segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Miséria Moral da Política e o Populismo primário


Ouvi a comunicação do primeiro ministro ao País e fiquei chocado. Não deve ter havido um único português que não tenha sentido esse murro nos estômago que foi cada uma das medidas que informou que iriam constar no próximo Orçamento. Depois do primeiro choque em que se percebe que a situação do país continua em dificuldade profunda, a pergunta que me assaltou foi esta: Não haverá outro caminho? As tais gorduras do Estado só atingem autarquias e a RTP? E as empresas públicas? sobretudo na área dos transportes completamente destruídas por greves e mais greves, domínios de um sindicalismo radical que procura viver acima de todas as possibilidades e prejudicando a vida de milhões de utentes? e os Institutos dos boys? e as célebres PPP's? e a falta de crédito para as empresas relançarem a economia? e a Fundações e a mama de subsídios? e a multidão de subsidiodependentes em todas as escalas do poder do Estado?
Bom, dei de barato quando já menos chocado, comecei a pensar e a acreditar que esta comunicação apenas era parte de outras medidas que vão ser inscritas no Orçamento e que, na feliz expressão de Marcelo Rebelo de Sousa, estas tratavam do mexilhão e com o OGE chegarão as outras que tratam de outros aspectos da restrição financeira.
Seja como for, a comunicação foi de tal modo violenta, que é natural que neste momento existam muitos milhões de portugueses a perguntar por outros caminhos. Com a pobreza instalada, com o desemprego em patamares trágicos, com a economia quase parada, julgo que um ano de Troyca e de sofrimento porão muita gente a perguntar se deve ser por aqui o caminho ou existe outro menos doloroso e que cumpra os acordos internacionais.
Procurei ouvir os outros partidos que estão fora da coligação. E são unânimes. Para o PCP isto é a continuação do pacto de agressão, chavão inventado com tanta demagogia e vacuidade que nem se percebem bem as motivações dos agressores. Pode ser um pacto de agressão internacional porque a Espanha, a Grécia e a Itália transpiram sangue como nós. Mas quem são os homens e as instituições que rubricaram esta pacto de agressão? A resposta é sempre a mesma: o grande capital.Oiço isto há anos. Portanto, nem vale a pena ouvir. Quando se trata de alternativas, o que diz o PCP? É preciso mudar de política e acabar com esta política de direita. Mas mudar para qual política? Bom, isso o PCP não diz. Fala genéricamente nos trabalhadores, um mundo difuso de interesses, sem uma concretização específica de medidas que impeçam a bancarrota.
O Bloco de Esquerda vai pelo mesmo caminho. Assegura que isto é um golpe de Estado económico. Contradiz-se. Se o problema é financeiro, a haver esse tal golpe de Estado seria financeiro mas fica-se por aqui. E lá voltamos aos trabalhadores, e á sua defesa intransigente, sem especificar medidas que não sejam pulverizar os acordos que saíram do compromisso.Acho que esta gente ou não tem consciência de que estamos em iminente colapso financeiro e económico, enquanto país, e que tudo faz para que esse colapso exista. É a política da terra queimada, da revolução pela revolução, e para tanto quanto pior, melhor.
O PS demarcou-se violentamente do anuncio de Passos Coelho. E fez bem.Ninguém que quer ser poder deixa vincular-se a medidas tão duras e tão penalizadoras. Mas falta o resto. Para além das declarações de denúncia, tão iguais ás do PCP ou do BE, quando chega a hora de mostrar o outro caminho, a resposta é: o PS não quer mais austeridade. Então o que quer? Que diga como faz. Que diga como cumpre os acordos que ele próprio assinou enquanto governo. Que diga que este PS nada tem a ver com o outro PS que durante anos e anos foi conduzindo o país para este beco de angústias. Porque a verdade é que Sócrates não é o pai desta crise de excessos. Começou bem mais cedo pela mão de outro governo socialista, o de António Guterres e com Sócrates apenas se revelou na sua faze mais crítica. Esta crise não tem raízes de agrião, leves e sem profundidade. Tem raízes de carvalho velho e de uma produção ideológica que durante dez/quinze anos nos conduziu aqui. 
No fundo, no fundo, aquilo que esta esquerda, que não se entende entre si, que se odeiam, que se consideram inimigos uns dos outros, disputando o mesmo espaço político, apenas quis um pretexto que construiu sobre um mau texto. Para gritar, para inflamar legitimas indignações, para apelas ás emoções e ao insulto, para pôr de cabeça perdida quem já se sente perdido mas caminhos alternativos: nem um! Nem um!
Acredito mesmo que o pais está assim por causa desta miséria moral. Do protesto sem indicar caminhos sérios e concretos. Sem esmiuçar o que é isso da política de esquerda, de como reduz despesa, de como faz crescer a economia, de como combate o desemprego. Desde sexta feira que se gritam palavras de ordem e nem um pingo de ideias pensadas e organizadas que nos ajudem a escolher caminhos de futuro. Multiplicam-se as insurgências que se acomodam nas palavras chave do costume de um país debilitado no pensar: Gatunos, Vigaristas, Corruptos, coisa que alivia a frustração mas não resolve problemas domésticos nem familiares. E o caminho não existe. Caminho alternativo não se vê. O caminho que nos mostram é sempre o mesmo: Descer a avenida em manifestação até ao Rossio ou até a Assembleia da República. E se ouvirmos os comentadores (talvez com excepção de Medina Carreira ou de José Gomes Ferreira) o estribilho é sempre o mesmo. Não encontramos caminhos. Outros caminhos que nos façam sair deste buraco negro onde caímos e isto é bem mais doloroso do que a comunicação de Passos Coelho. Porque daria pretexto para mudarmos e democraticamente escolhermos outros. A inegável e desastrada verdade é que esta oposição é boa em chavões, em palavras de ordem, em insultos, em denúncias, em estimular os ânimos da malta justamente descontente mas sem rumo que não seja uma mão cheia de banalidades e de promessas vagas de um paraíso que sabemos que não existe.
 

