com a Matilde. O teste de Francês correu bem e esta semana iria ser dura. Testes de Inglês, Matemática e Português. Prometi que estudávamos juntos Matemática e Português. É um dos meus maiores prazeres. Estudar com a minha filha. Inventar maneiras dela perceber a matéria e divertir-se ao mesmo tempo. Mas tenho que despachar a papelada que chegou durante a tarde. São dezenas de cartas, de ofícios, de solitações do próprio serviço da autarquia. A maior parte vai para o Varejão despachar. Gente que aplaude. Gente que se queixa. Gente que pede. Gente assustada. Chegam cartas de todo o país. Alguns mesmo doidos.Ainda passa pelo meu gabinete o Ricardo para falar de um problema numa junta de freguesia.  Relativizo o problema. Sei que o grande problema está para chegar e nesta semana: a redução das freguesias. Problema essencial na reorganização administrativa da região e que não tem merecido o debate que precisa.Com cabeça fria e alguma sensibilidade á mistura. Vou conhecer 3ª feira a dimensão da reforma. E para já ficar em silêncio. Gosto de apreciar em silêncio o silêncio ou a pesporrência de quem passa por cima de um trabalho desta envergadura disparando ou um insulto ou um protesto.   São 20.18. A 2º feira terminou. Preciso de ver a minha filha e de ir cumprir o designio medíocre na minha oposição: do género ' ele passa o tempo na televisão'. O Justiça Cega começa ás 22.30. Dá tempo para falarmos de matemática e de equações.A mão de vaca obriga-me á disciplina. janto uma mação e um iogurte. O programa correu bem. Cinquenta minutos de boa conversa. Gosto de discutir com o Marinho e Pinto e com o Rui Rangel. Ágeis no pensar e na argumentação. Velhas raposas batidas em discussão pública.Dizem-me que o programa tem boas audiências. Não duvido que o debate vivo e sem preconceitos contribui para isso. É meia noite. Não escrevo. Estou cansado. Ando a reler o Faulkner. Agarro-me Á Fábula. Terça feira é dia rijo.

