segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma Nova Ambição (6) Quando Abril desperta


Não creio em políticas, nem em governos, nem em pessoas que não sabem sonhar projectos, expectativas, que não têm dentro de si confiança no futuro. Não acredito em fatalistas. Muito menos em militantes da denúncia, da crítica pela crítica, acomodados nas suas verdades, confortados nas suas reivindicações e protestos, incapazes da dádiva, egoístas na partilha, em gritos narcísicos sobre a injustiça da sua inteligência, da sua obra, da sua ideia não ser ovacionada como o bem maior que o país produz. E o país está assim, neste momento. Enquanto cresce o desemprego, se multiplicam as dificuldades e urge o esforço colectivo para encontrar a saída deste túnel negro, oiço políticos e sindicalistas, comentadores e especialistas do disparate evocar culpas, gemer raivas, gritar (gritar é uma forma primária do anti-diálogo) verdades tão repetidas, tão vazias, tão irracionais, tão populistas, tão moralmente preconceituosas que só as compreendo como consequência do medo, dos muitos medos que habitam cada homem e da sua incapacidade para os vencer. São homens vencidos antes de qualquer batalha.

Acredito que o mundo mais justo é aquele que inscreve a partilha franciscana. Que nos agiganta face aos problemas quando entregamos amor, em vez de esperar ser amado, que nos obriga a compreender os outros, antes que nos compreendam a nós. Por isto mesmo, sou um defensor intransigente da Paz, dos direitos de cidadania de todos, do direito à diferença sem limites, seja religiosa, política, seja a diferença aquilo que for. É nesse respeito que seremos iguais.

Faço parte do grupo de homens e mulheres que acredita em António Gedeão - o  sonho comanda a Vida e, por tal razão, olho os caminhos já percorridos, por vezes tão duramente percorridos, que creio que por todas as derrotas que possamos viver, a construção material de um sonho de Justiça social, criminal, económica, política pode reforçar energias, esquecer os desaires, e tornar um pouco mais feliz que connosco partilha os dias, as emoções, as alegrias e as tristezas. Creio em Deus mas também creio que as obras da nossa vontade são testemunhos de fé maior, que vão aos poucos construindo homens livres e de bons costumes. Para tanto é fundamental o exercício da crítica, é certo. Uma Pátria livre exige esse direito e exercido com elevação moral. Mas também exige o compromisso. Exige a responsabilidade do compromisso, um rigoroso sentido ético, a recuperação da honradez da palavra, o compromisso leal e sério com os outros. Tive um avô, o meu avô Francisco, que morreu há trinta anos, morreu de pé, inteiro e lúcido, com 85 anos, sólido como um carvalho, que partiu com a alegria de nunca ter feito um negócio (era um camponês rendeiro) que não fosse por palavra e aperto de mão. E honrara-os sempre.

Hoje já não pode ser assim. Os tempos são outros. Porém, a honradez das palavras é a mesma. É essa necessidade de compromisso, a exigência cívica de partilhar desafios que afrontem tempestades e sofrimentos, que vençam dores e mágoas, que procure a exaltação de valores de solidariedade activa, de cultura, de coragem física e anímica que me fez aceitar o convite para regressar ao combate eleitoral, á luta por uma democracia culta e a assumir desafios pelos outros e com os outros, acrescentando pedaços felicidade, devolvendo-a a quem não a viveu, partilhando-a com quem a deseja viver de forma inteira e livre.

Chegados aqui, entra Oeiras e o seu futuro.  Em breve apresentaremos o nosso programa/compromisso de futuro. E escolhemos o 25 de Abril para aprofundar esta caminhada pelos valores da Paz e da Liberdade. Porque o 25 de Abril não tem donos. Não é da esquerda (seja isto aquilo que for) nem é a da direita (seja isto aquilo que for). É um dia fundador 'inteiro e límpido' que permitiu o protesto, a liberdade de todas as expressões, mas que nos exige o aprofundamento de uma  cultura cívica que nos conduz ao compromisso com os homens e com a História, a sonhar e a fazer, tendo como finalidade os outros e a sua felicidade. Não basta saber e criticar. É necessário saber mais e passar das palavras á acção. Pela paz, pelo bem estar, para que a palavra Esperança faça sentido e seja palavra prometida e comprometida no trabalho que se constrói, construindo afectos e um tempo onde a alegria seja a centelha que ilumina o entusiasmo de nos entregarmos aos outros.








