sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma Nova Ambição (II)

Urge alterar o programa do nosso futuro colectivo. As receitas que diariamente são sugeridas não correspondem aos grandes desafios que a História nos reserva. Como referi no artigo anterior, estamos a ser actores e testemunhas de um tempo único, eventualmente a vivermos a maior revolução depois da revolução industrial. Os profundos avanços e descobertas quer nos domínios da microbiologia e da bioquímica e, sobretudo, na área da engenharia de sistemas com rapidíssimas mutações no mundo da cibernética, têm provocado alterações radicais nas nossas formas de entender o mundo, as nossas relações com a Vida, com o nosso planeta, com os outros. A revolução informática alterou decisivamente as nossas coordenadas vitais: acelerou o tempo e encurtou o espaço. Durante séculos, muitos séculos (até ao sec. XIX) o tempo e o espaço tinham medidas subjectivas de interpretação do mundo marcadas  pela lentidão e pelo limite. Como sublinha Georges Duby, para o homem medieval, o tempo tinha a cadência dos sinais de oração emitidos pelo sino das igrejas e o espaço tinha como limite o seu horizonte visual. Este microcosmo fechado, imutável, lento marcou séculos de vida comum e, efectivamente, pesem os avanços decorrentes da multiplicação de viagens e de continentes, de caminhos marítimos e terrestres, só durante o séc. XIX, com a emergências das novas cidades, o incremento industrial que potenciou a máquina a vapor, o comboio e a via férrea, assim como a democratização do relógio, surgiram as mais decisivas rupturas nestas ideações essenciais para a interpretação do real. O tempo acelerou até á velocidade da hora e do minuto, o mundo começou a encurtar graças ás políticas de fomento no domínio dos transportes. Quem ler trechos de Eça de Queirós, quer no artigo o 'Francesismo' ou no In memoriam a Anthero de Quental, sob o título 'Um génio que era um Santo', perceberá como este grande prosador oitocentista captava estas alterações profundas quando descrevia a ânsia com que a academia coimbrã corria á estação do comboio á espera que chegassem as novas ideias que, ao tempo, traziam Hegel e Saint Simon, Proudhon e Comte, Littré e Hartmann, entre muitos.
Desde então, e apenas durante um século, não mais parou essa utopia transcendente, quase frenética, de aceleração do tempo e encurtamento do espaço. Em todos os domínios da actividade. Desde a produção industrial  (bem ilustrada no filme Os Tempos Modernos de Chaplin) até ás mais inusitadas formas de interagir com o quotidiano. O avião, o foguetão, a televisão, a panela de pressão, o micro-ondas, o 'fast-food', o novo urbanismo e as novas construções, o telemóvel, o ipad, a medicação, as técnicas médico-cirurgicas, os conceitos de saúde, de assistência, de educação têm vindo a ser formatados por forma a criar a ideia de que é possível controlar a Vida, segurá-la, vivê-la e assegurá-la, iludindo a omnipresença da Morte, negando-a, escondendo-a e, com esta estratégia, ignorando que é exactamente a consciência da finitude que forja as dimensões ética e moral onde assentam os pilares estruturantes da dignidade e da existência humana. O computador tornou-se no rei absoluto das nossas relações e memórias. Talvez não seja por acaso que o seu dispositivo de arquivamento se chama 'Memória ram' como se fosse o prolongamento da nossa própria memória ou, até, o seu substituto. A internet precipitou tudo. Deixou de haver espaço e tempo. Tudo se resume ao instante do 'enter' e ao sítio que queremos visitar. Esta realidade tão objectiva, tão dentro de nós e da nossa casa, dissimula o efeito perverso que este optimismo existencial encerra: é que na verdade tudo se resume a uma imagem, ou a uma sucessão de imagens, á construção de narrativas assentes em algoritmos que têm o seu eixo fundador num simples binário que fabrica representações simbólicas sobre a racionalidade, num quadro logicista, que não reproduz a dimensão afectiva ligada ao Viver e ao Morrer. Um computador pode representar o amor de milhares de formas mas jamais poderá amar. Jamais poderá rir ou chorar. É o nosso substituto omnipresente e a metáfora maior sobre