São 9.30 de terça feira. O frio continua a apertar. Os jornais que são meus fieis parceiros - o Público, o DN e o CM - anunciam mais frio para o fim de semana. A reunião da manhã é sobre a reforma administrativa. Percebe-se que o Governo, embora passando as decisões para as Assembleias Municipais vai apertando o cerco. Quer fazer desaparecer entre 1300 a 1400 freguesias. Sobre as Câmaras estimula as uniões, seduzindo com aumento de receitas de 15%. Vamos ver como reage a opinião pública. Ou muito me engano ou vai ser o silêncio ou meia dúzia de protestos sem outra razão que não seja explorar sentimentos primários de bairrismo. Vamos ver. O almoço, desta vez é sopa e peixe grelhado, reúno com os actuais responsáveis que estão a reunificar as empresas municipais. Estão a trabalhar bem e rápido. Sei que o nosso limite de endividamente aumentou. Apesar dos constrangimentos financeiros, das dificuldades de pagamento, aumentámos para quase dez milhões os nossos limites de endividamento. Noutros tempos, seria o suficiente para que um empréstimo pagasse aos credores de curto prazo. Agora é apenas o sabor do dever cumprido. Nem merece festejos, pois os bancos não emprestam. As reuniões da tarde começam com o António João, Presidente da Junta da Póvoa de Santarém. É um prazer. Apesar de truculento gosto de falar com ele. Aviso-o que muito possívelmente a Póvoa vai desaparecer como freguesia, Conta-me do levantamento que está a preparar. Não sei se a comissão eleita na Assembleia Municipal tem trabalhado este assunto. Duvido que tenha havido trabalho árduo. Não se podem atrasar. É uma reforma demasiadamente profunda para o absentismo de quem quer liderar políticamente o concelho. Sei que o PSD tem, por sua conta e risco, feitos muitos debates sobre o assunto. Mas reacção institucional, não existe. Pelo menos para já.
Reunião da Empresa das Águas. A revolução no saneamento prossegue. vamos atingir os 93% de saneamento para o ano que vem. É um orgulho. Quando cheguei estava nos 62%. É obra sem visibilidade, sem apoios, desprezada porque não se vê, porque é bom motivo para o populismo barato mas é um salto civilizacional. Só tem comparação com a chegada da electricidade e da água a todas as torneiras. Só por isto, valeria a pena os dois mandatos que cumpro á frente da Câmara de Santarém. E para mim vale mesmo isso. O tempo, as gerações mais novas, mais habituadas á assépsia, mais cultoras do ambiente, reconhecerão este imenso trabalho. O resto pouca importa, comparado com estes 50 milhões de obras para entregar dignidade a uma população inteira. O Alviela está mais protegido. As nossas linhas de água mais saudáveis. Não existe contra-informação que apague isto. Por mais que a dor de corno procure silêncios e vilanias. São quase oito horas e hoje não vou ver a Matilde. mas falei com os meus filhos. O Nuno chegou da Alemanha. O Luis ainda está em Colónia. Da escola da minha neta, pediram-me que fosse ler para os putos os meus contos do meu livro infantil Histórias da Maresia do Mar. Vou marcar. É um prazer imenso ler para a minha neta e seus coleguinhas. Os meus netos são os meus principes encantados. Nunca deixo de ter saudades eles. Mesmo que os tenha encontrado no dia anterior. Um fascínio! Esta noite aceite um convite para um colóquio sobre as reformas administrativa e judicial.Mais uma noite sem escrever. Despacharei o resto d'A Fábula.
4ª feira - A manhã começa com a reunião de trabalho sobre tribunais na EPC. Dizem-me que estão muito bonitos e agora nos trabalhos finais. A semana que vem vamos continuar este processo no Ministério da justiça. A reforma do mapa judiciário está na ordem do dia. Santarém vai reforçar o seu poder nesta área, a cidade judiciária tão maltratada pela oposição, pelas desconfianças, pelos desprezos dos pretensos amadores de Santarém vai ser uma realidade fortissima. Vão-se impôr á vida e com vida. Coisa que não tem piedade da efemeridade dos despeitos.
O desapcho é muito. Hoje não dá para almoçar. Isto vai ficar por um iogurte.É um princípio que me norteia há muitos anos. Não deixar trabalho atrasado em cima da secretária. Esta noite tenho que estudar com a Matilde. O meio tempo do meu trabalho que tanto escãndalo provocou entre aqueles que sempre trabalharam a um quarto de tempo, não chega para as encomendas. E sexta feira, tenho hospital de manhã. Justifico o meu meio tempo e dou ácido aos meus adversários. As reuniões da tarde começam com o Firmino, o agitado Firmino, presidente da Junta de Vaqueiros. Correu bem. Ele está um pouco em baixo. perdeu o pai e tenho pena. Conhecia-o. Era bom homem. Depois recebo a presidente de Tremez que me conta mais umas trafulhices do seu antecessor - esse novo/velho monstro sagrado de alguma cultura escalabitana -  e discutimos obras em curso. Também é dia de preparar o grande encontro que o Millenium BCP vai fazer no Convento de S. Francisco. O Nuno Ferreira explica os objectivos. Uma bolsa de imobiliário a preços muito baixos na região de Santarém. É importante que numa altura de crise um banco se lembre duma coisa destas. Aceitei o convite para abrir os trabalhos.

São nove horas da noite. O meu meio tempo tem-se cumprido. Mais doze horas por dia. Restam outras doze. Seis delas vão ser dedicadas á equações, ao meu romance e á série que estou a escrever para a TVI. Hoje, custe o doer, não me deito sem cumprir estes objectivos. E cumpri-os. Pouco faltava para as três da manhã quando adormeci.