10 comentários:

  1. Mas não foi o PPC que disse que tinha um caminho diferente do PEC IV? ou nessa altura "A inegável e desastrada verdade é que esta oposição é boa em chavões, em palavras de ordem, em insultos, em denúncias, em estimular os ânimos da malta justamente descontente mas sem rumo que não seja uma mão cheia de banalidades e de promessas vagas de um paraíso que sabemos que não existe. "?

    Se sabia que não havia outro caminho porque enganou os portugueses?

    E já agora que caminho é este?


    J. Neto

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  2. há sim outras medidas e toda e gente sabe que há...

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  3. Meu caro, J. Neto (presumo que o meu amigo Joaquim Neto) poderia querer outro caminho. acredito que sim, tal como acredito que Sócrates queria outro caminho. Não tenho da política a ideia fulanizada de que aquilo que queremos em determinado momento, e estamos dispostos a cumprir, pode ser alterado por circunstâncias exteriores á nossa vontade. Não tenho essa visão pérfida de quem se candidata a primeiro ministro. Acredito que todos eles, seja qual for o partido, levam propostas em que acreditam e nos convencem ou não.
    Quanto á sua pergunta final é uma boa escapatória para as perguntas que coloco no texto, verdadeiramente chocado com a notícia de sexta-feira. Mas a minha resposta é irrelevante. Não sou candidato a nenhum governo, nem á formação de qualquer governo. A questão que coloquei é outra: Se este não é o caminho, e pelos vistos ninguém gosta dele (a começar por nós os dois) qual é o outro? Sim, qual é o outro?Que medidas são essas que nenhum dos partidos da oposição apresenta objectivamente (E estes sim, são candidatos á governação) para nós, enquanto cidadãos, podermos escolher? Esse é o problema essencial. E não tem outra resposta a não ser aquilo que digo no meu texto: banalidades, insultos, posições de princípio, populismo sórdido. Tudo muito generalista, tudo muito para ser ouvido e de imediato recolhido como adesão afectiva. A verdade, e a pergunta que me incomoda por não ter resposta, é que sabemos que o governo escolheu, por imposição da Troyca e com a sua concordância, este caminho. E o caminho alternativo? Como se faz? Quais são as medidas concretas? Ou pura e simplesmente desistimos e aceitamos a bancarrota? Se calhar é a solução. Não sei. Perdermos a soberania nacional definitivamente. Mas isto conforma-nos enquanto portugueses, filhos de uma terra com oitocentos anos? Confesso que estou inquieto e preocupado. Muito preocupado mesmo. Daí perguntar mais uma vez: que caminhos nos dá o PS, o PCP e o BE? Das esquerdas? Mas quais esquerdas? se a esquerda não se entende? e verdadeiramente qual é o caminho do PS que assinou o tal 'pacto de agressão' de que fala o PCP ou deflagrou o golpe de Estado económico que tanto encanta o BE? Ser contra, sei bem que é fácil e é caminhada que fazemos juntos. Mas como se constrói depois esse futuro? Não sei. Se tiver resposta melhor não tenha dúvidas que a lerei com gosto, com atenção, e se for mesmo melhor estarei aí a defendê-la. Abraço fraterno. M.Flores

