quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Quando a maldade é a tempo inteiro

Sirvo há quarenta anos nas fileiras do serviço público. Se é verdade que trabalho para viver, e educar os meus filhos, também é verdade que nunca pus o dinheiro acima da paixão pela causa pública.Tempos houve, em que trabalhava dias a fio, noites seguidas, sem que isso representasse mais do que um euro de horas extras. E por várias vezes, por paixão ás causas que abracei, ofereci a minha vida, como outros antigos compaheiros o fizeram, a bem da segurança e da tranquilidade pública. Fui sempre assim. Desprendido. Dando tudo aquilo que tinha sem pensar na retribuição.E foi com muito trabalho - o bem que dá condição á dignidade humana - que consegui construir uma vida com muitos sucessos e, para quem me acompanha, com muito mais sofrimento. Quem não nasce num berço de ouro, nem é oportunista, bem precisa de comer o pão que o Diabo amassou para conquistar a identidade reconhecida. Foi com essa paixão que abracei o serviço, e o juramento, que fiz por Santarém. E todos os dias da minha vida dos últimos seis anos, sou bem capaz de contar pelos dedos das mãos, os poucos dias que não servi para descanso pessoal. Sempre a mesma rotina. Entrar ás 9.30-10 horas e sair ás 20-21 horas.Muitas vezes sem almoçar. Mas sem me lembrar que haveria hora de almoço. Depois, a mesma regra. Casa e estudo. Ou projectos autárquicos ou os meus livros - aqueles que leio ou aqueles que escrevo -até á uma ou duas da manhã. Para recomeçar tudo outra vez, no dia seguinte. De vez em quando sou convidado para ir a uma televisão. Quando posso, aceito. Não vou á televisão desprestigiar Santarém e bem sei, e o futuro irá mostrar, quanto dessa intervenção serviu para dar visibilidade á cidade e ao concelho que jurei servir com lealdade. A lealdade que me levou sempre a renunciar aos meus direitos. Só em condições excepcionais utilizo motorista. Com excepção de uma ou duas vezes, no início do primeiro mandato, nunca meti uma ajuda de custo na Câmara.Muitas das viagens que fiz ao serviço da autarquia paguei-as do meu bolso. Nunca dei notícia disso e fi-lo sempre sem valorizar o deve e o haver desse serviço. Mesmo nos momentos de maior ruído político e de notícias de arruaça, sempre me amntive em silêncio. Julgo que a maior parte desse ruído é isso mesmo: ruído. Não vale perder nem o tempo nem a paciência.
Infelizmente para mim, sofri no ano de 2010 vários revezes de saúde. Que sempre mantive, não em segredo, mas em discreto silêncio. Até que não foi possível manter mais o silencio e a discrição porque fui hospitalizado. E meti um atestado médico de cinco dias. E mesmo assim compareci numa assembleia municipal e reconheço que foi dos momentos de maior debilidade que vivi, mas Santarém exigia isso e cumpri. Um jornal local garantiu que tive três semanas de baixa!!! Ou não percebeu ou fez que não percebeu. Pouco importa. Soube depois que iria ser sujeito a uma série de exames médicos para avaliar, e reparar as mazelas que atingiram o meu intestino grosso. Percebi que preciso de perder alguns dias de trabalho nos próximos meses. É certo que podia resolver essa situação pedindo os respectivos atestados médicos. Ninguém perceberia, e até aceitaria com bondade, e trataria da minha saúde sem dar explicações como esta que me vejo obrigado a dar.    Porém, sempre fui resistente á cultura dos atestados médicos e bem sei quanta preguiça, oportunismo, vadiagem mesmo, se esconde por detrás desse documento. E decidi pedir o fim do regime de exclusividade. O que não significa outra coisa que não seja receber metade do ordenado que a lei me põe á disposição. Não significa outra coisa. Só isto. E libertar-me algumas manhãs, algumas tardes, alguns internamentos de dois ou três dias que tenho de fazer (estes com atestado médico). Falei com os meus filhos, a minha família, áqueles que todos os dias dou conta da minha vida sobre esta decisão. Conhecem-me e sabem que não estou disposto a que seja discutido um único cêntimo do merecimento do meu trabalho. E sabem que isto não é aquilo que maldosamente foi objecto da indignação dos actores políticos de Santarém. E se é certo que muitas vezes me senti frustrado com o nível da oposição que era feita ao nosso mandato. pela mediocridade e pelo primarismo das discussões intermináveis sobre os talentos e virtudes do poder local, é bem verdade que nunca me senti tão repugnado como me sinto quando escrevo este texto. O mesmo jornal resolveu pôr a situação ao contrário. Para eles, pedir o fim da exclusividade significava passar a meio tempo de trabalho(!!!) e vá de inquirir o povo político sobre esta novidade. Claro que esse povo político lançou todo o fel sobre esta decisão que, reconheço, tem a ver com o meu feito e nada com coragem ou outras virtudes do género. Mas pior do que isso é que revela o verdadeiro desconhecimento daquilo que é o presidente da câmara que adoram criticar, insultar, usar sempre no sentido do opóbrio e da mesquinhez. É a política local no seu mais miserável estado de oportunismo. É verdade que a boçalidade me irrita. É um dos meus pontos fracos. Não convivo bem com a boçalidade e isso irrita-me, coisa que é mal vista. Devemos saber conviver com a boçalidade, manda o manual do políticamente correcto. Mas não sou capaz.
Daí esta explicação. E a informação de que a partir da próxima semana publicarei aqui a minha agenda diária de trabalho (a meio tempo como diz a ignorãncia maldosa) e veremos se é a meio tempo como quer a maldade da política local. Todas as semanas será publicada para que se saiba a diferença entre quem ,apesar de doente, não abdica dos seus juramentos de lealdade, e aqueles que usam a maldade como a melhor arma da indecência, capazes de vender a sua dignidade por um prato de lentilhas, por isso mesmo incapazes de perceber que essa mesma dignidade se constrói com esforço, trabalho, dedicação e muito desprendimento da vida. E nobreza de carácter, coisa que a malandrice nacional jamais perceberá. 