domingo, 7 de abril de 2013

Uma Nova Ambição (V) - O Caos e a Culpa



Há muito que não vinha aqui. Mas não me apetece ficar quieto, em silêncio, quando vejo incendiar paixões que nos conduzem alegremente ao abismo. A profusão de argumentos, a maioria deles já do território da irracionalidade completa, com que se discute o futuro do País, é uma espécie de empedrado para onde caminhamos para o caos, palavra aqui usada no sentido de não encontrarmos uma solução mas apenas um campo de despojos de palavras de onde a sensatez fugiu assustada. Um campo selvagem, feito de arbustos e ervas daninhas, onde imperam cogumelos imponentes, fungos que se alimentam da miséria e do oportunismo intelectual e político.
É preciso parar este movimento magmático que produz vulgaridade, que não tem grandeza, que não tem alteridade, que, por mais penitências batam no peito, não tem um sentido patriótico nem coloca a nossa terra, os nossos filhos, a nossa memória colectiva, o nosso futuro como objectivo primeiro do debate político nem respeita o imenso esforço que a população está a realizar para sair da imensa crise em que mergulhámos.
É preciso parar para pensar. Para recordar que os caminhos que estamos a seguir, minados por raivas pessoais e ressentimentos, por querelas estéreis, por discursos mais apopléticos e arrogantes do que lúcidos, tiveram os seus dias noutros tempos da nossa História e descambaram sempre em desastres que, depois, passaram a lamento colectivo.

O Problema e a Culpa

Tudo se parece resumir ao simplismo justificativo da culpa. Esta atitude herdada da cultura inquisitorial onde cegamente se procura a bruxa má para se apontar a culpa. Esta abordagem subjectiva da culpa, seja Sócrates, seja o chumbo do PEC IV, seja o contrato com a troyka, as políticas do governo, a Angela Merkel, os mercados, descambam num apaziguamento momentâneo da nossa própria consciência, inocentados de culpa, absolvidos e mártires de todas as diabruras que os 'políticos'fazem. Este culto tão primário quanto incipiente, do ponto de vista da cultura cívica, conduz-nos ao antagonismo estéril porque dele não resultam soluções para os nossos males. Podem aumentar o volume dos insultos mas não resolvem um único problema. Por outro lado, esta procura incansável do culpado é uma obsessão que não tem resolução política. Não tem sido outra a vida da CDU ou do BE. Procurar e denunciar o culpado mas sem dar único passo, um único que seja, para que se comprometam com os problemas e deles se procure sair para bem da população e das famílias. O problema já não é a culpa. O verdadeiro problema é...o problema financeiro, de bancarrota, de desemprego, de reformulação do Estado parasita, de crescimento da economia. O problema é isto e muito mais. Os nossos compromissos internacionais, a ameaça de não haver dinheiro emprestado para salários, de não haver crédito para as empresas, de sermos esbulhados das nossas poupanças (como aconteceu no Chipre) de cairmos na miséria ainda mais ruim, com a saída do euro e consequente desvalorização de todos os nossos activos e patrimónios.
 
