segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Nada contra a Vida, Tudo contra a Morte

Meu caro Edward:
Desde aquele fatídico 11 de Setembro, nunca deixámos neste dia, de trocarmos palavras de conforto pelas tuas profundas mágoas, pelas minha mágoas dolorosamente repartidas contigo e com os nossos companheiros nesse imenso funeral em que acabámos por nos encontrar. Embora sabendo a verdade, a verdade mais terrível que se podia conhecer por esses dias em Nova Iorque, foste o exemplo de um homem inteiro, polícia de mão cheia e amante extremoso, sem tempo para procurares a Dolores, essa magnífica mulher, bem disposta, bem humorada, que inventava a tal paella que parecia cozinhada nos céus.
Este ano estou mais pobre. Já não vou ouvir a tua voz pois que sem pedir autorização a ninguém, partiste bruscamente, cheio de saudades da tua Dolores. Escrevo aqui. Sei que estão juntos os dois, aí no canto mais doce de alguma estrela, saboreando o resto do vosso amor amputado naquele dia. E escrevo, como sempre, para te dar o abraço do costume, em memória da tua Dolores, da minha amiga Dolores, que tão bruscamente desapareceu no inferno das Torres que se desmoronavam subjugadas ao poder do ódio.
Sabes, Edward, esses dias mudaram-me. Embora já tivessem passado duas semanas quando cheguei perto de ti, na Divisão da Metropolitan na Broadway, e tendo sabido pelo Mckinley do FBI da tragédia em que se transformara a tua vida pessoal, foi com um aperto no coração que entrei naquela tua/nossa casa e percebi que ela era o rosto do rescaldo da tragédia. Por tantos polícias que morreram, por tanta fotografia colada nas paredes, e nas paredes das ruas, de gente desaparecida no holocausto, e os rostos dos vivos. Cinzentos de dor, quase sonâmbulos, de fotografias dos seus entes queridos ao peito, e perguntando, perguntando a todos, uns aos outros, talvez à restea de Deus que procuravam e lhes disse que os seus estavam vivos e nós sabíamos que não estavam.
Mal tivémos tempo para um abraço e, Santo Deus!, tu conseguias dirigir a tua unidade, procurar informações de Dolores, dar informações a toda a multidão que procurava os seus. Conseguias ser marido e capitão ao mesmo tempo. Vencendo a tua dor, ajudando a vencer a dor dos outros, no meio daquele pranto feito de silêncios e de murmúrios de orações em todas as línguas, das suplicas e medos de todas as cores, que cruzavam Manhatan prenhes de desespero. Milhares de zombies destruídos pela dor, milhões de fotografias que se repetiam doentiamente pelas paredes, pelo chão, do amontoado de velas, bandeirinhas, e mais fotografias nos jardins da City Hall, e das preces, e do medo, e na incompreensão perante a tragédia que desabara sobre uma das mais belas cidades do mundo. Fizémos o que pudémos para criar a ilusão de que te ajudávamos. O Mckinley sacou duas fotografias da Dolores que tinha em cima da tua secretária e fomos por ali abaixo. Sabíamos que nem tu acreditavas nos nossos esforços, polícia experimentado, com os olhos rasos de tantos mortos, sabias que Dolores não voltaria a cozinhar nem a cantar o Cielito Lindo.E juro por Deus que nunca vi tanta dor que se acotovelava, que silenciosa ou em cânticos ou orações conjuntas esperava que dos céus descesse o milagre que as centenas de bombeiros não conseguiam recolher da imens amontanha de destroços. Vi bombeiros a trabalhar e a chorar os seus companheiros mortos. E putos á perguntar pelos pais. E pais a perguntar pelos putos. E a angústia profunda de ouvir tantos nomes sem uma única resposta que não fosse um silêncio fechado, um menear de cabeça e o regresso ao horror das ruínas.
Já to dissera e digo-te agora mais uma vez: encolhi-me em oração junto a um imenso grupo que rezava liderado por um padre catolico. Foi por acaso. Foi ali que as pernas e o nó na garganta me tolheram o pensar, confrontado com a omnipresença da morte, da dor e do desespero de uma população que não se rendia. Hoje, onze anos depois, tenho saudades tuas. Não desse dia de tragédia, mas dos outros dias, de outros anos, em que nos divertimos. A última vez foi no Carnegie Hall. Eu passei a tarde na candonga para comprar bilhetes para irmos ver os Requiem de Mozart e de Fauré. E agora também partiste. E desde esse dia de tanta mágoa o mundo mudou. Mudou tudo, em todo o lado, menos a angustia que aí nasceu porque todos sabíamos que depois dessa vitória da Morte contra tantos milhares de infelizes, os homens do mundo inteiro estavam zangados.
Mas não te quero falar de zangas e de coisas feias. Este ano, em que já não posso ouvir a tua voz, espero que vejas esta carta no teu céu, onde por certo habitarás no meio dos justos, porque eras um homem bom e justo. Apesar de irlandês, como brincava a tua mulher.
Esta noite acendi uma vela a S. Francisco. O nosso Irmão maior que nos ensinou que só no encontro com a morte encontraremos a vida eterna. E vai brilhar na varanda da minha casa toda a noite. Para vos assinalar o sítio onde vos choro com saudades e vos saúde pelo que de bom aprendemos a amar da Vida. E sendo uma vela nostálgica, incorpora a chama da Vida, porque o terrorismo e a morte não venceram. Fomos mais fortes. Vocês foram mais fortes. Nestas horas de amargura em que o meu país, acendo-a também por ele para que,tal como vocês, encontremos o caminho da esperança que nos leve á redenção por tanto sofrimento de tanta gente que sofre.
Até um dia, Edward. Dá um beijinho á Dolores por mim. E quando regressar a Nova Iorque, agora que sou abstémio, fica prometido que regresso á nossa cervejaria na Broadway e vou beber um valente caneco á Amizade. A este força transcendente que a morte jamais apagará. 

2 comentários:

  1. Exmo sr. ,

    Dr. Francisco Moita Flores,
    Somos professoras de História do Colégio Guadalupe, na Verdizela (Seixal), e no âmbito da planificação anual do nosso departamento, iremos promover uma atividade para os alunos do ensino secundário, acerca dos estudos e investigação judiciária em Portugal.
    Nesse sentido, gostaríamos de saber a sua disponibilidade para partilhar connosco a sua experiencia nesta temática.
    Gratas pela atenção,
    Com os melhores cumprimentos,
    Patrícia Costa e Marieta Valadares
    Os nossos contatos são:
    chs_patriciacosta@c-guadalupe.com
    Colégio Guadalupe: 21 297 14 10

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  2. Emocionante Pelo poder da escrita e pela realidade que lhe deu voz.

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