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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A Revolução: O Dia do Computador pessoal!


As grandes revoluções da História da Humanidade com efeitos perpétuos nas nossas vidas começaram sempre por pequenas descobertas cujos efeitos, já ampliados, modificaram definitivamente comportamentos, maneiras de pensar, entendimentos do mundo. A roda que libertou o homem do trabalho braçal, o telescópio que revolucionou a cultura ancestral, revelando a natureza do universo, o microscópio que deu ao Homem o mundo dos bacilos, dos vírus, das bactérias, a máquina a vapor que alterou radicalmente o entendimentos dos instrumentos de produção e fez nascer as novas economias mundiais, são alguns desses momentos cujos efeitos vão para além dos pretendidos pelos seus criadores com consequências complexas e extraordinárias que mudaram o rumo das Civilizações.

Hoje faz vinte e nove anos que a Macintosh lançou o primeiro computador pessoal. Hoje, pese o curto espaço de tempo decorrido, estamos a falar de uma peça de arqueologia. Porém, os desenvolvimentos deste produto trouxeram um mundo novo ao Mundo. Milhões de pessoas estão ligadas em rede a partir das suas casas com instituições, com outros países, tornando-se numa necessidade que modificou radicalmente as nossas formas de agir e de conhecer. Desde o assassinato puro e simples das velhas máquinas de dactilografar até à condução de satélites para além do sistema solar, esta máquina está a produzir efeitos que nós, na pressa dos dias, nem damos conta de como vivemos uma revolução radical que só tem paralelo com a revolução industrial.

O grande anseio do Homem é vencer o tempo e a distância. Não admira, o tempo e o espaço são as duas coordenadas essenciais para a nossa memória. Não conseguimos viver sem um espaço e fora de um tempo. Construímo-nos dentro dessas baias. Morremos dentro delas. E porque sabemos que a Morte é o ponto final, num percurso que desejávamos imortal, desde sempre, a obsessão maior da existência foi construir a ilusão de que podemos vencer o tempo e anular o espaço, garantia ilusória de que, deste modo, superamos a História, vencendo essa certeza bíblica que nos garante que em dia e hora que desconhecemos todos iremos morrer.

O computador é a arma mais poderosa, assim como outros produtos da revolução cibernética, tais como o telemóvel e instrumentos aplicados no mundo bio-médico (no dominio da medicina nuclear) que alguma vez a Humanidade dispôs para chegar ao sonho profundo da Utopia (ausência de espaço)  e da Ucronia (ausência de tempo). 

O tempo deixou de ser comandada pelas horas e pelos minutos para a sua unidade primordial ser o instante do enter. O espaço unificou-se pois basta abrir o site de melhor conveniência e assistimos e vivemos, a partir da nossa casa, à guerra na Síria, ao lançamento de uma nave espacial nos Estados Unidos, a um jogo de futebol em Tóquio. Em directo, testemunhas directas daquilo que se passa em todos os cantos do mundo.

As profundas alterações que introduziu nos nossos quotidianos é de tal forma radical que construiu novas formas de comunicação, novas linguagens, novas formas de trabalho. Até a nossa Lingua está aqui em permanente modificação pese a preguiça intelectual daqueles que discutem o novo Acordo Ortográfico sem considerar o número infinito de expressões, de códigos, de novas palavras que surgiram nas redes sociais e, também, nos sms's.

Celebramos, pois, o início de uma Nova Idade cujas consequências ainda estão muito longe de percebermos e somos testemunhas e actores de uma revolução formidável que transforma rápidamente o Mundo, a política, a economia, os homens e as nossas relações. 

É, pois, tempo de celebrar o nascimento do computador pessoal (agora já é pessoal e portátil) e de o pensarmos dentro do quadro de reflexões que sobredeterminam as nossas visões do Mundo.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ao Zé Correia: Com Lágrimas!



