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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Quando os Monstros Acordam nos Caixões

Neste tempo de turbulência política e social, quando explode a desconfiança, quando as cargas de sofrimento levam os homens ás mais desencontradas emoções, serpenteiam pelo caldo de angústias as mais perversas das seduções, verdadeiros cânticos de sereia chamando os destrambelhados para um cativeiro de sereias assassinas, clamando os mais sinistros destinos e propósitos. Estar contra projecta-se muitas vezes numa ideação da representação social disforme que apela a que estejamos contra sem sabermos, a maioria das vezes para onde queremos ir e quais os projectos de que se está a favor. 
Vem isto a propósito de um apelo que circula nas redes sociais, assinado por um autodesignado movimento anti-partidário que confunde com primarismo boçal a liberdade que a Liberdade lhe entrega com o ataque mais violento contra ela. Agora pede a quem o escute que no próximo dia 5 de Outubro, haja uma invasão da Assembleia da República. Não sei para quê. Percebe-se que é contra os partidos. Mas não são claro quanto áquilo que querem ou são a favor.
Sou independente. Faço parte de uma geração que deu aos portugueses a possibilidade de viverem em Liberdade, de cada um escolher o seu próprio caminho, sem medo, sem mordaças, sem receio de estar a favor ou contra. Faço parte de uma geração que foi censurada porque estava contra. Que foi presa porque estava contra. Que foi obrigada ao exílio porque estava contra. Faço parte desse tempo em que havia cantigas proibidas, livros proibidos, ideias proibidas, de mulheres proibidas, sem direitos nem reconhecimento, tempo cinzento e pardo em que a guerra levava os melhores, em que a Justiça era conspurcada pelos tribunais plenários e pelas tristemente célebres medidas de segurança que metiam na cadeia, anos sem fim, sem julgamento, pessoas que apenas pensavam diferente.
A minha geração combateu e venceu esse tempo feito de silêncio e  mordaças. Queríamos tudo aquilo que depois conquistámos. Palmo a palmo. Éramos a favor de alguma coisa e conquistámos pela luta contra, aquilo que queríamos. Eu queria muita coisa. Era a favor de muita coisa. Sobretudo de um país livre onde crescessem os meus filhos, um deles nascido 19 dias antes do 25 de Abril. Escorreram-me as lágrimas ao saber da notícia que a censura tinha terminado. Nada é pior para um escritor do que ver as palavras amputadas pela bota cardada de um polícia qualquer. E queria, e quero, a democracia dos partidos. Organizados com projectos diferentes porque só somos iguais se formos diferentes no pensar e na capacidade de escolher. Defendo que devem existir em toda a geografia política, desde a direita á esquerda. Acredito nessa diversidade que defende a democracia crista, a social democracia, o socialismo, o comunismo, os regimes populares, os animais, a ecologia e por aí fora. Numa palavra: não consigo ser anti-partido, embora seja independente que já votou em diversos partidos ao longo de trinta e oito anos de democracia e que nunca votou antes dela existir porque estava proibido. Era do contra, não tinha direito a escolher.
Reconheço que a evolução dos vários partidos que nos representam encaminhou-os para a crise ideológica e de valores. Que precisam de profundas reformas internas, que urge redescobrirem a democratização, desfazendo clientelas, 'aparelhos' , burocratas, oportunistas que os usam com fins pouco altruístas. E isso vai acontecer mais dia, menos dia. O actual estado de degradação não se mantem por muito mais tempo. Porém, são a forma diversa de nós pensarmos, do nosso direito a escolher, do nosso direito a participar. É exactamente na Assembleia da República que está essa síntese do que o país pensa e, de alguma forma, uma parte de nós, pois que quando votamos, escolhemos, e entregamos a nossa confiança.
Como diria Churchil não será o mais perfeito dos sistemas. Faltam sempre mais escolhas e não existe um único hemiciclo, depois de cada acto eleitoral, que preencha todo os nosso mundo de expectativas. Mas ali mora o que de essencial nós quisémos que morasse. Aqueles deputados são nossos. Representam-nos, embora haja alguns que atraiçoaram a nossa confiança e tornassem vendilhões do nosso templo de esperança. São alguns, não são todos. Existe a mais poderosa das representações populares embora não exista a mais fabulosa das virtudes. São como a sociedade que representam com as mesmas virtudes e os mesmos defeitos. Mas são o corolário de uma Estado que vive dificuldades, é certo, mas que é muito melhor do que o outro onde se viviam piores dificuldades e imperava o medo e a iniquidade. 
