sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Santarém Eterna




A identificação de uma cidade realiza-se através de sinais materias e psico-afectivos que remetem de imediato para a memória uma representação imagética que nos diz que é a cidade tal e não a outra ou qualquer outra. No fundo, todas elas são compostas das mesmas matérias: praças, ruas, escolas, hospitais e por aí adiante.São somatórios de equipamentos e instituintes de controlo social, funcionalizados ao serviço de uma comunidade. Porém, enquanto corpos vivos com percursos existenciais e históricos próprios, produziram símbolos que  marcam a diferença identitária, que legitimam e reforçam as sociabilidades das redes sociais que nelas habitam, tornando espaço de pertença, território de viver, de amar, de morrer. Símbolos patrimoniais, ou tão só do foro afectivo, que se lêem como se fosse possível desfolhar uma cidade tal e qual um livro, página a página, com coerência narrativa, contando-nos uma história feita de memórias, de saudades, de esparança, de mágoas, de vitórias, de sofrimento, de alegria, de confiança no futuro.
Visitei Nova Iorque pouco tempo depois dos atentados da Al-Qaedda.Para além da terrível tragédia que pesava no ambiente de Manhattan chocada com tantos mortos, a romaria,as preces, a desolação em torno do local onde estavam as Torres Gémeas, revelava com forte evidência como os novaiorquinos viviam a orfandade pela morte de um dos símbolos mais poderosos da sua cidade. Ninguém imagina Paris sem a Torre Eiffel, ninguém prevê Roma sem o Coliseu, ou Londres sem Westminster, ou Lisboa sem a Baixa Pombalina ou sem o castelo de S. Jorge. O discurso dos símbolos é a essência do próprio reconhecimento da vida e, neste caso, da vida das cidades com aqueles que nelas habitam ou visitam.
Esta semana Santarém deu passos gigantescos na consolidação e afirmação de importantes símbolos, ícones que representam dimensões diferentes da vida da pólis mas que se cruzam, e coincidem na sua identificação. A ex-Escola Prática de Cavalaria, testemunho decisivo da força da cidade, símbolo maior do país, porta de armas aberta aos ventos da Liberdade, depois de anos de negociações, foi aprovada e aceite unanimente pela autarquia como símbolo sagrado a defender, ícone que foi o primeiro farol democrático aceso para a conquista das liberdades. 
No mesmo dia, à tarde, a senhora Ministra da Cultura visitava Santarém e assinávamos com as autoridades eclesiais um protocolo de cooperação que investe 2,5 milhões de euros de fundos estruturais na requalificação do património monumental de Santarém. O maior investimento alguma vez realizado neste domínio e, por esta via, o reforço da identificação de Santarém pela consolidação seus valores simbólicos mais definitivos. Alguém consegue imaginar Santarém sem a Escola Prática? Alguém consegue imaginá-la sem a sua Sé? Ou sem a igreja da Alcáçova? Ou sem Stª Clara? Vivi um dos dias mais felizes da minha vida. Como autarca e como cidadão. Como pai, como avô, como vizinho, como português. Desculpem a exuberância. mas existem dias na nossa vida que são muito maiores do que a própria vida que imaginámos.Viva Santarém!

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