Os grandes homens, na maioria dos casos, habitam na invisibilidade dos dias. Conhecessem-se, amam-se, sabemos que a sua presença e vida enriquece cada comunidade, seja escola, seja aldeia, seja vila ou cidade e a sua presença, discreta mas que sabemos estar lá, reforçam o nosso sentimento de segurança e de adoração pela Vida que nos permitiu conhecê-los, com eles conviver e a admirá-los. É o caso de Zé Correia. Fora de Moura e dos seus arredores, talvez haja uma mão cheia de gente que saiba que ele é. Mas lá na nossa terra, ele foi ídolo, foi exemplo, foi pedagogo à sua maneira e, sobretudo, foi um homem bom. Solidário. Ontem, ao confirmar a notícia da sua morte no jornal A Planície, o coração bateu mais devagar, em silêncio e em lágrimas. E sei que ele não gostaria que fizesse aquilo que vou fazer. Demasiado discreto para evocações públicas, demasiado delicado para incomodar alguém com a sua presença. Ou com a sua ausência. Mas é preciso que se saiba que houve um homem chamado José da Cruz Correia e que partiu deixando saudades no coração de muita gente e deixou alguns bem mais pobres porque perderam um velho amigo. Eu sinto-me hoje bem mais pobre, bem mais só, e com uma saudade intensa que só se resolverá quando a memória o recolher no nosso panteão de imortalidade pessoal.
Conheci-o vai para cinquenta anos. Eu era um puto que entrava no 1º ano do ciclo (agora 5º ano)e da vida pouco mais sabia que o nome do primeiro rei de Portugal, os cromos mais importantes da colecção de barcos, o calibre dos melhores berlindes para o jogo dos três covais e, tudo isto, com uma bola de futebol sempre presente. Nesse tempo a televisão dava os primeiros passos e, agora, sei que fiz parte do Cinema Paraíso. Corríamos de cadeira na mão à casa de um amigo para ver o filme da noite, ou acompanhava o meu avô ao café Ideal, em Moura, para ver o Sporting e ás vezes o Benfica. O meu avô António foi meu padrinho de baptismo de sportinguista, e o Ideal foi a minha pia baptismal, que fez de mim devoto dos Leões ao ver a magia do Seminário e do Geo, do Carvalho, do Hilário, do Alexandre Batista e do Zé Carlos. Também foi o Ideal que me apresentou o Eusébio. Ainda menino, vi a final do Benfica contra o Real Madrid. Toda a gente falava do Grosso, do Gento, do Di Stéfano os nomes maiores do futebol da altura e o Benfica era o Zé Águas, o Zé Augusto, o Cavém, o extraordinário Coluna, o Cruz, o Costa Pereira e no meio destes gigantes havia um puto que se chamava Eusébio. Compreendi logo naquela noite, especialista em jogo de carica, que aquele puto tinha um brilho de rei que apagou os brilho de todas as estrelas.
Foi nesse tempo que conheci o Prof. José Correia. Era o responsável pela Educação Física e causa-me estranheza porque jogara pelo Benfica, embora por pouco tempo, e tinha alma de Leão. As suas aulas eram simples e, simultâneamente, totais. Fazíamos exercícios para aquecer, outros tanto para conhecermos o nosso corpo, e mais outros para desenvolver músculos e facilitar o crescimento. Mas ensinava mais. Como se troca a bola ao primeiro toque, as regras do andebol e de outras disciplinas afins e, acima disto tudo, cultivava e educava no respeito pelo outro. A competição como forma de crescer, a delicadeza para os adversários, o prazer dos desprazer da derrota, a alegria simples das vitórias, sublinhando sempre o carácter transitório e efémero dos jogos, das vitórias e das derrotas, e glorificando o valor da amizade, do desportivismo, da são camaradagem. 
Escutava-o com fascínio e bebia as palavras serenas com que nos elogiava ou rectificava os nossos erros. Foi dois anos meu professor e tratava-me por Chico Flores.Depois perdi-o de vista. Ele abandonara o ensino e dedicava-se à actividade bancária. Eu seguira para o Liceu de Beja. Era raro encontrar-mo-nos mas cada encontro era uma festa. Com ele aprendia sempre mais alguma coisa e as suas observações serenas, bem humoradas. Nesse tempo ele era velho e eu era novo. Era velho para os meus olhos de jovem. Talvez tivesse mais vinte anos do que eu. Quando nasceram os meus filhos, percebi a sua verdadeira dimensão humana, o seu carinho pelos mais pequenos, o seu jeito de ensinar. Passavam eles a fase da descoberta dos palavrões e Zé Correia ensinou-lhes os piores. - Se te chamarem isso, respondes que são filhos de um trapézio. Se te chamarem aquilo, responde-lhes que são filhos de uma hipotenusa. E nunca mandem os vossos colegas para o lado que cheira mal. Se vos insultarem, respondem: vai para rectângulo, pá!
Compreendi, ainda melhor esta ternura, quando foi avô e os netos se multiplicaram. Da ternura sem nome, da delicadeza cuidada. E ficam nas memórias mais doces do meu tempo de juventude, os serões quentes na esplanada do Ideal ou, então, no mercado, no café do José do Carmo. Ele, o José das Estevas, o Joaquim Condeça, o Herbert era um grupo de histórias e de boa disposição que confortavam mais que qualquer concurso apresentado pelo meu querido e saudoso amigo Artur Agostinho.