É certo que estamos contra. E fazemos bem em ter regressado aos tempos do contra. Porém, assaltar o mais nobre órgão da soberania do Povo, não é um gesto contra. Nem é apenas um gesto anti-partido. É a caminhada trôpega, bronca, ignorante, boçal para um messianismo inglório e decrépito. A favor de um qualquer D. Sebastião que surja no nevoeiro da nossa própria desorientação e, como se sabe, ele não regressou de Álcácer Quibir. Este desbragamento que convida a assaltar a Assembleia da República nem chega a ser contra os partidos. É contra nós próprios, aqueles que mais sofrem, aqueles que mais necessidade têm de ajuda e, ensina a História, que exactamente por esses que os ditadores começam a encher as valas comuns de cadáveres. Precisamos de uma Nova Ambição, é certo. Precisamos de mudar de agulha e de pensar perante os terríveis problemas que nos assolam, precisamos mesmo que os partidos políticos se reconvertam em baluartes da confiança perdida. Mas que tudo isto aconteça não é necessária a fúria dos cegos de ódio e de incompreensão com a vida. Destes apenas sairá mais ódio e mais amargura. Já não têm nada para oferecer a não ser estar contra. O que no caso de se dar o assalto á Assembleia da República, apenas nos mostrarão como se consuma o crime de traição á Pátria. Pode ser que os vinte e cinco anos de prisão que os espera, lhes devolva a humanidade que perderam. E a lucidez suficiente para deixarmos apenas ser do contra e tornarmos a ser os caminhantes do sonho e da esperança.  

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Os Políticos e o Populismo


 
A agudização da crise, com o apertar do cinto, o lançamento de medidas anti-populares, onde algumas são bem injustas, diria mesmo desumanas, abriu a caixa de Pandora libertando as emoções mais obscenas e angustiadas, onde o insulto, a desconfiança, o aumento da agressividade produziu uma fala dominante, carregada de raivas e falsidades, que tem corolário na slogan maior 'Eles são todos iguais'. Eles, os políticos, claro. Levando até ás ultimas consequências este grito, sem esperança, fatalista, apocalípitico e, acima de tudo, acrítico, sem regra nem excepção, ser candidato ou eleito, seja qual for a dimensão do cargo, conclui-se que de simples elemento de uma assembleia de freguesia, passando pelos presidentes de junta, de câmara, deputados, ministros, governo, oposições, 'Eles são todos iguais'. Nem a sarcástica ironia de Orwell entra nesta regra absoluta, onde poderiam existir uns mais iguais do que outros. Não. Eles são todos iguais. Iguais em quê? São todos chulos, ladrões, corruptos, mentirosos, vigaristas, trapaceiros, traidores do povo. Não existe um único que não seja assim porque são todos iguais.
A partir desta verdade absoluta compõem-se os diversos estribilhos, cuja falta de gosto e populismo  barato, incendeia corações mas que são manifestos de mau gosto, de primarismo ao nível do raciocínio e compreensão do mundo.E um discurso destes, vincadamente demagógico, insensato e pouco sério, mete no mesmo no saco do lixo qualquer cidadão que pense candidatar-se a qualquer órgão de soberania, desde uma simples junta de freguesia até ás instãncias máximas do poder, a pensar duas vezes e, nas finalidades últimas, a desistir de participar na vida pública, por não ser incluindo injustamente no lote do 'Eles São todos Iguais', sair do conforto da sua casa e da sua roda de amigos para ser apontado como bandido, corrupto, chulo, e outros epítetos do mesmo calibre apenas porque um dia lhe apeteceu servir o seu país. No fundo esta moda do 'Eles São Todos Iguais' mais não é do que um produto de uma sociedade zangada, que não compreende o país e a situação a que o país chegou, consequências de posições emotivas de defesa de interesses que se degladiam e que conduz á desmotivação, á intolerancia e, paradoxo dos paradoxos, ao pedido subentendido de uma força providencial que acabe de vez com esta corja de 'Eles são todos os iguais', ou seja áo regresso do mito sebastiãnico, que traga das brumas um ditador qualquer que imponha juízo aos 'Eles São Todos Iguais' e que, naturalmente, como qualquer ditador que sabe o que faz, silencie de vez aqueles que gritam 'Eles são Todos Iguais'. E quem conhece esta história, que aqui se passou com o fim da I República, no Chile, de Salvador Allende, na Espanha republicana destruída por Franco, sabe bem que os gritadores ficaram no silêncio das valas comuns, das prisões, fuzilados sem pena nem agravo.
