terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sá Carneiro - Aquela Noite


Eu estive lá nessa noite. O meu chefe estava de Piquete e nós tínhamos regressado de Cascais onde apresentáramos ao juiz de instrução um ladrão que fizeram vários assaltos na zona. Levámo-lo para a zona prisional e fomos ao Piquete dar contas do nosso serviço ao nosso chefe de Brigada. Ainda não deviam ser 20 horas. Convidámo-lo para um copo e ele respondeu-nos que não dava. Estava de serviço e com poucos homens já que era hora de jantar. Foi então que tocou o telefone preto. A bateria de telefones do Piquete era cinzenta. Menos aquele, linha directa aos serviços de urgência da PSP e da GNR. Quando tocava, era sinal de sarilho. Quando desligou percebemos que estava desconfiado. A notícia que chegava era grande demais para ser logo tomada a sério. Informava a Polícia do aeroporto que um avião caíra e que altas individualidades iam a bordo. Não dizia quem. Fosse como fosse, mandou avançar a tropa. Estava com o meu colega na rotunda do relógio quando pelos rádios das viaturas a central informava que se tratava do primeiro ministro e muito possivelmente do ministro da defesa. Sá Carneiro e Amaro da Costa, Naquele momento liguei o rádio normal e procurei notícias. O país ainda não sabia da tragédia. Recordo-me que as transmissões entre viaturas se calaram. O choque era grande demais e aquele silêncio era seguramente o tempo de todos os investigadores que se dirigiam para Camarate digerir uma notícia que lhes parecia impossível.
Chegámos ao mesmo tempo dos bombeiros que procuravam dominar as chamas do avião e encontrando gente desvairada com o susto, pois foram apanhadas de surpresa enquanto jantavam. Tornou-se uma das noites mais estranhas da minha vida. Nunca vira polícias a trabalhar de lágrimas nos olhos, nem bombeiros que soluçavam de mágoa e dor. Entretanto, chegavam as brigadas de minas e armadilhas, os peritos da aeronáutica civil, os homens dos homicídios e uma multidão que, entretanto, ao saber oficialmente da notícia correu ao local. Era tempo de eleições para as presidenciais. Tempo de emoções exacerbadas. Soares Carneiro contra Ramalho Eanes. Recordo-me de Eanes, prostrado, em choque, com a grandeza que se lhe reconhece, ali humilde e magoado com o desastre. De Eurico de Melo que não segurava as lágrimas. De muita gente da política e da vida pública que não queria acreditar na tragédia. Do Director Geral da PJ, do dr. Sombreireiro que ali mesmo fez a primeira autópsia dos cadáveres. Passava das três da manhã quando foram levados para o Instituo de Medicina Legal. As equipas técnicas ficaram no terreno e eu, que não me deitara na noite anterior perseguindo o ladrão de Cascais, não tinha tarefa e recolhi a casa exausto. Queria dormir e não conseguia. O choque vencia o cansaço acumulado e embora entre os polícias não houvesse grandes paixões partidárias, devido á própria função que inibia essas opções, partilhava a consciência quase unânime de que acabara de morrer um homem raro da política.Daqueles que servem em vez de se servir. Que se dedicam á causa pública sem condições. Que pelo seu país seriam capazes de viver. E de morrer.Um exemplo de cidadania que marcaria muita gente que ao longo de gerações se dedicou á vida pública. Nesta efémeride, vale a pena recordar esses valores essenciais desse homem valente, dedicado, apaixonado pelo seu povo. E hoje, tal como nessa noite, curvo-me respeitoso e rezo a S. Francisco por ele, por todos que com ele morreram e para que o seu exemplo ilustra e de dignidade cívica e política continue a ser herança de muitos. Para mim continua a ser com toda a certeza.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Evocação de um HOMEM - Vitor Gaspar


Vitor Gaspar era matemático. Professor. Quando o conheci, há nove,dez anos, era Presidente da Junta da Ribeira de Santarém, sendo um cidadão independente eleito pela CDU. Há um ano, faz precisamente hoje um ano, um enfarte fulminante arrebatou-o do mundo dos vivos.Tinha 44 anos e fui dolorosa testemunha dos seus últimos momentos de vida. Quando morreu, era vereador da Câmara de Santarém. Continuava a ser um vereador independente mas eleito nas listas do PSD. Tal como eu. A meu convite. Porque reconhecia nele a grandeza de autarca que não se encontra com facilidade por esse mundo do poder local. Um homem único, meu vizinho, que conheci antes das lides políticas, e que secundarizando as opções ideológicas, nos unia um profundo amor pelo conhecimento e pelo serviço público. Tornámo-nos amigos. Daqueles amigos com quem se partilham sonhos, obras, esperanças, derrotas, vitórias. Que nos respeitávamos nas diferenças e não temíamos a discussão frontal das nossas opções de vida. Ficarão gravadas na minha memória até ao último dia da minha existência as nossas infindáveis discussões sobre o seu infinito matemático e o meu infinito existencial, assim como o prazer pela música que partilhávamos, pelas viagens cúmplices pela vida, discutindo projectos e construindo outros. Já era chefe de divisão na autarquia de Santarém, a meu convite, quando organizou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Um exemplo de entrega, serviço público, paixão á causa do povo que servia e do País. Passámos noites de insónia e de trabalho. Trabalhador incansável (uma ou outra das suas falsas viúvas que o choram em espectáculo, nunca aprenderam esse valor sagrado do trabalho que era o deus maior do Vitor, e ficaram-se na preguiça gemendo saudades mas ignorando exemplos), fraterno, íntegro, é um vazio imenso dentro de mim e na minha vida. 
