Meu caro Edward:
Desde aquele fatídico 11 de Setembro, nunca deixámos neste dia, de trocarmos palavras de conforto pelas tuas profundas mágoas, pelas minha mágoas dolorosamente repartidas contigo e com os nossos companheiros nesse imenso funeral em que acabámos por nos encontrar. Embora sabendo a verdade, a verdade mais terrível que se podia conhecer por esses dias em Nova Iorque, foste o exemplo de um homem inteiro, polícia de mão cheia e amante extremoso, sem tempo para procurares a Dolores, essa magnífica mulher, bem disposta, bem humorada, que inventava a tal paella que parecia cozinhada nos céus.
Este ano estou mais pobre. Já não vou ouvir a tua voz pois que sem pedir autorização a ninguém, partiste bruscamente, cheio de saudades da tua Dolores. Escrevo aqui. Sei que estão juntos os dois, aí no canto mais doce de alguma estrela, saboreando o resto do vosso amor amputado naquele dia. E escrevo, como sempre, para te dar o abraço do costume, em memória da tua Dolores, da minha amiga Dolores, que tão bruscamente desapareceu no inferno das Torres que se desmoronavam subjugadas ao poder do ódio.
Sabes, Edward, esses dias mudaram-me. Embora já tivessem passado duas semanas quando cheguei perto de ti, na Divisão da Metropolitan na Broadway, e tendo sabido pelo Mckinley do FBI da tragédia em que se transformara a tua vida pessoal, foi com um aperto no coração que entrei naquela tua/nossa casa e percebi que ela era o rosto do rescaldo da tragédia. Por tantos polícias que morreram, por tanta fotografia colada nas paredes, e nas paredes das ruas, de gente desaparecida no holocausto, e os rostos dos vivos. Cinzentos de dor, quase sonâmbulos, de fotografias dos seus entes queridos ao peito, e perguntando, perguntando a todos, uns aos outros, talvez à restea de Deus que procuravam e lhes disse que os seus estavam vivos e nós sabíamos que não estavam.
Mal tivémos tempo para um abraço e, Santo Deus!, tu conseguias dirigir a tua unidade, procurar informações de Dolores, dar informações a toda a multidão que procurava os seus. Conseguias ser marido e capitão ao mesmo tempo. Vencendo a tua dor, ajudando a vencer a dor dos outros, no meio daquele pranto feito de silêncios e de murmúrios de orações em todas as línguas, das suplicas e medos de todas as cores, que cruzavam Manhatan prenhes de desespero. Milhares de zombies destruídos pela dor, milhões de fotografias que se repetiam doentiamente pelas paredes, pelo chão, do amontoado de velas, bandeirinhas, e mais fotografias nos jardins da City Hall, e das preces, e do medo, e na incompreensão perante a tragédia que desabara sobre uma das mais belas cidades do mundo. Fizémos o que pudémos para criar a ilusão de que te ajudávamos. O Mckinley sacou duas fotografias da Dolores que tinha em cima da tua secretária e fomos por ali abaixo. Sabíamos que nem tu acreditavas nos nossos esforços, polícia experimentado, com os olhos rasos de tantos mortos, sabias que Dolores não voltaria a cozinhar nem a cantar o Cielito Lindo.E juro por Deus que nunca vi tanta dor que se acotovelava, que silenciosa ou em cânticos ou orações conjuntas esperava que dos céus descesse o milagre que as centenas de bombeiros não conseguiam recolher da imens amontanha de destroços. Vi bombeiros a trabalhar e a chorar os seus companheiros mortos. E putos á perguntar pelos pais. E pais a perguntar pelos putos. E a angústia profunda de ouvir tantos nomes sem uma única resposta que não fosse um silêncio fechado, um menear de cabeça e o regresso ao horror das ruínas.
