terça-feira, 8 de março de 2011

Festas de S.José - Apoteose de Santarém


As festas de uma Cidade, de qualquer cidade, vila ou aldeia, são sempre uma liturgia de evocação de memórias e de afectos que convocam o Sagrado e o Profano e lhes conferem uma dimensão transcendente - A festa é, pela sua natureza, pela legitimação identitária, o reforço da crença na imortalidade dos destinos colectivos.
O Dia 19 de Março é o Dia da Cidade de Santarém. Feriado municipal. Dia de S.José. Dia do Pai. A concreção desta carga simbólica produz efeitos paradoxais e curiosos. Por um lado, na ordem religiosa, celebra um Santo operário, que o Papa João XXIII consagrou como protector dos trabalhadores, um Santo que é símbolo de fé, de bondade e determinação. Celebra-se o Dia do Pai, que vindo da ordem do sagrado e do reconhecimento do bonus pater familia no quadro da família cristão, ganhou com o tempo uma dimensão secularizante e, até, mesmo laica que excede largamente os limites em que a Igreja o concebeu. O Dia do Pai, assim como o Dia da Mãe, massificou-se com as novas tecnologias - nesse dia, por maior que seja a distância - o telemóvel envia milhões de beijos a milhões de pais e de mães, recentrando figuras que a descristianização da família dotou de novos papéis sociais. Finalmente, é o Dia de Santarém, produção do poder político que decidiu, nos finais da década de sessenta do século passado, instituir um feriado que servisse para exaltar e glorificar os valores, a história, o passado de cada município. 
Não admira, pois, que esta concentração evocativa tenha vindo, paulatinamente, a transformar as Festas da Cidade de Santarém numa imensa multidão que, durante vários dias (este ano começam a 17 e terminam a 20 de Março) acorre à cidade para se encontrar, manifestar, celebrar, exorcizar angústias, legitimar expectativas existenciais e identidades, reforçando sociabilidades, deixando que a auto-estima se fortaleça na estima pela Cidade, reconhecendo-se nos símbolos que saem à rua: a gastronomia, os touros, os campinos e os cavalos, as manifestações religiosas em torno de S.José, a música sacra e profana, cortejos etnográficos que, afinal de contas, inscrevem uma ordem no imaginário individual e colectivo que representam sinais vísiveis da memória. A força da recordatória, evocativa e afectiva é tal que este ano, pela primeira vez, se esgotaram todos os espaços de comércio e ludismo, sendo necessário recorrer a leilões. A força da Festa é tal que o Município não gasta um cêntimo e oferece-se solidário e inteiro a quem o procura para celebrar Santarém ou, tão só, para celebrar a Vida. Uma cidade que se abre ao Tejo e ás estradas, que estimulou e aprofundou um sentido raro de hospitalidade, espera com alegria quem a visita por estes dias. E dá as boas vindas a quem vier a este magnífico encontro com os encontros da nossa existência comum. Crivada de ternura, de saudade, de alegria, de confiança, de fé, feita de anseios de Liberdade, de Paz e da certeza que a Vida vencerá sempre a traição da morte, e a Santarém celeste estará no horizonte desta santarém imortal. Bem vindos, venham de onde vierem. E tragam outro amigo também. Aqui, por estes dias, celebraremos o que de melhor a natureza humana produziu e que confere a Santarém um altar próprio nos campos da Liberdade. Viva Santarém!

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