Passado um ano evoco-o como o Amigo que nunca parte. Evoco esta memória de exemplaridade cívica, de serviço público, de dedicação ás suas gentes, de grandeza interior que os mais pequeninos que usam o poder em proveito próprio, por certo, hoje o lembram á força para dele se apropriarem após a sua morte. Por mais homenagens que lhe sejam feitas, não é recordando a sua morte que se exalta este HOMEM. É evocando a sua vida íntegra, solidária, vertical, valente e apaixonado pelo seu povo. O Homem que desprezava a pequenez e a mediocridade, que exaltava e não traía os valores da amizade, da solidariedade e da boa educação. Creio que muitos daqueles que o evocam não conhecem nada disto, não sabem o que é ser amigo, solidário e, até, bem educado. A fantochada do poder pelo poder, da ambição disfarçada de sorrisos ambíguos, as lágrimas do espectáculo que não chegam do coração, nada disto substitui a memória simples deste homem simples, fraterno e digno, que tive orgulho em conhecer, a felicidade de com ele ter trabalhado e  a alegria infinita de habitar o canto mais terno da minha memória onde guardo todos aqueles que sendo belos, bons e grandes, dedicaram a sua vida até ao limite aos outros, para bem de muitos e para memória exemplar de vindouros. Até sempre, Vitor!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O Poder e a Fraqueza

Deter o Poder, seja porque foi eleito, seja porque lhe foi delegado, não é condição de força, nem de autoridade. A força e a autoridade assentam na razão, nas convicções humanistas que servem que serve a causa pública. A força imposta e autoritária nunca é fonte de saber e de decisão. Nem de acção política com grandeza. É o maior sinal de fraqueza, o sinal do medo, a incompetência para servir. É servir-se. Servir os projectos pessoais e colocá-los ao serviço de ódios pessoais, de ambições pessoais, de retaliações pessoais. É o Poder ao serviço do egoísmo.Do exercício despótico do poder pessoal. É o verdadeiro lixo político que domina grande parte da vida pública do país. Que enoja pela desumanidade, que causa repulsa pela desumanidade, que provoca vómito pela mediocridade absoluta. Nenhum líder que jura servir pode transformar esse poder que lhe foi conferido para a discricionariedade, para o uso abusivo da arbitrariedade, para violar direitos de cidadania. Sobretudo quando se trata daqueles que servem a mesma causa comum que é o serviço á comunidade. Quando a política chega a este patamar de enxúndia, gordurosa e mediocre ilustra, não a política, mas a fraqueza de quem a usa para esconder a sua propria mediocridade. Dou um exemplo. Ontem dois quadros superiores foram despedidos. Não se lhe explicou porque o foram. Não se lhes uma explicação. Não se lhes deu tempo para reorganizarem as suas vidas. Gente com prestígio curricular e trabalho sério e honrado. Tratados como se fossem cães vadios. Decisão tão arbitraria quanto cruel. Que não fala sobre os despedidos. Diz tudo sobre quem brutalmente o decidiu sem olhar a condições de dignidade humana. É este o caminho de quem usa o Poder para o arbítrio e para a pesporrência. Os medíocres adoram estar rodeados de medíocres. Temem os homens superiores e com qualidade. E isto faz a grande diferença entre servir a Política com nobreza e alteridade ou torná-la no covil da maior miséria moral.Que Deus lhes perdoe a bestialidade.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

UMA NOVA AMBIÇÃO (III)

As grande rupturas culturais e civilizacionais (as verdadeiras revoluções no sentido de transformação profunda e radical) não se produzem com um estalar de dedos, nem com mais ou menos manifestações. Nem com mais ou menos reformas. Nem com mais ou menos austeridade. Tudo isto são expressões materiais e políticas de gestão problemas que afloram e necessitam de pensos e remédios, válvulas de escape e catarse colectiva, para reequilibrar formalmente os modelos em que se teima em acreditar. Aquilo a que hoje assistimos sob os mais intensos holofotes - acordos com a troyca, protestos, políticas orçamentais restritivas, indiferença ao desemprego, e por esta via ao valor do trabalho, ausência de investimento, e por esta via ao adiamento de adaptação aos novos tempos por parte dos empresários - fazem parte do mesmo puzzle de raciocínio e acção. Porém, deve dizer-se que são inegáveis os sinais de degradação e decadência em todas as áreas da produção de poder, seja ideológico, seja programático, seja nos domínios mais instrumentais como é o caso dos sindicatos, dos partidos, da associações de empresários, todos mais preocupados com o efémero (projectos para um, dois anos) do que estratégias de longo prazo. 