Já to dissera e digo-te agora mais uma vez: encolhi-me em oração junto a um imenso grupo que rezava liderado por um padre catolico. Foi por acaso. Foi ali que as pernas e o nó na garganta me tolheram o pensar, confrontado com a omnipresença da morte, da dor e do desespero de uma população que não se rendia. Hoje, onze anos depois, tenho saudades tuas. Não desse dia de tragédia, mas dos outros dias, de outros anos, em que nos divertimos. A última vez foi no Carnegie Hall. Eu passei a tarde na candonga para comprar bilhetes para irmos ver os Requiem de Mozart e de Fauré. E agora também partiste. E desde esse dia de tanta mágoa o mundo mudou. Mudou tudo, em todo o lado, menos a angustia que aí nasceu porque todos sabíamos que depois dessa vitória da Morte contra tantos milhares de infelizes, os homens do mundo inteiro estavam zangados.
Mas não te quero falar de zangas e de coisas feias. Este ano, em que já não posso ouvir a tua voz, espero que vejas esta carta no teu céu, onde por certo habitarás no meio dos justos, porque eras um homem bom e justo. Apesar de irlandês, como brincava a tua mulher.
Esta noite acendi uma vela a S. Francisco. O nosso Irmão maior que nos ensinou que só no encontro com a morte encontraremos a vida eterna. E vai brilhar na varanda da minha casa toda a noite. Para vos assinalar o sítio onde vos choro com saudades e vos saúde pelo que de bom aprendemos a amar da Vida. E sendo uma vela nostálgica, incorpora a chama da Vida, porque o terrorismo e a morte não venceram. Fomos mais fortes. Vocês foram mais fortes. Nestas horas de amargura em que o meu país, acendo-a também por ele para que,tal como vocês, encontremos o caminho da esperança que nos leve á redenção por tanto sofrimento de tanta gente que sofre.
Até um dia, Edward. Dá um beijinho á Dolores por mim. E quando regressar a Nova Iorque, agora que sou abstémio, fica prometido que regresso á nossa cervejaria na Broadway e vou beber um valente caneco á Amizade. A este força transcendente que a morte jamais apagará.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
A Miséria Moral da Política e o Populismo primário
Ouvi a comunicação do primeiro ministro ao País e fiquei chocado. Não deve ter havido um único português que não tenha sentido esse murro nos estômago que foi cada uma das medidas que informou que iriam constar no próximo Orçamento. Depois do primeiro choque em que se percebe que a situação do país continua em dificuldade profunda, a pergunta que me assaltou foi esta: Não haverá outro caminho? As tais gorduras do Estado só atingem autarquias e a RTP? E as empresas públicas? sobretudo na área dos transportes completamente destruídas por greves e mais greves, domínios de um sindicalismo radical que procura viver acima de todas as possibilidades e prejudicando a vida de milhões de utentes? e os Institutos dos boys? e as célebres PPP's? e a falta de crédito para as empresas relançarem a economia? e a Fundações e a mama de subsídios? e a multidão de subsidiodependentes em todas as escalas do poder do Estado?
Bom, dei de barato quando já menos chocado, comecei a pensar e a acreditar que esta comunicação apenas era parte de outras medidas que vão ser inscritas no Orçamento e que, na feliz expressão de Marcelo Rebelo de Sousa, estas tratavam do mexilhão e com o OGE chegarão as outras que tratam de outros aspectos da restrição financeira.
Seja como for, a comunicação foi de tal modo violenta, que é natural que neste momento existam muitos milhões de portugueses a perguntar por outros caminhos. Com a pobreza instalada, com o desemprego em patamares trágicos, com a economia quase parada, julgo que um ano de Troyca e de sofrimento porão muita gente a perguntar se deve ser por aqui o caminho ou existe outro menos doloroso e que cumpra os acordos internacionais.
Procurei ouvir os outros partidos que estão fora da coligação. E são unânimes. Para o PCP isto é a continuação do pacto de agressão, chavão inventado com tanta demagogia e vacuidade que nem se percebem bem as motivações dos agressores. Pode ser um pacto de agressão internacional porque a Espanha, a Grécia e a Itália transpiram sangue como nós. Mas quem são os homens e as instituições que rubricaram esta pacto de agressão? A resposta é sempre a mesma: o grande capital.Oiço isto há anos. Portanto, nem vale a pena ouvir. Quando se trata de alternativas, o que diz o PCP? É preciso mudar de política e acabar com esta política de direita. Mas mudar para qual política? Bom, isso o PCP não diz. Fala genéricamente nos trabalhadores, um mundo difuso de interesses, sem uma concretização específica de medidas que impeçam a bancarrota.
