segunda-feira, 28 de maio de 2012

ESTOU REFORMADO! Obrigado, Estado bondoso e lindo!


Esta manhã o correio chegou ao som de trompas, clarins, tambores e foguetório e tocou com alegria estridente à campainha da minha porta. Surpreendido com tão estridente cortejo.Não jogara no euromilhões, o dia de aniversário já passou, enfim, fui abrir, curioso e expectante. Não era o carteiro. Era o Estado. O próprio Estado em pessoa! Com a sua corte de funcionários, de corredores penumbrosos, de secretarias atulhadas em papéis, atapetado com soalhos que rangem e máquinas com números para senhas que ordenam os nossos lugares nas filas, das muitas filas, do nosso bem amado Estado. Era alvo o sorriso. Sempre o imaginei branco, com olheiras, com falta de sol na pele. O Estado nunca deixou de ser tuberculoso, mal encarado, com forças distorcidas, sem vigor, tipo fungo, mais capaz de se alimentar do húmus do que a criar vida, e foi desconfiado que recebi o seu sorriso esquálido, diria mesmo cadavérico com livores acentuados. Perguntei: Bom dia? e semicerrei  a porta quando respondeu forçando um riso desdentado: Bom dia. Sou o Estado!.
O meu patrão visitava-me. Meu patrão há mais de quarenta anos e eu nunca lhe vira o rosto. Era sempre uma omnipresença por detrás de milhões de rostos que ao longo desta imensa vida a dois me pôs na condição de servo e, Ele, na condição de Senhor.
- Venho trazer-lhe o papel. Está reformado. Voltou-se para a multidão que se acotovelava, músicos, burocratas, muitos servos e um exército de assessores, agitou o braço descarnado e gritou:
-   O fotógrafo! O fotógrafo! - e, de repente, no meio da assuada, disparou uma flash: Eu, o papel e o Estado, todos sorrindo para a fotografia. Apertou-me a mão com a sua mão cadavérica, entregou o papel e o flash repetiu-se para fixar aquele momento solene. Aplausos. A música regressou, a algazarra empolou e o Estado perguntou:
- Não nos convida para entrar?
E tomei a minha primeira decisão de reformado:
- Não. Na minha casa só entra gente que considero de boa fé. Vamo-nos vendo pelas repartições.
Espantosamente não amuou. Percebi, depois, que era a resposta vulgar que recebia em cada casa onde levava o tão desejado papel e retirou-se sem cumprimentar ao som de cornetas, trompas e gritos anémicos.  Fechei a porta e olhei com tempo o papel que o Estado me dera. A reforma! Exactamente 41 anos e 9 dias depois, recebi a minha carta de alforria. Livre! Um escravo liberto com direito a pensão que o meu Senhor me paga até que a morte me venha buscar. Também a pensão de sobrevivência que os meus descendentes vão receber quando eu fechar os olhos. O meu doce e terno Estado cuida de mim e de mim, depois da morte, se os meus descendentes sobreviverem ao meu decesso. Mais do que a reforma estou encantado com a pensão de sobrevivência. 600 euros para assegurar a minha imortalidade.  Agora sou um escravo liberto. Há mais ou menos uma hora. Ainda nem sei o que vou fazer com este sol de Liberdade. Acho que hoje vou comer um bife. Sim, a reforma não dá para muito mas dá para um bife. Com ovo e tudo. Quero celebrar a minha entrada na 3ª idade. Vou ler a Bola, palitar os dentes, e ficar o resto do dia no jardim. Enquanto houver sol.
Mas só hoje que eu percebi a ironia desta reforma acompanhada da pensão de sobrevivência. Desta festa surpresa feita de fantasmas e cadáveres adiados, liderada por este Estado moribundo e vampiresco.
- Agora já podes não fazer nada e descansar á sombra do teu carvalho de estimação!, era o convite insinuado na oferta do papel sagrado. - Desiste, a tua vida chegou ao fim, desiste! sussurrava o coro desafinado dos assessores. - Até já tens garantida a pensão de sobrevivência para os teus e o funeral.
Vai enganar-se, vou enganá-lo. Hoje como o bife com ovo a cavalo para celebrar o tempo vivido em que tantas vezes comi o pão que o Diabo amassou ao serviço do meu Senhor.
Amanhã levanto-me cedo e vou começar a Vida. A verdadeira Vida. A Morte e a sobrevivência não estão na minha agenda de Reformado e mal pago. Ah, e vou comprar uma moldura para colocar o papel. Não sei por quanto tempo posso comemorar. Não sei se a Troyka, a minha querida, adorada e santa Troyka me vai ajudar e vou ter Estado amanhã. Basta o velho descarnado entrar em bancarrota e lá se vai reforma e muito mais depressa a sobrevivência. Mas para já, vou comemorar e arranjar a moldura. Acendo duas velinhas e coloco a oração de Santa Bárbara para afastar trovoadas. Ai, o bife. Este bife vai saber-me a mel.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Benfica e Porto: a arruaça sem sentido



