quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A EPC é do Povo de Santarém


Tenho para mim que quem trabalha apenas por dinheiro, por mais dinheiro que acumule, não passará de uma pobre criatura. E estou convencido, em profissão de fé, que o trabalho é construtor de vidas e serão mais ricas quanto maior paixão se investir naquilo que se faz.A paixão molda estéticamente o investimento no trabalho, pode provocar insónia e angústia, mas torna-o redentor.É esta convicção profunda que nos permite, por instantes, embora com muitos instantes iguais ao longo da vida, tocar a felicidade. Ensinei esta sacralidade da paixão pelo trabalho aos meus filhos e sei que dela retiram prazer nas suas fainas. E eu continuo assim, indiferente ao ruído que mitifica o dinheiro, a riqueza, o poder efémero de ter e de não ser. Cheguei agora a casa depois de vir do jantar de despedida de um velho amigo. O Lico reformou-se hoje. Dezenas de homens e mulheres que trabalharam, ou trabalham, nas Brigadas de Homicídios da PJ foram lá dar-lhe um abraço. Falámos dos nossos casos. Dos crimes desvendados. Das noites á fio, sem dormir e sem parar, apaixonados pelo trabalho (por cada noite de trabalho ganhávamos duzentos escudos - um euro!) e não dávamos tréguas até conseguirmos repôr a justiça possível. Passaram vinte anos desde esse tempo que esta noite rememorámos, e comemorámos, repetindo um ritual de vida que só a paixão explica.
Hoje mesmo, no dia em que o Lico se reformou, a Escola Prática de Cavalaria, símbolo maior da democracia portuguesa, símbolo da liberdade e da tolerância, símbolo da diferença e da igualdade, passou definitivamente para a posse da Câmara Municipal de Santarém, ou seja, para as mãos do povo de Santarém.Foram quatro anos de trabalho. De insónia. De discussão. Muitas vezes de confronto. Tantas vezes de paixão envolvida nos argumentos e nas certezas e nas dúvidas. A verdade é que não existe prazer sem sofrimento. Mas também não existe coisa alguma, a não ser o nada, para quem teme o sofrimento e apenas vive a ânsia do prazer. A primeira vez que discuti a aquisição da EPC falaram-me de um projecto imobiliário. A riqueza, o dinheiro, antes da paixão. Fui muito duro. Não se pode trocar um pedaço de memória, ainda por cima da nossa memória mais rica e sonhadora, por meia dúzia de prédios de três assoalhadas. Não se pode trocar o símbolo maior do afecto por um baú cheio de patos-bravos. Não se pode deixar morrer, entre umas dúzias de tijolos, um bocado farto da herança cultural, civilizacional que os heróis da EPC entregaram a Santarém e ao País. Foi duro romper esse cerco inicial. Mas rompeu-se. Á força de teimosia, por força da paixão pelo trabalho contra as ambições de quem vive para o dinheiro e dele respira a pobre vida medíocre. Foram quase quatro anos de combate. De insónias, de angústias, de tantos silêncios, mas com a covicção profunda que a EPC só poderia ser o exemplo de uma terra de liberdade.Ou seja, propriedade de uma utopia maior que qualquer sonho. E ergueu-se passo a passo. Hoje deu um passo de gigante. Pertence difinitivamente ao Povo de Santarém. Em Janeiro estará construída a Cidade Judiciária. Em Janeiro arrancará a Fundação da Liberdade. Pedra a pedra. Com sacrifício, com sofrimento, com pouco dinheiro, mas com a paixão nos olhos e na alma. Hoje sinto-me feliz. Por momentos, é certo. Como naquele outro tempo, em que por duzentos escudos, lavrávamos os dias e as noites de Lisboa á cata de criminosos.
Sei que o Lico se reforma e não sai rico de algibeira farta. Mas sai da PJ com uma fortuna no lugar do coração. Infelizmente são muito poucos aqueles que gozam este prazer de uma vida tão intensamente vivida e, por isso, tão rica. Hoje mesmo, Santarém apropriou-se desse pedaço de chão que dá sentido á alma liberta do País, na sua pureza mais inocente. O chão da nossa memória que o trabalho abençoou.

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