sábado, 28 de janeiro de 2012

O Frio da Solidão


Este mês, só em Lisboa, terão morrido onze velhotes sem apoio nem o cuidado de alguém. Abandonados. Exilados na sua própria velhice.Esquecidos. Em janeiro o frio é maior do que o frio para quem é velho e vive no mais frio esquecimento. A morte assim, neste abandono animal, nesta indiferença inumana, nesta amoralidade cívica, fala dos velhos e fala de nós. Da indiferença e do egoísmo. Fala de uma sociedade que se deixou corromper pelo vício da indiferença. Pela procura de outros culpados que não seja a pilatesca decisão de nos afastarmos da tragedia. Mas ela regressa. Porque a morte é de todos nós. Um momento que deve ser alto e digno na vida de cada um de nós. E não um esquecimento. Ou um alerta de um vizinho porque cheira mal na rua ou no prédio. Que não temos feito para que seja assim a indignidade dos nossos actos? Como nos deixámos empobrecer que a própria ética definhou? Empaturrados de enganos, insaciáveis de individualismo, já tão mortos em cada narcisismo, em cada mito de plastico, recolhido como bem imortal, que os velhos morrem assim e nem única lágrima está ali. Nem um momento de recolhimento perante a potência da Vida e a omnipotência da Morte. Sózinhos. Afinal de contas, tão sozinhos como nós. Derreados que estamos, submetidos á lógica infernal da indiferença. É espantoso que estas mortes em massa aconteçam e tudo não passe de uma mera notícia de jornal e de uma acção de limpeza da Cãmara. Estamos mais doentes do que imaginamos. As aflições da crise financeira são pequenas dores desta dor maior que nos devora, desfazendo em pedaços de tristeza a pouca alma que vai sobrevivendo ao horror do frio que mata a coragem com que se constrói a dignidade. Estamos mal, meus amigos. Muito mal.

1 comentário:

  1. Sr. Presidente, Dr. Francisco Moita Flores, sempre fui um admirador do seu talento na arte do bom discurso, desde o tempo que ainda estava na judiciária, portanto já lá vão uns bons anos. Aprecio a sinceridade e inteligência com que aborda cada tema, a clareza de ideias e o contributo que tem dado na construção da nossa “opinião pública”. Por isso mesmo, não hesitei em apoiá-lo através do voto aquando as duas candidaturas à CMS. Não acompanho muito a política, mas creio que estará a fazer o seu melhor pelo nosso concelho, apesar das dificuldades que o município atravessa. Contudo, uma coisa devo dizer-lhe - e perdoe-me fazê-lo por esta via, pois já o fiz por carta que nunca teve resposta – em 2009 escrevi um livro, cujo lançamento decorreu no Teatro Sá da Bandeira, para o qual entreguei pessoalmente um convite a uma das suas assessoras. Nunca obtive resposta. Mais tarde, enviei-lhe, por correio, um exemplar, para além dos oferecidos à biblioteca municipal, e visto nunca ter recebido confirmação, escrevi-lhe uma carta solicitando que me confirmasse ou não a receção do mesmo. Mais uma vez, em vão. Fiquei muito desiludido. Não esperava uma atitude destas, vinda de um homem de cultura, especialmente por se tratar de um munícipe do concelho que governa. Mesmo assim, quero acreditar que toda a informação ficou perdida na consciência de quem faz a triagem do que lhe deve chegar às mãos. Talvez esta não fosse relevante!

    Cumprimentos e as melhoras

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