Veja-se como exemplo de degradação ideológica o Partido Comunista. Do seu léxico formal, das grandes narrativas públicas, há muito que saíram expressões como 'classe operária', 'camponeses pobres', os 'soldados e marinheiros'. Hoje domina e determina a narrativa a palavra 'trabalhadores', conceito genérico e abrangente, ambíguo, sem categorias identificadas, cabendo aí tudo e todos. Parece um problema menor mas não o é. É substancial. Quem ler os textos marxistas e leninistas, assim como as teses dos Congressos comunistas, sabe que a crença na revolução proletária, assenta na liderança da classe operária (cuja vanguarda é o Partido) na luta de classes contra o capital e os detentores do poder que o suporta. É certo que esta convicção não se perdeu no discurso comunista. O derrube do regime é a finalidade última da sua acção política com a emergência de uma sociedade socialista como existiu nos países de Leste. Porém, a deriva semântica, esconde a falência da crença e a incompreensão de uma realidade, corrigida hábilmente pelo conceito de 'trabalhadores'. A ruína dos campos e a dissolução de um denso tecido de camponeses por um lado, as alterações profundas nos processos de trabalho do operariado 'contaminados' pela democratização das novas tecnologias que os diferenciou, perdendo-se o sentido de massas de mão de obra explorada, no sentido que se vê relatado nos livros de Dickens, surgindo grupos cada vez maiores de 'aristocratas' , com forte poder de compra, graças ao domínio de competência técnicas que os arrancam ao domínio das 'vítimas da fome' e dos 'famélicos' da Terra.
Dou este exemplo mas poderíamos continuar por aí com os outros partidos. A social democracia do PSD ou o socialismo do PS não resistem á confrontação com os seus pressupostos ideológicos tendo em conta os seus discursos dominantes.
Não creio que estes anacronismos tenham a ver com o tal populismo simplista, analfabeto e vulgar que resulta da desorientação popular face ás diferentes narrativas e remete a política e os políticos para a singularidade insultuosa de que 'eles são todos iguais'. Seria mais rigoroso gritar 'Eles estão todos desorientados'. Sobretudo perderam o sentido essencial da política que é gerir o direito sagrado á Esperança. Quer a Situação quer a Oposição não conseguem construir um objectivo que entregue a necessidade e fomente o direito de acreditar que o futuro não é apenas sofrimento. Não é por maldade. É porque o mundo que representam, e sobre o qual modelam os discursos, já não é aquele que, na verdade, está aí a exigir uma Nova Ambição.
A Escola
O ranking das escolas e os becos sem saídas dos estudantes, o brutal desemprego de professores, o excesso de produção de 'doutores', a modelagem de um sistema de ensino que vive da massificação (e ainda bem) mas que é indiferente ao rigor, á competitvidade, a indiferença curricular com os grandes acontecimentos históricos que mudam os nossos quotidianos, o desprezo pelos valores de identidade nacional e cidadania, o afastamento dos pais (por auto e por hetero-exclusão) do processo educativo, faz alastrar esta mancha enorme de mão de obra pouco qualificada, sem destino prevísivel, apta a integrar o imenso exército de desempregados, pouco qualificada para os desafios ausentes das expectativas políticas geradas mas omnipresentes na realidade que vai fazer frente a esses alunos.
Talvez nunca tanto como hoje se trabalhe na escola. Tenho uma filha de 14 anos e sei a carga de trabalho que a sufoca. Para garantir competências diferenciadas dez a doze horas da sua vida estão agarradas á actividade escolar. 