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  4. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  5. Eliminei o comentário do senhor 'Mickey' porque num blogue com o meu nome não aceito insultos contra ninguém. Mesmo que seja contra terceiros, como foi o caso. Este espaço está livre para a discussão de ideias, projectos, enfim tudo aquilo que nos une e separa, para a liberdade sentida, vivida, aceite com tolerância na diferença. Não o estará para maltratar, caluniar, difamar, injuriar seja quem for. Ainda por cima quando é assinado por um pseudónimo, escondendo e des-responsabilizando que assim escreve. Obrigado. Moita Flores

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  6. Caro Moita Flores,
    Este governo tem tanto de arrogância como o anterior tinha em descaramento. Faltou um elemento essencial neste discurso: humildade. Depois de tanto sacrificio, ouvimos agora que ainda vamos ter que nos sacrificar mais ainda.Para muitos, implica começar a cortar na comida e nos medicamentos. No entanto sabemos que há portugueses a quem foi dada excepção e há sectores que não contribuem proporcionalmente.Há uma sensação de injustiça que se alastra e que é grandemente menosprezada. Os "governados" estão a demonstrar grande coragem e espirito de resistência. Mas os governantes não estão à altura. Não são necessários super-homens/mulheres, apenas pessoas dotadas de honestidade,competência,humildade e humanidade em doses equilibradas. Nada menos do que espero de si, à frente do meu concelho.
    Sara S.

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  7. Mudam as cores mas o interesses obscuros continuam, e por causa desses interesses é que o mundo ocidental mergulhou nesta crise e como sempre o mexilhão é que se lixa.
    Vivemos numa oligarquia, Portugal não é um estado democrático esse é o verdadeiro problema.
    Os valores democráticos que eles apregoam nada tem a ver com as politicas praticadas e a carapuça serve tanto para os políticos portugueses como de outros países.
    Enquanto não houver uma revolução a nível mundial, vamos continuar a viver nestas democracias de fachada que nada tem a ver com o verdadeiro significado e valor humano da palavra democracia.

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  8. Caro Moita Flores!

    O senhor agora fez-me recordar um outro senhor general. já falecido, que apregoava aos quatro ventos, que ou estão por mim ou estão contra mim! Recorda-se? Pois é! Então quer dizer, segundo a sua analise à actual situação e em resposta a Joaquim Neto, que, ou aceitamos as medidas do PPC ou estamos na bancarrota!!!!! O senhor acha mesmo ou é apenas um questão de fidelidade politica??? Então concorda que seja sempre o mundo do trabalho a pagar a factura, pelas trafulhices feitas pelo capital economico em conluio com politicos de que de seriedade nada têm!!!??!!?!? Nós bem sabemos todos dos exemplos que sustentam esta minha interrogação! As alternativas??? É escolher um Portugal a trabalhar, como já muita boa gente reclama, em vez de sermos apenas bons alunos da Merkel e companhia!!!
    Um Abraço

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  9. Meu caro
    MGomes

    Obrigado pelo seu comentário mas não é assim. É exactamente por não acreditar nessa ideia do ou estão contra mim ou por mim que escrevi esta reflexão. E concordo consigo quando revela o seu (nosso) descontentamento pela brutalidade de esforço pedida a quem desconta (o que não é a mesma coisa que quem trabalha) . Quem vive nas economias paralelas não desconta um cêntimo e são milhares. Voltamos ao problema essencial: que alternativa? Estar contra? Estamos quase todos. Não chega dizer, não quero mais austeridade. Não quero mais adversidade. Tem que haver mais. É que estamos mesmo na bancarrota. Falha uma tranche dos empréstimos da troyka e não há dinheiro para salários nem para a despesa corrente do Estado. Para escolhermos alternativas temos de saber que caminhos concretos vamos andar. Não basta gritar que estamos contra e, digo-lhe, que estou disponível para fazer o caminho que se perceba ser sustentado e sensato.

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