segunda-feira, 11 de junho de 2012

Convento de S.Francisco - Uma paixão


Este é o mistério da fé.E dos sonhos. Há três anos era um moribundo. Um saco de entulho. Uma estrumeira. E um indiferença. Quem te memória recorda-se que o Convento de S. Francisco era uma ruína enxovalhada. Tão maltratada que do interior retirámos mais de 10 toneladas de lixo.Era o lugar da visita oficial que terminava invariávelmente no desabafo: isto não pode continuar assim!, e acabava por continuar e sempre pior.Da disputa dos grupos de defesa do património. Havia sempre um projecto que saía do discurso e da bravata. Adjectivado com uma indignação. Muito intelectual a debitar ideias. E pior: muito pretenso intelectual a debitar pesporrência. E no final sempre o mesmo resultado: a impotência, o suspiro dos vencidos.E depois a revolta. Não havia nada a fazer.
Em 2009 enfrentámos o problema.Não queríamos continuar a velar um moribundo á espera do golpe de misericórdia dado pelas intempéries ou pelo espinha dobrada dos vencidos, embora campeões do blábláblá. As élites culturais produzem estes subprodutos que são apenas o blábláblá. Pequeninos, mixordeiros, inutilmente opinativos mas blábláblá. Nem  uma acção. Apenas um blábláblá.
Foram três anos de trabalho intenso, de negociações complicadas - até com gritaria histérica e indignada pelo meio - pois ainda há quem se lembre da medalha de Sócrates e dos insultos e beatérios de galinhas cacarejantes a gritar sem perceber aquilo que estava por detrás desse episódio. Os reis do blábláblá quiseram trucidar o presidente da cãmara. Incapazes de perceber a cidade, ridiculos na forma como a pensa á dimensão do seu umbigo calculista, profundamente insensíveis face á memória da cidade e á sua monumentalidade, embora muitos dos bláblás batam penitencias no peito e amor ao património. Mas a caravana avançou! a requalificação realizou e S.Francisco é hoje uma jóia do país. Faltava tapar aquele buraco secular. Um buraco que era a degola do convento e um rasgão na beleza da cidade. E porquê esta teimosia com a rosácea? Sobretudo para dar unidade estética ao espaço público da cidade. Fui eleito para servir Santarém.Não foi para ficar de joelhos, inerte,amesquinhado perante o blábláblá. E lá foi colocada ontem á noite e agora, para quem tiver olhos para ler a cidade compreenderá essa coesão que começa naquela obra bela, grandiosa, renascida e se prolonga com coerencia e uniformemente pelos espaços públicos revitalizados. Não há contabilista de ocasião que não perceba que a cidade é maior que discursos obsessivos, não há noticiário mesquinho, daquele que procura apenas enxovalhar, enlamear e extorquir prebendas, que resista a este testemunho diário, vivido, visitado por milhares. Nunca a pequenez do bláblá submergiu uma cidade. Nem o tacticismo de grupinhos, facções e compadres.E de negociantes de ambições. A cidade agiganta-se desprezando o ruído e ergue-se formosa e bela. Agora ainda mais bela depois deste encontro com a história. E eu tenho o grande orgulho de lhe ter pertencido durante sete anos de paixão sem fim. Porque Santarém permitiu que eu lhe partilhasse a sua gloriosa imortalidade. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Um abraço á Selecção!

Não há grande euforia em torno da selecção. O resultado contra a Turquia mirrou entusiasmos. Os nossos heróis, de há umas semanas atrás, partiram para a Polónia sob o olhar desconfiado dos adeptos que não queriam assobiar nem refilar contra os mestres da bola. Contra o governo, contra a troyca, contra qualquer coisa, a malta está disposta a alinhar em protestos, indignações e inquisições várias. O futebol, e em particular a selecção, foi sempre o sonho de glória. Nunca percebi onde se sedimentava este sonho que alimenta o imaginário colectivo já que nunca ganhámos nenhum campeonato senior. Nem   Mundial, nem Europeu. Aliás, o único campeonato Europeu que tivémos mais á mão, aqui, no estádio da Luz, deixámo-lo fugir, vejam bem!, para os...gregos.
Enfim, sem grandes paixões nem grandes expectativas, desejo boa sorte á nossa selecção. Que pelo menos, marquem uns golinhos. Sei de abundantes arcas frigoríficas prenhas de cerveja á espera da celebração de um golito. Ao menos que a malta refresque a alma já que os sonhos da selecção ou acabaram em inesperados despertares ou em pesadelos. E, além disso, quer ganhe ou perca, a nossa esperança maior é que a troyca aprove o próximo empréstimo. Não traz grande alegria, é certo, mas sempre vai dando para a bucha.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dia Internacional da Criança: Crianças Soldados