Parti de Moura há perto de quarenta anos. Regressava nas férias, nalgum fim de semana prolongado, e sabia que entre as coisas que voltava a ver, muitas me confortavam no reencontro. O jardim, a igreja do Carmo, as ruas da Mouraria, a Muralha, onde viviam os meus avós, o Ideal e....O Zé Correia. Ele proibira-me de o tratar por professor e eu continuava Chico Maria pois que também o proibi de me tratar por doutor. Ficam como evocação apaixonada as discussões políticas a seguir ao 25 de Abril. O Herbert exaltado e apaixonado, grande resistente à Ditadura, o seu irmão Jaquelino mais empolgado e emotivo, o Zé das Estevas mais curioso, eu á espera da grande revolução popular, e todos à espera que o Atlético de Moura subisse de divisão e as discussões intermináveis aproximavam-nos ainda mais e eram com saudade que dizíamos adeus. 
Houve um tempo em que a Vida foi mais rija do que nós. Separou-nos. Primeiro na PJ, depois investigando por esse mundo fora,em Paris, em Lausanne, na China, na Malásia, na Índia, nas Filipinas, nos Estados Unidos, no Brasil mas eu sabia que eles estavam bem e eles sabiam das minhas saudades. O primeiro grande choque foi a morte da esposa do Zé Correia. Eu acabara de aterrar na Irlanda, para uma palestra, e o meu pai ligou-e a dizer que ela morrera de morte súbita. Nunca lhe disse como foram magoados esses quatro dias que passei em Dublin. A profunda mágoa pelo seu infortúnio que Zé Correia idolatrava a sua esposa. A seguir partiu a minha mãe e foi a última vez que o vi. No funeral onde veio consolar a minha mágoa. mas já estabelecera um ritual que era sempre cumprido. Todos os anos, se estávamos longe, pelo Natal tocava o telefone e era, primeiro a esposa e o Zé, depois só ele, a desejar as boas festas e um bom ano novo. Podíamos estar muito tempo sem nos vermos e o toque repetia-se e o Natal era mais doce porque tinha falado com ele. Em contrapartida, chegavam-lhe ás mãos exemplares das primeiras edições dos meus livros. Fazia questão de lhos entregar a ele e a outros amigos. Há dois anos saiu um livro meu para crianças. As Histórias da Maresia do Mar . Não lho enviei e recebi protesto. Respondi-lhe: Ó Zezinho, isso é livro para putos! Que não. Fazia questão de os ler todos e a honra de os coleccionar. Sei que os coleccionava porque na estante não ficava apenas mais um livro mas um pedaço da nossa amizade nunca desfeita.
Este ano tocaram sininhos a rebate. O telefonema do Zé Correia não chegou e achei tão estranho, eu que vivo longe desse culto infernal de desejar boas festas a quem conhecemos ou mal conhecemos, que não fiquei sossegado.
Chegaram os Reis e o telefonema não veio. E neste momento, como estou a finalizar o meu próximo romance que deve sair em Maio, prometi a mim mesmo que lho ia entregar em mão e dar-lhe um raspanete por não ter telefonado. E já agora, para fazermos as pazes, levar-lhe-ia As Histórias da Maresia do Mar, livro de putos que ele insistia em ler. Um alarme tocou e fiz um telefonema a um amigo que me disse: Eh, pá! Eu não tenho a certeza mas acho que o Zé Correia morreu há uns meses. Fiquei em pânico e contactei A Planície para confirmar ou não esta dura notícia. Confirmaram e senti-me vencido. Cansado. Tão magoado que as lágrimas e o silêncio fizeram acudir a minha filha. 
- O que tens, papá?
- Um dos meus maiores amigos faleceu, minha filha e eu só soube agora. 
Que raio de vida esta que nos afoga nos maiores devaneios e nos faz esquecer a substancia da própria existência? O conhecimento tardio daquele Amigo bom, bondoso, sereno, discreto, inteligente, afectuoso é um golpe que julgava não merecer. Não é vedeta, nenhuma televisão anunciou  a sua morte, nenhum obituário de peso a comunicou e hoje sinto a solidão das partidas que não regressam, esta saudade dura e amargurada, e sinto-me tão pobre, tão vazio, que decidi escrever para os milhares de amigos que me seguem, que perdi um grande amigo e o telefonema de Natal que dava mais luz á quadra que acabámos de viver. E escrevo em sua homenagem porque é preciso que saiba, que em Moura, durante oitenta anos, viveu um homem justo e bom, semeador da amizade e da inteligência e que faz parte da minha galeria de tesouros, pela honra que sempre senti por tê-lo como um Amigo que todos desejaríamos ter. 
Zezinho, no próximo Natal, telefona-me do Céu. Juro-te que antes disso entrego aos teus filhos os dois livros em falta, já que a falta que me fazes, ninguém pode reparar. Um abraço querido amigo. Até sempre. Até sempre!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio no Panteão?