O Caminho
 
É urgente arrepiar caminho antes que o sofrimento produza ainda mais sofrimento. Antes que a dor seja tão angustiante e forte que dê lugar á desorientação colectiva. É urgente fazer saltar cada Partido da trincheira de pesporrência e orgulho em que se defende e ataca. É urgente que cada um saiba dar um contributo para que seja possível salvar o País de mais dor e de maior tragédia. É urgente que o Presidente da República venha a terreiro, liderando, actuando, revelando que faz e consegue compromissos. Não é o tempo do comunicado, nem da clausura. É o tempo da pedagogia, da voz actuante que ajude o Governo, que ajude o PS, que ajude as forças laborais e empresariais a superar este momento difícil. Ou então tudo será mais difícil. Se o caminho para o apaziguamento forem eleições, que sejam eleições. Se for preciso alterar o governo que se altere o governo. Não pode haver portas fechadas, nem silêncios, nem insultos, nem agressões. O tempo da política culta tem que chegar e é capaz de ser este o momento para dispensar caciques, chefes de tribos, quadrilhas e outras espécies sem escrúpulos que se abrigam quer dentro quer fora dos partidos, apenas dispostas a sugar sem escrúpulos o esforço de todos. É preciso unir forças, juntar pessoas que pensam de maneira diferente mas que, no essencial, estão dispostas a dar tudo pelo seu País e pela defesa dos mais desprotegidos. Isto não vai lá com frases de circunstãncias. Exige actos, trabalho, esforços comuns, compromisso.  Isto não vai lá com insultos e desvarios. Exige dádiva, firmeza, seriedade e coragem. Coragem que não quer dizer teimosia. Coragem para ter a humildade de ser solidário. Como é que se pode pedir com tanta facilidade ajuda externa e não conseguimos unir esforços para a ajuda interna? Logo, agora, que estamos á beira do caos?
Não tenho dúvidas que, a manter-se esta situação de clausura, de berrar de verdades efémeras, de empobrecer a eito com consequencias tão dramáticas, de cairmos nesta redoma de verdades feitas, gritos e arrogancia, o sofrimento que carregamos é coisa de brincar perante aquilo que está á nossa espera. E para breve. Basta que o próximo cheque da troyka não chegue em Maio e logo se perceberá o inferno onde estamos mergulhados.
Acredito que o conflito só tem sentido se daí acrescentarmos força á força colectiva que sustenta a paz e a esperança. Acredito que a tensão só faz sentido superada numa solução que nos abra caminhos de maior tranquilidade e superação. Não creio que qualquer homem ou qualquer força, partidária, sindical, seja aquilo que for, possam ser o caminho, a verdade e a vida. Porque não têm dimensão sagrada. Pertencemos ao território do profano, do erro, da angustia, da necessidade. Por isso é minha profunda convicção que só a tolerância democrática, a humildade democrática, o sentido da dádiva e do encontro nos pode aproximar de soluções com grandeza para esta terra que, um dia, nos viu nascer e, em qualquer dia, nos abrigará para sempre.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sá Carneiro - Aquela Noite


Eu estive lá nessa noite. O meu chefe estava de Piquete e nós tínhamos regressado de Cascais onde apresentáramos ao juiz de instrução um ladrão que fizeram vários assaltos na zona. Levámo-lo para a zona prisional e fomos ao Piquete dar contas do nosso serviço ao nosso chefe de Brigada. Ainda não deviam ser 20 horas. Convidámo-lo para um copo e ele respondeu-nos que não dava. Estava de serviço e com poucos homens já que era hora de jantar. Foi então que tocou o telefone preto. A bateria de telefones do Piquete era cinzenta. Menos aquele, linha directa aos serviços de urgência da PSP e da GNR. Quando tocava, era sinal de sarilho. Quando desligou percebemos que estava desconfiado. A notícia que chegava era grande demais para ser logo tomada a sério. Informava a Polícia do aeroporto que um avião caíra e que altas individualidades iam a bordo. Não dizia quem. Fosse como fosse, mandou avançar a tropa. Estava com o meu colega na rotunda do relógio quando pelos rádios das viaturas a central informava que se tratava do primeiro ministro e muito possivelmente do ministro da defesa. Sá Carneiro e Amaro da Costa, Naquele momento liguei o rádio normal e procurei notícias. O país ainda não sabia da tragédia. Recordo-me que as transmissões entre viaturas se calaram. O choque era grande demais e aquele silêncio era seguramente o tempo de todos os investigadores que se dirigiam para Camarate digerir uma notícia que lhes parecia impossível.
Chegámos ao mesmo tempo dos bombeiros que procuravam dominar as chamas do avião e encontrando gente desvairada com o susto, pois foram apanhadas de surpresa enquanto jantavam. Tornou-se uma das noites mais estranhas da minha vida. Nunca vira polícias a trabalhar de lágrimas nos olhos, nem bombeiros que soluçavam de mágoa e dor. Entretanto, chegavam as brigadas de minas e armadilhas, os peritos da aeronáutica civil, os homens dos homicídios e uma multidão que, entretanto, ao saber oficialmente da notícia correu ao local. Era tempo de eleições para as presidenciais. Tempo de emoções exacerbadas. Soares Carneiro contra Ramalho Eanes. Recordo-me de Eanes, prostrado, em choque, com a grandeza que se lhe reconhece, ali humilde e magoado com o desastre. De Eurico de Melo que não segurava as lágrimas. De muita gente da política e da vida pública que não queria acreditar na tragédia. Do Director Geral da PJ, do dr. Sombreireiro que ali mesmo fez a primeira autópsia dos cadáveres. Passava das três da manhã quando foram levados para o Instituo de Medicina Legal. As equipas técnicas ficaram no terreno e eu, que não me deitara na noite anterior perseguindo o ladrão de Cascais, não tinha tarefa e recolhi a casa exausto. Queria dormir e não conseguia. O choque vencia o cansaço acumulado e embora entre os polícias não houvesse grandes paixões partidárias, devido á própria função que inibia essas opções, partilhava a consciência quase unânime de que acabara de morrer um homem raro da política.Daqueles que servem em vez de se servir. Que se dedicam á causa pública sem condições. Que pelo seu país seriam capazes de viver. E de morrer.Um exemplo de cidadania que marcaria muita gente que ao longo de gerações se dedicou á vida pública. Nesta efémeride, vale a pena recordar esses valores essenciais desse homem valente, dedicado, apaixonado pelo seu povo. E hoje, tal como nessa noite, curvo-me respeitoso e rezo a S. Francisco por ele, por todos que com ele morreram e para que o seu exemplo ilustra e de dignidade cívica e política continue a ser herança de muitos. Para mim continua a ser com toda a certeza.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Evocação de um HOMEM - Vitor Gaspar