7 comentários:

  1. Tive conhecimento deste blogue atravès da minha amiga Fernanda Marreiros, que por diversas vezes,comentou a época que trabalharam juntos..este texto faz-lhe jus..tiro-lhe o chapéu com alguma formalidade..gosto de dignidade, lealdade, trabalho, honestidade e acima de tudo, gosto muito de desprendimento.Parece-me que tudo isto e-lhe familiar! Bem haja

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  2. Desejo-lhe francas melhoras. Carlos Varela jornalista do Jornal de Notícias

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  3. Só é pena Santarém ser cada vez mais conhecido pelos seus "calotes" como o caso da Orbita e centenas de outros...nem dinheiro para o (pasme-se) papel higienico no teatro sá da bandeira há!! Se isto não é má gestão então o que é?
    Cumprimentos e as melhoras

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  4. Os meus desejos de uma rápida recuperação de saúde para o Presidente da Camara de Santarém, mas acima de tudo para o Homem!!! A cidade não o esquecerá e o país, sempre precisará de si!!! Nos vários caminhos que tão bem soube percorrer, aprendemos a respeitá-lo e de sobremaneira a gostar de si!!!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Amigo Dr. Moita Flores, a vida é difícil mesmo, não é?Viver não é uma coisa fácil... e por mais que a gente olhe em volta e pense "caramba, só acontece comigo"... na verdade, nós sabemos que tem pessoas sempre passando por coisas bem piores do que nós. Eu sei que isso não é exatamente um consolo, e eu sei que o que para si não é nada demais, para mim pode ser um grande sofrimento. Mas conhece aquela fábula que foi contada ao ex-governador de São Paulo, Mário Covas, quando ele estava doente no hospital? Ele se emocionou com a história, e eu vou transcrever abaixo para que possa ler, porque vale a pena. Faz -nos pensar mais positivamente sobre a vida e entender porque as coisas acontecem como acontecem, e não como queremos.
    Um abraço para si e que Deus ilumine a sua vida com rápidas melhoras!!

    Lá vai a história:

    "Amigos
    Um dia, uma pequena abertura apareceu num casulo.
    Um homem sentou e observou a borboleta por vária horas, conforme ela se esforçava para fazer com que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco.

    Então, pareceu que ela havia parado de fazer qualquer progresso.
    Parecia que ela tinha ido o mais longe que podia, e não conseguia ir mais.

    Então o homem decidiu ajudar a borboleta: ele pegou uma tesoura e cortou o restante do casulo. A borboleta, então, saiu facilmente. Mas seu corpo estava murcho e era pequeno e tinha as asas amassadas.

    O homem continuou a observá-la porque ele esperava que, a qualquer momento, as asas dela se abrissem e esticassem para serem capazes de suportar o corpo que iria se afirmar a tempo.

    Nada aconteceu! Na verdade, a borboleta passou o resto de sua vida rastejando com um corpo murcho e asas encolhidas. Ela nunca foi capaz de voar.

    O que o homem, em sua gentileza e vontade de ajudar, não compreendia era que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para passar através da pequena abertura era o modo pelo qual Deus fazia com que o fluido do corpo da borboleta fosse para as suas asas, de forma que ela estaria pronta para voar uma vez que estivesse livre do casulo.

    Algumas vezes, o esforço é, justamente, o que precisamos em nossa vida. Se Deus nos permitisse passar através de nossas vidas sem quaisquer obstáculos, nos deixaria aleijados. Não iríamos ser tão fortes como poderíamos ter sido. Nós nunca poderíamos voar.

    Eu pedi forças... e Deus deu-me dificuldades para fazer-me forte. Eu pedi sabedoria... e Deus deu-me problemas para resolver.
    Eu pedi prosperidade... e Deus deu-me cérebro e músculos para trabalhar.
    Eu pedi coragem... e Deus deu-me pessoas com problemas para ajudar.
    Eu pedi favores... e Deus deu-me oportunidades.
    Eu não recebi nada do que pedi... mas eu recebi tudo de que precisava."

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