Perdoe-se-me a pergunta que assinala esta reflexão. Mas hoje ouvi, no desenrolar do funeral deste nosso ídolo, atleta genial, homem de grandeza superior na sua humildade, desta figura de Portugal e do Mundo uma espécie de movimento desorganizado, embora fervendo de compreensível emoção, que pedia a ida do corpo de Eusébio para o Panteão Nacional. 
Passei a vida a estudar mortos e cemitérios. Conheço perto de quinhentos em todos os continentes e os rituais de evocação e rememoração que a eles estão associados. Conheço vários panteões e memoriais, e com poucas excepções, como é o caso do Panteão de Paris, de Westminster em Londres, ou os memoriais a Lincoln,em Washington, ou a Lénine, em Moscovo, a que acorre muita gente, permitam-me uma sugestão que julgo sensata e históricamente legítima. Não quero com esta sugestão ferir os corações mais amargurados pela perda do nosso Eusébio, nem tão pouco dar uma sarrafada no oportunismo político que parece querer agarrar nesta ideia do Panteão como a última decisão redentora.
Já o escrevi, em vão é certo, quando foi de Amália Rodrigues, querida amiga de quem guardo mutas saudades e memórias doces. Faço-o outra vez, agora, em nome do reconhecimento destes verdadeiros heróis nacionais e que honraram, aqui e pelo mundo, a nossa Pátria.
A tradição portuguesa da estatuária evocativa dos grandes homens é produção da propaganda republicana e teve o seu início em 1880 com o centenário de Camões e, logo, em 1882, a propósito do centenário do Marquês de Pombal. A preocupação das élites republicanas era lembrar o povo através da representação escultural, os grandes homens e os grandes serviços prestados a Portugal. Assim como o seu carácter e exemplaridade cívica, cultural e política. Toda a estatuária que se lhe segue, mesmo durante o Estado Novo, que elegeu outro tipo de heróis como o Infante D. Henrique ou Nuno Álvares Pereira, constituem a mesma marca de imortalidade, de presença incontornável, de modelo a seguir, de exemplo para a comunidade. Não é por acaso, que nestes dias de tristeza, foi exactamente a estátua de Eusébio, junto ao Estádio da Luz, um dos locais mais concorridos para celebrar o genial jogador e convocar a sua memória como uma pertença e uma partilha que não se esfuma com os sinais desagregadores da morte. 
É exactamente nos finais do séc. XIX que aceleram os movimentos de estatuária nos grandes cemitérios românticos. Em Lisboa, já nos finais da primeira República, o vereador Alfredo Guisado levou a efeito uma verdadeira revolução, redimensionando e embelezando o cemitério do Alto de S. João. O mesmo aconteceu com o cemitério dos Prazeres, já em democracia, sob a batuta do vereador Rui Godinho, em edilidades presididas por Jorge Sampaio e João Soares. 
Quem entrar nestes cemitérios, e apenas me reporto a Lisboa porque aqui está sepultado Eusébio, vê-lo-á como espaços monumentais, cruzados por ruas e avenidas, grandes manchas floristicas ou florestais (Prazeres é o maior concentrado de ciprestes da Europa em espaço fechado) e ao longo das avenidas estão depositados os restos mortais de muitos dos grandes heróis da história liberal e republicana. Sebastião Magalhães Lima, José Fontana, Azedo Gneco, Eduardo Cortesão, Bento Jesus Caraça, Sousa Viterbo, o jazigo dos Escritores, Humberto Delgado (Prazeres) assim como Filinto Elísio, José Rodrigues Migueis, Borges Grainha, Ivone Silva, Elias Garcia, Miguel Bombarda, Cândido dos Reis, Machado de Castro, os Mortos do Tarrafal, (Alto de S.João) entre outros, ali se encontram para quem ali entre, e são milhares de portugueses que visitam estes cemitérios, nesta figuras reconheça a sua História, os seus heróis e, sobretudo se reencontre com a memória. Não é por acaso que, mesmo em Paris, onde Moliére foi panteonizado, o seu túmulo continua a existir no Pére Lachaise como muito mais visitas do que os seus restos mortais, enclausurados no Panteão Nacional.
Tivesse a actual câmara de Lisboa alguma sensibilidade humanista, e não apenas política, para o que representa a Morte dos grandes homens e teria seguramente pedido, de imediato, o controlo das exéquias fúnebres e preparado o sepultamento de Eusébio numa destas grandes avenidas cemiteriais, onde ficaria como testemunho do homem que foi e da grandeza que entregou a Portugal e a Lisboa, para que o povo, nos passeios pela sua memória, por ele passasse e homenageasse publicamente como o sempre fez nos grandes estádios cheios de multidões. O mesmo se passaria com Amália. 
É, no meu entender, um erro grosseiro esconder das pessoas que o aclamaram e admiram, os restos mortais de Eusébio. O panteão, particularmente o nosso, não tem os braços abertos á população. É um esconderijo de gente ilustre, é certo, mas que se apaga na memória por ausência de ritos de evocação e da mera constatação acidental, por um funeral, por uma romaria, de que ali está a memória viva de Eusébio.  
Vivemos um tempo em que o ritmo acelerou a tal ponto que diminui rápidamente o tempo do luto, da rememoração, da evocação. Fechar os grandes mortos num Panteão adormecido, tem algo de orgulho e vaidade de peralta, mas não cumpre a regra de presentificação da memória que os grandes espaços sepulturais permitem. Pior ainda, é deixá-lo no cemitério do Lumiar, que embora digno, está ausente desta monumentalidade evocativa que se desprende do Alto de S. João e dos Prazeres. Quem conhece os grandes cemitérios do mundo sabe bem que assim é. Os túmulos de Edith Piaf ou de Jimmy Hendrix são, ainda hoje, locais de romarias diárias no Pére Lachaise. Assim como de tantos outros intelectuais e desportistas que ali e em Montmartre ficaram como sinal de que são pedaços da memória colectiva. O mesmo se passa nas outras capitais do mundo.
Sei que não valerá de nada este meu contributo. Os políticos arreganham-se para se apropriar do palco que esta triste morte lhes deu e o destino vai ser o Panteão ou o esquecimento, se outros heróis o substituirem. Pior do que isso. Amália e Eusébio são símbolos de um povo inteiro, orgulho de uma Pátria que ultrapassam fronteiras cada vez com mais portugueses a trabalhar por esse mundo fora. Não são um produto das élites intelectuais. Eles são élites por qualidades e talentos naturais nos quais milhões de portugueses e cidadãos de todo o mundo reconhecem, admiram e amam e agradecem os legados que nos deixaram.
É a sugestão que vos deixo. Como estudioso deste fenómeno e, sobretudo, como cidadão magoado com a perda de tão extraordinário cidadão que foi Eusébio. Paz à sua Alma!