Vitor Gaspar era matemático. Professor. Quando o conheci, há nove,dez anos, era Presidente da Junta da Ribeira de Santarém, sendo um cidadão independente eleito pela CDU. Há um ano, faz precisamente hoje um ano, um enfarte fulminante arrebatou-o do mundo dos vivos.Tinha 44 anos e fui dolorosa testemunha dos seus últimos momentos de vida. Quando morreu, era vereador da Câmara de Santarém. Continuava a ser um vereador independente mas eleito nas listas do PSD. Tal como eu. A meu convite. Porque reconhecia nele a grandeza de autarca que não se encontra com facilidade por esse mundo do poder local. Um homem único, meu vizinho, que conheci antes das lides políticas, e que secundarizando as opções ideológicas, nos unia um profundo amor pelo conhecimento e pelo serviço público. Tornámo-nos amigos. Daqueles amigos com quem se partilham sonhos, obras, esperanças, derrotas, vitórias. Que nos respeitávamos nas diferenças e não temíamos a discussão frontal das nossas opções de vida. Ficarão gravadas na minha memória até ao último dia da minha existência as nossas infindáveis discussões sobre o seu infinito matemático e o meu infinito existencial, assim como o prazer pela música que partilhávamos, pelas viagens cúmplices pela vida, discutindo projectos e construindo outros. Já era chefe de divisão na autarquia de Santarém, a meu convite, quando organizou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Um exemplo de entrega, serviço público, paixão á causa do povo que servia e do País. Passámos noites de insónia e de trabalho. Trabalhador incansável (uma ou outra das suas falsas viúvas que o choram em espectáculo, nunca aprenderam esse valor sagrado do trabalho que era o deus maior do Vitor, e ficaram-se na preguiça gemendo saudades mas ignorando exemplos), fraterno, íntegro, é um vazio imenso dentro de mim e na minha vida. 
Passado um ano evoco-o como o Amigo que nunca parte. Evoco esta memória de exemplaridade cívica, de serviço público, de dedicação ás suas gentes, de grandeza interior que os mais pequeninos que usam o poder em proveito próprio, por certo, hoje o lembram á força para dele se apropriarem após a sua morte. Por mais homenagens que lhe sejam feitas, não é recordando a sua morte que se exalta este HOMEM. É evocando a sua vida íntegra, solidária, vertical, valente e apaixonado pelo seu povo. O Homem que desprezava a pequenez e a mediocridade, que exaltava e não traía os valores da amizade, da solidariedade e da boa educação. Creio que muitos daqueles que o evocam não conhecem nada disto, não sabem o que é ser amigo, solidário e, até, bem educado. A fantochada do poder pelo poder, da ambição disfarçada de sorrisos ambíguos, as lágrimas do espectáculo que não chegam do coração, nada disto substitui a memória simples deste homem simples, fraterno e digno, que tive orgulho em conhecer, a felicidade de com ele ter trabalhado e  a alegria infinita de habitar o canto mais terno da minha memória onde guardo todos aqueles que sendo belos, bons e grandes, dedicaram a sua vida até ao limite aos outros, para bem de muitos e para memória exemplar de vindouros. Até sempre, Vitor!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O Poder e a Fraqueza