A arruaça que brindou a vitória do Benfica no campeonato de basquetebol, no estádio do Dragão, contra o Porto, foi tão digna quanto o apagão e respectivo banho com que o Benfica brindou, no domínio do futebol, a equipa portista aquando da vitória desta no estádio da Luz. O discurso da 'fruta,corrupção e compadrio' é no mesmo tom dos outros que, por vezes, escutamos a Pinto da Costa.
Confesso que não entendo isto. Não entendo como homens com responsabilidades que vão muito para além da mera gestão caseira de clubes, pois a dimensão nacional e internacional outorga-lhes um papel fundamental na formação de opiniões e de públicos, podem usar o capital de prestígio que lhes está confiado para proteger, confiar e até aplaudir estas manifestações colectivas de barbárie. Ambos os clubes ganharam lugares de referência no panorama desportivo mundial. Por direito próprio. Ambos os clubes são referencia afectiva e competitiva para milhões de crianças e jovens que procuram mimetizar os papéis dos seus ídolos.
Ambos os clubes guardam um património de alegrias e de festa por vitórias alcançadas que é a memória de outros milhões de pessoas.
Não percebo como se pode transformar tudo isto em zaragata, ódio e insultos. Não há explicação sociológica, nem psicológica, nem de nenhuma natureza, para explicar como se transforma uma memória grandiosa num míserável espectáculo de murros e insultos.
Embora seja sportinguista, tenho apreço pelo Benfica e pelo Porto. Respeito pelas suas vitórias e reconhecimento pelo que nos deram, a todos, enquanto portugueses. Ver aquilo que vimos, ouvir o que temos ouvido deixa-me com uma estranha sensação de amargura. E de pena. E lembro-me de Hemingway, e já nem pergunto por quem os sinos dobram, pois bem desconfio que dobram por todos nós. Que sómente assistimos e já não resistimos. Vencidos sem forças para reconquistar mais um título. Será que isto, terá de ser sempre assim?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O preço de um combate: 33 anos por traição

Este senhor chama-se Shakeel Afridi e é médico. Graças ao seu trabalho, e de muitos outros, foi possível capturar essa figura sinistra que foi Bin Laden. Shakeel foi agora condenado a 33 de anos de prisão pelo crime de traição em virtude do seu envolvimento nas operações de captura do mais tenebroso terrorista de que há memória.No Paquistão, claro está. É assim a justiça dos nossos 'aliados' na luta contra o terrorismo.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Bee Gees: Morreu Robin Gibb

Morreu o líder dos Bee Gees, o cantor Robin Gidd, que marcou gerações de de jovens. Entre elas a minha.