Devemos reconhecer que o tempo que vivemos não é fácil. Talvez das maiores crises que vivemos depois do 25 de Abril. Que se deveu a políticas que hoje descobrimos que são erradas, prolongadas durante décadas, mas que só a insensatez leva a admitir que foram um imenso negócio nojento feito por políticos de várias gerações, sem escrúpulos, chulos e ladrões. E só a ignorancia mais absoluta, o analfabetismo mais endémico e, sobretudo, uma memória de formiga, pode dizer que esta crise fez recuar o país aos anos 50/ 60 do século passado. Não conhece. Ignora o que desde então se fez. Desrespeita os nossos jovens mortos numa guerra injusta bem longe da Pátria, ignora o país rural, pobre, sem escolas, sem universidades, sem estradas, sem esgotos, sem luz, um país com medo cercado pelo pensamento único, o país que apenas admitia as manifestações a favor do ditador, um país de sindicatos proibidos, de censura prévia, de prisões a abarrotar de presos políticos. Um país de uma ignorãncia a roçar a boçalidade que até muito tarde ainda confiava que os comunistas comiam criancinhas,  sem direitos, onde a ditadura impunha que gritos se podiam dar e quando podiam dar.
O insulto 'Eles são todos iguais' tem subentendido um regime que não seja este onde vivemos e onde a liberdade permite tudo, até chegar a este niilismo básico. O que impõe aos homens livres e de bons costumes, áqueles que fazem da sua entrega á vida pública um acto de generosidade, e são milhares por esse país fora que o fazem, a urgência de resistir em duas frentes de combate. Servindo com o desprendimento dos homens justos as suas freguesias, os seus concelhos, a sua gente, com todas as dificuldades que hoje se conhecem e, ao mesmo tempo, recusar este charlatanismo injusto, desumano e brutal que mete no mesmo cesto milhares de homens e mulheres livres e justos, vindos de todos os lados da política, e uma dúzia de crápulas que se serve da política para proveito próprio para a negociata e para os jogos do nojo. É urgente essa resistência. Em nome da cidadania e da construção colectiva do país. Dizer mal é fácil, sobretudo numa sociedade aflita. Construir caminhos límpidos e solidários é muito mais difícil. É ao fazer esta escolha que somos grandes. Para defender a liberdade que permite uma cultura cívica de saber e conhecimento. A liberdade que permite todos as formas de expressão. Mesmo as injustas e demagógicas.É preciso resistir pelos nossos filhos, procurar caminhos para os nossos netos, assegurar uma país mais limpo, é certo, mas também mais culto e com uma auto-estima que não se rende ao miserabilismo do ódio. Que afirma a Justiça, que despreza a intolerancia. Que afirma o conhecimento, que é indiferente ao oportunismo. Que se aprende e reaprende, igorando ressabiamentos e insultos. É preciso encontrar uma plataforma superior de resistência para que seja possível caminhar sem muros, nem abismos. E já agora com Portugal, amante maior, no coração.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Os Gritos, a Miséria e o Resto.


Se a crise se resolvesse com insultos, a coisa tinha ficado resolvida esta semana. As grandes esperanças estão agora postas na manifestação convocada para este fim de semana. Ou então para a próxima no final do mês. Vamos aliviar a goela e berrar as nossas angústias. Sei bem o que isso é. Já fiz esse exercício em Alvalade contra o árbitro, contra as equipas que lá vão dar-nos pancada mas o resultado é inexorável: o Sporting continua sem ganhar um campeonato.