Deter o Poder, seja porque foi eleito, seja porque lhe foi delegado, não é condição de força, nem de autoridade. A força e a autoridade assentam na razão, nas convicções humanistas que servem que serve a causa pública. A força imposta e autoritária nunca é fonte de saber e de decisão. Nem de acção política com grandeza. É o maior sinal de fraqueza, o sinal do medo, a incompetência para servir. É servir-se. Servir os projectos pessoais e colocá-los ao serviço de ódios pessoais, de ambições pessoais, de retaliações pessoais. É o Poder ao serviço do egoísmo.Do exercício despótico do poder pessoal. É o verdadeiro lixo político que domina grande parte da vida pública do país. Que enoja pela desumanidade, que causa repulsa pela desumanidade, que provoca vómito pela mediocridade absoluta. Nenhum líder que jura servir pode transformar esse poder que lhe foi conferido para a discricionariedade, para o uso abusivo da arbitrariedade, para violar direitos de cidadania. Sobretudo quando se trata daqueles que servem a mesma causa comum que é o serviço á comunidade. Quando a política chega a este patamar de enxúndia, gordurosa e mediocre ilustra, não a política, mas a fraqueza de quem a usa para esconder a sua propria mediocridade. Dou um exemplo. Ontem dois quadros superiores foram despedidos. Não se lhe explicou porque o foram. Não se lhes uma explicação. Não se lhes deu tempo para reorganizarem as suas vidas. Gente com prestígio curricular e trabalho sério e honrado. Tratados como se fossem cães vadios. Decisão tão arbitraria quanto cruel. Que não fala sobre os despedidos. Diz tudo sobre quem brutalmente o decidiu sem olhar a condições de dignidade humana. É este o caminho de quem usa o Poder para o arbítrio e para a pesporrência. Os medíocres adoram estar rodeados de medíocres. Temem os homens superiores e com qualidade. E isto faz a grande diferença entre servir a Política com nobreza e alteridade ou torná-la no covil da maior miséria moral.Que Deus lhes perdoe a bestialidade.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

UMA NOVA AMBIÇÃO (III)