5º feira - Passo as primeiras horas da manhã agarrado ao novo mapa judiciário e a perceber a dimensão da grande reforma da justiça. São amis de trezentas páginas. Fico satisfeito com o que vai acontecer a Santarém mas percebo que isto não vai ser fácil. Os propagandistas de ocasião vão levantar todas as cobras e lagartos que existem debaixo das pedras para criar protestos, insultos e raciocínios primários sobre o alcane desta reforma. O João Leite dá-me informação sobre os terrenos do novo cemitério e do caderno de encargos para o concurso. O João é um grande vereador. Um puto com muita qualidade e que não conta os tempo em meios tempos e quartos de tempo. Dedicado, empenhado, leal e muito trabalhador. E firme. Se a politiquice local não o destruir no mundo de lixo em que muitas vezes chafurda, este rapaz vai longe. Recebo o convite para escrever um outro filme para a RTP sobre a insegurança no mundo juvenil. Três putos que num dia de verão desatam a cometer disparates, julgando que são aventuras, e acabam enfiados num grande sarilho. Conheço bem o fenómeno. Aceitei escrever o argumento. Com estes desafios, as minha noites vão passar a meias-noites. Felizmente não preciso de pedir autorização, embora perceba que os mais radicais estejam convencidos que a obrigação do presidente da cãmara é a tempo tão inteiro que deve dormir na câmara. O teste de Matemática correu bem á Matilde. Hoje, temos de estudar Português. Sobre as narrativas e sobre personagens. Durante as reuniões da tarde, recebo o Luis Baptista que foi vereador da Câmara, representando o PS e durante muitos anos presidente da Junta da Romeira. Gostei de o ver. Tinha saudades dele. Continua o homem amistoso e simpático de outros tempos e outros combates. O dia autárquico vai fechar no Convento de S. Francisco ás 18 horas. Fico impressionado com as centenas de pessoas que o MIllenium BCP mobilizou. É um grande encontro.Tenho a honra de proceder á abertura dos trabalhos e repito, mais uma vez, todas as vantagens de investir em santarém e na região. O convento, assim cheio de gente, é magnífico e impressionante. Não me admiram já os elogios de quem vem de fora e o visita e fica de alma bem cheia. É uma jóia e um orgulho para santarém disfrutar daquele espaço. Um bem raro que tive a alegria de reconquistar para a cidade.
Ainda vou desapachar alguns papéis que ficaram em cima da secretária. São 20.20 quando me despeço do Varejão á porta do palácio do Provedor das Lezírias. Está mesmo muito frio e uma humidade que corrói as articulações.
Esta noite foi de estudo com a Matilde. Uma hora. Sabe mais de técnicas narrativas do que muitos pretensos jornalistas que cirandam na praça. Vai bem preparada. Se Deus quiser vai correr bem o teste. E dedico-me á escrita. A minha Luisa de Gusmão está a crescer a olhos vistos e sinto-a bela e grande. Tal como foi rainha.  
São duas da manhã. Vou 'recolher' como dizia um velho colega da PJ. Amanhã tenho de estar ás oito horas no Hospital.

6ª feira - Saí do espaço clínico. Cansado. Não me apetece comer apesar de serem duas horas. Tenho uma reunião ás três por causa da reforma admnistrativa. Espero estar ás seis horas em casa. Hoje, os tipos da sordidez têm razão. Foi um dia a meio tempo. E não foi bom. O fim de semana vou estar recolhido. Espero sentir-me com saúde para voltar á escrita. Segunda feira o dia vai começar cedo outra vez. Ás oito e meia tenho uma reunião no banco. Ás onze, reunião de Câmara.E está frio. O país está mesmo frio e não se vislubram sinais de regressar o sol que aquece a esperança nos corações.

  

sábado, 28 de janeiro de 2012

O Frio da Solidão


Este mês, só em Lisboa, terão morrido onze velhotes sem apoio nem o cuidado de alguém. Abandonados. Exilados na sua própria velhice.Esquecidos. Em janeiro o frio é maior do que o frio para quem é velho e vive no mais frio esquecimento. A morte assim, neste abandono animal, nesta indiferença inumana, nesta amoralidade cívica, fala dos velhos e fala de nós. Da indiferença e do egoísmo. Fala de uma sociedade que se deixou corromper pelo vício da indiferença. Pela procura de outros culpados que não seja a pilatesca decisão de nos afastarmos da tragedia. Mas ela regressa. Porque a morte é de todos nós. Um momento que deve ser alto e digno na vida de cada um de nós. E não um esquecimento. Ou um alerta de um vizinho porque cheira mal na rua ou no prédio. Que não temos feito para que seja assim a indignidade dos nossos actos? Como nos deixámos empobrecer que a própria ética definhou? Empaturrados de enganos, insaciáveis de individualismo, já tão mortos em cada narcisismo, em cada mito de plastico, recolhido como bem imortal, que os velhos morrem assim e nem única lágrima está ali. Nem um momento de recolhimento perante a potência da Vida e a omnipotência da Morte. Sózinhos. Afinal de contas, tão sozinhos como nós. Derreados que estamos, submetidos á lógica infernal da indiferença. É espantoso que estas mortes em massa aconteçam e tudo não passe de uma mera notícia de jornal e de uma acção de limpeza da Cãmara. Estamos mais doentes do que imaginamos. As aflições da crise financeira são pequenas dores desta dor maior que nos devora, desfazendo em pedaços de tristeza a pouca alma que vai sobrevivendo ao horror do frio que mata a coragem com que se constrói a dignidade. Estamos mal, meus amigos. Muito mal.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Quando a maldade é a tempo inteiro