A angústia que vai crescendo tem que explodir, é certo. Mas a verdade é que nos momentos dificeis, a serenidade é o maior dos trunfos. E não consigo ficar indiferente quando oiço alguns dos paladinos da democracia e da liberdade, gritando indignações como se não tivessem responsabilidade nenhuma no estado a que o Estado chegou.
É da nossa natureza procurarmos culpados. Uma velha e beata costela de inquisidores continua a exigir-nos fogueiras, ódios e a representarmos o papel de Pôncio Pilatos. Lavando as mãos e deixando que outros façam. E por vezes fazem mal, como parece ser agora o caso. E nós gritamos, raivas do coração, de frustração, de ódio, de ressabiamentos de todos os matizes. 
Falo com a serenidade de quem enfrentou muitas vezes a morte e sabe que é nesses momentos que o sangue frio vale mais do que qualquer explosão de raiva. Por isso, volto á questão essencial: é urgente apresentar soluções racionais, ponderadas, que sejam mais do que a indignação e a raiva. Sou solidário com Mário Soares que está indignado. Com Manuela Ferreira Leite que exorta á sublevação da Assembleia da República, com Helena Roseta que se oferece á prisão para que esta política não continue. Estou reformado há quatro meses e vejo a minha reforma, depois de quarenta e um anos de trabalho, feita em cacos. Não posso deixar de estar solidário. Mas julgo que precisamos de mais qualquer coisa. Precisamos que Bagão Félix, que já foi ministro das Finanças, que Helena Roseta, que teve sempre grandes responsabilidades na vida pública do País, que Seguro que quer ser o futuro primeiro ministro nos digam por onde vamos. Não basta reclamar contra o que se tem passado. É fundamental que se saiba para onde se vai, como se vai, com que medidas nos libertamos desta claustrofobia da ira. E quando aqui se chega, não há respostas. Este é o caldo que gera as insurreições e produzem mais miséria, mais ira, mais mágoa e mais sofrimento. Precisamos de ir além do repúdio e encontrar soluções. Para mal dos nossos pecados parece, pelo menos até hoje, que soluções mais ninguém tem a não ser o governo. É mau quando assim é. Muito mau. Não estamos apenas em crise financeira. A crise de respostas alternativas é bem maior, o que gera maior angústia. Como tem acontecido na Grécia onde a desorientação geral provocou mais danos na auto-estima colectiva do que saídas para o buraco negro onde se afundam sonhos e projectos. Ou muito me engano ou estamos a querer esse caminho e vamos ver-nos gregos para sair desta. Recorro a Shakespeare para pedir que os astros nos iluminem o caminho pois os homens não o reconhecem nem nos ensinam novos trilhos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Nada contra a Vida, Tudo contra a Morte

Meu caro Edward:
Desde aquele fatídico 11 de Setembro, nunca deixámos neste dia, de trocarmos palavras de conforto pelas tuas profundas mágoas, pelas minha mágoas dolorosamente repartidas contigo e com os nossos companheiros nesse imenso funeral em que acabámos por nos encontrar. Embora sabendo a verdade, a verdade mais terrível que se podia conhecer por esses dias em Nova Iorque, foste o exemplo de um homem inteiro, polícia de mão cheia e amante extremoso, sem tempo para procurares a Dolores, essa magnífica mulher, bem disposta, bem humorada, que inventava a tal paella que parecia cozinhada nos céus.
Este ano estou mais pobre. Já não vou ouvir a tua voz pois que sem pedir autorização a ninguém, partiste bruscamente, cheio de saudades da tua Dolores. Escrevo aqui. Sei que estão juntos os dois, aí no canto mais doce de alguma estrela, saboreando o resto do vosso amor amputado naquele dia. E escrevo, como sempre, para te dar o abraço do costume, em memória da tua Dolores, da minha amiga Dolores, que tão bruscamente desapareceu no inferno das Torres que se desmoronavam subjugadas ao poder do ódio.