As grande rupturas culturais e civilizacionais (as verdadeiras revoluções no sentido de transformação profunda e radical) não se produzem com um estalar de dedos, nem com mais ou menos manifestações. Nem com mais ou menos reformas. Nem com mais ou menos austeridade. Tudo isto são expressões materiais e políticas de gestão problemas que afloram e necessitam de pensos e remédios, válvulas de escape e catarse colectiva, para reequilibrar formalmente os modelos em que se teima em acreditar. Aquilo a que hoje assistimos sob os mais intensos holofotes - acordos com a troyca, protestos, políticas orçamentais restritivas, indiferença ao desemprego, e por esta via ao valor do trabalho, ausência de investimento, e por esta via ao adiamento de adaptação aos novos tempos por parte dos empresários - fazem parte do mesmo puzzle de raciocínio e acção. Porém, deve dizer-se que são inegáveis os sinais de degradação e decadência em todas as áreas da produção de poder, seja ideológico, seja programático, seja nos domínios mais instrumentais como é o caso dos sindicatos, dos partidos, da associações de empresários, todos mais preocupados com o efémero (projectos para um, dois anos) do que estratégias de longo prazo. 
Veja-se como exemplo de degradação ideológica o Partido Comunista. Do seu léxico formal, das grandes narrativas públicas, há muito que saíram expressões como 'classe operária', 'camponeses pobres', os 'soldados e marinheiros'. Hoje domina e determina a narrativa a palavra 'trabalhadores', conceito genérico e abrangente, ambíguo, sem categorias identificadas, cabendo aí tudo e todos. Parece um problema menor mas não o é. É substancial. Quem ler os textos marxistas e leninistas, assim como as teses dos Congressos comunistas, sabe que a crença na revolução proletária, assenta na liderança da classe operária (cuja vanguarda é o Partido) na luta de classes contra o capital e os detentores do poder que o suporta. É certo que esta convicção não se perdeu no discurso comunista. O derrube do regime é a finalidade última da sua acção política com a emergência de uma sociedade socialista como existiu nos países de Leste. Porém, a deriva semântica, esconde a falência da crença e a incompreensão de uma realidade, corrigida hábilmente pelo conceito de 'trabalhadores'. A ruína dos campos e a dissolução de um denso tecido de camponeses por um lado, as alterações profundas nos processos de trabalho do operariado 'contaminados' pela democratização das novas tecnologias que os diferenciou, perdendo-se o sentido de massas de mão de obra explorada, no sentido que se vê relatado nos livros de Dickens, surgindo grupos cada vez maiores de 'aristocratas' , com forte poder de compra, graças ao domínio de competência técnicas que os arrancam ao domínio das 'vítimas da fome' e dos 'famélicos' da Terra.
Dou este exemplo mas poderíamos continuar por aí com os outros partidos. A social democracia do PSD ou o socialismo do PS não resistem á confrontação com os seus pressupostos ideológicos tendo em conta os seus discursos dominantes.
Não creio que estes anacronismos tenham a ver com o tal populismo simplista, analfabeto e vulgar que resulta da desorientação popular face ás diferentes narrativas e remete a política e os políticos para a singularidade insultuosa de que 'eles são todos iguais'. Seria mais rigoroso gritar 'Eles estão todos desorientados'. Sobretudo perderam o sentido essencial da política que é gerir o direito sagrado á Esperança. Quer a Situação quer a Oposição não conseguem construir um objectivo que entregue a necessidade e fomente o direito de acreditar que o futuro não é apenas sofrimento. Não é por maldade. É porque o mundo que representam, e sobre o qual modelam os discursos, já não é aquele que, na verdade, está aí a exigir uma Nova Ambição.
A Escola
O ranking das escolas e os becos sem saídas dos estudantes, o brutal desemprego de professores, o excesso de produção de 'doutores', a modelagem de um sistema de ensino que vive da massificação (e ainda bem) mas que é indiferente ao rigor, á competitvidade, a indiferença curricular com os grandes acontecimentos históricos que mudam os nossos quotidianos, o desprezo pelos valores de identidade nacional e cidadania, o afastamento dos pais (por auto e por hetero-exclusão) do processo educativo, faz alastrar esta mancha enorme de mão de obra pouco qualificada, sem destino prevísivel, apta a integrar o imenso exército de desempregados, pouco qualificada para os desafios ausentes das expectativas políticas geradas mas omnipresentes na realidade que vai fazer frente a esses alunos.
Talvez nunca tanto como hoje se trabalhe na escola. Tenho uma filha de 14 anos e sei a carga de trabalho que a sufoca. Para garantir competências diferenciadas dez a doze horas da sua vida estão agarradas á actividade escolar. 
Na idade da formação das identidades individuais é tão importante estudar a matéria académica como brincar, entendendo-se o brincar como processo de socialização e de construção psico-afectiva do mundo social da criança. Nunca como hoje, é necessário repensar a ideia de tempo livre, que as conhecidas e rotineiras 'AEC's' e outras propostas mais ou menos idênticas não privilegiam. E, sobretudo, como prioridade das prioridades é urgente definir um programa, ou vários programas educativos, onde quem nos governa tem de saber o que quer das nossas crianças daqui por cinco, dez anos, vinte anos, oferecendo escolhas de decisão para futuros adequados, longe desta produção, a raiar o imbecil, de professores, doutores e engenheiros que mergulham no desemprego mais desesperado. 
Qualquer reforma no ensino tem que obrigatóriamente inscrever expectativas de futuro produtivo. Seja em qual for a área de trabalho. Ou seja, valorizando o trabalho em vez de titulaturas. Entregando ao trabalho privilégios que provoquem o prazer de estudar e de trabalhar. Exaltando e protegendo o valor do trabalho como o verdadeiro motor da competitividade, do crescimento, da produção da riqueza. Julgo mesmo que todas as actividades relacionadas com o trabalho e a valorização das empresas deveriam ser afastadas das algemas fiscais, pois aqui reside o único caminho por onde Portugal pode sair desta complexa crise: formar com rigor, educar com rigor, adaptar o ensino e a educação ás exigências das revoluções invisiveis, á exigência de conhecimento dos direitos de cidadania articulados com os direitos da Terra, orientando políticas fiscais para quem tenha necessidade de limitar estes direitos. Julgo mesmo que o consumismo é a doença maior deste descontrolo. A ideologia do excesso inútil. Intervir fiscalmente nos consumos, tornando as receitas do Estado uma fonte de exemplaridade cívica e de justiça é um caminho que não pode deixar de ser caminhado. Mas sobre isto, falaremos depois.
(continua) 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma Nova Ambição (II)