O Bloco de Esquerda vai pelo mesmo caminho. Assegura que isto é um golpe de Estado económico. Contradiz-se. Se o problema é financeiro, a haver esse tal golpe de Estado seria financeiro mas fica-se por aqui. E lá voltamos aos trabalhadores, e á sua defesa intransigente, sem especificar medidas que não sejam pulverizar os acordos que saíram do compromisso.Acho que esta gente ou não tem consciência de que estamos em iminente colapso financeiro e económico, enquanto país, e que tudo faz para que esse colapso exista. É a política da terra queimada, da revolução pela revolução, e para tanto quanto pior, melhor.
O PS demarcou-se violentamente do anuncio de Passos Coelho. E fez bem.Ninguém que quer ser poder deixa vincular-se a medidas tão duras e tão penalizadoras. Mas falta o resto. Para além das declarações de denúncia, tão iguais ás do PCP ou do BE, quando chega a hora de mostrar o outro caminho, a resposta é: o PS não quer mais austeridade. Então o que quer? Que diga como faz. Que diga como cumpre os acordos que ele próprio assinou enquanto governo. Que diga que este PS nada tem a ver com o outro PS que durante anos e anos foi conduzindo o país para este beco de angústias. Porque a verdade é que Sócrates não é o pai desta crise de excessos. Começou bem mais cedo pela mão de outro governo socialista, o de António Guterres e com Sócrates apenas se revelou na sua faze mais crítica. Esta crise não tem raízes de agrião, leves e sem profundidade. Tem raízes de carvalho velho e de uma produção ideológica que durante dez/quinze anos nos conduziu aqui.
No fundo, no fundo, aquilo que esta esquerda, que não se entende entre si, que se odeiam, que se consideram inimigos uns dos outros, disputando o mesmo espaço político, apenas quis um pretexto que construiu sobre um mau texto. Para gritar, para inflamar legitimas indignações, para apelas ás emoções e ao insulto, para pôr de cabeça perdida quem já se sente perdido mas caminhos alternativos: nem um! Nem um!
Acredito mesmo que o pais está assim por causa desta miséria moral. Do protesto sem indicar caminhos sérios e concretos. Sem esmiuçar o que é isso da política de esquerda, de como reduz despesa, de como faz crescer a economia, de como combate o desemprego. Desde sexta feira que se gritam palavras de ordem e nem um pingo de ideias pensadas e organizadas que nos ajudem a escolher caminhos de futuro. Multiplicam-se as insurgências que se acomodam nas palavras chave do costume de um país debilitado no pensar: Gatunos, Vigaristas, Corruptos, coisa que alivia a frustração mas não resolve problemas domésticos nem familiares. E o caminho não existe. Caminho alternativo não se vê. O caminho que nos mostram é sempre o mesmo: Descer a avenida em manifestação até ao Rossio ou até a Assembleia da República. E se ouvirmos os comentadores (talvez com excepção de Medina Carreira ou de José Gomes Ferreira) o estribilho é sempre o mesmo. Não encontramos caminhos. Outros caminhos que nos façam sair deste buraco negro onde caímos e isto é bem mais doloroso do que a comunicação de Passos Coelho. Porque daria pretexto para mudarmos e democraticamente escolhermos outros. A inegável e desastrada verdade é que esta oposição é boa em chavões, em palavras de ordem, em insultos, em denúncias, em estimular os ânimos da malta justamente descontente mas sem rumo que não seja uma mão cheia de banalidades e de promessas vagas de um paraíso que sabemos que não existe.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Curei-me! Um tipo chamado Stress ia dando cabo de mim!