Sirvo há quarenta anos nas fileiras do serviço público. Se é verdade que trabalho para viver, e educar os meus filhos, também é verdade que nunca pus o dinheiro acima da paixão pela causa pública.Tempos houve, em que trabalhava dias a fio, noites seguidas, sem que isso representasse mais do que um euro de horas extras. E por várias vezes, por paixão ás causas que abracei, ofereci a minha vida, como outros antigos compaheiros o fizeram, a bem da segurança e da tranquilidade pública. Fui sempre assim. Desprendido. Dando tudo aquilo que tinha sem pensar na retribuição.E foi com muito trabalho - o bem que dá condição á dignidade humana - que consegui construir uma vida com muitos sucessos e, para quem me acompanha, com muito mais sofrimento. Quem não nasce num berço de ouro, nem é oportunista, bem precisa de comer o pão que o Diabo amassou para conquistar a identidade reconhecida. Foi com essa paixão que abracei o serviço, e o juramento, que fiz por Santarém. E todos os dias da minha vida dos últimos seis anos, sou bem capaz de contar pelos dedos das mãos, os poucos dias que não servi para descanso pessoal. Sempre a mesma rotina. Entrar ás 9.30-10 horas e sair ás 20-21 horas.Muitas vezes sem almoçar. Mas sem me lembrar que haveria hora de almoço. Depois, a mesma regra. Casa e estudo. Ou projectos autárquicos ou os meus livros - aqueles que leio ou aqueles que escrevo -até á uma ou duas da manhã. Para recomeçar tudo outra vez, no dia seguinte. De vez em quando sou convidado para ir a uma televisão. Quando posso, aceito. Não vou á televisão desprestigiar Santarém e bem sei, e o futuro irá mostrar, quanto dessa intervenção serviu para dar visibilidade á cidade e ao concelho que jurei servir com lealdade. A lealdade que me levou sempre a renunciar aos meus direitos. Só em condições excepcionais utilizo motorista. Com excepção de uma ou duas vezes, no início do primeiro mandato, nunca meti uma ajuda de custo na Câmara.Muitas das viagens que fiz ao serviço da autarquia paguei-as do meu bolso. Nunca dei notícia disso e fi-lo sempre sem valorizar o deve e o haver desse serviço. Mesmo nos momentos de maior ruído político e de notícias de arruaça, sempre me amntive em silêncio. Julgo que a maior parte desse ruído é isso mesmo: ruído. Não vale perder nem o tempo nem a paciência.
Infelizmente para mim, sofri no ano de 2010 vários revezes de saúde. Que sempre mantive, não em segredo, mas em discreto silêncio. Até que não foi possível manter mais o silencio e a discrição porque fui hospitalizado. E meti um atestado médico de cinco dias. E mesmo assim compareci numa assembleia municipal e reconheço que foi dos momentos de maior debilidade que vivi, mas Santarém exigia isso e cumpri. Um jornal local garantiu que tive três semanas de baixa!!! Ou não percebeu ou fez que não percebeu. Pouco importa. Soube depois que iria ser sujeito a uma série de exames médicos para avaliar, e reparar as mazelas que atingiram o meu intestino grosso. Percebi que preciso de perder alguns dias de trabalho nos próximos meses. É certo que podia resolver essa situação pedindo os respectivos atestados médicos. Ninguém perceberia, e até aceitaria com bondade, e trataria da minha saúde sem dar explicações como esta que me vejo obrigado a dar.    Porém, sempre fui resistente á cultura dos atestados médicos e bem sei quanta preguiça, oportunismo, vadiagem mesmo, se esconde por detrás desse documento. E decidi pedir o fim do regime de exclusividade. O que não significa outra coisa que não seja receber metade do ordenado que a lei me põe á disposição. Não significa outra coisa. Só isto. E libertar-me algumas manhãs, algumas tardes, alguns internamentos de dois ou três dias que tenho de fazer (estes com atestado médico). Falei com os meus filhos, a minha família, áqueles que todos os dias dou conta da minha vida sobre esta decisão. Conhecem-me e sabem que não estou disposto a que seja discutido um único cêntimo do merecimento do meu trabalho. E sabem que isto não é aquilo que maldosamente foi objecto da indignação dos actores políticos de Santarém. E se é certo que muitas vezes me senti frustrado com o nível da oposição que era feita ao nosso mandato. pela mediocridade e pelo primarismo das discussões intermináveis sobre os talentos e virtudes do poder local, é bem verdade que nunca me senti tão repugnado como me sinto quando escrevo este texto. O mesmo jornal resolveu pôr a situação ao contrário. Para eles, pedir o fim da exclusividade significava passar a meio tempo de trabalho(!!!) e vá de inquirir o povo político sobre esta novidade. Claro que esse povo político lançou todo o fel sobre esta decisão que, reconheço, tem a ver com o meu feito e nada com coragem ou outras virtudes do género. Mas pior do que isso é que revela o verdadeiro desconhecimento daquilo que é o presidente da câmara que adoram criticar, insultar, usar sempre no sentido do opóbrio e da mesquinhez. É a política local no seu mais miserável estado de oportunismo. É verdade que a boçalidade me irrita. É um dos meus pontos fracos. Não convivo bem com a boçalidade e isso irrita-me, coisa que é mal vista. Devemos saber conviver com a boçalidade, manda o manual do políticamente correcto. Mas não sou capaz.
Daí esta explicação. E a informação de que a partir da próxima semana publicarei aqui a minha agenda diária de trabalho (a meio tempo como diz a ignorãncia maldosa) e veremos se é a meio tempo como quer a maldade da política local. Todas as semanas será publicada para que se saiba a diferença entre quem ,apesar de doente, não abdica dos seus juramentos de lealdade, e aqueles que usam a maldade como a melhor arma da indecência, capazes de vender a sua dignidade por um prato de lentilhas, por isso mesmo incapazes de perceber que essa mesma dignidade se constrói com esforço, trabalho, dedicação e muito desprendimento da vida. E nobreza de carácter, coisa que a malandrice nacional jamais perceberá. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Em favor do elogio a Nuno Serra