Na idade da formação das identidades individuais é tão importante estudar a matéria académica como brincar, entendendo-se o brincar como processo de socialização e de construção psico-afectiva do mundo social da criança. Nunca como hoje, é necessário repensar a ideia de tempo livre, que as conhecidas e rotineiras 'AEC's' e outras propostas mais ou menos idênticas não privilegiam. E, sobretudo, como prioridade das prioridades é urgente definir um programa, ou vários programas educativos, onde quem nos governa tem de saber o que quer das nossas crianças daqui por cinco, dez anos, vinte anos, oferecendo escolhas de decisão para futuros adequados, longe desta produção, a raiar o imbecil, de professores, doutores e engenheiros que mergulham no desemprego mais desesperado. 
Qualquer reforma no ensino tem que obrigatóriamente inscrever expectativas de futuro produtivo. Seja em qual for a área de trabalho. Ou seja, valorizando o trabalho em vez de titulaturas. Entregando ao trabalho privilégios que provoquem o prazer de estudar e de trabalhar. Exaltando e protegendo o valor do trabalho como o verdadeiro motor da competitividade, do crescimento, da produção da riqueza. Julgo mesmo que todas as actividades relacionadas com o trabalho e a valorização das empresas deveriam ser afastadas das algemas fiscais, pois aqui reside o único caminho por onde Portugal pode sair desta complexa crise: formar com rigor, educar com rigor, adaptar o ensino e a educação ás exigências das revoluções invisiveis, á exigência de conhecimento dos direitos de cidadania articulados com os direitos da Terra, orientando políticas fiscais para quem tenha necessidade de limitar estes direitos. Julgo mesmo que o consumismo é a doença maior deste descontrolo. A ideologia do excesso inútil. Intervir fiscalmente nos consumos, tornando as receitas do Estado uma fonte de exemplaridade cívica e de justiça é um caminho que não pode deixar de ser caminhado. Mas sobre isto, falaremos depois.
(continua) 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma Nova Ambição (II)

Urge alterar o programa do nosso futuro colectivo. As receitas que diariamente são sugeridas não correspondem aos grandes desafios que a História nos reserva. Como referi no artigo anterior, estamos a ser actores e testemunhas de um tempo único, eventualmente a vivermos a maior revolução depois da revolução industrial. Os profundos avanços e descobertas quer nos domínios da microbiologia e da bioquímica e, sobretudo, na área da engenharia de sistemas com rapidíssimas mutações no mundo da cibernética, têm provocado alterações radicais nas nossas formas de entender o mundo, as nossas relações com a Vida, com o nosso planeta, com os outros. A revolução informática alterou decisivamente as nossas coordenadas vitais: acelerou o tempo e encurtou o espaço. Durante séculos, muitos séculos (até ao sec. XIX) o tempo e o espaço tinham medidas subjectivas de interpretação do mundo marcadas  pela lentidão e pelo limite. Como sublinha Georges Duby, para o homem medieval, o tempo tinha a cadência dos sinais de oração emitidos pelo sino das igrejas e o espaço tinha como limite o seu horizonte visual. Este microcosmo fechado, imutável, lento marcou séculos de vida comum e, efectivamente, pesem os avanços decorrentes da multiplicação de viagens e de continentes, de caminhos marítimos e terrestres, só durante o séc. XIX, com a emergências das novas cidades, o incremento industrial que potenciou a máquina a vapor, o comboio e a via férrea, assim como a democratização do relógio, surgiram as mais decisivas rupturas nestas ideações essenciais para a interpretação do real. O tempo acelerou até á velocidade da hora e do minuto, o mundo começou a encurtar graças ás políticas de fomento no domínio dos transportes. Quem ler trechos de Eça de Queirós, quer no artigo o 'Francesismo' ou no In memoriam a Anthero de Quental, sob o título 'Um génio que era um Santo', perceberá como este grande prosador oitocentista captava estas alterações profundas quando descrevia a ânsia com que a academia coimbrã corria á estação do comboio á espera que chegassem as novas ideias que, ao tempo, traziam Hegel e Saint Simon, Proudhon e Comte, Littré e Hartmann, entre muitos.