Sabes, Edward, esses dias mudaram-me. Embora já tivessem passado duas semanas quando cheguei perto de ti, na Divisão da Metropolitan na Broadway, e tendo sabido pelo Mckinley do FBI da tragédia em que se transformara a tua vida pessoal, foi com um aperto no coração que entrei naquela tua/nossa casa e percebi que ela era o rosto do rescaldo da tragédia. Por tantos polícias que morreram, por tanta fotografia colada nas paredes, e nas paredes das ruas, de gente desaparecida no holocausto, e os rostos dos vivos. Cinzentos de dor, quase sonâmbulos, de fotografias dos seus entes queridos ao peito, e perguntando, perguntando a todos, uns aos outros, talvez à restea de Deus que procuravam e lhes disse que os seus estavam vivos e nós sabíamos que não estavam.
Mal tivémos tempo para um abraço e, Santo Deus!, tu conseguias dirigir a tua unidade, procurar informações de Dolores, dar informações a toda a multidão que procurava os seus. Conseguias ser marido e capitão ao mesmo tempo. Vencendo a tua dor, ajudando a vencer a dor dos outros, no meio daquele pranto feito de silêncios e de murmúrios de orações em todas as línguas, das suplicas e medos de todas as cores, que cruzavam Manhatan prenhes de desespero. Milhares de zombies destruídos pela dor, milhões de fotografias que se repetiam doentiamente pelas paredes, pelo chão, do amontoado de velas, bandeirinhas, e mais fotografias nos jardins da City Hall, e das preces, e do medo, e na incompreensão perante a tragédia que desabara sobre uma das mais belas cidades do mundo. Fizémos o que pudémos para criar a ilusão de que te ajudávamos. O Mckinley sacou duas fotografias da Dolores que tinha em cima da tua secretária e fomos por ali abaixo. Sabíamos que nem tu acreditavas nos nossos esforços, polícia experimentado, com os olhos rasos de tantos mortos, sabias que Dolores não voltaria a cozinhar nem a cantar o Cielito Lindo.E juro por Deus que nunca vi tanta dor que se acotovelava, que silenciosa ou em cânticos ou orações conjuntas esperava que dos céus descesse o milagre que as centenas de bombeiros não conseguiam recolher da imens amontanha de destroços. Vi bombeiros a trabalhar e a chorar os seus companheiros mortos. E putos á perguntar pelos pais. E pais a perguntar pelos putos. E a angústia profunda de ouvir tantos nomes sem uma única resposta que não fosse um silêncio fechado, um menear de cabeça e o regresso ao horror das ruínas.
Já to dissera e digo-te agora mais uma vez: encolhi-me em oração junto a um imenso grupo que rezava liderado por um padre catolico. Foi por acaso. Foi ali que as pernas e o nó na garganta me tolheram o pensar, confrontado com a omnipresença da morte, da dor e do desespero de uma população que não se rendia. Hoje, onze anos depois, tenho saudades tuas. Não desse dia de tragédia, mas dos outros dias, de outros anos, em que nos divertimos. A última vez foi no Carnegie Hall. Eu passei a tarde na candonga para comprar bilhetes para irmos ver os Requiem de Mozart e de Fauré. E agora também partiste. E desde esse dia de tanta mágoa o mundo mudou. Mudou tudo, em todo o lado, menos a angustia que aí nasceu porque todos sabíamos que depois dessa vitória da Morte contra tantos milhares de infelizes, os homens do mundo inteiro estavam zangados.
Mas não te quero falar de zangas e de coisas feias. Este ano, em que já não posso ouvir a tua voz, espero que vejas esta carta no teu céu, onde por certo habitarás no meio dos justos, porque eras um homem bom e justo. Apesar de irlandês, como brincava a tua mulher.
Esta noite acendi uma vela a S. Francisco. O nosso Irmão maior que nos ensinou que só no encontro com a morte encontraremos a vida eterna. E vai brilhar na varanda da minha casa toda a noite. Para vos assinalar o sítio onde vos choro com saudades e vos saúde pelo que de bom aprendemos a amar da Vida. E sendo uma vela nostálgica, incorpora a chama da Vida, porque o terrorismo e a morte não venceram. Fomos mais fortes. Vocês foram mais fortes. Nestas horas de amargura em que o meu país, acendo-a também por ele para que,tal como vocês, encontremos o caminho da esperança que nos leve á redenção por tanto sofrimento de tanta gente que sofre.
Até um dia, Edward. Dá um beijinho á Dolores por mim. E quando regressar a Nova Iorque, agora que sou abstémio, fica prometido que regresso á nossa cervejaria na Broadway e vou beber um valente caneco á Amizade. A este força transcendente que a morte jamais apagará. 

