segunda-feira, 23 de abril de 2012

Santarem e a Liberdade

Eu sei que por estes dias de amargura, de crise, de aflição, de cintos tão apertados que a fome desespera saltam iras do peito e da voz, onde, com a ansiedade e raiva, se procura o culpado, a entidade, o acontecimento que seja o réu da revolta acumulada. Para muitos, a culpa é do 25 de Abril que abriu a porta aos crápulas, à política livre, aos carreiristas, aos velhacos, aos malandros, ao fartar vilanagem. Tudo isto é gritado, e os gritos em forma de palavras escritas são mais veementes, como essa turba de arrivistas não existisse antes desta data. É um proclamação ímpia e sem memória dos dias e das pessoas que nessa altura, ou antes dessa altura, nos levaram ao atraso, à miséria, à emigração, à guerra e, acima de tudo, proibiam e censuravam e prendiam os gritos de revolta que hoje, mesmo que irresponsáveis e ditados pelo sofrimento. Tive um tio, o meu velho tio Marcelino, que já partiu para outro universo mais justo e limpo, que foi preso por causa de um simples desabafo: 'Que raio de terra esta, onde um homem nem dinheiro tem para comprar um maço de tabaco!'. Foi em 1959. Na ressaca da campanha do Humberto Delgado e valeu-lhe seis meses em Peniche.
Por outro lado, existem muitos que os dias de hoje são assim porque o 25 de Abril não se cumpriu. Porque foi adulterado, prostituído, abocanhado pela corja, pelos bandidos, por toda a corte de gente na qual se projecta a revolta da amargura. Eles são os políticos, sem distinção de género, de personalidade, de individualidade, numa grosseira avaliação da realidade. Eles são os banqueiros, os corruptos, a troika, os impostos, a justiça que não funciona e tantas,tantas razões e motivos que Abril é um cravo moribundo e seco, ultrajado e ofendido, espezinhado pela ganância e pela cobiça.
Não penso assim. Nem de uma forma nem de outra. Cada vez que entro na Escola Prática de Cavalaria, agora Escola Prática do Conhecimento e passo na parada Mongua, onde se perfilaram os soldados que naquela madrugada partiram liderados por Salgueiro Maia, tenho a forte sensação de que o 25 de Abril de que aquele lugar, e aquela madrugada, são o nicho do espaço e do tempo, que acolheu a Esperança e o sonho da Liberdade. Não muito diferente, ou tão igual, à mesma determinação dos revolucionários que há mais de duzentos anos, numa outra madrugada, assaltaram a Bastilha perseguindo a esperança de um mundo marcado pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade. O denominador comum é o mesmo: encontrar o lugar onde se ritualize, intensifique e consolide essa utopia maior que se afirma na procura insaciável da felicidade. De certa forma, o 25 de Abril veio reforçar o espírito e a letra da imortal conferência de Antero de Quental - As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares -  onde interpelando o nosso subdesenvolvilmento, exortava para a grande recolução espiritual que nos haveria de libertar das amaras da ignorãncia, do analfabetismo, do embrutecimento cultural que, na sua opinião, nos atrasara em relação so países da Reforma. A Liberdade tem essa dimensão maior, esbelta e cada vez mais perfeita se a sentirmos como a revolução interior de práticas e pensares. E daí que este 25 de Abril, o nosso 25 de Abril, seja o testemunho maior dos nossos tempos pela revalidação dos sonhos de liberdade e tolerância. da aprendizagem culta do conhecimento fraterno e solidário, pela nossa fome de construir mais traços de felicidade para o País que ainda teima, ainda resiste, ainda não foi capaz de produzir o salto em frente vaticinado por Antero há quase cento e trinta anos. Este dia, é pois, o colo da Esperança e do Desejo. O sítio mais abrigado do coração onde medram sonhos e é forçoso que a ele regressemos para que a beleza, a bondade e a grandeza não se apaguem no turbilhão das revoltas e das mágoas. O sítio onde se aconchegam as nossas maiores utopias. Afinal de contas, os nossos maiores amores.

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