Desde então, e apenas durante um século, não mais parou essa utopia transcendente, quase frenética, de aceleração do tempo e encurtamento do espaço. Em todos os domínios da actividade. Desde a produção industrial  (bem ilustrada no filme Os Tempos Modernos de Chaplin) até ás mais inusitadas formas de interagir com o quotidiano. O avião, o foguetão, a televisão, a panela de pressão, o micro-ondas, o 'fast-food', o novo urbanismo e as novas construções, o telemóvel, o ipad, a medicação, as técnicas médico-cirurgicas, os conceitos de saúde, de assistência, de educação têm vindo a ser formatados por forma a criar a ideia de que é possível controlar a Vida, segurá-la, vivê-la e assegurá-la, iludindo a omnipresença da Morte, negando-a, escondendo-a e, com esta estratégia, ignorando que é exactamente a consciência da finitude que forja as dimensões ética e moral onde assentam os pilares estruturantes da dignidade e da existência humana. O computador tornou-se no rei absoluto das nossas relações e memórias. Talvez não seja por acaso que o seu dispositivo de arquivamento se chama 'Memória ram' como se fosse o prolongamento da nossa própria memória ou, até, o seu substituto. A internet precipitou tudo. Deixou de haver espaço e tempo. Tudo se resume ao instante do 'enter' e ao sítio que queremos visitar. Esta realidade tão objectiva, tão dentro de nós e da nossa casa, dissimula o efeito perverso que este optimismo existencial encerra: é que na verdade tudo se resume a uma imagem, ou a uma sucessão de imagens, á construção de narrativas assentes em algoritmos que têm o seu eixo fundador num simples binário que fabrica representações simbólicas sobre a racionalidade, num quadro logicista, que não reproduz a dimensão afectiva ligada ao Viver e ao Morrer. Um computador pode representar o amor de milhares de formas mas jamais poderá amar. Jamais poderá rir ou chorar. É o nosso substituto omnipresente e a metáfora maior sobre as actuais narrativas políticas, económicas e sociais. Radicalmente lógicas, exacerbadamente racionalistas, efusivamente eruditas no planeamento e na estratégia, mas que não passam de uma imagem virtual sobre o mundo dos objectos, dos projetos, dos sonhos, dos desejos, da ternura, da amizade, do amor e, também, do ódio,da ira e de todas as pulsões que nos determinam enquanto seres humanos e cidadãos. Como sublinha Edgar Morin, somos muito mais entropia do que lei, somos muitos mais contradição do que norma. Somos muito mais, como escrevia António Botto, 'arquitectos do sonho e da ilusão', expectantes e actores que idealizam projectos e futuros, que geram filhos e os amam, crendo que o futuro vai para além do nosso próprio fim e que, por vias diferentes, procura antropologicamente a mesma coisa para os filhos: que possam ser felizes até ao dia e hora decisivo que desconhecemos mas que todos temos de viver. E de morrer. 
Perante esta constatação, percebendo por outro lado que os velhos paradigmas resultantes da revolução industrial, e das suas múltiplas consequências, estão a chegar ao fim, com restrições no consumo, com as alterações dos mitos do prazer e da riqueza, com o transtorno social resultante dos desastres económicos, pela incapacidade do discurso político para reactualizar o seu objecto novo e mais complexo, é necessária uma Nova Ambição que olhe sem preconceito e, sobretudo, sem medo o mundo que irrompe nesta nova Idade que surge perante os nossos olhos. Um Nova Ambição que é, antes do mais, um Novo Desafio ás nossas condutas e expectativas face á rápida pauperização, envelhecimento, ausência de caminhos em que mergulha o nosso país e o espaço europeu. Não deixa de ser paradoxal que no momento da maior explosão revolucionária dos últimos séculos, o espaço e o tempo em que vivemos seja caracterizado pela degradação e pela decadência. Pela reprodução de uma sociedade de velhos, pela multiplicação de lares e diminuição de escolas, pelo fecho de maternidades e alargamento de cemitérios. Não deixa de ser paradoxal que mesmo dentro do nosso país, existam vários países. Aquele em desmoronamento, em ruínas, quase desértico, que com raras excepções se transformou o Portugal rural, do interior, cheio de resquícios do país tardiamente medieval tão bem retratado por Vitorino Magalhães Godinho e o país litoral, metropolitano, competitivo, mas sem meta, transtornado e dilacerado pelas múltiplas crises que se cruzam no interior desta revolução, com faíscas de relâmpagos no meio de uma imensa trovoada.