A Miséria Moral da Política e o Populismo primário


Ouvi a comunicação do primeiro ministro ao País e fiquei chocado. Não deve ter havido um único português que não tenha sentido esse murro nos estômago que foi cada uma das medidas que informou que iriam constar no próximo Orçamento. Depois do primeiro choque em que se percebe que a situação do país continua em dificuldade profunda, a pergunta que me assaltou foi esta: Não haverá outro caminho? As tais gorduras do Estado só atingem autarquias e a RTP? E as empresas públicas? sobretudo na área dos transportes completamente destruídas por greves e mais greves, domínios de um sindicalismo radical que procura viver acima de todas as possibilidades e prejudicando a vida de milhões de utentes? e os Institutos dos boys? e as célebres PPP's? e a falta de crédito para as empresas relançarem a economia? e a Fundações e a mama de subsídios? e a multidão de subsidiodependentes em todas as escalas do poder do Estado?
Bom, dei de barato quando já menos chocado, comecei a pensar e a acreditar que esta comunicação apenas era parte de outras medidas que vão ser inscritas no Orçamento e que, na feliz expressão de Marcelo Rebelo de Sousa, estas tratavam do mexilhão e com o OGE chegarão as outras que tratam de outros aspectos da restrição financeira.
Seja como for, a comunicação foi de tal modo violenta, que é natural que neste momento existam muitos milhões de portugueses a perguntar por outros caminhos. Com a pobreza instalada, com o desemprego em patamares trágicos, com a economia quase parada, julgo que um ano de Troyca e de sofrimento porão muita gente a perguntar se deve ser por aqui o caminho ou existe outro menos doloroso e que cumpra os acordos internacionais.
Procurei ouvir os outros partidos que estão fora da coligação. E são unânimes. Para o PCP isto é a continuação do pacto de agressão, chavão inventado com tanta demagogia e vacuidade que nem se percebem bem as motivações dos agressores. Pode ser um pacto de agressão internacional porque a Espanha, a Grécia e a Itália transpiram sangue como nós. Mas quem são os homens e as instituições que rubricaram esta pacto de agressão? A resposta é sempre a mesma: o grande capital.Oiço isto há anos. Portanto, nem vale a pena ouvir. Quando se trata de alternativas, o que diz o PCP? É preciso mudar de política e acabar com esta política de direita. Mas mudar para qual política? Bom, isso o PCP não diz. Fala genéricamente nos trabalhadores, um mundo difuso de interesses, sem uma concretização específica de medidas que impeçam a bancarrota.
O Bloco de Esquerda vai pelo mesmo caminho. Assegura que isto é um golpe de Estado económico. Contradiz-se. Se o problema é financeiro, a haver esse tal golpe de Estado seria financeiro mas fica-se por aqui. E lá voltamos aos trabalhadores, e á sua defesa intransigente, sem especificar medidas que não sejam pulverizar os acordos que saíram do compromisso.Acho que esta gente ou não tem consciência de que estamos em iminente colapso financeiro e económico, enquanto país, e que tudo faz para que esse colapso exista. É a política da terra queimada, da revolução pela revolução, e para tanto quanto pior, melhor.
O PS demarcou-se violentamente do anuncio de Passos Coelho. E fez bem.Ninguém que quer ser poder deixa vincular-se a medidas tão duras e tão penalizadoras. Mas falta o resto. Para além das declarações de denúncia, tão iguais ás do PCP ou do BE, quando chega a hora de mostrar o outro caminho, a resposta é: o PS não quer mais austeridade. Então o que quer? Que diga como faz. Que diga como cumpre os acordos que ele próprio assinou enquanto governo. Que diga que este PS nada tem a ver com o outro PS que durante anos e anos foi conduzindo o país para este beco de angústias. Porque a verdade é que Sócrates não é o pai desta crise de excessos. Começou bem mais cedo pela mão de outro governo socialista, o de António Guterres e com Sócrates apenas se revelou na sua faze mais crítica. Esta crise não tem raízes de agrião, leves e sem profundidade. Tem raízes de carvalho velho e de uma produção ideológica que durante dez/quinze anos nos conduziu aqui. 