domingo, 20 de maio de 2012

Tempestade no copo de licor

Conheço de experiência vivida o que são fabricação de histórias jornalísticas nas quais somos protagonistas à força. Prepara-se o guião, demonstra-se a verdade que se quer publicar, (o que não quer dizer que seja verdade, nem muito menos a Verdade) e ao fim do segundo período de escrita lá está metido o nome do protagonista. Ás vezes quase a camartelo, mas fica. E quando nos perguntamos a razão de ali aparecermos, fora daqueles factos e muito longe daquelas intenções, percebemos que as motivações subjectivas de quem escreveu nada têm a ver com o texto. O texto é um mero pretexto para agredir, para insultar, para estigmatizar ou pura e simplesmente para chantagear. É o verbo exacto. Chantagear! Outras vezes, não chega a tanto. É embirrar apenas porque não se gosta, porque se odeia, porque se embirra. 
Vem isto a propósito dos desesperados pedidos de demissão do ministro Miguel Relvas que, segundo se sabe, decidiu telefonar para a direcção de um jornal aborrecido com a pressão com que lhe era imposta uma resposta a determinadas perguntas (segundo percebi, teria de responder em 32 minutos) sobre a triste história dos Serviços Secretos. Que isto é censura, que assim o ministro mete o nariz onde não é chamado, que a liberdade de imprensa está em causa e mais isto e mais aquilo. Tudo sempre em volta da liberdade de imprensa, coisa que não implica responsabilidade, tão só a absolutização da ideia de liberdade. A coisa torna-se mais complicada se pedimos desculpa por termos telefonado. É, de imediato, o reconhecimento de uma culpa, quando deveria ser o reconhecimento de consideração. Percebe-se que Relvas, ou por arcaboiço político ou por razões de delicadeza, ainda não chegou ao fim da linha, ao limite em que já nem se pensa no telefone. Apenas se ignora. Não me espanta a solidariedade corporativa que brota das muitas opiniões publicadas este fim de semana. Espanta-me que homens que têm ou tiveram responsabilidades públicas (não necessáriamente políticas) que foram submetidos aos mesmos escrutínios das narrativas pré-formatadas e nelas encarcerados à força, venham pedir a demissão do ministro. Porquê? Porque os jornais dizem a verdade e os políticos mentem. É este a conclusão de senso comum, tão simplista quanto grosseira. Que ajuda ao culto da vulgaridade mas não abona ao fortalecimento de uma cultura cívica. Se é verdade que para alguns jornais, embora cada vez menos, o princípio do contraditório continua a ser uma fonte sagrada e inspiradora de um espaço de liberdade, a verdade é que, por vezes, trinta e dois minutos não é tempo suficiente para exercer um direito que a outra parte prepara há vários dias. Sejamos, ao menos, sensatos. Coisa que cada vez é um bem mais escasso para resolver conflitos que resultam da própria intensidade da vida e que bem precisamos para resolver problemas bem mais preocupantes para o futuro da democracia e do país.

sábado, 19 de maio de 2012

Muitas Felicidades, Presidente!

Taur Matan Ruak tomou posse como 3º Presidente eleito da República de Timor Leste. Muitas felicidades, Presidente!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O que vamos sofrer por causa da Grécia?

Com as últimas eleições gregas, ao caos financeiro, económico e social somou-se o caos político. De tal forma que as eleições não valeram e vai repetir-se o acto eleitoral. As autoridades europeias e mundiais discutem abertamente a saída da Grécia da Zona Euro e todos são unânimes que esta solução vai ter impactos negativos em Portugal, em Espanha, na Itália e nos restantes países europeus. Lá, já começou a corrida aos levantamentos bancários, alguns bancos deixaram de ser financiados e está iminente a possibilidade de não pagarem salários e serviços da administração pública. É o inferno grego e as notícias, associando previsões ameaçadoras para Portugal, provocam ainda mais amargura e ansiedade em todos os sectores sociais já esmagados pelo peso da crise que nos afecta.
Dito isto, não seria inteligente e sensato começar a explicar o que vai acontecer a Portugal, caso a Grécia saia do euro? Com que linhas nos vamos coser? Onde vamos ser mais apertados? Como responder a este sobressalto e reforço da crise? É fundamental esta preparação para os piores cenários. Vamos também para a bancarrota? A DECO sugeria ontem que se fizessem poupanças e investimentos noutras moedas mais estáveis como a libra e a coroa sueca. É este o caminho? Duvido. Mas se calhar é. Não sei. A verdade é que o manancial de notícias sobre a Grécia que nos últimos dias coloca a Europa à beira de um ataque de nervos obriga a respostas e esclarecimentos. É que, de factos, os portugueses conseguem suportar as piores agruras. Mas isso não os coloca na posição de rebanho, servo e ignorante, à mercê dos ditames e decisões mais ou menos ditatoriais de uma troika qualquer. É urgente saber o que nos espera. A arte da política implica a previsão e nas sociedades democráticas á apresentação de explicações antes dos factos consumados. Acho eu.