Uma Nova Ambição que rompa com narrativas cansadas, cultivadoras do lugar comum, assente no impropério, no rodriguinho verbal e que tenha nesse casamento fundador da nossa existência, entre a razão e o afecto, o motor maior da construção de uma nova comunidade, de novos espaços e de novos tempos. Uma Nova Ambição que recupere a participação e a exaltação da cidadania culta , armada de novos saberes, retomada pela inquietação do conhecer, apostando na criatividade, na inteligência, na produção de afectos ( e de alegria) como forma sustentada de construir. Uma Nova Ambição liberta do espartilho egoísta, assente nos valores fundadores da prática democrática e na cultura democrática onde a procura da Igualdade excita e tolera a diferença; onde ser diferente não inibe o sentido de Fraternidade; onde colectivamente criadores, e libertos da sobranceria e da intolerância, poderemos sonhar, sonhos de carne e osso, com pernas e coração, que nos empurram para o ideário da Liberdade. Este mundo novo que se abre com esta nova idade necessita desta nova ambição. Que reconhece a impossibilidade de segurar o tempo. Que reconhece a impossibilidade de apreender todo o espaço globalizado em que vivemos. mas que os consegue interpretar á luz dos novos instrumentos de avaliação, inscritos numa memória de cidadania activa, que não desiste nem recusa a dimensão humanista da acção política, económica e social. 
(continua) 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Uma Nova Ambição (I)

Não me sai da cabeça as comemorações do 5 de Outubro. No seu conjunto são um terrível metáfora sobre o estado do país. A bandeira hasteada em submissão, as cerimónias cercadas por grades, as ditas esquerdas (nas quais o PC não se fez representar) enfiadas num anfiteatro repetindo os lugares comuns de sempre, o primeiro ministro ausente no estrangeiro, a indiferença popular, fez com que este dia, que devia ser de comemoração, se tornasse numa liturgia de finados, sem energia, cabisbaixa, não cumprindo a sua função legitimadora e congregadora de vontades. Foi um velório na Câmara Municipal com as carpideiras aos gritos revolucionários numa outra sala com gente desorientada que contesta o governo e a única proposta, mais sonora que a oposição devolveu, foi a promessa que o 5 de Outubro vai voltar a ser feriado. Para quê? Pergunto eu, depois deste fiasco colectivo? Para aumentar a amargura e o desespero? Para alimentar a política do lugar comum, das fórmulas académicas, teoricamente eruditas, mas tão desastradas que empurram as populações para a fome, para o desemprego e para a miséria sem que haja um único sinal de investimento na economia? Para quê? Para que a 'rua' comande os passos, sem direcção política, sem objectivos de construção, sem um único caminho de esperança, transformando-nos num imenso grito de protesto, condicionando uma ou outra política, mas sem um plano, um objectivo positivo para o país? 
Aquilo que o 5 de Outubro sintetizou de forma perfeita foi a exibição do poder republicano numa fase avançada de decadência, aviltante para a memória dos seus maiores heróis (políticos, poetas, escritores, obreiros de todas as artes) e de desesperança para quem aqui vive, trabalha, educa os filhos e ama a sua terra sem conseguir dar um sentido mais amplo ás suas expectativas existenciais.Esta decadência não traz mais futuro que não seja mais decadência. Não traz esperança, o motor essencial da confiança nos homens e na Vida. Não traz alegria, o perfume decisivo para que os projectos ganhem força. Não traz nem mais investimento, nem mais trabalho, molas essenciais para projectar o futuro. Não traz mais nada a não ser lamentos, protestos, sementeiras de ódio e desprezo, lugares de histerismos e erros, onde as ruas e as praças são cada vez menos de quem procura viver e transformam em grades, polícias, separadores redutores da nossa vida comum. 
Uns acreditam na troyka. Outros acreditam que é contra a troyka. Muitos acham que esta perda de soberania serve especuladores sem escrúpulos, arruína (ainda mais) o país, outros consideram que é este empobrecimento rápido e brutal que nos vai mostrar as portas de Jerusalém Celeste.No fundo, a lógica dos prós e dos contra é a mesma. Tão idênticos nos apoios e nos protestos, no que respeita ao futuro, que nos leva a recordar Guerra Junqueiro, tão vazios, tão ocos, tão sem ideias, tão iguais com as duas metades do mesmo zero.
O que este 5 de Outubro revelou é que estamos num beco. A alternativa á miséria, é mais miséria. A alternativa para a desconfiança, é mais desconfiança. A pescadinha não solta o rabo da boca e este ciclo infernal não tem fim, ou pior, pode ter o mais desgraçado dos fins, diminuindo Portugal, humilhando-o, deixando-nos presos aos mais trágicos dos desesperos.
