domingo, 22 de abril de 2012

512 anos depois: Somos os mesmos!

Faz hoje 512 anos que a armada de Pedro Álvares Cabral aportou ao Brasil, a Porto Seguro, perante o olhar atónito dos tupiniquins que, pela primeira vez, viam gentes vindas de outras paragens. Releio a Carta de Pêro Vaz de Caminha e comovo-me. Éramos ontem, como hoje, gente com fome de descoberta e com sonhos no lugar do coração. Ontem, como hoje, éramos poetas do desenrasca, talentosos e capazes dos maiores disparates e mais capazes de grandes obras.Ontem, como hoje, falando nesta língua que fabricámos, construímos e apurámos, sempre em sobressalto. Umas vezes na sorna, outras vezes artífices da genialidade. Sempre generosos e brigões, críticos por excelência daquilo que não fazemos e capazes da excelência quando queremos fazer. Nunca despimos a pele de malteses, nem de fadistas almejando fortunas que albergam nas utopias da emoção, nem desistimos quando o sofrimento dói, e por vezes dói tanto, Santo Deus!
Faz 512 anos que aquela armada já levava no leme as dores do cabo da Boa Esperança e os odores das especiarias da Índia. Levava a história da epopeia e do desenvencilhar da desgraça.Das temspestades do medo e dos mares já irmãos. E a miséria e o sonho. Como sempre. Hesitámos assim: entre a miséria e o rasgo de génio que nos leva á realização dos sonhos.Como sempre. Como hoje. E não duvido. Nem por um segundo, nem por um instante, que 512 anos depois, depois de tanta tormenta, de tanto mar, de tanta lágrima, de tanto riso, voltaremos a porto seguro. Agora acostados à nossa terra, de braço dado com a nossa gente.Somos assim. Os maiores rezingões e os maiores poetas. Desta gesta vivida, produzimos Camões e Pessoa, dos temporais que hoje vivemos não sairão riquezas, mas sairão outros poetas capazes de transformar nas nossas mais belas palavras os dias mais  amargos do sofrimento desta angústia que cruza os dias da crise que enfuna as velas da nau por agora viajamos. Faz 512 ano que aportámos ao Brasil. Fecundámos uma pátria irmã que se haveria de parir a sim própria três seculos depois. E regressámos ao ventre materno. Aqui. A este imenso cais falado em português que é o colo de mãe para toda a gente. Que nos conforta de tempestades e tormentas. É por tudo isto que não preciso de vatícinios, nem de visões, nem de profetas que anunciam apocalipses, nem de bruxos augurando a morte desta Pátria que se imortalizou na Língua, na Epopeia, Rainha do improviso, Princesa do disparate, mas valente e rija. Nau Catrineta com um porto seguro sempre na proa. Por maior que seja a descrença, há em nós uma estranha fome de viver que nos empurra sempre e para sempre a caminho do futuro.  Estamos em Abril. O mês que tem um dia que é o sítio onde mora a esperança. Nem vale a pena discutir se valeu ou não a pena esse sítio chamado 25 de Abril. É o cais onde se alberga a esperança. Sejam quais forem as raivas e iras dos oceanos e nos mares. Nem admira que assim seja. Há 512 anos chegámos a Porto Seguro. Era Abril. E ontem, como hoje, as andorinhas chegam sempre em Abril, livres e intensas, como os sonhos que nos habitam e que, já sabemos, são eles comandam a vida. 

1 comentário:

  1. Segundo dizia Enstein, é nos momentos de maior crise que se liberta o Génio Humano através das grandes «descobertas». Mas Portugal não precisa de crises para fazer aquilo que lhe está no ADN.
    Parabéns por mais este artigo.

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