Vivemos num tempo em que elogiar alguém obriga a ser corajoso. O tempo é do destempero, do bota abaixo, da invenção da torpeza, do desprezo como vómito. Descarregar a ira, a ausência de conhecimento, o culto da incompreensão e das ideias preconcebidas, proclamar verdades indemonstradas segue em passo certo com o servilismo, a bajulice e o calculismo, tornando-se a mistura numa concreção de uma certa canalhice nacional e políticamente correcta. Sempre nutri um profundo desprezo pela bajulação e pela pesporrência e procuro fazer de cada momento da minha vida, quer como presidente da câmara, quer como escritor, quer como pessoa um acto de coragem para reconhecer aquilo que os outros fazem de bom, pensem como eu ou pensem de forma diferente. Tenho,até, a convicção que o livre pensamento, a diversidade de pensares e de opiniões tornam mais rico o nosso mundo.
Recebi reacções de aplauso à saudação que neste blogue fiz ao Deputado Nuno Serra. E recebi reacções de cepticismo. Algumas de desconfiança. Por isso, volto á carga. Sei que é difícil elogiar. Que é difícil reconhecer as qualidades dos outros, quando estamos tão fortemente concentrados no nosso próprio umbigo. Que é mais fácil ignorar virtudes e publicar defeitos, por vezes supostos. Que é mais fácil, por ser simplista, a arrogância e a indiferença, as armas mais queridas dos medíocres disfarçados de proclamadores de princípios.
Mas Nuno Serra é um caso de estudo em Santarém. Tem a inteligência dos sábios para fazer as sínteses de vida que só a idade proporciona a alguns. E ele é um jovem. Tornou-se Deputado por mérito, trabalhando incansávelmente pela sua eleição. Tem-se revelado um Deputado emérito não esquecendo os seus eleitores e pugnando pelos interesses de Santarém e da região. É um autarca atento e sensato. Longe da retórica de redondilha dos seus oponentes. Solidário e responsável. É seguramente o político mais destacado, saído de Santarém, o mais activo  e que é de uma injustiça profunda metê-lo no mesmo saco onde se enfiam os medíocres que usam o poder por razões pessoais e conjunturais. E com um futuro promissor, se continuar assim e estiver avisado. Quando a política perde a nobreza e se transforma em politiquice bem se sabe como o punhal de Brutus assassina quem lhe está mais próximo. É frontal, crítico e franco.E sério. Santarém merece-o.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Unicer - Uma amarga estalada!