sábado, 23 de novembro de 2013

Polícias em Luta





A manifestação dos polícias, ao ouvir o que dela se diz, resume-se a dois pontos. O primeiro é que os manigfestantes romperam o cordão de segurança e invadiram as escadarias do Parlamento e isso é uma excepção que lhes retira autoridade moral para impedirem outros manifestantes de agirem de igual forma. A segunda questão é que desta 'ilegalidade' resultou a demissão do Director Nacional da PSP.
Julgo que são leituras demasiado simplistas daquilo que se passou e está a passar. E revela que hoje a comunicação releva o epifenómeno em vez do fenómeno. A começar pela descrição da manifestação. Estariam nela cerca de dez mil polícias e, como se vê pela imagem, não era maior nem menor do que outras que vemos no mesmo espaço, promovidas por outras organizações e onde são proclamados números avassaladores. Mais de cinquenta mil, mais de cem mil. A verdade é que a grande manifestação dos polícias reduz á insignificância as majestosas manifestações amplamente divulgadas como sendo o país em peso que ali está. E esta manifestação é grande porquê? Porque representa cinquenta mil homens armados. O verdadeiro poder do Estado que tem a obrigação de executar as determinações do poder político e judicial.
Quem viu as imagens com olhos de ver, perceberá com facilidade, que o rompimento das barreiras foi um acto permissivo, quase tacitamente combinado. Quem viu as imagens com olhos de ver, terá percebido que os polícias organizaram aquela vertigem. Chegaram ás portas da Assembleia e, minutos depois, voltaram-lhe as costas e voluntáriamente afastaram-se do local.
Aquela manifestação simbólica de força é, no meu entender, mais preocupante do que o folclore que tem rodeado o evento. O que aquela gente quis dizer é que vamos até onde queremos ir tão só porque nós somos poder. Somos os instrumentos do poder reconhecido no governo, na Assembleia da República e nos Tribunais.
É claro que reconheço que foi uma demonstração de força excessiva e que foi para além do que é permitido a outros manifestantes.  Mas não foi um erro impensado. Foi uma decisão premeditada. E aqui regressamos ao essencial: o que leva todas as forças de segurança e de investigação criminal, que, no conjunto, são um exército poderosissimo a assumir esta posição de confrontação global? Que descontentamento é este tão grande, tão impaciente, tão revoltado, que leva os mais obedientes servidores do Estado, disciplinados para a obediencia, treinados para cumprir missões, a chegar a este patamar de angústia e de desprezo pelo Poder que servem?
Há meses que existe um ruído de fundo que dá conta do descontentamento. As greves dos guardas prisionais, as greves da PJ, as inciativas dentro da PSP e da GNR, não são apenas de motivação remuneratória.  Julgo, até, que as reivindicações salariais são a parte mais pequena do bolo dos protestos. Falta de quadros, falta de meios, degradação das condições de trabalho, incapacidade para responder ás exigências do proprio Estado, falta de renovação das carreiras, em suma, aqueles homens e mulheres estão a viver e a assistir á desagregação das próprias funções que permitem o exercício das suas profissões, ou seja, assegurar a Soberania, a Ordem, a Tranquilidade Pública, o cumprimento das leis, a realização da Justiça. São as testemunhas privilegiadas desta degradação que, pela natureza da sua acção, representam a degradação das suas profissões. Mais do que dinheiro, aquilo que está já em causa é a dignidade institucional e, parece-me, que o Governo tem olhado com displicência para este problema tão grave como complexo. Sem polícias não há Política. É o axioma maior da organização de qualquer Estado soberano. E, por isso, perdermo-nos nas interpretações mais ou menos morais sobre a demissão de um comandante e o rompimento de uma barreira, é tapar o sol com a peneira. É urgente que chegue o bom senso e o Governo perceba que não pode continuar a fazer de conta que esta realidade e esta degradação não existem e a chutar para canto os protestos com meia dúzia de frases convencionais. Amanhã pode ser tarde. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O Pais exige decisões sérias!

