segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Quando os Monstros Acordam nos Caixões

Neste tempo de turbulência política e social, quando explode a desconfiança, quando as cargas de sofrimento levam os homens ás mais desencontradas emoções, serpenteiam pelo caldo de angústias as mais perversas das seduções, verdadeiros cânticos de sereia chamando os destrambelhados para um cativeiro de sereias assassinas, clamando os mais sinistros destinos e propósitos. Estar contra projecta-se muitas vezes numa ideação da representação social disforme que apela a que estejamos contra sem sabermos, a maioria das vezes para onde queremos ir e quais os projectos de que se está a favor. 
Vem isto a propósito de um apelo que circula nas redes sociais, assinado por um autodesignado movimento anti-partidário que confunde com primarismo boçal a liberdade que a Liberdade lhe entrega com o ataque mais violento contra ela. Agora pede a quem o escute que no próximo dia 5 de Outubro, haja uma invasão da Assembleia da República. Não sei para quê. Percebe-se que é contra os partidos. Mas não são claro quanto áquilo que querem ou são a favor.
Sou independente. Faço parte de uma geração que deu aos portugueses a possibilidade de viverem em Liberdade, de cada um escolher o seu próprio caminho, sem medo, sem mordaças, sem receio de estar a favor ou contra. Faço parte de uma geração que foi censurada porque estava contra. Que foi presa porque estava contra. Que foi obrigada ao exílio porque estava contra. Faço parte desse tempo em que havia cantigas proibidas, livros proibidos, ideias proibidas, de mulheres proibidas, sem direitos nem reconhecimento, tempo cinzento e pardo em que a guerra levava os melhores, em que a Justiça era conspurcada pelos tribunais plenários e pelas tristemente célebres medidas de segurança que metiam na cadeia, anos sem fim, sem julgamento, pessoas que apenas pensavam diferente.
A minha geração combateu e venceu esse tempo feito de silêncio e  mordaças. Queríamos tudo aquilo que depois conquistámos. Palmo a palmo. Éramos a favor de alguma coisa e conquistámos pela luta contra, aquilo que queríamos. Eu queria muita coisa. Era a favor de muita coisa. Sobretudo de um país livre onde crescessem os meus filhos, um deles nascido 19 dias antes do 25 de Abril. Escorreram-me as lágrimas ao saber da notícia que a censura tinha terminado. Nada é pior para um escritor do que ver as palavras amputadas pela bota cardada de um polícia qualquer. E queria, e quero, a democracia dos partidos. Organizados com projectos diferentes porque só somos iguais se formos diferentes no pensar e na capacidade de escolher. Defendo que devem existir em toda a geografia política, desde a direita á esquerda. Acredito nessa diversidade que defende a democracia crista, a social democracia, o socialismo, o comunismo, os regimes populares, os animais, a ecologia e por aí fora. Numa palavra: não consigo ser anti-partido, embora seja independente que já votou em diversos partidos ao longo de trinta e oito anos de democracia e que nunca votou antes dela existir porque estava proibido. Era do contra, não tinha direito a escolher.
Reconheço que a evolução dos vários partidos que nos representam encaminhou-os para a crise ideológica e de valores. Que precisam de profundas reformas internas, que urge redescobrirem a democratização, desfazendo clientelas, 'aparelhos' , burocratas, oportunistas que os usam com fins pouco altruístas. E isso vai acontecer mais dia, menos dia. O actual estado de degradação não se mantem por muito mais tempo. Porém, são a forma diversa de nós pensarmos, do nosso direito a escolher, do nosso direito a participar. É exactamente na Assembleia da República que está essa síntese do que o país pensa e, de alguma forma, uma parte de nós, pois que quando votamos, escolhemos, e entregamos a nossa confiança.
Como diria Churchil não será o mais perfeito dos sistemas. Faltam sempre mais escolhas e não existe um único hemiciclo, depois de cada acto eleitoral, que preencha todo os nosso mundo de expectativas. Mas ali mora o que de essencial nós quisémos que morasse. Aqueles deputados são nossos. Representam-nos, embora haja alguns que atraiçoaram a nossa confiança e tornassem vendilhões do nosso templo de esperança. São alguns, não são todos. Existe a mais poderosa das representações populares embora não exista a mais fabulosa das virtudes. São como a sociedade que representam com as mesmas virtudes e os mesmos defeitos. Mas são o corolário de uma Estado que vive dificuldades, é certo, mas que é muito melhor do que o outro onde se viviam piores dificuldades e imperava o medo e a iniquidade. 
É certo que estamos contra. E fazemos bem em ter regressado aos tempos do contra. Porém, assaltar o mais nobre órgão da soberania do Povo, não é um gesto contra. Nem é apenas um gesto anti-partido. É a caminhada trôpega, bronca, ignorante, boçal para um messianismo inglório e decrépito. A favor de um qualquer D. Sebastião que surja no nevoeiro da nossa própria desorientação e, como se sabe, ele não regressou de Álcácer Quibir. Este desbragamento que convida a assaltar a Assembleia da República nem chega a ser contra os partidos. É contra nós próprios, aqueles que mais sofrem, aqueles que mais necessidade têm de ajuda e, ensina a História, que exactamente por esses que os ditadores começam a encher as valas comuns de cadáveres. Precisamos de uma Nova Ambição, é certo. Precisamos de mudar de agulha e de pensar perante os terríveis problemas que nos assolam, precisamos mesmo que os partidos políticos se reconvertam em baluartes da confiança perdida. Mas que tudo isto aconteça não é necessária a fúria dos cegos de ódio e de incompreensão com a vida. Destes apenas sairá mais ódio e mais amargura. Já não têm nada para oferecer a não ser estar contra. O que no caso de se dar o assalto á Assembleia da República, apenas nos mostrarão como se consuma o crime de traição á Pátria. Pode ser que os vinte e cinco anos de prisão que os espera, lhes devolva a humanidade que perderam. E a lucidez suficiente para deixarmos apenas ser do contra e tornarmos a ser os caminhantes do sonho e da esperança.  

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