segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Uma Nova Ambição (I)

Não me sai da cabeça as comemorações do 5 de Outubro. No seu conjunto são um terrível metáfora sobre o estado do país. A bandeira hasteada em submissão, as cerimónias cercadas por grades, as ditas esquerdas (nas quais o PC não se fez representar) enfiadas num anfiteatro repetindo os lugares comuns de sempre, o primeiro ministro ausente no estrangeiro, a indiferença popular, fez com que este dia, que devia ser de comemoração, se tornasse numa liturgia de finados, sem energia, cabisbaixa, não cumprindo a sua função legitimadora e congregadora de vontades. Foi um velório na Câmara Municipal com as carpideiras aos gritos revolucionários numa outra sala com gente desorientada que contesta o governo e a única proposta, mais sonora que a oposição devolveu, foi a promessa que o 5 de Outubro vai voltar a ser feriado. Para quê? Pergunto eu, depois deste fiasco colectivo? Para aumentar a amargura e o desespero? Para alimentar a política do lugar comum, das fórmulas académicas, teoricamente eruditas, mas tão desastradas que empurram as populações para a fome, para o desemprego e para a miséria sem que haja um único sinal de investimento na economia? Para quê? Para que a 'rua' comande os passos, sem direcção política, sem objectivos de construção, sem um único caminho de esperança, transformando-nos num imenso grito de protesto, condicionando uma ou outra política, mas sem um plano, um objectivo positivo para o país? 
Aquilo que o 5 de Outubro sintetizou de forma perfeita foi a exibição do poder republicano numa fase avançada de decadência, aviltante para a memória dos seus maiores heróis (políticos, poetas, escritores, obreiros de todas as artes) e de desesperança para quem aqui vive, trabalha, educa os filhos e ama a sua terra sem conseguir dar um sentido mais amplo ás suas expectativas existenciais.Esta decadência não traz mais futuro que não seja mais decadência. Não traz esperança, o motor essencial da confiança nos homens e na Vida. Não traz alegria, o perfume decisivo para que os projectos ganhem força. Não traz nem mais investimento, nem mais trabalho, molas essenciais para projectar o futuro. Não traz mais nada a não ser lamentos, protestos, sementeiras de ódio e desprezo, lugares de histerismos e erros, onde as ruas e as praças são cada vez menos de quem procura viver e transformam em grades, polícias, separadores redutores da nossa vida comum. 
Uns acreditam na troyka. Outros acreditam que é contra a troyka. Muitos acham que esta perda de soberania serve especuladores sem escrúpulos, arruína (ainda mais) o país, outros consideram que é este empobrecimento rápido e brutal que nos vai mostrar as portas de Jerusalém Celeste.No fundo, a lógica dos prós e dos contra é a mesma. Tão idênticos nos apoios e nos protestos, no que respeita ao futuro, que nos leva a recordar Guerra Junqueiro, tão vazios, tão ocos, tão sem ideias, tão iguais com as duas metades do mesmo zero.
O que este 5 de Outubro revelou é que estamos num beco. A alternativa á miséria, é mais miséria. A alternativa para a desconfiança, é mais desconfiança. A pescadinha não solta o rabo da boca e este ciclo infernal não tem fim, ou pior, pode ter o mais desgraçado dos fins, diminuindo Portugal, humilhando-o, deixando-nos presos aos mais trágicos dos desesperos.
Ao longo da minha vida, passei por vários lugares do mundo e do trabalho. Os últimos sete anos, tinha 52 quando me iniciei nas actividades políticamente activas, à frente de uma autarquia à altura degradada e sem auto-estima, permitiu-me perceber muitos dos erros que se replicam no todo nacional, que ferem de morte a política central, que inibem novos olhares, novas abordagens, o medo a novos desafios, fora da lógica que durante décadas se foi instalando e fazendo com que o poder mirrasse, por excesso de atavismo, que se tornasse numa máquina que de tanto procurar, e se confortar, na crença da racionalidade produziu a decadência política e moral em que hoje nos debatemos. Somos herdeiros de uma pesada e terrível herança neste domínio. Estamos habitados pela ideia de uma sociedade dividida em Blocos. Uma ideia antiga, surgida nos Estados Gerais durante a Revolução Francesa, mas que a filosofia positivista, nas suas mais variadas projecções no mundo da política, no mundo social e no mundo académico, radicalizou e tornou definitivas. Ou pelo menos, dominantes e determinantes até aos dias de hoje. Esse pensar velho e modelado ignorou as profundas transformações que ao longo do séc. XX, e agora no início deste século, modificaram por completo as formas de pensar, de agir, de entender o mundo, a necessidade de o reorganizar face a alterações estruturais que  não são compatíveis, que se escapam, aos instituintes de controlo social, económico e político que as tradicionais formas de apropriação do poder reclamaram como suas.
As revoluções invísiveis, de longa duração, imperceptíveis, mas que se introduzem rápidamente nos hábitos, quotidianos, conhecimentos e saberes provocaram uma ruína quase irresolúvel nos discursos retóricos, racionalizados, organizados, carregados de falsas expectativas porque na verdade falam e narram o irreal e não a realidade. É esse discurso sobre as aparências que não compreende o país (dantes ouvia-se o jargão do 'país real') que está a viver, assim como o resto do mundo, profundas transformações no que respeita á cibernética, ao ambiente, a revaloração dos direitos civis, á exigência de direitos que o próprio planeta reclama. Passou-lhes ao lado, merecendo uma atenção meramente colateral, novos processos de afirmação como os direitos das mulheres, os direitos das crianças, a rápida transformação das mentalidades dos mais jovens que nasceram com a internet na sua genética, a aceleração do tempo e o encurtamento do espaço, enquanto coordenadas fundamentais da nossa memória e vida, ignoraram as alterações nas estruturas de produção, nas estruturas do saber e do conhecer e, agora, atónitos perante um mundo desconhecido, teimam nas fórmulas clássicas, ignorantes, atávicos, já incapazes de entender um país que exige novos desafios e, acima de tudo, exige uma nova ambição.
 