Aquilo que escrevo foi uma experiência e que traduzo num conselho. Claro que é conselho de 'saber de experiência feito' e perdoe-me algum médico que se meto foice em seara alheia. Mas há um tipo que anda por aí a revolver as entranhas de muita gente, umas vezes tão discreto que mal se sente, outras vezes tão ordinário e tão atrevido que nos põe de rastos. Chama-se Stress, tem ficha policial por homicídio, longo cadastro como agente provocador de doenças que nem nos passam pela cabeça que podem existir. O artista não se vê. Pezinhos de lã, silencioso que parece bem comportado mas é um ordinário em todas as dimensões. Até porque gosta de ser desprezado para atacar melhor. Eu, por exemplo, não ligava a essa coisa, doença de ricos e de gente que não quer trabalhar. Desprezava-o, dizia para comigo mesmo que jamais seria morada de tal bicho e, depois, foi aquilo que se viu.
O tipo é manhoso. Entra sem pedir licença e vai por aí fora e quando estamos distraídos ataca sem hipótese de defesa. Muitos dos enfartes que enviam pessoal em barda para os cemitérios são da sua autoria. Mas, agora que o médico me mandou em paz, que me libertou deste macaco, que me sinto com asas para voar e pernas para dar a volta ao mundo, que descobri outra vez o que é estar de boa saúde, quero partilhar com os meus amigos as astúcias deste tipo.
Quando começar a pensar que o trabalho é a única coisa que existe na sua vida, que se desinteressa de um filme (se gosta de cinema) de teatro (se gostar de teatro) ou de qualquer outra das suas afeições porque ainda tem mais isto para fazer, e mais aquilo, e não tem tempo, e passa dezasseis, dezoito horas agarrado ao trabalho, esquece fins de semana e festas de guarda; quando o sono não vem e vem o recurso ao comprimido para dormir cinco ou seis horas, quando a ansiedade lhe retira o apetite, o computador não responder o irrita, assim como qualquer barulho fora do comum, começa a sentir dores difusas no corpo ou, começam a insistir em determinado local do organismo, está contaminado pelo tipo. Não tem hipóteses. Está entalado e lixado se não puser os mecanismos de defesa a trabalhar. Ou é enfarte que se aproxima, ou hipertensão, ou a ulcerazinha da ordem, ou a colite ou
distúrbios do sono ou outra coisa qualquer. A mim calharam-me divertículos. Coisa que nem sabia que existia e, mesmo sem saber que existia, eles cá estavam. Dores permanente nos intestinos, muitas vezes agudas, internamentos hospitalares, comboios de antibióticos, uma persistência que nós não queremos acreditar que mata. E até mata. O Stress é um natural assassino de distraídos.
Hoje o médico mandou-me á vida. Não quer saber de mim. E o remédio para me safar do tipo até tão simples que, após mês e meio de cura, depois de quase um ano de sofrimento. Exercício físico! Não é tonto ser uma coisa tão simples? Uma hora por dia a caminhar, a nadar, a fazer qualquer coisa que ponha o corpo a mexer e não há bandido deste tipo que entre dentro de nós. Por razões agudas da moléstia vi-me obrigado a recolher. A ficar fechado, uma ou outra ida ao cinema, um ou outro romance lido, e enfiado em casa a escrever ou dormir, ou ver televisão e exercício físico e se as dores regressassem um buscopan para sossegar. Há quinze dias que o Buscopan repousa plácido e quietinho na minha prateleira de medicamentos. E durmo! Os comprimidos foram á vida. E tornou a alegria de partilhar as coisas boas que, até podem ser trabalho, mas deixaram de ser esforço para se tornarem em alegria e prazer. Dei conta do tipo e aconselho-o a livrar-se dele. Corra com esse Stress da sua vida. Ponha-lhe uns patins e mande-o dar uma curva. Levante-se e ponha ao caminho. Uma hora de marcha, uma hora de ginásio, uma hora de piscina, destine essa hora àquilo que entender e mais gostar e, acredite, estou a ajudá-lo a salvar-se de morte certa (que o animal é mesmo assassino) ou doença chata e mal humorada.