Ao longo da minha vida, passei por vários lugares do mundo e do trabalho. Os últimos sete anos, tinha 52 quando me iniciei nas actividades políticamente activas, à frente de uma autarquia à altura degradada e sem auto-estima, permitiu-me perceber muitos dos erros que se replicam no todo nacional, que ferem de morte a política central, que inibem novos olhares, novas abordagens, o medo a novos desafios, fora da lógica que durante décadas se foi instalando e fazendo com que o poder mirrasse, por excesso de atavismo, que se tornasse numa máquina que de tanto procurar, e se confortar, na crença da racionalidade produziu a decadência política e moral em que hoje nos debatemos. Somos herdeiros de uma pesada e terrível herança neste domínio. Estamos habitados pela ideia de uma sociedade dividida em Blocos. Uma ideia antiga, surgida nos Estados Gerais durante a Revolução Francesa, mas que a filosofia positivista, nas suas mais variadas projecções no mundo da política, no mundo social e no mundo académico, radicalizou e tornou definitivas. Ou pelo menos, dominantes e determinantes até aos dias de hoje. Esse pensar velho e modelado ignorou as profundas transformações que ao longo do séc. XX, e agora no início deste século, modificaram por completo as formas de pensar, de agir, de entender o mundo, a necessidade de o reorganizar face a alterações estruturais que  não são compatíveis, que se escapam, aos instituintes de controlo social, económico e político que as tradicionais formas de apropriação do poder reclamaram como suas.
As revoluções invísiveis, de longa duração, imperceptíveis, mas que se introduzem rápidamente nos hábitos, quotidianos, conhecimentos e saberes provocaram uma ruína quase irresolúvel nos discursos retóricos, racionalizados, organizados, carregados de falsas expectativas porque na verdade falam e narram o irreal e não a realidade. É esse discurso sobre as aparências que não compreende o país (dantes ouvia-se o jargão do 'país real') que está a viver, assim como o resto do mundo, profundas transformações no que respeita á cibernética, ao ambiente, a revaloração dos direitos civis, á exigência de direitos que o próprio planeta reclama. Passou-lhes ao lado, merecendo uma atenção meramente colateral, novos processos de afirmação como os direitos das mulheres, os direitos das crianças, a rápida transformação das mentalidades dos mais jovens que nasceram com a internet na sua genética, a aceleração do tempo e o encurtamento do espaço, enquanto coordenadas fundamentais da nossa memória e vida, ignoraram as alterações nas estruturas de produção, nas estruturas do saber e do conhecer e, agora, atónitos perante um mundo desconhecido, teimam nas fórmulas clássicas, ignorantes, atávicos, já incapazes de entender um país que exige novos desafios e, acima de tudo, exige uma nova ambição.
 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

São três da manhã e o sono não chega. Á solidão tranquila do meu quarto chega o trinado dos rouxinois que, suspeito, solidários com a melancolia que me perturba o sono e me impõe a insónia e me fazem pressentir Florbela Espanca neste Alentejo orvalhado, e já friorento, que entra pelas frinchas das janelas.Dou comigo a recordar a República, e ela toda romântica nos olhos do meu avô António.Soldado brioso da Rotunda que afrontava as tropas de Paiva Couceiro e recitava esse dia como o mais completo e total da sua vida, depois de caminho andado, com os netos em volta, recriando a história desse parto, a menina dos seus olhos, pela qual lutara e se dispusera á morte sem ao menos ter disparado uma bala. Meu querido Avô António, esse teu olhar menino, mesmo quando já as rugas te acentuavam as expressões do próprio riso, que me entregaste com essas histórias de encantar a certeza, igual á tua paixão, de que naquele tempo, pardal de calção e sapatos rasgados dos desafios de futebol, a República era seguramente o primeiro lugar onde os homens habitam já muito perto do Céu bem perto do abraço fraterno a Grande Arquitecto construtor de Universos, de Vidas e de Sonhos. Foi necessário passarem muitos anos, desde essas noites de contas, noites iguais a esta, em que nos sentávamos à tua volta, ao porta de casa, ao fresco da noite escutando-te enquanto olhávamos as estrelas decifrando na escuridão os caminhos que a Republica nos abria entre o manto luminoso da Estrada de Santiago.
Enamorei-me aí. Servir a República, servir a tua história tão generosa e pueril, comandada pelo heróico Machado dos Santos, pejada de carbonários barbudos armados e barbudos, de marinheiros e soldados, também eles barbudos, de maçons, igualmente barbudos, tornou-se na obsessão de uma vida.Os teus contos rasgaram os sulco por onde caminhei, sonhando dar a vida por ela, que pelos amores ninguém mata, mas por amor não nos importamos de morrer..