É com estupefacção que o País e o Mundo assistem a esta crise política que se abriu com a saída de Vitor Gaspar. Passos Coelho escolheu o mais fraco dos argumentos para nomear a nova ministra. Estar dentro dos dossiers não é suficiente. O sinal de uma nova abordagem da política financeira e económica do país exigia um rosto diferente e uma política diferente. Decidiu mal. Porém, uma decisão destas  não justifica que Paulo Portas bata intempestivamente com a porta. E é infeliz o discurso de Passos Coelho que, depois do estrondo da queda do Governo (pelo menos nos moldes que conhecemos), vem dizer que não se demite.  Não faz sentido. A resposta veio já dos mercados que nos emprestam dinheiro. Dispararam todos os índices de risco e de ameaça de regresso da bancarrota. 
Só compreendo esta postura se estiver a ser negociado um novo governo, com outros actores, com nova política, com apoio parlamentar claro. O resto é autismo político. E caso não haja esse novo governo a  única decisão sensata, para que a democracia funcione é a marcação de eleições com todos os prejuízos que daí decorrem para a situação económica e financeira do país. Mas não há condições para que esta novela se prolongue. 
Está nas mãos do Presidente da República resolver esta grave crise. Chegou o tempo de assumir as grandes decisões e o fim do mandato minimalista. É agora ou nunca que o Presidente se torna o farol, ou não, que nos leva para fora deste charco pestilento.
Não se resolve a crise com eleições, é certo. Até vamos viver o paradoxo de poder ser eleito para governar o partido que nos mergulhou nela até ao tutano dos ossos. Tal como na Grécia, o caminho é o mesmo.  E acontecerá a mesma política. Que tem memória curta que grave os discursos que hoje faz o PS sobre as suas alvoradas extremosas para depois comparar com as medidas que vai aplicar de cabeça baixa e vergado ao peso dos credores. Também já vimos isso com François Hollande. Quando foi empossado rugia   como um leão ameaças contra os 'mercados'. Hoje tornou-se no gatinho manso da senhora Merkel. A vida é mais dura do que a retórica política. Mais dura do que os caprichos de Portas e as teimosias de Passos. Mais dura que a retórica vazia de Seguro. Bem mais dura do que o folclore do PC e do Bloco de Esquerda. A vida é feita de milhões que sofrem, que vivem em ansiedade e inquietação com o destino dos seus filhos e das suas vidas.  É bom que este pesadelo chegue ao fim. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma Nova Ambição (6) Quando Abril desperta


Não creio em políticas, nem em governos, nem em pessoas que não sabem sonhar projectos, expectativas, que não têm dentro de si confiança no futuro. Não acredito em fatalistas. Muito menos em militantes da denúncia, da crítica pela crítica, acomodados nas suas verdades, confortados nas suas reivindicações e protestos, incapazes da dádiva, egoístas na partilha, em gritos narcísicos sobre a injustiça da sua inteligência, da sua obra, da sua ideia não ser ovacionada como o bem maior que o país produz. E o país está assim, neste momento. Enquanto cresce o desemprego, se multiplicam as dificuldades e urge o esforço colectivo para encontrar a saída deste túnel negro, oiço políticos e sindicalistas, comentadores e especialistas do disparate evocar culpas, gemer raivas, gritar (gritar é uma forma primária do anti-diálogo) verdades tão repetidas, tão vazias, tão irracionais, tão populistas, tão moralmente preconceituosas que só as compreendo como consequência do medo, dos muitos medos que habitam cada homem e da sua incapacidade para os vencer. São homens vencidos antes de qualquer batalha.