Hoje, voltei as costas ao Hospital, com esta paz no coração. Venci o tipo. E foi tão estúpido ter sido agarrado por esse maldito Stress que não consigo deixar de partilhar com todos aqueles que, como eu, passaram anos, vidas, noites e dias, nessa ansiedade maior que é pensar que temos a salvação do mundo nas mãos. Não temos. E a tal horinha só para nós, não agudiza a crise, não altera os destinos da humanidade, e dá-nos alento, força e alegria para vencermos esses desafios que estão aí para serem vencidos.
Dê cabo desse parasita. E não se iluda. Sem saúde nada faz sentido. Com saúde, tudo faz sentido. Até a capacidade de gostarmos um pouco de nós e e muito mais dos outros. Adeus, ó Stress. Vai à vida, pá!
domingo, 5 de agosto de 2012
PELA PAZ NO DIA DE HIROSHIMA
Faz hoje 57 anos que foi lançada a bomba atómica 'Little Boy' sobre a cidade de Hiroshima e os homens puderam assistir á dimensão grandiosa e brutal de um holocausto que, em minutos, arrasou uma cidade inteira.Um facto que marcou o princípio do fim da 2ª Guerra Mundial mas, também ás gerações futuras, nas quais hoje nos incluímos. O horror desse dia, a que se associou o horror das descobertas nos campos de concentração nazis, ficaram como um sinal que marcou o início da luta pela PAZ. Pela procura de horizontes de esperança onde a Liberdade se constrói na tolerância, no respeito pela diferença, na defesa dos direitos humanos. Aprendemos nesses dias de maior tragédia que, por mais que a vertigem do ódio possa abalar a inteligência e transformar os homens nos piores predadores da Terra, lutar pela Paz é lutar pela Vida. Recolho-me num silêncio de oração pela memória de todos aqueles que foram dizimados pela tragédia apocalíptica e reencontro no sacrifício de milhões de mortos inocentes, a força para lutar para que a nossa terra, a nossa gente possa construir o futuro com o direito á esperança. Por mais que doam os dias de crise que hoje vivemos, por mais que se soltem indignações e mágoas, a Paz criativa e exaltante, a Paz culta e libertadora, a Paz fraterna e crítica, será sempre fonte da Vida. Que os mortos descansem am Paz. Que a nossa vida se construa na PAZ.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Suspensão de Mandato e Politiquice
Vai fazer um ano que me foi diagnosticado um problema de divertículos e polipos intestinais. É daquelas doenças que não matam, se formos cautelosos, mas moem. Moem mesmo muito. Ao longo dos últimos nove meses tive três internamentos e períodos dificeis de convalescença. E tenho 59 anos.
Fui preparado numa escola - a PJ - que a doença não é coisa a que se ligue. Quando se trabalha e se vive numa brigada de assaltos á mão armada não há tempo para problemas de saúde. A não ser aqueles que ameaçam com a morte. Mas tenho 59 anos. Esse tempo já passou e a saúde precisa de cuidados que, confesso, não me habituei a ter, vivendo sempre no limite com toda a intensidade, sem olhar a horas nem a noite, nem a cansaços.Quem trabalhou comigo e me conhece , sabe que foi sempre assim. Ainda há poucos meses, saí do hospital directamente para uma Assembleia Municipal. Foi em Dezembro e não fui capaz de aguentar até ao fim. Saí desfalecido, semi-morto de cansaço e dores. Mas ainda assim, fui lá defender os projectos do executivo perante aquela velha retórica do simplismo que vê árvores mas mal lobriga a floresta.
Mas tenho 59 anos e a recuperação desta moléstia obriga a fugir do stress, ao recolhimento, á calma. Em dezembro percebi que não conseguia manter a pedalada que estava habituado desde os velhos tempos. Procurei abrandar e senti-me culpado por isso. Quem viveu 41 anos de serviço público com tanta intensidade não se reconhece quando desacelera. Embora tivesse entregue tudo a Santarém, incluindo este pedaço de saúde que me tem faltado, sentia-me mal. Pedi para me pagarem metade do ordenado. Eu jurei lealdade ás funções que me foram confiadas e sentia que essa lealdade passava por menor retribuição voluntária. Fosse mais cínico e teria continuado como se nada tivesse acontecido. Mas não chego a essa manjedoura da canalhice sem me repugnar. Na altura fui acusado das coisas mais disformes. Eu olho e vejo gente que não sabe o que é isso de viver no limite, longe do conforto, longe da preguiça, sem relógio, sem paixão pelo serviço público e percebo que para cabeças formatadas para essas regiões da modorra espiritual e intelectual seja incompreensível que alguém se voluntarie a perder metade do ordenado porque se sente mais frágil. Compreendo e desculpo. Não somos todos iguais e o império da fortuna manda mais do que qualquer bem espiritual, logo quem acredita noutros valores é importante que seja fustigado pela mediocridade. Aceitei esse castigo sem uma única palavra de protesto.
