quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Carta a José Niza

Meu Caro Zé:

Nós sabemos quanto nos estimamos para pôr de lado os cumprimentos iniciais. Amizade feita de amor ás causas da cultura e da cidadania. Feitos do mesmo barro. Ambos metemos as mãos na música, nos poemas, na escrita sabendo que com essas ferramentas inventamos um bocado de vida e damos dimensão solidária á existência colectiva. Somos operários da mesma massa, não fazemos de conta que somos. Por outro lado,sou mais novo do que tu e talvez, mesmo depois de tantas conversas sobre cantigas e prosas, ainda não te tenha dito como foste importante para mim, para que eu pudesse deixar as marcas pela vida vivida. Nunca te disse a importância que tiveste na minha obra literária, um dos mitos, um talento que associas a um humor inteligente, coisa rara, apanágio dos grandes homens. Há anos, quando celebrávamos o 25 de Abril, erguendo a tua obra musical como pano de fundo das comemorações em Santarém, fi-lo por mereceres essa homenagem mas nem imaginas (não quis que transparecesse) o prazer interior em colocar-te, colocar uma das minhas referências culturais, no altar ético da Liberdade.
E hoje, exactamente hoje, num dia de desilusão sobre o carácter egocêntrico de boçais disfarçados de homens cultos, neste dia que rompe com o equinócio de Outono, sabendo pela tua filha notícias do teu viver, precisava de te dizer quanto gosto de ti, que soubesses por palavras escritas pelo coração como estou aflito com a tua saúde, como incapaz de outro medicamento te imploro que te ponhas bom e uso o único remédio que tenho á mão, rezando a S. Francisco pelas tuas melhoras. Precisamos tanto de ti, Zé. Esta cidade precisa tanto de ti e da tua inteligência arguta, do teu talento e bondade, que não sei pedir outra coisa que não seja: volta depressa. Esperamos por ti com saudades.

Um abraço fraterno do teu amigo

Francisco Moita Flores

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