Urge alterar o programa do nosso futuro colectivo. As receitas que diariamente são sugeridas não correspondem aos grandes desafios que a História nos reserva. Como referi no artigo anterior, estamos a ser actores e testemunhas de um tempo único, eventualmente a vivermos a maior revolução depois da revolução industrial. Os profundos avanços e descobertas quer nos domínios da microbiologia e da bioquímica e, sobretudo, na área da engenharia de sistemas com rapidíssimas mutações no mundo da cibernética, têm provocado alterações radicais nas nossas formas de entender o mundo, as nossas relações com a Vida, com o nosso planeta, com os outros. A revolução informática alterou decisivamente as nossas coordenadas vitais: acelerou o tempo e encurtou o espaço. Durante séculos, muitos séculos (até ao sec. XIX) o tempo e o espaço tinham medidas subjectivas de interpretação do mundo marcadas  pela lentidão e pelo limite. Como sublinha Georges Duby, para o homem medieval, o tempo tinha a cadência dos sinais de oração emitidos pelo sino das igrejas e o espaço tinha como limite o seu horizonte visual. Este microcosmo fechado, imutável, lento marcou séculos de vida comum e, efectivamente, pesem os avanços decorrentes da multiplicação de viagens e de continentes, de caminhos marítimos e terrestres, só durante o séc. XIX, com a emergências das novas cidades, o incremento industrial que potenciou a máquina a vapor, o comboio e a via férrea, assim como a democratização do relógio, surgiram as mais decisivas rupturas nestas ideações essenciais para a interpretação do real. O tempo acelerou até á velocidade da hora e do minuto, o mundo começou a encurtar graças ás políticas de fomento no domínio dos transportes. Quem ler trechos de Eça de Queirós, quer no artigo o 'Francesismo' ou no In memoriam a Anthero de Quental, sob o título 'Um génio que era um Santo', perceberá como este grande prosador oitocentista captava estas alterações profundas quando descrevia a ânsia com que a academia coimbrã corria á estação do comboio á espera que chegassem as novas ideias que, ao tempo, traziam Hegel e Saint Simon, Proudhon e Comte, Littré e Hartmann, entre muitos.
Desde então, e apenas durante um século, não mais parou essa utopia transcendente, quase frenética, de aceleração do tempo e encurtamento do espaço. Em todos os domínios da actividade. Desde a produção industrial  (bem ilustrada no filme Os Tempos Modernos de Chaplin) até ás mais inusitadas formas de interagir com o quotidiano. O avião, o foguetão, a televisão, a panela de pressão, o micro-ondas, o 'fast-food', o novo urbanismo e as novas construções, o telemóvel, o ipad, a medicação, as técnicas médico-cirurgicas, os conceitos de saúde, de assistência, de educação têm vindo a ser formatados por forma a criar a ideia de que é possível controlar a Vida, segurá-la, vivê-la e assegurá-la, iludindo a omnipresença da Morte, negando-a, escondendo-a e, com esta estratégia, ignorando que é exactamente a consciência da finitude que forja as dimensões ética e moral onde assentam os pilares estruturantes da dignidade e da existência humana. O computador tornou-se no rei absoluto das nossas relações e memórias. Talvez não seja por acaso que o seu dispositivo de arquivamento se chama 'Memória ram' como se fosse o prolongamento da nossa própria memória ou, até, o seu substituto. A internet precipitou tudo. Deixou de haver espaço e tempo. Tudo se resume ao instante do 'enter' e ao sítio que queremos visitar. Esta realidade tão objectiva, tão dentro de nós e da nossa casa, dissimula o efeito perverso que este optimismo existencial encerra: é que na verdade tudo se resume a uma imagem, ou a uma sucessão de imagens, á construção de narrativas assentes em algoritmos que têm o seu eixo fundador num simples binário que fabrica representações simbólicas sobre a racionalidade, num quadro logicista, que não reproduz a dimensão afectiva ligada ao Viver e ao Morrer. Um computador pode representar o amor de milhares de formas mas jamais poderá amar. Jamais poderá