as actuais narrativas políticas, económicas e sociais. Radicalmente lógicas, exacerbadamente racionalistas, efusivamente eruditas no planeamento e na estratégia, mas que não passam de uma imagem virtual sobre o mundo dos objectos, dos projetos, dos sonhos, dos desejos, da ternura, da amizade, do amor e, também, do ódio,da ira e de todas as pulsões que nos determinam enquanto seres humanos e cidadãos. Como sublinha Edgar Morin, somos muito mais entropia do que lei, somos muitos mais contradição do que norma. Somos muito mais, como escrevia António Botto, 'arquitectos do sonho e da ilusão', expectantes e actores que idealizam projectos e futuros, que geram filhos e os amam, crendo que o futuro vai para além do nosso próprio fim e que, por vias diferentes, procura antropologicamente a mesma coisa para os filhos: que possam ser felizes até ao dia e hora decisivo que desconhecemos mas que todos temos de viver. E de morrer. 
Perante esta constatação, percebendo por outro lado que os velhos paradigmas resultantes da revolução industrial, e das suas múltiplas consequências, estão a chegar ao fim, com restrições no consumo, com as alterações dos mitos do prazer e da riqueza, com o transtorno social resultante dos desastres económicos, pela incapacidade do discurso político para reactualizar o seu objecto novo e mais complexo, é necessária uma Nova Ambição que olhe sem preconceito e, sobretudo, sem medo o mundo que irrompe nesta nova Idade que surge perante os nossos olhos. Um Nova Ambição que é, antes do mais, um Novo Desafio ás nossas condutas e expectativas face á rápida pauperização, envelhecimento, ausência de caminhos em que mergulha o nosso país e o espaço europeu. Não deixa de ser paradoxal que no momento da maior explosão revolucionária dos últimos séculos, o espaço e o tempo em que vivemos seja caracterizado pela degradação e pela decadência. Pela reprodução de uma sociedade de velhos, pela multiplicação de lares e diminuição de escolas, pelo fecho de maternidades e alargamento de cemitérios. Não deixa de ser paradoxal que mesmo dentro do nosso país, existam vários países. Aquele em desmoronamento, em ruínas, quase desértico, que com raras excepções se transformou o Portugal rural, do interior, cheio de resquícios do país tardiamente medieval tão bem retratado por Vitorino Magalhães Godinho e o país litoral, metropolitano, competitivo, mas sem meta, transtornado e dilacerado pelas múltiplas crises que se cruzam no interior desta revolução, com faíscas de relâmpagos no meio de uma imensa trovoada.
Uma Nova Ambição que rompa com narrativas cansadas, cultivadoras do lugar comum, assente no impropério, no rodriguinho verbal e que tenha nesse casamento fundador da nossa existência, entre a razão e o afecto, o motor maior da construção de uma nova comunidade, de novos espaços e de novos tempos. Uma Nova Ambição que recupere a participação e a exaltação da cidadania culta , armada de novos saberes, retomada pela inquietação do conhecer, apostando na criatividade, na inteligência, na produção de afectos ( e de alegria) como forma sustentada de construir. Uma Nova Ambição liberta do espartilho egoísta, assente nos valores fundadores da prática democrática e na cultura democrática onde a procura da Igualdade excita e tolera a diferença; onde ser diferente não inibe o sentido de Fraternidade; onde colectivamente criadores, e libertos da sobranceria e da intolerância, poderemos sonhar, sonhos de carne e osso, com pernas e coração, que nos empurram para o ideário da Liberdade. Este mundo novo que se abre com esta nova idade necessita desta nova ambição. Que reconhece a impossibilidade de segurar o tempo. Que reconhece a impossibilidade de apreender todo o espaço globalizado em que vivemos. mas que os consegue interpretar á luz dos novos instrumentos de avaliação, inscritos numa memória de cidadania activa, que não desiste nem recusa a dimensão humanista da acção política, económica e social. 
(continua) 

1 comentário:

  1. Caro Francisco ,

    É um prazer ler este texto.
    Aguardo ,com expectativa, as cenas do próximo capítulo.

    Cumprimentos
    Luís Gonçalves

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