Mas tenho 59 anos e os médicos que me perseguem os passos, e fiquem a saber que a coisa mais chata do mundo é ter médicos a perseguir-nos os passos, dizem-me que ou abrando ou isto vai dar para o torto. E ameaçam que o torto pode ser muita coisa e nenhuma delas é boa. Abrando a velocidade durante uns tempos, a coisa recompõe-se, e há muita vida e muitos projectos para viver.
Foi neste contexto que chegou a minha reforma, que é menor que o ordenado de presidente da Câmara mas suficiente para viver com a frugalidade com que se habituou a viver um velho polícia, e o honroso convite para, daqui a 16 meses. Ou seja daqui a mais de um ano, concorrer á Câmara de Oeiras.
Pensei com os meus botões que tinha chegado a altura de respeitar as indicações dos chatos dos médicos. Foram sete anos intensamente vividos e a minha saúde já não é o ferro e o aço de outros tempos. Chegou tempo de parar que 59 anos não pesam muito mas pesam o suficiente para pensarmos que a vida ainda tem muito para nos dar e para nós darmos. Por outro lado, tenho um romance entre mãos que procuro terminar e uma série televisiva para escrever. Sossegado. No abrigo da minha casa sem o tal stress que, garantem os clínicos, é o inimigo maior dos meus queridos divertículos.E disto fui sempre dando conta pública. Não escondi que estava prestes a tomar esta decisão. Basta consultar este blogue.
Meti a suspensão do mandato e sei que hoje houve orgia na sessão de Câmara onde foi apresentado. Que isto é poeira para os olhos. Que isto é Oeiras (aquela rapaziada que quer ser opositora nem sabe quando são as eleições num calendário com mais de um ano de distância). Que isto é isto e mais aquilo e mais tantos disparates que auguro que se vão prolongar por uns dias. Mas tenho 59 anos no BI mas de vida vivida julgo ter chegado á idade de Moisés. Talvez nem tanto. Mas que ando pelos 159 anos não tenho muitas dúvidas. Por isso, que escute o ruído com compaixão e com a mesma frontalidade que investi nos meus actos. E a mesma verdade. Não preciso de desculpas de mau pagador para assumir vitórias, derrotas e decisões dificeis. Esta foi difícil mas tenho 59 anos, uma filha com catorze, três netos fabulosos, e quero, preciso de viver mais um bom punhado de anos para os ver crescerem e serem felizes. E grandiosos no pensar. Bem longe das balelas ridículas que tenho de escutar.
Devo dizer que hoje estou contente. O meu neto Henrique faz oito anos e dei um bom avanço no meu romance. Que Deus nos proteja e proteja Santarém do ser e do pensar pequenino, velha e terrível herança da qual presumo que se libertou, pese o ruído e a vulgaridade de alguns dos seus mais activos arautos.
Fui preparado numa escola - a PJ - que a doença não é coisa a que se ligue. Quando se trabalha e se vive numa brigada de assaltos á mão armada não há tempo para problemas de saúde. A não ser aqueles que ameaçam com a morte. Mas tenho 59 anos. Esse tempo já passou e a saúde precisa de cuidados que, confesso, não me habituei a ter, vivendo sempre no limite com toda a intensidade, sem olhar a horas nem a noite, nem a cansaços.Quem trabalhou comigo e me conhece , sabe que foi sempre assim. Ainda há poucos meses, saí do hospital directamente para uma Assembleia Municipal. Foi em Dezembro e não fui capaz de aguentar até ao fim. Saí desfalecido, semi-morto de cansaço e dores. Mas ainda assim, fui lá defender os projectos do executivo perante aquela velha retórica do simplismo que vê árvores mas mal lobriga a floresta.