Esta imagem vem do Congo. Já não é recente. Não tenho a certeza se estas crianças ainda estão vivas ou se já morreram em combate. Também não sei em qual dos combates poderão ter morrido. Nem as causas por que lutam. Se é que sabem. Não sei. Elas também não devem saber. Só sei que esta fotografia não devia existir. Nem estas armas. Apenas os sete putos. E já agora com um sorriso. Um simples sorriso. Quem lhes ensinou as armas, não teve tempo para lhes ensinar um sorriso. É por isso que eu não sei em qual combate terão morrido. Pelo menos os sorrisos já morreram. Bom, mas hoje é o Dia Internacional da Criança. Devemos eleger a felicidade como desejo, a esperança de um bom caminho até à idade adulta como voto. faça-se de conta que esta fotografia não existe. É melhor, não é? Pois, é bem melhor. Ficamos mais sossegados. E em paz. Em paz????

segunda-feira, 28 de maio de 2012

ESTOU REFORMADO! Obrigado, Estado bondoso e lindo!


Esta manhã o correio chegou ao som de trompas, clarins, tambores e foguetório e tocou com alegria estridente à campainha da minha porta. Surpreendido com tão estridente cortejo.Não jogara no euromilhões, o dia de aniversário já passou, enfim, fui abrir, curioso e expectante. Não era o carteiro. Era o Estado. O próprio Estado em pessoa! Com a sua corte de funcionários, de corredores penumbrosos, de secretarias atulhadas em papéis, atapetado com soalhos que rangem e máquinas com números para senhas que ordenam os nossos lugares nas filas, das muitas filas, do nosso bem amado Estado. Era alvo o sorriso. Sempre o imaginei branco, com olheiras, com falta de sol na pele. O Estado nunca deixou de ser tuberculoso, mal encarado, com forças distorcidas, sem vigor, tipo fungo, mais capaz de se alimentar do húmus do que a criar vida, e foi desconfiado que recebi o seu sorriso esquálido, diria mesmo cadavérico com livores acentuados. Perguntei: Bom dia? e semicerrei  a porta quando respondeu forçando um riso desdentado: Bom dia. Sou o Estado!.
O meu patrão visitava-me. Meu patrão há mais de quarenta anos e eu nunca lhe vira o rosto. Era sempre uma omnipresença por detrás de milhões de rostos que ao longo desta imensa vida a dois me pôs na condição de servo e, Ele, na condição de Senhor.
- Venho trazer-lhe o papel. Está reformado. Voltou-se para a multidão que se acotovelava, músicos, burocratas, muitos servos e um exército de assessores, agitou o braço descarnado e gritou:
-   O fotógrafo! O fotógrafo! - e, de repente, no meio da assuada, disparou uma flash: Eu, o papel e o Estado, todos sorrindo para a fotografia. Apertou-me a mão com a sua mão cadavérica, entregou o papel e o flash repetiu-se para fixar aquele momento solene. Aplausos. A música regressou, a algazarra empolou e o Estado perguntou:
- Não nos convida para entrar?
E tomei a minha primeira decisão de reformado:
- Não. Na minha casa só entra gente que considero de boa fé. Vamo-nos vendo pelas repartições.
Espantosamente não amuou. Percebi, depois, que era a resposta vulgar que recebia em cada casa onde levava o tão desejado papel e retirou-se sem cumprimentar ao som de cornetas, trompas e gritos anémicos.  Fechei a porta e olhei com tempo o papel que o Estado me dera. A reforma! Exactamente 41 anos e 9 dias depois, recebi a minha carta de alforria. Livre! Um escravo liberto com direito a pensão que o meu Senhor me paga até que a morte me venha buscar. Também a pensão de sobrevivência que os meus descendentes vão receber quando eu fechar os olhos. O meu doce e terno Estado cuida de mim e de mim, depois da morte, se os meus descendentes sobreviverem ao meu decesso. Mais do que a reforma estou encantado com a pensão de sobrevivência. 600 euros para assegurar a minha imortalidade.  Agora sou um escravo liberto. Há mais ou menos uma hora. Ainda nem sei o que vou fazer com este sol de Liberdade. Acho que hoje vou comer um bife. Sim, a reforma não dá para muito mas dá para um bife. Com ovo e tudo. Quero celebrar a minha entrada na 3ª idade. Vou ler a Bola, palitar os dentes, e ficar o resto do dia no jardim. Enquanto houver sol.
Mas só hoje que eu percebi a ironia desta reforma acompanhada da pensão de sobrevivência. Desta festa surpresa feita de fantasmas e cadáveres adiados, liderada por este Estado moribundo e vampiresco.
- Agora já podes não fazer nada e descansar á sombra do teu carvalho de estimação!, era o convite insinuado na oferta do papel sagrado. - Desiste, a tua vida chegou ao fim, desiste! sussurrava o coro desafinado dos assessores. - Até já tens garantida a pensão de sobrevivência para os teus e o funeral.
Vai enganar-se, vou enganá-lo. Hoje como o bife com ovo a cavalo para celebrar o tempo vivido em que tantas vezes comi o pão que o Diabo amassou ao serviço do meu Senhor.
Amanhã levanto-me cedo e vou começar a Vida. A verdadeira Vida. A Morte e a sobrevivência não estão na minha agenda de Reformado e mal pago. Ah, e vou comprar uma moldura para colocar o papel. Não sei por quanto tempo posso comemorar. Não sei se a Troyka, a minha querida, adorada e santa Troyka me vai ajudar e vou ter Estado amanhã. Basta o velho descarnado entrar em bancarrota e lá se vai reforma e muito mais depressa a sobrevivência. Mas para já, vou comemorar e arranjar a moldura. Acendo duas velinhas e coloco a oração de Santa Bárbara para afastar trovoadas. Ai, o bife. Este bife vai saber-me a mel.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Benfica e Porto: a arruaça sem sentido