No fundo, no fundo, aquilo que esta esquerda, que não se entende entre si, que se odeiam, que se consideram inimigos uns dos outros, disputando o mesmo espaço político, apenas quis um pretexto que construiu sobre um mau texto. Para gritar, para inflamar legitimas indignações, para apelas ás emoções e ao insulto, para pôr de cabeça perdida quem já se sente perdido mas caminhos alternativos: nem um! Nem um!
Acredito mesmo que o pais está assim por causa desta miséria moral. Do protesto sem indicar caminhos sérios e concretos. Sem esmiuçar o que é isso da política de esquerda, de como reduz despesa, de como faz crescer a economia, de como combate o desemprego. Desde sexta feira que se gritam palavras de ordem e nem um pingo de ideias pensadas e organizadas que nos ajudem a escolher caminhos de futuro. Multiplicam-se as insurgências que se acomodam nas palavras chave do costume de um país debilitado no pensar: Gatunos, Vigaristas, Corruptos, coisa que alivia a frustração mas não resolve problemas domésticos nem familiares. E o caminho não existe. Caminho alternativo não se vê. O caminho que nos mostram é sempre o mesmo: Descer a avenida em manifestação até ao Rossio ou até a Assembleia da República. E se ouvirmos os comentadores (talvez com excepção de Medina Carreira ou de José Gomes Ferreira) o estribilho é sempre o mesmo. Não encontramos caminhos. Outros caminhos que nos façam sair deste buraco negro onde caímos e isto é bem mais doloroso do que a comunicação de Passos Coelho. Porque daria pretexto para mudarmos e democraticamente escolhermos outros. A inegável e desastrada verdade é que esta oposição é boa em chavões, em palavras de ordem, em insultos, em denúncias, em estimular os ânimos da malta justamente descontente mas sem rumo que não seja uma mão cheia de banalidades e de promessas vagas de um paraíso que sabemos que não existe.
 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Curei-me! Um tipo chamado Stress ia dando cabo de mim!


Aquilo que escrevo foi uma experiência e que traduzo num conselho. Claro que é conselho de 'saber de experiência feito' e perdoe-me algum médico que se meto foice em seara alheia. Mas há um tipo que anda por aí a revolver as entranhas de muita gente, umas vezes tão discreto que mal se sente, outras vezes tão ordinário e tão atrevido que nos põe de rastos. Chama-se Stress, tem ficha policial por homicídio, longo cadastro como agente provocador de doenças que nem nos passam pela cabeça que podem existir. O artista não se vê. Pezinhos de lã, silencioso que parece bem comportado mas é um ordinário em todas as dimensões. Até porque gosta de ser desprezado para atacar melhor. Eu, por exemplo, não ligava a essa coisa, doença de ricos e de gente que não quer trabalhar. Desprezava-o, dizia para comigo mesmo que jamais seria morada de tal bicho e, depois, foi aquilo que se viu.
O tipo é manhoso. Entra sem pedir licença e vai por aí fora e quando estamos distraídos ataca sem hipótese de defesa. Muitos dos enfartes que enviam pessoal em barda para os cemitérios são da sua autoria. Mas, agora que o médico me mandou em paz, que me libertou deste macaco, que me sinto com asas para voar e pernas para dar a volta ao mundo, que descobri outra vez o que é estar de boa saúde, quero partilhar com os meus amigos as astúcias deste tipo.
Quando começar a pensar que o trabalho é a única coisa que existe na sua vida, que se desinteressa de um filme (se gosta de cinema) de teatro (se gostar de teatro) ou de qualquer outra das suas afeições porque ainda tem mais isto para fazer, e mais aquilo, e não tem tempo, e passa dezasseis, dezoito horas agarrado ao trabalho, esquece fins de semana e festas de guarda; quando o sono não vem e vem o recurso ao comprimido para dormir cinco ou seis horas, quando a ansiedade lhe retira o apetite, o computador não responder o irrita, assim como qualquer barulho fora do comum, começa a sentir dores difusas no corpo ou, começam a insistir em determinado local do organismo, está contaminado pelo tipo. Não tem hipóteses. Está entalado e lixado se não puser os mecanismos de defesa a trabalhar. Ou é enfarte que se aproxima, ou hipertensão, ou a ulcerazinha da ordem, ou a colite ou
distúrbios do sono ou outra coisa qualquer. A mim calharam-me divertículos. Coisa que nem sabia que existia e, mesmo sem saber que existia, eles cá estavam. Dores permanente nos intestinos, muitas vezes agudas, internamentos hospitalares, comboios de antibióticos, uma persistência que nós não queremos acreditar que mata. E até mata. O Stress é um natural assassino de distraídos.