rir ou chorar. É o nosso substituto omnipresente e a metáfora maior sobre as actuais narrativas políticas, económicas e sociais. Radicalmente lógicas, exacerbadamente racionalistas, efusivamente eruditas no planeamento e na estratégia, mas que não passam de uma imagem virtual sobre o mundo dos objectos, dos projetos, dos sonhos, dos desejos, da ternura, da amizade, do amor e, também, do ódio,da ira e de todas as pulsões que nos determinam enquanto seres humanos e cidadãos. Como sublinha Edgar Morin, somos muito mais entropia do que lei, somos muitos mais contradição do que norma. Somos muito mais, como escrevia António Botto, 'arquitectos do sonho e da ilusão', expectantes e actores que idealizam projectos e futuros, que geram filhos e os amam, crendo que o futuro vai para além do nosso próprio fim e que, por vias diferentes, procura antropologicamente a mesma coisa para os filhos: que possam ser felizes até ao dia e hora decisivo que desconhecemos mas que todos temos de viver. E de morrer. 
Perante esta constatação, percebendo por outro lado que os velhos paradigmas resultantes da revolução industrial, e das suas múltiplas consequências, estão a chegar ao fim, com restrições no consumo, com as alterações dos mitos do prazer e da riqueza, com o transtorno social resultante dos desastres económicos, pela incapacidade do discurso político para reactualizar o seu objecto novo e mais complexo, é necessária uma Nova Ambição que olhe sem preconceito e, sobretudo, sem medo o mundo que irrompe nesta nova Idade que surge perante os nossos olhos. Um Nova Ambição que é, antes do mais, um Novo Desafio ás nossas condutas e expectativas face á rápida pauperização, envelhecimento, ausência de caminhos em que mergulha o nosso país e o espaço europeu. Não deixa de ser paradoxal que no momento da maior explosão revolucionária dos últimos séculos, o espaço e o tempo em que vivemos seja caracterizado pela degradação e pela decadência. Pela reprodução de uma sociedade de velhos, pela multiplicação de lares e diminuição de escolas, pelo fecho de maternidades e alargamento de cemitérios. Não deixa de ser paradoxal que mesmo dentro do nosso país, existam vários países. Aquele em desmoronamento, em ruínas, quase desértico, que com raras excepções se transformou o Portugal rural, do interior, cheio de resquícios do país tardiamente medieval tão bem retratado por Vitorino Magalhães Godinho e o país litoral, metropolitano, competitivo, mas sem meta, transtornado e dilacerado pelas múltiplas crises que se cruzam no interior desta revolução, com faíscas de relâmpagos no meio de uma imensa trovoada.
Uma Nova Ambição que rompa com narrativas cansadas, cultivadoras do lugar comum, assente no impropério, no rodriguinho verbal e que tenha nesse casamento fundador da nossa existência, entre a razão e o afecto, o motor maior da construção de uma nova comunidade, de novos espaços e de novos tempos. Uma Nova Ambição que recupere a participação e a exaltação da cidadania culta , armada de novos saberes, retomada pela inquietação do conhecer, apostando na criatividade, na inteligência, na produção de afectos ( e de alegria) como forma sustentada de construir. Uma Nova Ambição liberta do espartilho egoísta, assente nos valores fundadores da prática democrática e na cultura democrática onde a procura da Igualdade excita e tolera a diferença; onde ser diferente não inibe o sentido de Fraternidade; onde colectivamente criadores, e libertos da sobranceria e da intolerância, poderemos sonhar, sonhos de carne e osso, com pernas e coração, que nos empurram para o ideário da Liberdade. Este mundo novo que se abre com esta nova idade necessita desta nova ambição. Que reconhece a impossibilidade de segurar o tempo. Que reconhece a impossibilidade de apreender todo o espaço globalizado em que vivemos. mas que os consegue interpretar á luz dos novos instrumentos de avaliação, inscritos numa memória de cidadania activa, que não desiste nem recusa a dimensão humanista da acção política, económica e social. 
(continua)