quarta-feira, 13 de abril de 2011

Fernando Nobre e os Independentes


Por democrática tradição é de bom tom os Partidos agitarem a quantidade de cidadãos independentes que aderem aos seus projectos e desafios políticos. Sobretudo uma certa esquerda, ressabiada e sectária, que mostra os seus independentes como o exemplo da 'ampla abertura às massas'. Mas também é sabido que estes partidos, sobretudo, dessa esquerda que gosta de reivindicar a maternidade democrática, verdadeiros donos austeros da democracia e da moral pública, adoram independentes desde que ....sejam dependentes. Ou dito de outro modo, esta qualidade que muitos cidadãos exigem para si (mais do que qualidade é um direito) só serve, se servir os objectivos deste ou daquele partido. E torna-se uma espécie de excremento social se, conforme José Régio, só forem por onde os levam os seus próprios passos. A independência não significa ser melhor ou pior do que o filiado partidário. Significa a opção por decisões externas à vontade de um colectivo.  Optar,escolher, decidir sem uma pré-determinação estatutária. Apoiar ou não apoiar de acordo com a sua consciência, intervir ou não intervir segundo a sua convicção e vontade. Uma atitude tão legítima quanto a decisão de integrar um partido, um grupo religioso ou clube desportivo. Ou não integrar.  Sei do que falo porque sou um presidente de câmara independente, embora com o apoio político do PSD. E sei como, por vezes, é difícil lutar e continuar com esse estatuto de homem livre e de bons costumes. Mas também sei que esta relação entre militantes e independentes, por vezes tensa, outras vezes comum, reforça e enriquece não só o contributo partidário como integra outras visões da política e do mundo.
Vem esta conversa a propósito do clamor que se levantou nessa esquerda preconceituosa e tonta por causa de Fernando Nobre ter aceite ser candidato independente nas listas do PSD. Inacreditável um candidato à Presidência da República aceitar tal projecto! Afinal a cidadania que proclamava era um logro! Que terá enganado os seus eleitores! Que não tem experiência para ser Presidente da Assembleia da República! Indignações que não falam de Fernando Nobre mas dizem muito sobre quem as produz. São exactamente os mesmos que consideraram natural e agradável ver Freitas do Amaral, fundador do CDS, candidato a Presidente da República como ministro dos negócios estrangeiros do 1º governo do engº Sócrates. E ainda bem que o foi porque é uma grande qualidade intelectual. São os mesmos que aceitam Basílio Horta, que foi candidato á Presidência da República, seja hoje o dirigente de uma importante instituição do ministério da economia e, pelo que sei, desempenha com exemplar competência esse cargo.E por aqui fora.
Fernando Nobre tem todo o direito de escolher e não sentir que traiu seja quem for, desde que não atraiçoe a sua própria consciência de homem livre e de bons costumes. E mesmo aqueles que vêm argumentar contra a sua inexperiência para liderar a Assembleia da República apenas demonstram a visão restritiva que têm da 'sua' democracia e da leitura que fazem do texto constitucional. A lei não é igual para todos? Ou existem lugares que só se ajustam a iluminados? A predestinados? A esmagadora maioria dos deputados que temos, não viveu, não conheceu, não chega aos calcanhares da experiência de serviço público conquistada por Fernando Nobre. Anos e anos, décadas de vida consagradas à causa pública e ao serviço dos que mais sofrem. Esse homem deixou de existir por aceitar defender os seus valores e crenças a partir de um Partido político? Não é o mesmo homem que com aplauso geral foi mandatário do Bloco de Esquerda? Pelos vistos, não. A independência tem estes custos. Mas, por outro lado, desnuda a hipocrisia e o cinismo que atravessa a política moralista feita por amorais.A liberdade não é um bem relativo, distintivo, classista ou propriedade de ninguém. É um bem absoluto que se vive ou não se vive. Fernando Nobre é um homem livre que preza a sua liberdade de escolher. E faz muito bem em escolher como entende.Recusa ser servo ou estar submetido ao critério deste ou daquele. Escolhe! E de pé. Porque o conheço, lhe conheço a dimensão humana, também sei que faz parte do grupo dos homens livres que enfrenta os outros homens de pé. De joelhos só perante Deus!

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