Hoje o médico mandou-me á vida. Não quer saber de mim. E o remédio para me safar do tipo até tão simples que, após mês e meio de cura, depois de quase um ano de sofrimento. Exercício físico! Não é tonto ser uma coisa tão simples? Uma hora por dia a caminhar, a nadar, a fazer qualquer coisa que ponha o corpo a mexer e não há bandido deste tipo que entre dentro de nós. Por razões agudas da moléstia vi-me obrigado a recolher. A ficar fechado, uma ou outra ida ao cinema, um ou outro romance lido, e enfiado em casa a escrever ou dormir, ou ver televisão e exercício físico e se as dores regressassem um buscopan para sossegar. Há quinze dias que o Buscopan repousa plácido e quietinho na minha prateleira de medicamentos. E durmo! Os comprimidos foram á vida. E tornou a alegria de partilhar as coisas boas que, até podem ser trabalho, mas deixaram de ser esforço para se tornarem em alegria e prazer. Dei conta do tipo e aconselho-o a livrar-se dele. Corra com esse Stress da sua vida. Ponha-lhe uns patins e mande-o dar uma curva. Levante-se e ponha ao caminho. Uma hora de marcha, uma hora de ginásio, uma hora de piscina, destine essa hora àquilo que entender e mais gostar e, acredite, estou a ajudá-lo a salvar-se de morte certa (que o animal é mesmo assassino) ou doença chata e mal humorada.
Hoje, voltei as costas ao Hospital, com esta paz no coração. Venci o tipo. E foi tão estúpido ter sido agarrado por esse maldito Stress que não consigo deixar de partilhar com todos aqueles que, como eu, passaram anos, vidas, noites e dias, nessa ansiedade maior que é pensar que temos a salvação do mundo nas mãos. Não temos. E a tal horinha só para nós, não agudiza a crise, não altera os destinos da humanidade, e dá-nos alento, força e alegria para vencermos esses desafios que estão aí para serem vencidos.
Dê cabo desse parasita. E não se iluda. Sem saúde nada faz sentido. Com saúde, tudo faz sentido. Até a capacidade de gostarmos um pouco de nós e e muito mais dos outros. Adeus, ó Stress. Vai à vida, pá! 

domingo, 5 de agosto de 2012

PELA PAZ NO DIA DE HIROSHIMA

Faz hoje 57 anos que foi lançada a bomba atómica 'Little Boy' sobre a cidade de Hiroshima e os homens puderam assistir á dimensão grandiosa e brutal de um holocausto que, em minutos, arrasou uma cidade inteira.Um facto que marcou o princípio do fim da 2ª Guerra Mundial mas, também ás gerações futuras, nas quais hoje nos incluímos. O horror desse dia, a que se associou o horror das descobertas nos campos de concentração nazis, ficaram como um sinal que marcou o início da luta pela PAZ. Pela procura de horizontes de esperança onde a Liberdade se constrói na tolerância, no respeito pela diferença, na defesa dos direitos humanos. Aprendemos nesses dias de maior tragédia que, por mais que a vertigem do ódio possa abalar a inteligência e transformar os homens nos piores predadores da Terra, lutar pela Paz é lutar pela Vida. Recolho-me num silêncio de oração pela memória de todos aqueles que foram dizimados pela tragédia apocalíptica e reencontro no sacrifício de milhões de mortos inocentes, a força para lutar para que a nossa terra, a nossa gente possa construir o futuro com o direito á esperança. Por mais que doam os dias de crise que hoje vivemos, por mais que se soltem indignações e mágoas, a Paz criativa e exaltante, a Paz culta e libertadora, a Paz fraterna e crítica, será sempre fonte da Vida. Que os mortos descansem am Paz. Que a nossa vida se construa na PAZ.