3 comentários:

  1. Não há esperança no horizonte.. e até este tende a desaparecer... É preciso inventar uma nova democracia, de preferência uma que o seja efectivamente... Mas com papas e bolos se enganam os tolos, e basta meia dúzia de promessas e de palavras caras e ocas para que o povo pense que aqueloutro é melhor que este e vai virar o rumo deste afundamento titânico que vamos vivendo... Está tão mais para lá o problema... é tão grande que nem se vê, ocupa muito mais que o campo de visão...

    Precisamos que as pessoas como o Dr. se mobilizem e agarrem nas rédeas deste país do faz de conta... se as conseguirem encontrar...

    Bem haja caríssimo, é sempre um prazer lê-lo e ouvi-lo...

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  2. Dr. Moita Flores: é este seu inconformismo que pode e deve agitar consciências no projecto que se propõe abraçar. Durante os próximos 12 meses quererão que debatamos a reorganização autárquica, os seus benefícios ou malefícios, que debatamos a governação, que discutamos Santarém. Serão, com toda a certeza, umas eleições atípicas, que serão utilizadas como um barómetro da política governamental. Como aconteceu com as autárquicas de Dezembro de 2001, cujo resultado levou António Guterres a ir para bem longe do "pântano".
    Dentro de 1 ano alguns quererão que, em Oeiras, através do voto, sancionemos a governação da República e não a governação de Oeiras. Procurarão manobras de diversão para que não se debata aquilo que deve ser debatido: a governação municipal de Oeiras e das restantes autarquias.
    Não basta ao autarcas, actuais e putativos candidatos, afirmar que o Poder Local é um exemplo para o País e para o Governo, há que se empenhem em demonstrá-lo numa altura em que a nossa auto-estima anda pelas ruas da amargura, em que o desãnimo se instalou, em que a revolta vai invisivelmente tomando conta de nós.
    Vamos discutir Oeiras e, porque o estado de Portugal o exige, discutir a governação e que do debate que deve ser eminentemente autárquico saiam propostas das bases - as autarquias, câmaras e juntas - para o Governo, seja ele qual for que estiver em funções.
    Temos um árdua tarefa. Em vez de nos lamentarmos, em vez de apenas e só criticarmos, devemos dar o nosso contributo e que quem estiver no Governo os receba de bom grado.
    Acredito que a mensagem do Dr. Moita Flores se afirmará em Oeiras, que conseguirá inculcar ânimo onde impera o desalento e que Oeiras será um exemplo para o país.
    Esperamos por si.

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  3. Caro Dr Moita Flores

    Esta foi sem dúvida a melhor análise que já li .
    Acredito que Portugal vive um ponto de viragem , e que podemos ser pioneiros numa nova abordagem política aos problemas actuais .

    Para tal , é importante não embarcarmos em desalentos , desânimos e termos afins . É preciso parar , reflectir , e abrir novos horizontes .

    No seu comentário é latente o enfoque na necessidade de sermos positivos , lutadores , e não meros contribuintes da " metade de mais um zero ".

    A serenidade é de facto um dom , e é com ela que se vai longe . A revolta , tira-nos a vida e não resolve absolutamente nada.

    Reli este texto , porventura mais atentamente ,e
    encontrei nele um olhar crítico à política actual , extremamente arguto , que nos desperta para a necessidade da mudança.

    Caríssimo , obrigado .
    Luís Gonçalves (LUSO)

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