Mas tenho 59 anos e a recuperação desta moléstia obriga a fugir do stress, ao recolhimento, á calma. Em dezembro percebi que não conseguia manter a pedalada que estava habituado desde os velhos tempos. Procurei abrandar e senti-me culpado por isso. Quem viveu 41 anos de serviço público com tanta intensidade não se reconhece quando desacelera. Embora tivesse entregue tudo a Santarém, incluindo este pedaço de saúde que me tem faltado, sentia-me mal. Pedi para me pagarem metade do ordenado. Eu jurei lealdade ás funções que me foram confiadas e sentia que essa lealdade passava por menor retribuição voluntária. Fosse mais cínico e teria continuado como se nada tivesse acontecido. Mas não chego a essa manjedoura da canalhice sem me repugnar. Na altura fui acusado das coisas mais disformes. Eu olho e vejo gente que não sabe o que é isso de viver no limite, longe do conforto, longe da preguiça, sem relógio, sem paixão pelo serviço público e percebo que para cabeças formatadas para essas regiões da modorra espiritual e intelectual seja incompreensível que alguém se voluntarie a perder metade do ordenado porque se sente mais frágil. Compreendo e desculpo. Não somos todos iguais e o império da fortuna manda mais do que qualquer bem espiritual, logo quem acredita noutros valores é importante que seja fustigado pela mediocridade. Aceitei esse castigo sem uma única palavra de protesto.
Mas tenho 59 anos e os médicos que me perseguem os passos, e fiquem a saber que a coisa mais chata do mundo é ter médicos a perseguir-nos os passos, dizem-me que ou abrando ou isto vai dar para o torto. E ameaçam que o torto pode ser muita coisa e nenhuma delas é boa. Abrando a velocidade durante uns tempos, a coisa recompõe-se, e há muita vida e muitos projectos para viver.
Foi neste contexto que chegou a minha reforma, que é menor que o ordenado de presidente da Câmara mas suficiente para viver com a frugalidade com que se habituou a viver um velho polícia, e o honroso convite para, daqui a 16 meses. Ou seja daqui a mais de um ano, concorrer á Câmara de Oeiras.
Pensei com os meus botões que tinha chegado a altura de respeitar as indicações dos chatos dos médicos. Foram sete anos intensamente vividos e a minha saúde já não é o ferro e o aço de outros tempos. Chegou tempo de parar que 59 anos não pesam muito mas pesam o suficiente para pensarmos que a vida ainda tem muito para nos dar e para nós darmos. Por outro lado, tenho um romance entre mãos que procuro terminar e uma série televisiva para escrever. Sossegado. No abrigo da minha casa sem o tal stress que, garantem os clínicos, é o inimigo maior dos meus queridos divertículos.E disto fui sempre dando conta pública. Não escondi que estava prestes a tomar esta decisão. Basta consultar este blogue.
Meti a suspensão do mandato e sei que hoje houve orgia na sessão de Câmara onde foi apresentado. Que isto é poeira para os olhos. Que isto é Oeiras (aquela rapaziada que quer ser opositora nem sabe quando são as eleições num calendário com mais de um ano de distância). Que isto é isto e mais aquilo e mais tantos disparates que auguro que se vão prolongar por uns dias. Mas tenho 59 anos no BI mas de vida vivida julgo ter chegado á idade de Moisés. Talvez nem tanto. Mas que ando pelos 159 anos não tenho muitas dúvidas. Por isso, que escute o ruído com compaixão e com a mesma frontalidade que investi nos meus actos. E a mesma verdade. Não preciso de desculpas de mau pagador para assumir vitórias, derrotas e decisões dificeis. Esta foi difícil mas tenho 59 anos, uma filha com catorze, três netos fabulosos, e quero, preciso de viver mais um bom punhado de anos para os ver crescerem e serem felizes. E grandiosos no pensar. Bem longe das balelas ridículas que tenho de escutar.
