sábado, 5 de maio de 2012

Pingo Doce, Pingo Hipócrita e Oeiras


Os 'saldos' no Pingo Doce puseram em delírio o meu pedaço de alma insurrecto. Foram um golpe promocional genial. Com consequências que, possívelmente, os seus criadores não contavam - esta discussão prolongada no tempo sobre a marca e a campanha nas suas cambiantes mais morais e, tipo serviço de INEM, socorrendo pelos argumentos, alguns deles bem medonhos, o 'ego' de uma certa esquerda que sente que se abriu uma grave e profunda crise na dimensão sagrada do 1º de Maio. É esta a relação que incomoda as reflexões. A sacralidade do Dia do Trabalhador foi ferida por um 'capitalista selvagem, neo-liberal, inimigo dos trabalhadores e, claramente, mancomunado com o Governo'. Vai ser dificl de explicar é que esteja envolvido no 'pacto de agressão' e no 'assalto' que estão a fazer ao bolso dos portugueses. Seja como for, esta operação não é inédita. Recordo-me que na inauguração de outros espaços grandes espaços comercias, os primeiros clientes a entrar são bafejados com ofertas de produtos, e, até, na Feira do Livro, existem editoras que têm uma promoção que 'convida a comprar três livros e leva quatro'. Não é pois o desconto que está em causa, nem o 'dumping', nem a violação de regras de mercado quando rebentou o coro de indignações contra os 'saldos' do Pingo Doce e cujos ecos não esgotam. Nem o facto da polícia ter sido chamada a 40 locais. Que se saiba, não existem presos, e chamadas para a Polícia são o pão nosso da própria Polícia a cada minuto na sua vida. Gerou-se desordem por uma simples razão: eram mais aqueles que queriam entrar do que era suportável pelo espaço e disponibilidade de produtos. Milhares de portugueses conseguiram em tempo tão agudo de crise realizar poupanças e equilibrar orçamentos familiares aflitos e outros milhares ficaram á espera, gritaram as suas palavras de ordem de indignação, possívelmente mais sentidas do que as das manifestações, e estarão atentos a próximas promoções que aliviem o conflito entre um mês que passa demasiadamente devagar e um salário que passa excessivamente depressa.
Portanto, o verdadeiro problema que revolve os intestinos intelectuais na ressaca do acontecimento é o facto dele decorrido no 1º de Maio. E começam a chover pingos de hipocrisia. Sobre os direitos dos trabalhadores do Pingo Doce que não puderam celebrar o seu dia(?) mas ignorando os direitos dos outros trabalhadores que, depois das manifestações lá estavam nos restaurantes, nos cafés, nos comboios, nos autocarros, nas bombas de gasolina a trabalhar no duro para saciar a fome e as necessidades de muitos que foram celebrar nas avenidas a legítima expectativa de dignificar as forças do trabalho. Como dizia Jerónimo de Sousa 'este Maio parece-me com mais gente do que o Maio do ano passado' e embora a 'Alameda cheia' no dizer do´líder da CGTP, não passasse de meia alameda, a verdade é que Maio se absolutiza no seu primeiro dia,memória histórica profunda de combate por direitos de cidadania e de trabalho, reprimido, clandestinizado, que apenas surgiu com todo o esplendor á luz da Liberdade saída do 25 de Abril. Aliás, o 1º de Maio de 1974 foi o dia legitimador do movimento militar que derrubou o anterior regime (ainda bem longe da realização de eleições democráticas e livres e que aí foram exigidas) e é natural que, para as gerações mais velhas, ainda tenha esse vínculo nostálgico fremente de utopias incorporadas subjectivamente na dimensão simbólica e histórica que forjou o Dia do Trabalhador. Foi a Liberdade que garantiu a força espectacular deste dia. Mas que essa esquerda conservadora sempre quis confiscar, transformá-la num processo de exclusão, onde não cabia quem não marchava, não grita as palavras de ordem, á ordem dos ditâmes e estratégias dos seus grupos mais militantes, com o PCP á cabeça. O que o Pingo Doce veio fazer, foi prova de um país livre, embora não fosse essa a intenção. Aproveitou a Liberdade para, com toda a legitimidade e risco, fazer uma operação de 'marketing' servindo consumidores aflitos, tão aflitos que não se importaram de correr riscos para poupar e dar algum conforto ás suas famílias. A Liberdade que usaram para escapar por um ou dois meses ás garras da malfadada crise que dilacera o país. Fizeram bem. Tal como fizeram bem aqueles que quiseram desfilar nas manifestações do 1º de maio. Tal como usaram a sua liberdade, outros milhões que fizeram outras coisas que não ir forçosamente á 'manif' ou ao Pingo Doce. Devo confessar que fiz parte deste último grupo. Nesse dia, reuni com o comité central da minha família próxima e li a simpática carta de convite para encabeçar a sua lista autárquica, que recebi da comissão concelhia do PSD de Oeiras.
A minha família foi sempre o meu Conselho de Estado. Com alguns velhos amigos á mistura. Alguns deles que se queixaram de faltar á 'manif' por minha causa. Outros que não me desculpam a convocatória quando o Pingo Doce esperava por eles. E discutimos horas á fio. Política e politiquice. As grandezas e misérias das idades já vencidas e dos grandes combates que todos sonhamos viver e dei por mim a pensar que afinal partilhávamos ali as mesmas expectativas existenciais que se ritualizam em cada 1º de Maio e fiquei com sensação de que marquei o encontro para o dia errado. Se tivesse sido na noite anterior, eu teria tido oportunidade de ir ao Pingo Doce comprar outro presunto e uma mão cheia de garrafas de tinto com 50% de desconto, pois o infeliz que estava em cima da mesa transformou-se num osso indigerível e as garrafas jazem mortas e arrefecem no vidrão. No próximo 1º de Maio vou á 'manif'. Protestar contra o meu Conselho de Estado que não sabe discutir política, nem dar opiniões sem desgraçar a vida de um presunto, que não teve culpa nenhuma do golpe de marketing da Jerónimo Martins.  Nem dos 'Maios' que cantam do Jerónimo de Sousa. Ao fim e ao cabo, vendo-se bem a coisa: tudo não passou de uma discussão entre Jerónimos. 


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