A arruaça que brindou a vitória do Benfica no campeonato de basquetebol, no estádio do Dragão, contra o Porto, foi tão digna quanto o apagão e respectivo banho com que o Benfica brindou, no domínio do futebol, a equipa portista aquando da vitória desta no estádio da Luz. O discurso da 'fruta,corrupção e compadrio' é no mesmo tom dos outros que, por vezes, escutamos a Pinto da Costa.
Confesso que não entendo isto. Não entendo como homens com responsabilidades que vão muito para além da mera gestão caseira de clubes, pois a dimensão nacional e internacional outorga-lhes um papel fundamental na formação de opiniões e de públicos, podem usar o capital de prestígio que lhes está confiado para proteger, confiar e até aplaudir estas manifestações colectivas de barbárie. Ambos os clubes ganharam lugares de referência no panorama desportivo mundial. Por direito próprio. Ambos os clubes são referencia afectiva e competitiva para milhões de crianças e jovens que procuram mimetizar os papéis dos seus ídolos.
Ambos os clubes guardam um património de alegrias e de festa por vitórias alcançadas que é a memória de outros milhões de pessoas.
Não percebo como se pode transformar tudo isto em zaragata, ódio e insultos. Não há explicação sociológica, nem psicológica, nem de nenhuma natureza, para explicar como se transforma uma memória grandiosa num míserável espectáculo de murros e insultos.
Embora seja sportinguista, tenho apreço pelo Benfica e pelo Porto. Respeito pelas suas vitórias e reconhecimento pelo que nos deram, a todos, enquanto portugueses. Ver aquilo que vimos, ouvir o que temos ouvido deixa-me com uma estranha sensação de amargura. E de pena. E lembro-me de Hemingway, e já nem pergunto por quem os sinos dobram, pois bem desconfio que dobram por todos nós. Que sómente assistimos e já não resistimos. Vencidos sem forças para reconquistar mais um título. Será que isto, terá de ser sempre assim?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O preço de um combate: 33 anos por traição

Este senhor chama-se Shakeel Afridi e é médico. Graças ao seu trabalho, e de muitos outros, foi possível capturar essa figura sinistra que foi Bin Laden. Shakeel foi agora condenado a 33 de anos de prisão pelo crime de traição em virtude do seu envolvimento nas operações de captura do mais tenebroso terrorista de que há memória.No Paquistão, claro está. É assim a justiça dos nossos 'aliados' na luta contra o terrorismo.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Bee Gees: Morreu Robin Gibb

Morreu o líder dos Bee Gees, o cantor Robin Gidd, que marcou gerações de de jovens. Entre elas a minha.