Acredito que o mundo mais justo é aquele que inscreve a partilha franciscana. Que nos agiganta face aos problemas quando entregamos amor, em vez de esperar ser amado, que nos obriga a compreender os outros, antes que nos compreendam a nós. Por isto mesmo, sou um defensor intransigente da Paz, dos direitos de cidadania de todos, do direito à diferença sem limites, seja religiosa, política, seja a diferença aquilo que for. É nesse respeito que seremos iguais.

Faço parte do grupo de homens e mulheres que acredita em António Gedeão - o  sonho comanda a Vida e, por tal razão, olho os caminhos já percorridos, por vezes tão duramente percorridos, que creio que por todas as derrotas que possamos viver, a construção material de um sonho de Justiça social, criminal, económica, política pode reforçar energias, esquecer os desaires, e tornar um pouco mais feliz que connosco partilha os dias, as emoções, as alegrias e as tristezas. Creio em Deus mas também creio que as obras da nossa vontade são testemunhos de fé maior, que vão aos poucos construindo homens livres e de bons costumes. Para tanto é fundamental o exercício da crítica, é certo. Uma Pátria livre exige esse direito e exercido com elevação moral. Mas também exige o compromisso. Exige a responsabilidade do compromisso, um rigoroso sentido ético, a recuperação da honradez da palavra, o compromisso leal e sério com os outros. Tive um avô, o meu avô Francisco, que morreu há trinta anos, morreu de pé, inteiro e lúcido, com 85 anos, sólido como um carvalho, que partiu com a alegria de nunca ter feito um negócio (era um camponês rendeiro) que não fosse por palavra e aperto de mão. E honrara-os sempre.

Hoje já não pode ser assim. Os tempos são outros. Porém, a honradez das palavras é a mesma. É essa necessidade de compromisso, a exigência cívica de partilhar desafios que afrontem tempestades e sofrimentos, que vençam dores e mágoas, que procure a exaltação de valores de solidariedade activa, de cultura, de coragem física e anímica que me fez aceitar o convite para regressar ao combate eleitoral, á luta por uma democracia culta e a assumir desafios pelos outros e com os outros, acrescentando pedaços felicidade, devolvendo-a a quem não a viveu, partilhando-a com quem a deseja viver de forma inteira e livre.

Chegados aqui, entra Oeiras e o seu futuro.  Em breve apresentaremos o nosso programa/compromisso de futuro. E escolhemos o 25 de Abril para aprofundar esta caminhada pelos valores da Paz e da Liberdade. Porque o 25 de Abril não tem donos. Não é da esquerda (seja isto aquilo que for) nem é a da direita (seja isto aquilo que for). É um dia fundador 'inteiro e límpido' que permitiu o protesto, a liberdade de todas as expressões, mas que nos exige o aprofundamento de uma  cultura cívica que nos conduz ao compromisso com os homens e com a História, a sonhar e a fazer, tendo como finalidade os outros e a sua felicidade. Não basta saber e criticar. É necessário saber mais e passar das palavras á acção. Pela paz, pelo bem estar, para que a palavra Esperança faça sentido e seja palavra prometida e comprometida no trabalho que se constrói, construindo afectos e um tempo onde a alegria seja a centelha que ilumina o entusiasmo de nos entregarmos aos outros.








domingo, 7 de abril de 2013

Uma Nova Ambição (V) - O Caos e a Culpa



Há muito que não vinha aqui. Mas não me apetece ficar quieto, em silêncio, quando vejo incendiar paixões que nos conduzem alegremente ao abismo. A profusão de argumentos, a maioria deles já do território da irracionalidade completa, com que se discute o futuro do País, é uma espécie de empedrado para onde caminhamos para o caos, palavra aqui usada no sentido de não encontrarmos uma solução mas apenas um campo de despojos de palavras de onde a sensatez fugiu assustada. Um campo selvagem, feito de arbustos e ervas daninhas, onde imperam cogumelos imponentes, fungos que se alimentam da miséria e do oportunismo intelectual e político.
É preciso parar este movimento magmático que produz vulgaridade, que não tem grandeza, que não tem alteridade, que, por mais penitências batam no peito, não tem um sentido patriótico nem coloca a nossa terra, os nossos filhos, a nossa memória colectiva, o nosso futuro como objectivo primeiro do debate político nem respeita o imenso esforço que a população está a realizar para sair da imensa crise em que mergulhámos.
É preciso parar para pensar. Para recordar que os caminhos que estamos a seguir, minados por raivas pessoais e ressentimentos, por querelas estéreis, por discursos mais apopléticos e arrogantes do que lúcidos, tiveram os seus dias noutros tempos da nossa História e descambaram sempre em desastres que, depois, passaram a lamento colectivo.