Devo dizer que hoje estou contente. O meu neto Henrique faz oito anos e dei um bom avanço no meu romance. Que Deus nos proteja e proteja Santarém do ser e do pensar pequenino, velha e terrível herança da qual presumo que se libertou, pese o ruído e a vulgaridade de alguns dos seus mais activos arautos.
sábado, 30 de junho de 2012
Parabéns, Sporting!!!
Estás velho. Cento e seis anos de vida é muito para um leão. Eu, que tenho mais ou menos metade da tua idade, já ando em briga com dores tresmalhadas que ora nascem nos joelhos ou nos ombros ou nas costas, sem origem séria nem diagnóstico certo, bem me espanto com a tua longevidade. Tens sido companhia da minha vida. Celebrei a minha idade e o meu tempo, celebrando-te. Posso até dizer que nasci das fintas do Albano e o meu primeiro choro está ligado ao estrondo dos pontapés do Peyroteo e do Travassos fazendo golos que impressionavam o mundo. E lá estavam o Vasques e o Jesus Correia nos dribles e passes de morte. Poderia dizer de outra maneira e proclamar, narcísico, que nasci ao som destes Cinco Violinos. Mas não chego a tanto. Falo de memórias, dessas memórias que palpitam no peito e nascem vitórias e alegrias e comunhões. E por vezes, derrotas. Assim como é a vida. Feita de sonhos, pesadelos, cansaços e canseiras. Cresci, amadureci e comecei a envelhecer assim como tu, meu leão de estimação. Que também te chamaste Seminário e Hilário, ou Carvalho e Damas ou Yazalde e Manuel Fernandes. Ou mesmo Figo. Ou Futre. Ou Cristiano Ronaldo. E que foste olímpico como Carlos Lopes ou recordista mundial como Fernando Mamede ou um galgo de montanhas como Joaquim Agostinho. E tantos outros, e tantos outros, que a minha vida, feita metade da tua, está cheia destes heróis e muitos mais, que construiram irmandades de vencedores, de conquistadores, embora, por vezes, também vencidos. É esse o cerne da alma sportinguista - a dimensão humana. Capaz do melhor. E do pior. Capaz de golear o Manchester e ser sovado pelo mais obscuro clube. De se alcandorar aos píncaros do Olimpo com o seu panteão de deuses, por nós venerados, e depois de soçobrar em qualquer praia quando já a terra está bem á vista.
Mudei de opinião muitas vezes. Descobri formas de pensar que me levaram a pensar de outra forma. Olhei o mundo e a minha rua com olhos diferentes, conforme a idade escorria célere e invisivel entre os dedos. Mas nunca deixei de te ter sempre, em todos os lugares do meu caminho como o entusiasmo que se renova na esperança de mais vitórias e com tolerância (cada vez maior) para os dias de pouca alegria. Estás velho mas és um Leão. Há sempre mais uma alma a despertar em cada rugido e em cada passo da nossa vida comum. Obrigado, fiel companheiro, por tantos anos de viagem. A imortalidade está á tua espera. Quanto a mim, por aqui vou, contigo na lapela e no cachecol, na voz e no coração até que a minha hora chegue e já não haja mais cânticos dentro de mim para te celebrar. Lado a lado, companheiro. Até que a morte nos separe. Viva o Sporting!
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Justiça Cega : passou para as quartas na RTPi
Quase um ano volvido desde o seu começo, o programa Justiça Cega da RTPi conquistou o seu espaço e passa agora a estar em antena, ás 4ªs feiras pelas 22 horas. Vai de férias em finais de Julho e regressa em Setembro. Tornou-se num dos programas de maior sucesso da RTPi, multiplicou as audiências, ganhou vida própria e uma referência de debate. Estou satisfeito por contribuir para este êxito mas sobretudo deixo um abraço de apreço e parabéns á RTP pela forma como promoveu a um programa de culto e de larga divulgação um conteúdo que visava apenas um nicho do mercado audiovisual.
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