quinta-feira, 4 de outubro de 2012

São três da manhã e o sono não chega. Á solidão tranquila do meu quarto chega o trinado dos rouxinois que, suspeito, solidários com a melancolia que me perturba o sono e me impõe a insónia e me fazem pressentir Florbela Espanca neste Alentejo orvalhado, e já friorento, que entra pelas frinchas das janelas.Dou comigo a recordar a República, e ela toda romântica nos olhos do meu avô António.Soldado brioso da Rotunda que afrontava as tropas de Paiva Couceiro e recitava esse dia como o mais completo e total da sua vida, depois de caminho andado, com os netos em volta, recriando a história desse parto, a menina dos seus olhos, pela qual lutara e se dispusera á morte sem ao menos ter disparado uma bala. Meu querido Avô António, esse teu olhar menino, mesmo quando já as rugas te acentuavam as expressões do próprio riso, que me entregaste com essas histórias de encantar a certeza, igual á tua paixão, de que naquele tempo, pardal de calção e sapatos rasgados dos desafios de futebol, a República era seguramente o primeiro lugar onde os homens habitam já muito perto do Céu bem perto do abraço fraterno a Grande Arquitecto construtor de Universos, de Vidas e de Sonhos. Foi necessário passarem muitos anos, desde essas noites de contas, noites iguais a esta, em que nos sentávamos à tua volta, ao porta de casa, ao fresco da noite escutando-te enquanto olhávamos as estrelas decifrando na escuridão os caminhos que a Republica nos abria entre o manto luminoso da Estrada de Santiago.
Enamorei-me aí. Servir a República, servir a tua história tão generosa e pueril, comandada pelo heróico Machado dos Santos, pejada de carbonários barbudos armados e barbudos, de marinheiros e soldados, também eles barbudos, de maçons, igualmente barbudos, tornou-se na obsessão de uma vida.Os teus contos rasgaram os sulco por onde caminhei, sonhando dar a vida por ela, que pelos amores ninguém mata, mas por amor não nos importamos de morrer..
Há muitos anos que não sei de ti, Avô. Partiste naquele inverno friorento, já lá vão 39 anos, e durante estes 39 anos, não se passou um único deles, que nesta noite não tivesse celebrado a tua aventura estranha, indo espreitar as estrelas do céu, talvez á espera de te reencontrar, sorriso menino num olhar de velho, que amava a sua República (que tenho admitir não saberes explicar bem o que era isso mas que desculpava porque era tempo de Ditadura e Salazar odiava a República do povo) como se embala nos braços o filho que acaba de nascer.
Esta noite as lembranças, a tua lembrança ingénua, chega-me parda e inquieta. Nem o murmúrio dos rouxinóis apazigua esta inquietação. E não festejo. Prefiro o silêncio ao turbilhão de alvíssaras, pois quando estamos magoados, não apetece escutar nem foguetes nem raivas ensandecidas pelo desespero. E continuo a amar-te como no primeiro dia em que vi, imaginada nas palavras do meu doce e saudoso Avô António. Tinhas o queixo alto e o busto exuberante, sensual, era mais forte que a coroa de louros que te iluminava o rosto. Minha eterna heroína. Meu definitivo desejo e amor acima de todos os amores fugazes. Mãe dos meus filhos e dos teus filhos. Promessa de fartura e paz, de liberdade e justiça, de fraternidade a rodos, e fartura pelas ruas e pelas casas de toda a gente. E esta noite, que se tornou numa noite tensa e magoada, não me liberto do fardo de saber que há mesma hora, por esse país imenso de generosidade, mirram alegrias e sustentos, mirram sonhos, Avô, o melhor alimento que recebi dos teus contos. Jurei servi-la, servindo-lhe a Vida.E sempre julguei que quanto mais a servisse, melhor seria a sua dádiva. Porque ao contrário de ti, tornei-me franciscano e crente absoluto de uma prática de vida que acredita piamente que é dando, que se recebe, que é amando, que se é amado, que é procurando compreender que se é compreendido. E hoje, 112 anos depois, escuto o silêncio da noite, e os doces rouxinóis que vieram até perto da minha cama cantar a ternura, e tempo que os teus sonhos, os meus sonhos, os sonhos de muita gente que juraram a procura da Igualdade, da Fraternidade e da Liberdade estão desfeitos ou em pesadelos de pranto, amanhã despertos sem que a palavra Esperança lhe habite o coração. Por ela dei-me todo, sem nada esperar em troca que não fosse o beijo liberto com que, depois das histórias dessa noite, nos sussuravas: Está na hora de ir para a cama. E aqui estou a escrever-te, no dia dos 112 anos, duvidando do teu sorriso menino, dos encantamentos desses caminhos mágicos que ela prometia, alegre e viva. Murchou. Transformou o amor em ira. Deixou que os homens, mesmo aqueles que regularmente juram fidelidade á Liberdade, á Igualdade e á Fraternidade vomitar obscenidades que, eu sei, ó se sei, que falam de medos e esquecem desiludidos a coragem de resistir.
Daqui a pouco vai amanhecer. Vão cumprir-se o ritos evocativos, com discursos e hino. Mas,apesar de tudo, desta mágoa tão grande, neste mar de gente em desespero, deste mar de sofrimento por onde navegamos, da minha própria mágoa e insónia, eu quero dizer-te Avô. E dizer ao Avô Francisco que por certo andará contigo  pelos céus, querendo saber dos netos, que acredito nos teus contos meninos. E que apesar destes dias ruins, de tempestade sem norte, eu vou esperar por ela. E por ela lutarei com a coragem que os dois me ensinaram. Agora que cada vez me aproximo mais do sítio de onde me olham, não sou capaz de mudar e sei que algures, por momentos adormecida, por momentos irada, está essa paixão, esse amor maior do que a própria Vida, que fala de memória e afectos, e continuarei resistindo. Servindo-a. Por ela resistindo e amando e entregando cada acto, todos os actos, desta já vivida existência que sempre trouxe no bojo, esta paixão nunca tardia de almas gémeas, e bem sei que só com essa paixão desprendida que tudo perdoa e das cinzas se refaz, como a Fénix, em possível pegar em cada pedra bruta e a golpes de vontade torná-la polida e bela, exactamente como são os sonhos.  Os rouxinóis calaram-se e escuto ao longe um dos meus rafeiros que ladra á lua. Talvez saúde a República. Eu planeio o dia em que lhe arrancaremos os farrapos andrajosos de tanta miséria e lhe daremos camisa de linho, alva e perfumada, que não lhe esconda o busto generoso, mas que lhe entregue o sorriso menino com que nos ensinaste a amar. A amar a nossa Republica!

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