O Problema e a Culpa

Tudo se parece resumir ao simplismo justificativo da culpa. Esta atitude herdada da cultura inquisitorial onde cegamente se procura a bruxa má para se apontar a culpa. Esta abordagem subjectiva da culpa, seja Sócrates, seja o chumbo do PEC IV, seja o contrato com a troyka, as políticas do governo, a Angela Merkel, os mercados, descambam num apaziguamento momentâneo da nossa própria consciência, inocentados de culpa, absolvidos e mártires de todas as diabruras que os 'políticos'fazem. Este culto tão primário quanto incipiente, do ponto de vista da cultura cívica, conduz-nos ao antagonismo estéril porque dele não resultam soluções para os nossos males. Podem aumentar o volume dos insultos mas não resolvem um único problema. Por outro lado, esta procura incansável do culpado é uma obsessão que não tem resolução política. Não tem sido outra a vida da CDU ou do BE. Procurar e denunciar o culpado mas sem dar único passo, um único que seja, para que se comprometam com os problemas e deles se procure sair para bem da população e das famílias. O problema já não é a culpa. O verdadeiro problema é...o problema financeiro, de bancarrota, de desemprego, de reformulação do Estado parasita, de crescimento da economia. O problema é isto e muito mais. Os nossos compromissos internacionais, a ameaça de não haver dinheiro emprestado para salários, de não haver crédito para as empresas, de sermos esbulhados das nossas poupanças (como aconteceu no Chipre) de cairmos na miséria ainda mais ruim, com a saída do euro e consequente desvalorização de todos os nossos activos e patrimónios.
 
O Caminho
 
É urgente arrepiar caminho antes que o sofrimento produza ainda mais sofrimento. Antes que a dor seja tão angustiante e forte que dê lugar á desorientação colectiva. É urgente fazer saltar cada Partido da trincheira de pesporrência e orgulho em que se defende e ataca. É urgente que cada um saiba dar um contributo para que seja possível salvar o País de mais dor e de maior tragédia. É urgente que o Presidente da República venha a terreiro, liderando, actuando, revelando que faz e consegue compromissos. Não é o tempo do comunicado, nem da clausura. É o tempo da pedagogia, da voz actuante que ajude o Governo, que ajude o PS, que ajude as forças laborais e empresariais a superar este momento difícil. Ou então tudo será mais difícil. Se o caminho para o apaziguamento forem eleições, que sejam eleições. Se for preciso alterar o governo que se altere o governo. Não pode haver portas fechadas, nem silêncios, nem insultos, nem agressões. O tempo da política culta tem que chegar e é capaz de ser este o momento para dispensar caciques, chefes de tribos, quadrilhas e outras espécies sem escrúpulos que se abrigam quer dentro quer fora dos partidos, apenas dispostas a sugar sem escrúpulos o esforço de todos. É preciso unir forças, juntar pessoas que pensam de maneira diferente mas que, no essencial, estão dispostas a dar tudo pelo seu País e pela defesa dos mais desprotegidos. Isto não vai lá com frases de circunstãncias. Exige actos, trabalho, esforços comuns, compromisso.  Isto não vai lá com insultos e desvarios. Exige dádiva, firmeza, seriedade e coragem. Coragem que não quer dizer teimosia. Coragem para ter a humildade de ser solidário. Como é que se pode pedir com tanta facilidade ajuda externa e não conseguimos unir esforços para a ajuda interna? Logo, agora, que estamos á beira do caos?
Não tenho dúvidas que, a manter-se esta situação de clausura, de berrar de verdades efémeras, de empobrecer a eito com consequencias tão dramáticas, de cairmos nesta redoma de verdades feitas, gritos e arrogancia, o sofrimento que carregamos é coisa de brincar perante aquilo que está á nossa espera. E para breve. Basta que o próximo cheque da troyka não chegue em Maio e logo se perceberá o inferno onde estamos mergulhados.
Acredito que o conflito só tem sentido se daí acrescentarmos força á força colectiva que sustenta a paz e a esperança. Acredito que a tensão só faz sentido superada numa solução que nos abra caminhos de maior tranquilidade e superação. Não creio que qualquer homem ou qualquer força, partidária, sindical, seja aquilo que for, possam ser o caminho, a verdade e a vida. Porque não têm dimensão sagrada. Pertencemos ao território do profano, do erro, da angustia, da necessidade. Por isso é minha profunda convicção que só a tolerância democrática, a humildade democrática, o sentido da dádiva e do encontro nos pode aproximar de soluções com grandeza para esta terra que, um dia, nos viu nascer e, em qualquer dia, nos abrigará para sempre.