A notícia colheu o país de surpresa e Santarém ficou perplexa. Sem outra razão que não sejam critérios de gestão há muito definidos, a Unicer vai suspender a sua actividade de produção de cerveja em Santarém no ano de 2013. Foi-me explicado pelo presidente da empresa que, apesar desta decisão a longa distância, decidiram torná-la agora pública para preparar condições empresariais e dos seus trabalhadores para encerrar a produção. Segundo a mesma fonte, a ideia é concentrar a produção de cerveja na empresa mãe, deixando em Santarem a produção de refrigerantes e a plataforma logística. Ao todo, mais de uma centena de trabalhadores vai perder o seu lugar de trabalho neste concelho, deslocalizando-se para os centros que a Univer conserva abertos por esse país fora. Transmiti ao presidente da Unicer a minha profunda desilusão e estupefacção. Ainda por cima quando não é a crise, nem quaisquer dificuldades da empresa que justificam a decisão. Apenas um critério de gestão interna. Admito,ainda, que outro critério de gestão mais humano possa rectificar esta decisão. 2013 ainda vem longe e a esperança não deve morrer.
No entanto, esta decisão unilateral da Unicer, da sua exclusiva responsabilidade, não é caso único pelo país e deve colocar os autarcas, e incluo-me neste grupo, a reflectir sobre a necessidade, e o esforço muitas vezes suplementar que é feito pelas autarquias para fixar empresas, em nome da defesa de empregos e do fortalecimento do tecido empresarial. Em Santarém conhece-se inditoso caso da Cerveja Sintra que levou a autarquia a investir milhões de euros para depois surgir, meia dúzia de anos depois, um fogo fátuo. A grande obra gemia sob a ameaça de fechar. Aconteceu o mesmo com a Lactogal. E agora, ainda que com pressupostos diferentes, pois a história das útimas década da Unicer está associada a este concelho, aconteceu este caso. Quanto investiu o município para que este projecto se afirmasse? Seguramente muito investimento técnico, muito esforço, muita dádiva. Porém, chegada a hora do corte radical, a 'decisão de gestão interna' despedaçou esforços de décadas e atira para as urtigas com o discurso encantatório do emprego. A visão economicista da empresa vale muito mais que um, dois ou cem postos de trabalho e o destino desses homens e mulheres.
Esta é a dura realidade com que se defrontam as autarquias. Ávidas por criar riqueza e postos de trabalho. Investindo em planeamento, licenciamentos, apoios de toda a ordem. Quando chega a hora da decisão tudo isto valeu menos que um saco de lixo. E daqui não há saída. Sei que várias empresas na região estão para fechar ou para falir. Outras, pesem as grandes propostas, nem chegaram a passar de projectos, desistindo ainda antes de começarem. E a autarquia sempre a jeito. Disponível para que se realize a miragem do emprego. Disponível a todos os esforços para defender postos de trabalho. Triste e pesado fadário este, no dia em que a dívida portuguesa foi classificada de lixo pelas agencias de 'rating'. Mas é preciso resistir. É necessário que estas desilusões não dobrem vontades e continuar. Continuar porque o futuro não se constrói com mágoas, lágrimas e pesporrência. E merece toda a energia e vontade.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Nuno Serra: Um Deputado que é um HOMEM!


Decorem este nome: Nuno Serra. Há muito que se vinha afirmando na política local de Santarém. Nestas eleições foi eleito Deputado da República. Ao longo destes meses de mandato fez com que descobrisse um deputado de que apetece dizer bem e tê-lo como representante. Activo parlamentar, não tem deixado que essa actividade o faça ignorar - como é costume acontecer - os compromissos com os seus eleitores. Encontro-o em todo o lado. Perguntando, querendo saber dos problemas, preocupado em encontrar respostas. Tem a virtude de não padecer de oportunismo. Nem comodismo. Inteligente, activo, apaixonado pela sua terra, é dos jovens mais brilhantes que Santarém produziu. Sem falsas delicadezas, sem os rodriguinhos da intriga. É da idade do meu filho mais velho. E gosto de ver rapazes que se transformam em Homens dedicados ao próximo, entregues sem condições á causa pública. Nuno Serra vai longe. Que não deixe que estas qualidades tão raras, nos dias que hoje, correm se sobreponham aos comuns defeitos de quem usa a vida pública como tacho e como penacho. Tiro-lhe o chapéu e aplaudo a sua generosidade sincera para com Santarém!