Há muitos anos que não sei de ti, Avô. Partiste naquele inverno friorento, já lá vão 39 anos, e durante estes 39 anos, não se passou um único deles, que nesta noite não tivesse celebrado a tua aventura estranha, indo espreitar as estrelas do céu, talvez á espera de te reencontrar, sorriso menino num olhar de velho, que amava a sua República (que tenho admitir não saberes explicar bem o que era isso mas que desculpava porque era tempo de Ditadura e Salazar odiava a República do povo) como se embala nos braços o filho que acaba de nascer.
Esta noite as lembranças, a tua lembrança ingénua, chega-me parda e inquieta. Nem o murmúrio dos rouxinóis apazigua esta inquietação. E não festejo. Prefiro o silêncio ao turbilhão de alvíssaras, pois quando estamos magoados, não apetece escutar nem foguetes nem raivas ensandecidas pelo desespero. E continuo a amar-te como no primeiro dia em que vi, imaginada nas palavras do meu doce e saudoso Avô António. Tinhas o queixo alto e o busto exuberante, sensual, era mais forte que a coroa de louros que te iluminava o rosto. Minha eterna heroína. Meu definitivo desejo e amor acima de todos os amores fugazes. Mãe dos meus filhos e dos teus filhos. Promessa de fartura e paz, de liberdade e justiça, de fraternidade a rodos, e fartura pelas ruas e pelas casas de toda a gente. E esta noite, que se tornou numa noite tensa e magoada, não me liberto do fardo de saber que há mesma hora, por esse país imenso de generosidade, mirram alegrias e sustentos, mirram sonhos, Avô, o melhor alimento que recebi dos teus contos. Jurei servi-la, servindo-lhe a Vida.E sempre julguei que quanto mais a servisse, melhor seria a sua dádiva. Porque ao contrário de ti, tornei-me franciscano e crente absoluto de uma prática de vida que acredita piamente que é dando, que se recebe, que é amando, que se é amado, que é procurando compreender que se é compreendido. E hoje, 112 anos depois, escuto o silêncio da noite, e os doces rouxinóis que vieram até perto da minha cama cantar a ternura, e tempo que os teus sonhos, os meus sonhos, os sonhos de muita gente que juraram a procura da Igualdade, da Fraternidade e da Liberdade estão desfeitos ou em pesadelos de pranto, amanhã despertos sem que a palavra Esperança lhe habite o coração. Por ela dei-me todo, sem nada esperar em troca que não fosse o beijo liberto com que, depois das histórias dessa noite, nos sussuravas: Está na hora de ir para a cama. E aqui estou a escrever-te, no dia dos 112 anos, duvidando do teu sorriso menino, dos encantamentos desses caminhos mágicos que ela prometia, alegre e viva. Murchou. Transformou o amor em ira. Deixou que os homens, mesmo aqueles que regularmente juram fidelidade á Liberdade, á Igualdade e á Fraternidade vomitar obscenidades que, eu sei, ó se sei, que falam de medos e esquecem desiludidos a coragem de resistir.
Daqui a pouco vai amanhecer. Vão cumprir-se o ritos evocativos, com discursos e hino. Mas,apesar de tudo, desta mágoa tão grande, neste mar de gente em desespero, deste mar de sofrimento por onde navegamos, da minha própria mágoa e insónia, eu quero dizer-te Avô. E dizer ao Avô Francisco que por certo andará contigo  pelos céus, querendo saber dos netos, que acredito nos teus contos meninos. E que apesar destes dias ruins, de tempestade sem norte, eu vou esperar por ela. E por ela lutarei com a coragem que os dois me ensinaram. Agora que cada vez me aproximo mais do sítio de onde me olham, não sou capaz de mudar e sei que algures, por momentos adormecida, por momentos irada, está essa paixão, esse amor maior do que a própria Vida, que fala de memória e afectos, e continuarei resistindo. Servindo-a. Por ela resistindo e amando e entregando cada acto, todos os actos, desta já vivida existência que sempre trouxe no bojo, esta paixão nunca tardia de almas gémeas, e bem sei que só com essa paixão desprendida que tudo perdoa e das cinzas se refaz, como a Fénix, em possível pegar em cada pedra bruta e a golpes de vontade torná-la polida e bela, exactamente como são os sonhos.  Os rouxinóis calaram-se e escuto ao longe um dos meus rafeiros que ladra á lua. Talvez saúde a República. Eu planeio o dia em que lhe arrancaremos os farrapos andrajosos de tanta miséria e lhe daremos camisa de linho, alva e perfumada, que não lhe esconda o busto generoso, mas que lhe entregue o sorriso menino com que nos ensinaste a amar. A amar a nossa Republica!